O Desterrado


“Sou cristão, porém nestas condições a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal”
Soares dos Reis
(escrito de Soares dos Reis numa parede do seu atelier antes de se suicidar - via Ultraperiférico)

Publicado por contra-baixo 21:37:00 6 comentários  



um tiro em cheio

DEVE HAVER CONFUSÃO COM A RESOLUÇÃO 1701... Fico a saber que a força que vai para o Líbano é uma companhia de engenharia, e segundo o ministro foi enviada "num contexto humanitário". Sempre apoiei o envio de tropas da UE, a começar pelas portuguesas, para implementar a Resolução 1701 das Nações Unidas... mas tanto quanto eu sei a missão da UNIFIL não é propriamente humanitária, nem tem como objectivo "reconstruir" o Sul do Líbano. O seu objectivo não é construção civil, mas garantir que o Governo do Líbano “exerça a soberania plena de modo a que não haja aí armas sem consentimento do Governo do Líbano”, e o “desarmamento de todos os grupos armados no Líbano (…) de modo a que não haja armas ou autoridade no Líbano que não sejam as do Estado Líbanês.

Pacheco Pereira (\.!./)

P.S. isto sim é spin...

Publicado por Manuel 20:33:00 5 comentários  



A geração das pedras rolantes

Logo à noite, na RTP2, passa a primeira parte do documentário de Martin Scorsese, intitulado No Direction Home, uma referência extraída da canção Like a rolling stone, do LP Highway 61 Revisited, de 1965, de Bob Dylan.

É um documentário que deve ser visto. Saiu já há tempos em DVD e foi aqui, nesta Loja, cronicado ( em 11.12.2005), a propósito da "geração perdida", ou seja, os chamados "baby boomers", numa designação americanizada apropriada para o documentário e completamente perdida para designar os nascidos nos anos quarenta no nosso país que nos prepararam o país que temos.

Martin Scorsese tem dedicado a sua atenção profissional ao fenómeno da música popular de expressão anglo-saxónica e por isso, em 1978 filmou o último concerto dos The Band, também disponível em dvd. Mais recentemente, compõs um fresco de imagens sobre a história dos blues.

Este documentário, centrado na figura musical de Bob Dylan, não se resume ao figurado, mas apresenta imagens reais do início do rock n´roll, passando antes em revista as suas raízes no country de Hank Williams e os blues de Muddy Waters, com imagens destes últimos, assimiladas depois a Gene Vincent e a Elvis Presley.

O documentário começa em discurso directo e grande plano de um Bob Dylan sexagenário, tendo logo como contraponto a imagem de um Dylan de 1966 a cantar em Londres, Like a Rolling Stone, a sua canção panfletariamente libertária.

Se começarem a ver passada meia hora, ainda vão a tempo de ouvirem Bob Dylan cantar Man of Constant Sorrow...I´m a man of constant sorrow...i´ve seen trouble all my days". TInha 20 anos quando a cantou.

Bob Dylan, em poucos anos e à medida que eles passam, tem republicado os seus trabalhos antigos; as suas memórias, num excelente Chronicles, vol.I e tem continuado a compor, sendo já um dos autores mais prolíficos da música popular.

Prolíficos, prolixos e míticos. Seja.

Assim, aqui fica o trailer.

Publicado por josé 16:49:00 5 comentários  



filhos da mãe

Nos nossos momentos aúreos uma série de luminárias, jornalistas mas não só, indignam-se, recorrentemente, e voltam-se a indignar, com o alegado anonimato de alguns do que aqui escrevem, sobre o que calha, quando calha. Foi, sempre uma falsa, e impía, questão, mas que hoje é mais que pertinente relembrar. E é-o por causa do ataque vil, soez (e curiosamente também anónimo) de que Eduardo Cintra Torres foi vítima no site do ... isso mesmo, do 'Clube de Jornalistas'. Aquela rapaziada ontem como hoje não olha a meios quando o que interessa é defender a pele da 'classe', dos da classe 'deles'. Foi assim no passado, foi assim ainda na semana passada onde no 24, do glorificado Tadeu, ECT e o 'ainda' provedor do Público , Rui Araújo, foram 'anonimamente' assados... Para aquela rapaziada, ontem como hoje, há princípios que só se aplicam aos 'outros', porque eles, eles estão acima do bem e do mal. São eles os guardiães da moral, e até tem soluções para tudo...

P.S. Um tal de Luis Marinho continua Director de Informação da RTP.

Adenda (31/08 - 10.30) - Alguém que se identifica como João Alferes Gonçalves, coordenador do site do CJ, assume a autoria do texto acima referenciado, e comenta aqui este post do ContraFactos. Simplesmente prodigioso mesmo.
Adenda (31/08 - 20.20) Os Boys protegem-se uns aos outros...

Publicado por Manuel 23:02:00 3 comentários  



O Tamborileiro

Francisco Louçã, em nome do Bloco de Esquerda, hoje no Público:

No fosso em que está metida a PGR, após um consulado de desgraça de Souto Moura, temos de saber como podemos salvar o MP depois das escandaleiras dos últimos anos, com casos como o processo Casa Pia e o Envelope 9.”

Continua a ladainha do BE…mas talvez seja bom lembrar duas ou três coisas que mostram o que é e o que pretende o BE.
Por altura da demissão de Durão Barroso, em meados de 2004, as alternativas que se colocavam ao presidente da República de então, eram difíceis. Escolhia a dupla Santana/Portas, em continuidade e sem eleições e a esquerda toda unida, caía-lhe em cima com todo o fragor do despeito e rancor.
Escolhia eleições e aparecia a dupla Ferro/Louçã, mais o PCP a reboque da unidade de esquerda e era o caos anunciado pela direita.
Sampaio, numa das suas mais difíceis decisões, escolheu o mal menor e tivemos uma dose dupla de Santana/Portas. O BE rasgou as vestes, atirou-se ao chão e espojou-se de raiva incontida pela “traição” de um antigo MES ao ideário de esquerda, ali tão perto de repetir proezas tipo PREC, agora reciclado.
E tudo isso porquê?
Porque o processo Casa Pia queimou politicamente o dito Ferro e embraseirou o PS. Só por isso e nada mais, Ferro saiu e o BE viu afastadas, para todo o sempre de um futuro com muitos anos pela frente, as hipóteses de um dia poder governar "contra a Direita".
Quem é que permitiu o avanço do processo Casa Pia, quando poderia muito bem sapar-lhe as bases à nascença? Souto Moura? Talvez, segundo alguns, e sem dúvida segundo os que o querem ver agora pelas costas.
Para estes, estivesse lá outro mais "competente" e que não permitisse o "caos" e não metesse o MP no "fosso", e outro galo cantaria.
O BE está na linha da frente destes descamisados.
Percebe-se muito bem. Muito bem mesmo.

Publicado por josé 15:01:00 9 comentários  



O segredo de justiça todo borrado

Em 17 de Agosto ocorreu um naufrágio de um trimarã, ao largo do cabo de S. Vicente, Sagres. Duas pessoas foram resgatadas e uma outra foi encontrada morta, em circunstâncias que presumem a ocorrência de um homicídio, pelo que foi instaurado um Inquérito criminal.

Este tipo de processo, tal como acontece com o que se passou nos processos Casa Pia, Sobreiros, Moderna, Freeport, etc. etc. (e só refiro estes para que se faça o respectivo termo de comparação), está desde logo abrangido por um rigorosíssimo segredo de justiça.

Porém, desde esse dia, a imprensa tem relatado com todos os pormenores, a evolução das investigações, em relatos que apontam inequivocamente para a violação desse segredo de justiça por banda das autoridades, sejam elas policiais ou mesmo judiciárias.

Em poucas palavras: é uma vergonha.Continuada.

O Público de hoje, chega ao ponto de escrever que " A PJ já agendou os interrogatórios, através do armador da embarcação registada em La Valetta ( Malta)".

Este tipo de infomaçáo vem necessariamente de alguém que tem o domínio do processo.

É por isso uma vergonha continuada o que está a acontecer. Com uma agravante: desta vez, ninguém se preocupa com a violação ampla e continuada do segredo de justiça.

Parafraseando um ausente, parece que toda a gente se está a c****para o dito segredo.

Então, para acabar este mau cheiro, mude-se a lei! Rápido.

Publicado por josé 18:25:00 22 comentários  



Os benevolentes

Um dos ícones de uma certa esquerda, Günther Grass de sua graça, anda em bolandas de parangonas da imprensa, por causa de um pormenor biográfio que empalideceu de repente a sua apregoada superioridade moral: confessou que foi soldado das SS, de uma das suas divisões blindadas. Às Waffen SS tinha também pertencido Josef Mengele, para mencionar apenas um dos monstros mais notáveis do nazismo.

Como Grass foi galardoado com o Nobel da Literatura e escreveu O Tambor, um livro passado a filme anos oitenta, por Volker Schlondorf, o seu nome tornou-se mundialmente conhecido e na qualidade de intelectual, o interesse da revelação assumiu importância mundial e ultrapassou a sua relevância enquanto escritor.

Discute-se agora a coragem e a cobardia e ainda a hipocrisia de tal atitude omissiva que se manteve durante anos a fio, precisamente aqueles que lhe contaram para a fama e o proveito.

Grass já deu entrevistas, uma delas publicada na Der Spiegel, na qual confessa objectivamente a... cobardia.

O Nobel português Saramago já o desculpou. Eduardo Prado Coelho, não. Escreveu hoje no Público que nunca leu um livro de Grass ( irrita-o) e afirma por escrito que “Não se deve recalcar, deve assumir-se um passado vergonhoso”…
Apetece perguntar se valerá a pena repescar algumas entrevistas e artigos dos anos setenta, para lembrar um certo passado esquecido, e se o cronista do Público atentou bem no que escreveu, ou se a confissão fica para mais tarde. Mas não. Não é disso que se trata, neste escrito.

A par deste assunto candente, em França celebra-se a, propriamente dita, “rentrée”.
No campo das letras, há um primeiro romance de um autor a quem os críticos não poupam elogios: Jonathan Littell, nascido em 1967, em Nova Iorque, formado em Yale e activista de programas internacionais contra a fome no mundo, actualmente a viver em Barcelona.

O romance, intitula-se Les Bienveillantes, (As Benevolentes), no qual tenta a narrativa da vida de um ofical das SS ( exactamente), culto, bem formado embora com particularidades de personalidade ( homosexualidade latente), com a humanidade de um vulgar cidadão e que ao longo da campanha guerreira participa activamente na organização do extermínio de raças, pelo regime nazi.

Segundo a crítica entusiasmada ( Dominique Fernandez do Nouvel Obs e Pierre Assouline no seu blog, La république des livres), Jonathan Littell coloca a narrativa na primeira pessoa, para tentar representar por dentro o que poderia ter acontecido na mente de um indivíduo que à partida não era um qualquer troglodita ultramontano, antes de se tornar agente activo do Holocausto.
O livro, segundo a crítica, não tem uma palavra a mais, apesar das 900 páginas, e já caiu no goto daqueles que pensam que pode fazer-se um paralelo entre o nazismo e o sovietismo, pois é isso mesmo que o autor também aborda como sujeito de controvérsia.
A rentrée em França, é assim. Por cá, parece ser (p)assado.


Publicado por josé 17:34:00 23 comentários  



Cúpulas da Justiça- Substituição ou renovação?

A rentrée de mangadalpaca, colaborador desta Loja:

Na rentrée judicial vai assistir-se à nomeação do novo Procurador-geral da República e à eleição do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

São dois factos de transcendente importância no que respeita ao funcionamento de duas importantíssimas estruturas do sistema judiciário.

E ambos suscitam apetites de grupos e de pessoas, apresentando-se como campo de definição de estratégias de poder desses grupos e dessas pessoas.

A Procuradoria-geral da República é uma instituição a carecer de profunda reestruturação, de um quadro de funcionamento qualitativamente diferente do actual, no que respeita à composição do seu staff e da coordenação do que deva ser a actuação do Ministério Público. Uma redefinição de competências, a atribuir a Procuradores-gerais Adjuntos – a trabalhar em colégio, dotados dos meios necessários e reportando directamente ao PGR – responsáveis pela coordenação de áreas de intervenção de matriz transdisciplinar é prioritária (p. ex., urbanismo e ambiente, violência familiar e protecção de menores, crime organizado e económico-financeiro, formação profissional e cooperação internacional), ao lado de uma desburocratização e informatização efectivas e de um programa de qualidade de serviço e de formação profissional e, sobretudo, um importante trabalho de estímulo e motivação dos seus magistrados.

A presidência do STJ não pode continuar a ser um cenário de representação protocolar com projectos mais ou menos inconsequentes ou um tabuleiro de charadas de ambições de poder, pessoal ou de grupo.

São lugares muito mais relevantes do que isso.

Mas a situação a que se assiste é tão grave que, após um período de campanha de descredibilização do sistema judiciário – em que o Governo despudoradamente alinhou, de forma a potenciar um clima, quase conseguido, que permitisse a sua intromissão – que se julga muito pouco credível que haja «interessados» independentes, isentos e capazes para tais cargos.

Há, certamente, boys prontos para qualquer job, mas esses são os que convém definitivamente arredar. E há os que pautaram a sua carreira profissional por um desígnio desse tipo, tudo fazendo para que um dia fossem designados/“eleitos” para um desses cargos.

No primeiro caso – o do lugar do PGR – espera-se que a visão atenta e séria do Presidente da República possa acautelar uma boa escolha do futuro inquilino do Palácio Palmela, sobre cujo nome me recuso a pronunciar (mas que não se esgotam nos já insistentemente ventilados Laborinho Lúcio ou Rodrigues Maximiano, ambos, aliás, pessoas de superiores credenciais para ocupar o lugar de forma moderna e qualificada).

No segundo caso – o da eleição do presidente do STJ – a questão é mais crítica, porque aí o défice de legitimação democrática é o seu «pecado original». Tratando-se de um cargo eleito por cerca de setenta pares, torna-se por demais evidente a sua crise de legitimidade democrática num Estado de Direito, o que nos deve convocar para repensar a sua forma de designação ou eleição em futura revisão constitucional.

Em ambos os casos, o relativo dramatismo dos momentos de nomeação/”eleição” desses cargos poderia ser compensado com o aprofundamento da democraticidade interna dos respectivos Conselhos Superiores (da Magistratura e do Ministério Público), tendência até hoje desenvoltamente contrariada, por motivos diversos.

Redundaria essa alteração de modelo(s) num seguro incremento da qualidade do serviço de justiça a que os cidadãos têm direito? Acho que valia a pena testá-la.

Mas, enfim, preocupações para quê? Se em Outubro já vai deixar de haver problemas na Justiça ….

mangadalpa©a

Publicado por josé 12:24:00 2 comentários  



uma questão de etiqueta

Eu até nem acho mal, em tese, que Portugal envie tropas para o Libano, acho é que, coplocadas as coisas no seu contexto, no seu devido lugar, e sobretudo na sua devida dimensão, se calhar há outros 'teatros de operações' onde a presença portuguesa é bem mais óbvia, natural e justificável. Portugal, por muito que custe já não é uma superpotência (de há uns séculos para cá) e a NATO, a UE (a UEO passou de moda) ou a ONU, não podem servir de desculpa para tudo, pelo que há outros com maiores responsabilidades (até no que tem acontecido), e bem mais liquidez, que bem podiam 'ir' na nossa (?) vez. Infelizmente, o Libano vai ser usado mais uma vez como pretexto para realçar a necessidade de 'modernização' das nossas Forças Armadas e para justificar gastos tão loucos e megalómanos como os dos submarinos (que custaram balúrdios, para pouco ou nada servem, e que obviamente não vão para o Libano). Por uma vez, espera-se - contudo - que não seja preciso andar a comprar o que quer que seja à última da hora...


Para rematar, é verdadeiramente penoso ver a figura triste de Anibal Cavaco Silva, Presidente da República, e que neste mandato já fez de Eanes, de Soares, de Sampaio, mas que ainda não vimos fazer de sí próprio, anda a fazer por estes dias. Com que então, primeiro era preciso pensar muito bem, e ter muita cautela, e agora, nas vésperas da reúnião extraordinária do Conselho Superior de Defesa Nacional, onde será discutido o envio de militares portugueses para o Líbano, que ele próprio convocou, vem dar o envio por natural, garantido e consumado ? Então a reunião do Conselho Superior de Defesa Nacional vai servir para quê ? Chá e bolinhos ?

A questão (já) nem sequer é política, é de etiqueta tão só.

Publicado por Manuel 10:23:00 3 comentários  



o óbvio escondido

A escolha de um procurador geral da República, para os tempos que aí vêm, está, como soía dizer-se, “na ordem do dia”.
Alguns afoitos já exprimiram opinião. Um ou outro, até já escreveu como deve ser um PGR (!),. Um deles, Teixeira da Mota, advogado e cronista do Público, notoriamente em contra-pé a Souto Moura, já embandeira em arco com a perspectiva da saída deste e a entrada de um outro, que dê melhores garantias de “competência”.
Outros, instados a dar palpite pelo Público, publicitam a sua opinião, hoje no jornal, orientados pela pena esclarecida de António Arnaldo Mesquita que destes assuntos sabe o que temos lido e não se coíbe de algumas vezes dar a sua própria opinião, nas entrelinhas das notícias. Tendo-lhe sido apontado o argueiro, já descarregou uma trave de impropérios contidos, mas ainda assim evidentes, sobre esta Loja e o autor do escrito.
No artigo de hoje, em duas páginas de tonalidade mais distanciada, o balanço deste PGR, Souto Moura, é feito por algumas pessoas que estão a par do que se passa nas instituições judiciárias e detém informação que passa para além dos fragmentos que os media em geral publicitam.
A opinião de Rogério Alves é positiva, sem reservas ( “um homem de grande seriedade, impermeável a pressões exercidas sobre o MP e , por isso, um defensor efectivo da sua autonomia”); a de José António Barreiros também assim parece e Euclides Dâmaso ( um magistrado do MP, em Coimbra e também antigo director na PJ) salienta a solidão do cargo e a falta de solidariedade de um “estado maior” que nunca existiu no MP ao contrário do que muitos julgam.
Mouraz Lopes, um juiz de direito que dirigiu ainda há pouco tempo, na PJ, o combate ao crime económico, acha que Souto Moura não andou bem, “ a nível de política de comunicação”, não lhe tecendo críticas de vulto. Paulo Rangel, aprecia positivamente a actuação do PGR, reservando as críticas para “as condicionantes actuais do estatuto do MP ( proveniente dos governos de Guterres) que atenuam a cadeia hierárquica naquela magistratura.”
Como pano de fundo nestas apreciações personalizadas do mandato do PGR, nestes seis anos, sobressai um processo: o da Casa Pia.
O advogado José Miguel Júdice, balanceia em matiz. Diz que Souto Moura foi totalmente independente face ao poder político e critica-lhe a falta de capacidade em “concretizar o princípio da hierarquia do MP”, adiantando ainda que a investigação do processo Casa Pia exigia, pela sua mediatização, uma maior intervenção hierárquica do PGR, particularmente na escolha do magistrado que dirigiu as investigações. E até diz que João Guerra, ( o procurador do processo Casa Pia, a par de outros) “foi um erro de casting”.
O advogado Rodrigo Santiago, por seu turno, não se fica pelas meias palavras, como é de timbre conhecido: diz pura e simplesmente que estes últimos seis anos foram de “completa anarquia que se estabeleceu ante a complacência do PGR numa magistratura cujos pontos orgânicos fundamentais são, justamente, os da hierarquia e da subordinação”.

Nestas apreciações, residem quase todas as contradições que se revelam na opinião pública em relação ao exercício do cargo de PGR, por Souto Moura.
Entre os que acham a actuação primorosa, independente, competente, isenta e moralmente idónea, e os que acham que faltou carisma, gosto pela liderança, sentido político , há aparentemente uma série de coisas que não estão ditas, equívocos que vão continuar e hipocrisias que permanecerão sempre escondidas, como é timbre próprio.

A tónica preponderante das críticas ao mandato de Souto Moura, para além do dislate sobre a anarquia, centram-se numa só:
A defesa do maior controlo hierárquico dos magistrados do MP, pela hieraquia.
Essas críticas encontram uma barreira de tomo, no artº 79º do Estatudo do MP que estabelece os limites aos poderes directivos da hierarquia do MP.
Para seguir por este lado das críticas conviria antes, ler uma página disponível na Internet e que se alcança facilmente, teclando no Google “estatuto do ministério público evolução”, pois a primeira página fica logo à vista. Por isso, não basta a Paulo Rangel dizer que a culpa é dos governos de Guterres. Não foram os governos de Guterres que modificaram o artigo, nascido em 78, crescido em 86 e tornado adulto em 92 e 98. Quando muito não o alteraram, mas isso até o governo de Santana o poderia ter feito…ou não?
Aliás, há muitos magistrados a pensar e a dizer o mesmo. Entre magistrados do MP( e mesmo juízes) , aparentemente, prevalece a nostalgia do “chefe”. Souto Moura não foi um chefe “à maneira” e é isso que lhe criticam essencialmente. No fundo, a nossa democracia, sempre precisou de um “chefe” e será eventualmente devido a essa característica peculiar, fundamentadora de mitos e justificadora de um sebastianismo sempre presente que a maioria exige um chefe, como dantes as rãs da fábula exigiam um rei..
No entanto, há neste momento, na classe política que decide, outra noção bem diversa.
A essa classe que tendo decidido, há seis anos, o nome de Souto Moura, vai agora decidir outro, o problema não é o do “chefe”. É mais o do “chefe, mas pouco”.
Explica-se: chefe, sim, mas para mandar nos “de baixo”, alterando-se as leis e tal for necessário- e vai ser. Para os de cima, respeitinho será o requisito, mesmo que tal não venha explicitado no perfil. Nisso, parece que há consenso, eventualmente até na Presidência da República. Logo, não vai ser difícil chegar a um nome. Há tantos…
Rui Pereira, uma das pessoas que terá influência, na determinação desse perfil, disse no mesmo artigo que “os perfis são caricaturas de personalidade e o pgr deve ser escolhido pelo conjunto das suas qualidades ( humanas, profissionais e jurídicas)”.
Evidentemente. Como dizia o brasileiro Nelson Rodrigues, este tipo de declarações são o chamado “óbvio ululante”.

Publicado por josé 17:37:00 10 comentários  



A contabilidade política

Esta notícia que segue, do Correio da Manhã de hoje, é suficientemente eloquente para dispensar comentários de maior.
O maior comentário que se pode fazer, aliás, é sobre a banalidade destes fenómenos e ainda dizer que se o exemplo deveria, em princípio, vir de cima, cai pela base qualquer argumentação a propósito de legitimidade democrática que permite aos partidos políticos, comportarem-se, ano após ano, deste modo vergonhoso.
De resto, não faltará quem, ao ler isto, diga já que este arrazoado é populista e sendo contra os partidos, apologista de regimes sem partidos.
Escusado será dizer a esses que o descrédito das instituições democráticas também passa muito por estes fenómenos e que nem sequer se está a falar de financiamento ilegal- apenas de contas mal feitas e desprezo pelas regras que a si mesmos se impuseram.

As contas do PS prestadas em 2003 à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP), órgão que funciona junto do TC, “impossibilitam a obtenção de conclusões seguras sobre o montante e natureza da totalidade dos recursos financeiros que terão sido obtidos pelo partido”, lê-se no acórdão n.º 455/2006, ontem publicado em Diário da República. Ou seja, são valores que se referem na maioria às operações de financiamento e funcionamento do partido, excluindo dados sobre concelhias, distritais, regionais e outras organizações, como a Juventude Socialista, contrariando o exposto na Lei n.º 56/98, que regula o financiamento de partidos políticos e de campanhas eleitorais. Entre outras irregularidades consideradas para a decisão de multar o PS em 64 188 euros, pesou o facto de não terem depositado a totalidade dos donativos de natureza pecuniária em contas próprias. E, também, por estas duas razões, entre outros, PSD e CDS-PP foram sancionados em 64 901 euros e 65 614 euros, respectivamente. Acresce, segundo o acórdão assinado pelo presidente do TC, o juiz conselheiro Artur Maurício, que a Comissão Política Regional da Madeira do PSD tinha em 2003 uma “situação financeira desequilibrada”, com dívidas a fornecedores, financeiras e à Fundação Social Democrata que ascendem a cerca de dois milhões de euros.Já o PCP, multado em 14 264 euros, declarou de forma inadequada as receitas que resultaram da angariação de fundos. O TC detectou ainda que os comunistas registaram o património imobiliário resultante de operações em 2002 e 2003 a valores de mercado e não de aquisição. O BE também não depositou os donativos pecuniários em conta própria e foi sancionado em 5349 euros.Apenas o partido Os Verdes, Partido Socialista Revolucionário (PSR), Movimento pelo Doente (MD) e Partido Operário de Unidade Socialista (POUS) tinham as contas correctas. Foi ainda julgado extinto o processo de contra-ordenação contra o Partido de Solidariedade Nacional (PSN) e a Frente da Esquerda Revolucionária (FER). Serão apuradas ainda as responsabilidade de dirigentes políticos em 2003, tal como nos dois anos anteriores. ENTIDADE CONTROLA E PSD CRITICAA informação prestada anualmente pelos partidos à Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) limita-se, na maioria, a prestar contas da estrutura central, descurando concelhias, distritais e regionais. O presidente da ECFP, José Miguel Fernandes, decidiu publicar um regulamento para “clarificar o conceito de partido político”. E, a propósito deste novo regulamento, o presidente da distrital do PSD do Porto, Agostinho Branquinho, acusou a ECFP, em declarações ao CM, “de ser uma entidade cuja finalidade é introduzir burocracia”. Em sua opinião, a legislação “é um aborto, a única coisa que tem de bom é a permissão do financiamento por parte de empresas”. DIRIGENTES PARTIDÁRIOS JÁ SANCIONADOSJosé Luís Arnaut, do PSD, foi multado duas vezes consecutivas pelo Tribunal Constitucional em sete ordenados mínimos nacionais, referentes a infracções cometidas em matéria de financiamento e organização contabilística partidária, à data de 2001 e 2002. O então secretário-geral social-democrata e outro dirigente do mesmo partido foram condenados a pagar, cada um, 2339,40 euros por irregularidades nas contas de 2001. Também cinco dirigentes do PS foram sancionados em igual valor, segundo o acórdão 250/06, de 9 de Maio, que aplicou pela primeira vez coimas a dirigentes partidários em complemento à sanções aplicadas aos partidos por irregularidades nas contas. Os casos do CDS-PP e do PSN (Partido da Solidariedade Nacional) foram arquivados. Já em 2002, Luís Arnaut e outro dirigente do PSD incorreram na mesma prática, cabendo uma coima de 2436 euros a cada um. Desta vez, seis dirigentes do PS foram multados em igual valor e, segundo o acórdão 348/06, de 4 de Julho, Dias da Cunha, ex-presidente do Sporting, foi um dos socialistas condenados. Neste ano, um dirigente do PDA (Partido Democrático do Atlântico) foi multado em 1783 euros. O Tribunal decidiu-se ainda pelo arquivamento dos processos referentes ao PSN e ao CDS-PP. Nestes dois anos, os dirigentes do PSD foram condenados ao pagamento de 9550,80 euros por infringirem a lei. Os dirigentes do PS foram multados, em igual período, em 26 313 euros. Já os casos decorrentes da apresentação das contas dos democratas-cristãos foram sempre arquivados ou extintos. Em qualquer caso, há possibilidade de recurso.

Publicado por josé 14:45:00 5 comentários  



'para já' tudo na mesma

Parece que há por aí um ligeiro sururú por o sr. Luis Filipe Vieira se ter deslocado hoje à redação do 24 Horas para debater com o camarada Tadeu a capa da edição de hoje daquele matutino. Não há razão para alarme - o líder espiritual de 6 milhões de portugueses foi tão só e apenas agradecer. Tal como no futebol, também a vida é feita de 'para já's...


P.S. 'para já' a agência de comunicação de Cunha Vaz, que serve os interesses do SLB, tem estado em grande, 'para já'...

Publicado por Manuel 16:31:00 6 comentários  

Nova Gente

Vivo numa ilha sem sabor tropical
a fauna é variada demografia acidental
não é de origem elevada díficil de recensear
é mais que uma ilha é quase continental
não está cercada por água mas não faz mal
quem a rodeia por vezes é a força policial

Baby Doc ou Papa Doc nunca vi
nem qualquer ditador da América Central
cá não há candidato à autarquia local
só orgulho analfabeto mas com cultura geral
é tudo a mesma fruta a mesma caldeirada
é uma gente educada é a anarquia total
vivo numa ilha sem sabor tropical
não é de origem vulcânica
mas tem lama no Natal
não há saneamente básico
é o Bairro Oriental

Rui Reininho (in Psicopátria)


Tivesse sido o PS ou o PSD a despachar qualquer um daqueles dos seus autarcas e a generalidade iria aplaudir a medida (é por causa de um gesto semelhante que ainda hoje Marques Mendes tem algum crédito político) mas como foi com o PCP a situação muda totalmente, aliás tenho como adquirido que caso o comité central do PC, em vez de sanear o autarca, lhe tivesse dado um voto de confiança política, o tom das críticas ao Partido teria sido exactamente o mesmo ou pior. Só mais um comentário, ainda não cheguei à conclusão se é uma qualidade ou um defeito esta característica dos PC(s) de nunca abandonar os que, apesar de errarem, continuam fieis aos seus princípios. A propósito de uma situação semelhante, um amigo dizia-me há uns anos que a maturidade das organizações se atinge quando estas passam a ser capazes de “comer o seu próprio vomitado”, admito que possa ser assim. De uma coisa tenho a certeza, mal por mal é preferível que o ex autarca de Setúbal continue a ser do PCP e a militar activamente no PCP, caso contrário correr-se-á o risco de ele ir para o governo fazer companhia aos antigos camaradas o que seria bem pior, acreditem.

Publicado por contra-baixo 12:10:00 2 comentários  



ao menos outro 'boy'

Só mesmo em Portugal é que um indíviduo desmerecedor de qualquer qualificação como Luis Marinho ainda é Director da RTP. Que o próprio depois da infeliz e patética performance na SIC/Notícias, onde tentou enxovalhar Eduardo Cintra Torres, não saia pelo próprio pé, até se percebe, dado o estado patológico ontem evidenciado em directo, agora que a tutela, seja na Administração da RTP, seja upstream no Governo, ainda não tenha percebido que um individiuo com as características, e o perfil , ontem evidenciadas à exaustão, por Luis Marinho não tem condições, muito menos credibilidade, para ocupar o cargo que ocupa é que já é mais preocupante. Estarmos em Agosto não justifica tudo. Ao menos que repitam a táctica do costume - que arranjem outro boy. Este nem para manter as aparências serve.

Publicado por Manuel 14:59:00 1 comentários  



só pode ser piada...

... a alegada directiva que terá sido dada aos centros de saúde para cumprirem a legislação e darem prioridade no atendimento a grávidas, idosos e... advogados e solicitadores.

Publicado por Manuel 14:11:00 13 comentários  



the art of the dark side


Por curiosidade, entreti-me por estes dias a ler os estatutos da Fundação de Arte Moderna e Contemporânea – Colecção Berardo e a confrontá-los com a nota da Presidência da República que acompanhou a promulgação. A Fundação resulta de uma operação em que simultaneamente está em causa o interesse público e o interesse privado, não necessariamente incompatíveis entre si, em minha opinião. Se por um lado ganha o privado – o comendador deixa de utilizar de um cêntimo seu com a manutenção, preservação e promoção da sua colecção e praticamente garante um comprador que a adquirirá por atacado e ao mesmo tempo assegura que o seu espólio, parte dele pouco ou nunca exposto, seja valorizado, inclusive aquele que fica fora do âmbito da aquisição pelo Estado – ganha também o interesse público – ficam à disposição do Estado um conjunto importante de obras (únicas) de arte contemporânea que poderão contribuir significativamente para a atractividade de Lisboa e do País. Pessoalmente, valorizo também o investimento num produto cultural contemporâneo exportável tanto como matéria-prima, como produto acabado, que ajudará a vender a imagem de um País moderno que não a transmitida por via do folclore, do fado, de Fátima e do vinho barato. Por último poder-se-ia também dizer que se ganha a possibilidade de adquirir num ápice o que levaria anos a constituir se o fizesse peça a peça, com os custos inerentes, embora como adiante se demonstrará poderá não ser bem assim.

Pode este ser um processo considerado isento de críticas? A minha resposta é não! Têm razão de ser os reparos da presidência? Também não! Entendo que é perfeitamente aceitável que, mesmo que depois de adquirida a colecção pelo Estado através do exercício de um direito de opção consagrado no decreto-lei, o comendador mantenha o cargo de presidente honorário da fundação com a prerrogativa de propor a nomeação e a destituição do director do museu, pela simples razão porque tanto fundação como o museu continuarão, mesmo depois da aquisição, a ter incorporada na sua designação o nome “Berardo”, constituindo por essa razão um direito absoluto do próprio zelar para que hoje ou amanhã um governante inconsequente não o vá arrastar pela lama, escolhendo para o cargo alguém sem vocação ou perfil para o cargo.

Li também a declaração sobre o assunto da deputada Zita Seabra "meio milhão de euros dos nossos impostos, na situação difícil em que o País vive, sejam destinados a adquirir novas peças para uma colecção que daqui a dez anos pode sair do País" esta, para além de ser um argumento de uma enorme pobreza franciscana, é algo que, em primeiro lugar, não é verdadeiro – as obras a adquirir serão propriedade da fundação (o comendador contribuirá com igual importância para o mesmo fim) e, em segundo lugar, porque se trate de um valor quase que irrisório se, comparado por exemplo com os 15 milhões ou mais que o MC transfere anualmente para o Teatro Nacional S. Carlos e que são dispendidos sem praticamente qualquer contrapartida patrimonial – que poderia existir caso o teatro fosse gerido com essa finalidade, o que também não acontece nos outros teatros nacionais e na Casa da Música, lamentavelmente.

Ao dizer acima que o processo não está isento de críticas, pensava em três aspectos que considero não terem sido devidamente acautelados. O primeiro em relação ao financiamento anual pelo MC das despesas de funcionamento e actividades da fundação. Pese embora um projecto desta natureza não possa prescindir do apoio financeiro do Estado para pagamento de despesas correntes, pensa-se que a operação ganharia em transparência se o montante a transferir anualmente fosse previamente determinado por um estudo de viabilidade económica e financeira e que o seu valor constasse já dos próprios estatutos, à semelhança do que se verifica nos da Fundação Casa da Música. O segundo prende-se com o exercício do direito de opção de aquisição da Colecção Berardo que o Estado, por decreto-lei (artigo 11º) atribui a si próprio quando na realidade não tem direito nenhum, pois só compra se o comendador Joe Berardo estiver interessado em vender ou dar-lhe preferência, o que em nenhum dos casos está garantido. O Terceiro relaciona-se com a redacção deveras estranha do artigo 30º , este na alínea d) afirma que em caso de dissolução da fundação as obras adquiridas através do fundo de aquisições revertem a favor do Estado, dizendo logo a seguir – no nº 3 - que as mesmas obras podem ser adquiridas por José Manuel Rodrigues Berardo ou por quem ele venha a indicar, pelo respectivo preço de aquisição. Independentemente da aparente contradição entre si, considero que nenhuma das soluções é boa, por um lado porque é abusivo que um conjunto de obras possam reverter a favor do Estado sem se considerar sequer a indemnização dos restantes fundadores que contribuíram para a sua aquisição ou a sua devolução aos doadores ou legadores que actuaram em nome de uma missão. Também não se compreende a prerrogativa de o comendador adquirir ou indicar comprador para as obras ao preço da respectiva aquisição, quando é por demais certo que essas mesmas se irão valorizar exponencialmente a partir do momento que passem a ser parte da colecção do museu. Uma outra crítica que pode ser feita à construção do artigo é que o facto de o destino das obras em caso de dissolução da fundação ser qualquer um dos descritos tal será um desincentivo para que outros possíveis fundadores venham a subscrever uma participação ou mesmo a contribuir para o fundo de aquisições, o mesmo se aplicando aos eventuais doadores ou legadores do museu. Tudo isto não me parece que seja um bom princípio, sobretudo quando o que se visa com a parceria pública e privada é o interesse público e não somente o das partes envolvidas.

Publicado por contra-baixo 00:29:00 13 comentários  



se a moda pega...

Segundo a TSF a Câmara Municipal de Coimbra aprovou uma postura municipal que visa impedir a circulação de resíduos industriais perigosos para co-incineração na cimenteira de Souselas. Não vale a pena entrar em grandes detalhes - desta, de uma espécie de embargo legislativo local a legislação upstream, nem o outro, o da Madeira, se tinha lembrado. Concorde-se ou não com a co-incineração, esta medida peregrina tomada pelo dr. Encarnação é tão só um dos maiores atentados ao Estado de Direito dos últimos tempos, nem mais, nem menos, e pode tornar-se um precedente grave, muito grave. É o País, e os políticos, que temos.

P.S. De que é que o PSD está à espera para se demarcar de tão peregrina medida ? de voltar a ser governo, quando outros lhe fizerem o mesmo ?

Publicado por Manuel 14:58:00 4 comentários  



Detroit, nova sede da república dos juízes

Por aqui, do Informática do direito, até aqui, ao New York TImes, onde se pode ler o seguinte:

"WASHINGTON, Aug. 17 — A federal judge in Detroit ruled today that the Bush administration’s eavesdropping program is illegal and unconstitutional, and she ordered that it cease at once."
"District Judge Anna Diggs Taylor found that President Bush exceeded his proper authority and that the eavesdropping without warrants violated the First and Fourth Amendment protections of free speech and privacy."

Espera-se a todo o momento a reacção do pessoal do costume e que tarda em gritar em editorial que a república dos juízes já chegou à America. E até com a oposição do Attorney General!
Porca miseria! Depois da Itália e de idêntica tentativa, em Portugal, felizmente abortada pelos vigilantes dos jornais, vemos a America a cair no mesmo lodaçal.
Não há direito!

Publicado por josé 00:33:00 28 comentários  



Correcções e revisões

As primeiras sete páginas do Público de hoje, deveriam ser lidas nas escolas de ensino básico como manual de história portuguesa contemporânea, em substituição daqueles que foram inspirados pela inteligentsia de esquerda nestes últimos 32 anos.

O artigo de Vasco Pulido Valente é dos seus melhores artigos de sempre e a fidelidade e rigor histórico, naquilo que posso perceber, é fundamental.
O artigo é sobre "A queda e o exílio de Marcelo Caetano" e tudo se resume em poucas linhas que nunca vi escritas por mais ninguém:

"Logo a seguir, no meio de grande entusiasmo, Spínola entrou no quartel e encontrou o presidente do Conselho sentado num sofá, numa "atitude serena e digna". Na sala ao lado, César Moreira Batista e Rui Patrício pareceriam "desmoralizados". Segundo Marcelo, antes mesmo de o cumprimentar, Spínola desabafou: " A que estado estes gajos [o MFA] deixaram chegar isto!" "Isto" , era a multidão do Carmo e o povo na rua. Num livro de memórias ( de 1978) Spínola transformou esta frase de gneral de cavalaria numa declaração histórica: "O estado em que Vossa Excelência me entrega o país." E acrescentou: "É tarde para Vossa Excelência reconhecer a razão que me assistia". Esta pequena diferença acrimoniosamente discutida no futuro, escondia uma querela maior. Marcelo queria demonstrar a inconsciência de Spínola e a fraca autoridade que ele tinha sobre o MFA. Spínola queira passar a Marcelo a culpa da queda do regime e do desastre de África."

Nestas linhas se pode encontrar toda a subtileza da passagem do regime de Salazar/ Caetano ao novo regime de Abril. Fundamental, perceber isto, parece-me. VPV apanha "isto" porque percebe o essencial. Outros, parece que não. Vítor Dias, não percebe deste modo.
E outros que se lhe seguiram também não. O pessoal da revista Visão, por exemplo, herdeiro da tradição duma esquerda que sempre foi moderada, também não vê as coisas históricas desse modo.
O problema não reside nessas perspectivas diferentes. Reside apenas na divulgação das mesmas. Até agora, a divulgação predominante foi a visão da esquerda. Agora, aos poucos, permite-se uma ténue abertura a uma visão ligeiramente diferente e que permite a quem queira, ler o quadro todo e ver a escrita correcta de todo o fenómeno que nos marcou nestes últimos trinta anos.

Parabéns, Vasco Pulido Valente! E, já agora, ao Público e seu director, José Manuel Fernandes.

Aditamento:
Quem ouvisse o telejornal das 20 horas da RTP, ficava a pensar que Marcello Caetano foi um benigno professor de Direito, que teve a infelicidade de o 25 de Abril lhe ter cortado uma carreira ao serviço dos portugueses, cujo bem estar ele mais que tudo desejava. Dizer-se de um homem que fez a sua formação política nos anos do autoritarismo que não desejava o "poder", é apenas um exemplo do absurdo de toda a peça jornalística. Duvido que o próprio se revisse na visão wishy-washy que uma mistura de ignorância e de revisionismo histórico dá da sua vida e carreira
.

Neste pequeno texto, do Abrupto, há todo um programa. Por este pequeno texto se pode obter uma das razões explicativas para 32 anos de ...obscurantismo. Não se trata de contestar a verdade sobre o desejo do "poder", o que a própria filha de Marcelo, Ana Maria, acabou de esclarecer para quem viu a entrevista que acabou de dar na RTP1. Não!
Trata-se de escrever que toda a peça jornalística é um..."absurdo".
Absurdo...pois.

Publicado por josé 15:15:00 24 comentários  



Brandos impostos


Segundo o Correio da Manhã de hoje:

"Estavam inscritos nas Finanças 22 110 advogados, que declararam ter um rendimento líquido médio anual de 7495 euros (contribuintes solteiros sem outro tipo de rendimentos). Em relação às amas, encontravam-se inscritas no Fisco 889 profissionais e declararam valores médios de prestações de serviços no valor de 4921 euros. Os números referentes às profissões liberais (categoria B) chegaram recentemente às mãos do Ministério e apresentam algumas realidades curiosas. Para além dos advogados, que são colectados como sujeitos da categoria B, e podem também pagar impostos no âmbito do regime das sociedades de transparência fiscal (que abrange todas as sociedades de advogados), temos os economistas, que em 2005 pagaram, em média, 1410 euros de IRS, os engenheiros, que se ficaram pelos 707 euros, os arquitectos com 724 euros. Já os médicos e dentistas pagaram de IRS 2924 euros. Estes números dizem todos respeito a titulares solteiros e sem rendimentos de outras categorias."
A notícia é interessante, mas podia ser outra. Por exemplo esta:

Jornalistas pagam mais IRS do que médicos e dentistas. Além do mais, parece que é mesmo verdadeira...
Portugal é um país de faz-de-conta, com alguém já disse. Foi um economista, chamado Augusto Mateus. Ah! Os economistas pagaram durante o ano 1410 euros de IRS! 280 contos em moeda antiga. Ou não soubessem eles fazer contas...à vida!
Conclusão segura, desta choldra:
Em Portugal, os únicos que pagam impostos, a sério e a doer, a taxas elevadíssimas, e desde 1989, são...os trabalhadores por conta de outrém. De resto, como todos já sabiam, há muito.

Publicado por josé 20:44:00 11 comentários  



A Banda a passar e os corações futuristas

A Banda, de Chico Buarque, saída para a rua em 1966, foi provavelmente a primeira canção da Música Popular Brasileira ( MPB) que escutei com alguma atenção.
E daí, talvez não…pois antes disso já cantarolara, a rolar, O Calhambeque, o redundante Quero que vá tudo p´ró inferno e ainda a frustrante Namoradinha de um amigo meu, todas da autoria de um outro cantor da chamada Jovem Guarda surgida em 1965, no Brasil: Roberto Carlos.
Ao longo dessa década e na seguinte, esse cantor da Jovem Guarda reincidiu com êxitos sucessivos: Eu te amo( 1968); Jesus Cristo e Minha Senhora(1970); Detalhes (1971) e a Montanha ( 1972) para ficarmos pelos mais óbvios e com radiofusão maciça.
A musica de Chico Buarque, um dos mais prolíficos e magníficos autores cantores da MPB, voltou a impressionar com Construção e Cotidiano em 1971 e no ano seguinte ouvia-se um Bom Conselho e depois o Fado Tropical.
Em 1972 participou num dos melhores discos ao vivo da MPB: Caetano e Chico juntos e ao vivo, cuja primeira música começa numa prédica: “Ouça um bom conselho; eu lho dou de graça”.
Os discos Chico Canta de 1973 e Sinal Fechado do ano seguinte, são dos seus melhores, tal como é o que gravou em 1975, em parceria com Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso. O disco Chico e Bethânia Juntos e ao vivo, continha a versão original de Tanto Mar, repescada em 1978 com letra diferente e após a (des)aventura do nosso PREC. A versão original dessa canção, desaparecida entretanto, das sucessivas reedições do disco, podia até há algum tempo, ser encontrada por aqui, neste site fantástico e animado por um anónimo português.

Os discos seguintes de Chico Buarque de Hollanda, também contém as suas tulipas como Mulheres de Atenas e Meu caro Amigo ( provavelmente José Nuno Martins), de 1976; Feijoada Completa e a segunda versão de Tanto Mar, já de 1978 e a Ópera do Malandro, de 1979, merecem a referência final a um artista da MPB que em 40 discos compôs mais do que a maioria dos compositores e cantou melhor do que muitos.
Antes de Chico e Roberto cantarem os seus êxitos, porém, a MPB, no final dos anos cinquenta, já tinha dado uma grande volta no violão de outras figuras de relevo.
António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim em parceria com Vinicius de Morais, compuseram Chega de Saudade, num ritmo cuja batida ao violão de João Gilberto, em cordas de nylon, sufocava a tradicional exuberância tropical e numa voz inimitável, rendilhava notas subtis cantadas quase em sussurro. Bim-Bom, era a, Bossa Nova, meu irmão!
Tom Jobim é o grande compositor da MPB e João Gilberto, o seu cantor.
Wave( Vou te contar, a onde que caiu no mar…), Desafinado ( Se você disser que eu desafino amor), Samba de uma nota só e Garota de Ipanema ( Olha que coisa mais linda!), cantados por João Gilberto, nem precisam de apresentação. Águas de Março e Por toda a minha vida, cantadas por Elis Regina, no LP Ellis & Tom, de 1974, também não, mas a verdade é que só me foram apresentadas já muito depois de se tornarem êxitos e em plenos anos setenta.
À Bossa Nova de finais dos cinquenta, surgiu, uma década depois, no restolho da renovação artística generalizada e global, um outro movimento rítmico, compassado com o rock e cantado por mais dois artistas grandes da MPB: Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Em 1967, Caetano compôs Alegria, Alegria que ainda hoje alegra qualquer espírito e Gilberto Gil, Domingo no Parque. Depois de terem sido presos uns meses, pelo regime militar brasileiro, de ditadura, foram para Inglaterra de onde voltaram em 1972, com ideias novas trazidas da pop para a nova corrente musical que alguém cunhou como sendo o Tropicalismo.
A música de Caetano, dos primeiros discos, é simplesmente fresca. Coração Vagabundo, Avarandado, Irene, London, London, Maria Bethânia, etc, foram descobertas já dos anos oitenta, em colectâneas, mas no Verão de 1974, passava na rádio portuguesa, um disco de antologia do Tropicalismo: Temporada de Verão, reunia num concerto ao vivo, na Bahia, em Janeiro e Fevereiro de 1974 ( ao mesmo tempo que o Lp de Bob Dylan ao vivo, Before the Flood), as vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.
Uma das canções desse disco, Felicidade ( foi embora e a saudade no meu peito inda mora), cantada por Caetano, não sendo da sua autoria, ( é de Lupicínio Rodrigues) é um clássico inultrapassável de interpretações e sem dúvida uma das melhores canções que conheço, todos os géneros confundidos.O disco contém ainda O sonho acabou de Gilberto Gil e a cantiga do Sapo ( Olhó sapo, está cantando na lagoa. A chuva cai e o sapo fica contente e até alegra a gente com seu desafio. João? Que é? Foste? -Fui. Compraste? -Comprei. Pagaste?- Paguei. Me diz quanto foi! -Foi quinhentos reis).
Durante os anos que se seguiram, Caetano Veloso continuou a compor pequenas obras primas que ombreiam com as de Chico Buarque. Qualquer coisa, em 1975; Um índio, Tigreza, Leãozinho e Alguém Cantando, em 1977, no álbum Bicho e em 1982, no disco Cores Nomes, O Trem das cores, Sete mil vezes, Coqueiro de Itapuã e Sonhos.
Depois, nos anos seguintes, outros êxitos preenchem uma carreira ainda sem fim criativo à vista, acompanhada com magníficos espectáculos ao vivo.
Caetano, aliás, está cá outra vez, para outro espectáculo a não perder e deu entrevista à RTP2 de Ana Sousa Dias em que disse o essencial sobre MPB. Tom Jobim é o maior de todos e há muitos outros que não se conhecem e que fizeram da MPB o que ela é: Pixinguinha, Cartola, Ary Barroso, Luis Gonzaga e muitos outros que a memória guarda em arquivos sonoros e catalogados por aqui.
O disco de 1972 Caetano e Chico juntos e ao vivo, foi um estrondoso sucesso em Portugal. Ouça um bom conselho e Você não entende nada ( quando chego a casa nada me consola…) tornaram-se músicas repetitivas na rádio desse ano.
Tal como o fabuloso Casa no Campo de Elis Regina que em 1974 gravou o simbiótico e já referido Ellis & Tom que começa com Águas de Março ( É pau, é pedra…) e vai por ali fora, até ao romântico Por toda a minha vida ( eu sei que vou te amar).
Ainda em 72 foi dada audição alargada ao Quinteto Violado, cujo primeiro LP, começava com Asa Branca, numa versão da canção de Luís Gonzaga que ultrapassou a versão de Caetano, numa instrumentação notável e memorável.
Em 1973, um cantor desconhecido, vindo das influências do tropicalismo , com forte batida pop e textos em sintonia com o então desconhecido Paulo Coelho, assinava dois temas de audição contínua na rádio: Raul Seixas, que cantava Mosca na Sopa e principalmente Ouro de tolo, um dos melhores singles desse ano, com letras batidas em ritmo acelerado e música corrente mas apelativa.

Nesse mesmo ano, uma surpresa esperava os ouvintes dos cantores do rádio e que “levavam a vida a cantar”: Os Secos e Molhados de Ney Matogrosso e João Ricardo (de ascendência limiana), publicaram com estrondo o primeiro LP que começava com Sangue Latino, com um Vira a seguir e uma canção de antologia depois de O Patrão Nosso de cada dia , Assim Assado e El rey: Rosa de Hiroxima, para acabar com outra pérola: Fala. O disco do ano seguinte ainda se ouvia, mas a seguir só ficou Ney Matogrosso.

A segunda década de 70, permitiu uma grande divulgação, em Portugal, da música do Brasil,particularmente a MPB.
O nome de Milton Nascimento, seguidor do tropicalismo e inovador por direito próprio, apareceu assim, com alguma naturalidade, antes mesmo de José Nuno Martins, o grande divulgador da MPB em Portugal, ter fixado na rádio do Programa 4, um programa intitulado “Os cantores da rádio” , uma retoma de uma música de Chico Buarque, de 1970, intitulada precisamente "os cantores de rádio"...
Em 1974, Milton, o grande cantor da MPB, vindo de Minas Geraes, ( como Egberto Gismonti) e talvez o maior de todos eles, seguramente o que tem a Voz mais impressionante, publicou um disco ao vivo: Milagre dos peixes ao vivo.
Um dos temas, bateu tão forte no ouvido interno que ainda nem de lá saiu: San Vicente, cantado ao vivo, e em conjunto com Cais, é uma elegia sem paralelo. Logo seguir, ouvir Saudade dos Aviões, Ponta de Areia e Cálix Bento, dos LP´s seguintes, Minas e Geraes, é, para mim, a síntese da beleza absoluta da MPB. Aproximada, mesmo assim, no LP de 1980, Sentinela que contém a beleza de Canção da América ( amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração), a firmeza de Sueño com serpientes de Sílvio Rodriguez e Mercedes Sosa e a cançoneta de Peixinhos do Mar com a balada de Itamarandiba. A gravação de qualidade excepcional deste disco, permite testar subwoofer.
Depois desssa experiência, ouvir os dois outros grandes discos da década de setenta e do cantor, intitulados Clube da Esquina e Clube da Esquina nº2, saídos em 1972 e 1978, é uma sublimação da essência da MPB, e de um cantor que se permite cantar Credo e Paixão e Fé, sem qualquer hesitação de entoação.Milton Nascimento, no início dos anos oitenta, veio a Portugal para alguns concertos, um deles transmitido em directo pela rádio ( Comercial) e patrocinado pelos amadores da MPB que então eram muitos e bons, com o incansável José Nuno Martins que deu mais a conhecer da MPB do que seria necessário, fixando marcadores de uma cultura que tem a nossa língua.
Em 7.9.1983, JNM, publicou no semanário Sete, dedicado aos espectáculos em geral e do grupo de O Jornal ( esquerda moderada bem marcada), um artigo sobre os “quinze indispensáveis da MPB”.
O primeiro dos quinze magníficos da MPB, é Amoroso(1977) de João Gilberto, o intérprete da Bossa Nova por excelência e num disco de referência que contém Wave ( Vou te contar); Tin tin por tin tin, S Wonderful, Triste e outras em sequência notável que a elegância da capa anuncia.
O segundo é “Meus Caros Amigos”( 1976) de Chico Buarque e que JNM considera o melhor de Chico. Talvez seja e o tema final, Meu caro Amigo ( que lhe será dedicado) é uma justa homenagem.
O terceiro disco é…Sentinela( 1980) de Milton Nascimento. Está tudo escrito sobre Milton, acima. Falta dizer, se ainda não disse, que é o meu cantor preferido de toda a MPB, num Olimpo difícil de atingir.
Em quarto, Gal Costa, e Fantasia, talvez o melhor de Gal Costa, uma das vozes femininas, marcantes, da MPB, com Elis Regina, Maria Bethânia, Simone, Rita Lee ( sim, na pop, vale a pena ouvir, Mania de Você e Desculpe o auê, para não falar na Flagra…) e poucas mais. Aliás, porque será que a MPB tem tão poucas vozes femininas de valor real? Mistério. E pena, porque a beleza da voz feminina, é um prazer acrescido. Só de lembrar Françoise Hardy, com a sua vozinha sumida, e Linda Rondstadt ou Maria Muldaur noutras latitudes, um programa musical se anuncia.

O quinto disco de JNM é Luz ( 1982) de Djavan, outro cantor de voz segura.
O sexto, a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, de 1979, tem uma entrada operática, sobre o tema da Géni e o Zeppelin, que vale a escuta.

Os restantes discos, incluem, Cores, Nomes de Caetano; Álibi, de Maria Bethânia, Corações Futuristas de Egberto Gismonti ( um artista muito esquecido), Saudade do Brasil de Elis Regina e até Roberto Carlos, com Ele está para chegar, de 1981 e que contém um tema sobre…as baleias.

Nesse compêndio dos melhores de quinze, faltam muitos, como o próprio JNM reconhece. Falta Toquinho. Falta Edu Lobo e Jorge Ben e outros também.

Um dos nomes que faltam, seguramente, é Taiguara (Chalar da Silva).
Em 1977, o artista esquecido, publicou um disco fundamental da MPB. Imyra, tayra, ipy que está completamente esgotado no mercado habitual.
Contudo, em Junho de 1977, o grande divulgador e locutor de rádio, João David Nunes, publicava na revista Música & Som, saída no ano anterio, para colmatar um vazio editorial no género, uma recensão ao disco, com apreciações ditirâmbicas do mesmo e ainda de João de Menezes Ferreira ( antes da política…) e de Manuel Bravo(?).
O disco que conta com a participação de grandes músicos brasileiros – Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Novelli,( músicos de Milton Nascimento) Ubirajara Silva e o próprio Hermeto Paschoal- foi apreciado por um outro grande divulgador da MPB: James Anhanguera que lhe dedica duas colunas para dizer que é disco a ombrear com os melhores Milton Nascimento, Egberto Gismonti e isso depois de dizer que não gostava da voz de Tayguara e de ter duvidado da sua utilidade em promover a sua importação, pela Valentim de Carvalho que na altura o empregava como escolhedor de discos brasileiros para publicação em Portugal. James Anhanguera, publicou em 1978 o livro Corações Futuristas ( mesmo título do magnífico Lp de Egberto Gismonti, de 1976). O livro recolhe em escrita corrida, sem grande pontuação e em caótica organização temática, uma miríada de apontamentos diversos a que falta um fio condutor e uma lógica que disperse a densidade de referências e lhes dê consistência para uma leitura amena.

Os temas do disco de Taiguara, ainda por cima com uma qualidade de gravação excepcional, são todos imprescindíveis e destacam-se Pianice, Delírio Transatlântico ( eles querem lotar o Maracanã e precisam de mim- lá vou eu…) e Terra das Palmeiras, uma sequência musical com instrumentos fundidos na voz, com destaques de flauta de Hermeto e sons da selva amazónica ritmada em contraponto. Fantástico.
É o meu disco de culto da MPB. Esse e um single, de 1978, barato e de efeito fácil, banda sonora de telenovela que passou cá nesse ano, com o título O Casarão. O autor é o esquecível Hermes Aquino e o tema é a inesquecível Nuvem Passageira.
Reconheço que sendo uma xaropada, mesmo pimba, me deixa sempre de sorriso aberto e espírito sonhador desses tempos…inesquecíveis em que formei os meus gostos básicos na MPB. Uma música para ouvir, dançar e curtir intelectualmente e ainda de encanto certo em alguns temas. A MPB será das músicas “do Mundo”, uma das mais ricas em variedade de géneros. Do pagode ao forró; do sertanejo ao samba e da bossa nova ao tropicalismo, há de tudo um pouco para curtir a música com ou sem caipirinha.
Para se gostar da Nuvem Passageira e ao mesmo tempo da Saudade dos Aviões, de Milton, é preciso reconhecer que a música tem destes segredos em que o gosto tem razões que a razão desconhece e nem sequer admite como compreensíveis. É isso que dá razão à MPB e gostos, como todos sabem, não se discutem. Apresentam-se.
Sirvam-se!

Publicado por josé 18:09:00 8 comentários  



Coração, cabeça e estômago

Uma Fernanda Câncio, jornalista segundo se vai lendo, escreveu uma crónica no DN em que se queixa da coscuvilhice ambiental nos media. Que querem saber tudo da vida alheia, dos famosos e semi-famosos e mostrar tudo na tv, numa intrusão cada vez mais invasiva e que pode chegar ao quarto de dormir, para não dizer mesmo ao interior do próprio dossel de repouso. E coloca um acento tónico numa nota incidental, ao referir o aparecimento de uma nova tendência na coscuvilhice mediática: saber quem anda com quem e quem assume as respectivas relações, sendo este o eventual clímax noticioso por excelência.
Sobre Fernanda Câncio, de quem nada sei, o jornal Correio da Manhã, de 1.8.06, fez assim um perfil:

Ser namorada do primeiro-ministro não é fácil, ainda para mais quando se é jornalista. Quando se soube que Fernanda Câncio era a companheira de José Sócrates, houve quem criticasse se ela teria capacidade de isenção e imparcialidade. Mas, em entrevista ao CM, que data de Novembro de 2005, Fernanda Câncio fez questão de afirmar que nunca abandonaria o jornalismo. Ciosa da sua privacidade, a jornalista não gosta de falar sobre a vida privada. Pouco se sabe sobre ela, apenas que é uma mulher de causas e adepta da internet, participando no blogue Glória Fácil (www.gloriafacil.blogspot.com). No final de 2005, Fernanda Câncio foi distinguida pela associação ILGA Portugal, com o Prémio Arco-Íris pelo seu contributo na luta contra a homofobia.”

Sobre namorados e namoradas, mulheres e homens, casamentos e apartamentos e outras relações humanas, pouco haverá a dizer para acrescentar ao que todos sabem de essencial. Todos percebem que nesse complexo mundo de intimidades e equilíbrios pessoais e afectivos, é muito difícil ensinar seja o que for a alguém, ou recomendar “ regras de sensatez”, porque em assuntos amorosos não consta que haja regras definidas e imutáveis, por muito que os Alberonis escrevam ou os Júlios Machado Vaz expliquem o que muitas vezes não tem qualquer explicação e só um ou outro Morávia lá consegue chegar. Nesse reduto que alimenta telenovelas e grandes romances também, cada um é senhor da sua própria história, embora muitos ( principalmente muitas) se deslumbrem com histórias alheias e será por isso mesmo que as Holas! e quejandas têm tanto sucesso.

Assim, é mais do que natural que as histórias de amores e desamores alheios, alimente a curiosidade de quem anseia por ver esse eterno retorno às essências afectivas. A curiosidade associa-se por vezes, ao voyeurismo, sempre que a tara é propícia ou a perversão inevitável.
É dessas taras e manias que a imprensa rosinha se aproveita e alguns fundem o género numa mistura que em Portugal foi desenvolvida a ritmo diário por um antigo jornalista do Avante: Pedro Tadeu, é o celebrado director do 24 Horas, o expoente diário das historietas que envolvem os “ famosos, o dinheiro e o crime”, tal como o mesmo reivindicou numa célebre entrevista num clube de jornalistas a propósito de assuntos mais sérios e contidos em envelopes que outros creditaram como exemplo máximo da respeitabilidade jornalística.
No Portugal actual, poucos cronistas se atrevem a denunciar esta pimbalhice misturada com jornalismo. Alguns terão simplesmente medo de perder dinheiro e poder de intervenção. Compreende-se. Outros, porque não se incomodam, a não ser quando lhes bate à porta o infortúnio da exposição indesejada .
Como chegamos aqui? Em tempos, o assunto já por aqui foi ventilado. Retome-se, por isso, a meada.
Portugal apanhava as modas ocidentais, sempre com atraso. Foi assim, no uso das gangas; no corte de cabelo adiado e nos costumes mais estrangeiros, como sejam a arte suprema de comer carne picada, embrulhada em alface e tomate e metida à força em pãezinhos redondos e amaricados ou em beber uma espécie de água suja com receita de Atlanta. Nos anos sessenta, o nosso país feminino chorava ao ritmo lento e valsa atenta, do folhear das páginas de fotonovelas. Corin Tellado era nome de Espanha, mas do Brasil vinha o recheio do Capricho e outros romances em fotos quadriculadas a preto e branco, de princesas escondidas como costureirinhas, à espera dos príncipes de poupa e popó a condizer . Por cá, a Crónica Feminina , publicada em frenético ritmo semanal a partir de 1956, moldava subtilmente a mente feminina, aggiornando-a com sentires estranhos a um povo ainda rural e sem acesso a outros meios de informação mais sofisticados e massificados, apesar da rádio e de um Simplesmente Maria que futuramente se ficou pela simplicidade do nome Maria, numa versão sucedânea da Crónica e que eventualmente a suplantou no coração das leitoras. A sofisticadíssima revista Maria, com apenas 22 anos em 2000, vendia-se a uma multidão de cerca de 300 mil leitor(a)s!! Nenhum outro órgão de comunicação social, com excepção da televisão e mesmo assim, dadas as características do media, com algumas dúvidas o escrevo, se aproximou sequer desse nível de...penetração.
Actualmente as Marias, já são mais que as mães, simplesmente. Mulheres Modernas lêem a Ragazza e outras Cosmopolitan, Máxima, Elle.
Para a coscuvilhice associada à informação sobre cosmética e moda, há também um amplo sector que se estende ao género masculino numa paridade assegurada pelo mercado de hipermercado e bancas de rua.
Actualmente, tal como aquela Fernanda Câncio refere, o interesse das capas das revistas, vai direitinho para o assunto quente de saber quem-anda- com- quem- e –quem- andará- a- seguir.
Foi sempre assim? Nem por isso.
A vulgarização poderá ter começado nos suplementos de jornal. Nas décadas de sessenta e setenta, quase todos os diários dedicavam páginas a secções prosaica e exemplificativamente intituladas “para si, minha senhora” ( Diário Popular) . E algumas revistas como o Século Ilustrado revelaram-se pioneiras na caça ao voyeur.
Uma revista chamada Eva, em tempos dirigida por José Cardoso Pires , acabou em número único, natalício; das Donas de Casa que passou a Clube das donas de casa, na rádio, ficam as recordações e nostalgias de um tempo passado e já perdido. Ao mesmo tempo e do mesmo passo, à Gente do Expresso, supostamente animada no seu início por um certo MRS, apareceu em concorrência, a revista Gente, actualmente a vender dezenas e dezenas de milhares de exemplares.
O semanário Tal & Qual, com uma coluna em “Privado” dava conta de escândalos instantâneos e “Apanhados” prolongados na tv, numa antecipação de emissões de “reality-show”, tipo Big Brother, a suculenta ementa da tv do final do século.
No início dos anos noventa, um suplemento do semanário Semanário, retomava um Olá provavelmente inspirado na espanhola !Hola!
No final dos anos oitenta, ocorreu um dos episódios mais negros desta pequena história nacional da infâmia “cor de rosa” ou como dizem os espanhóis, “del corazón”: Um editor ambicioso, vindo das brumas anónimas, publicou no Outono de 1989, uma revista com o título enganador de Semana Ilustrada. O logotipo remetia imediatamente para uma cópia de revistas alemãs de futilidades tipo Quick ou Praline. O conteúdo, todo ele ilustrado a cores borratadas, berrava a cada página uma simples palavra: sexo! Que como se sabe, vende!
E por isso, no segundo número da revista, anunciado com antecedência estratégica, ( e apreendido logo a seguir, mesmo a tempo de evitar a difusão dos 150 mil exemplares, mas não tanto que evitasse o aparecimento e venda de alguns, em quiosques) apareciam várias fotos explicitamente pornográficas de um conhecido arquitecto que era logo definido no intróito do “último escândalo” como “uma pessoa de baixa moral, de poucos escrúpulos” e para ilustrar, mais de uma dúzia de fotogramas tirados de um filme caseiro, feito pelo próprio, numa ilustração perfeita do célebre filme pioneiro, L´arroseur arrosé.
Um segundo episódio infamante, ocorreu já nos anos noventa e num jornal , não lembro qual: alguém publicou uma notícia sobre a ministra Leonor Beleza, com pormenores de uma consulta ginecológica recente, com base em documentos do processo clínico. Sustentaram que era notícia de interesse público…

Em 1995 aparece a Caras, do mesmo grupo do Expresso que assim sustenta uma Gente de Caras conhecidas.
Actualmente, o primeiro lugar, no hit parade destas publicações empenhadas com “os famosos, o dinheiro e o crime” está solidificado neste grupo editorial: o Impala! Vip, Nova Gente, TV7 Dias, Mulher Moderna, Maria, Ana, Ego!
Depois, aparece um grupo discreto e concreto – a Edimpresa, de Balsemão e do grupo Impresa que edita a Caras, a meias com brasileiros da Abril.
Depois também aparece o grupo Soci, do Independente Pães do Amaral, com esse expoente das publicações que tem nome de Lux!
É nestas revistas que se dá a parada semanal de vaidades do país que somos e dos arredores que frequentamos, com vistas para a Caras; a Lux; a Tv7dias e a TV Guia. A cereja no topo deste bolo, é naturalmente o jornal 24 Horas e Pedro Tadeu, um martirizado da liberdade de imprensa.

Há diferenças nestas publicações empenhadas com o destino dos “famosos”?! Há. Principalmente uma: querem todas vender mais que as outras. Ou seja, a diferenciação faz-se pela concorrência. Assim, um jornal como o 24 Horas, legitima-se a publicar uma notícia sobre a próstata problemática de um político e outros assuntos de teor ainda mais profundo a ritmo diário. E defende-se dizendo que não fazem jornalismo de..."papparazzi"!!!
Por isso, que novidade, interesse ou escândalo pode actualmente haver, na publicação de uma reportagem acerca de um almoço ou jantar de um primeiro ministro acompanhado por uma namorada declarada, mas pouco assumida? Ora, ora! Até parece que chegamos ontem dos anos sessenta…
Porém, como o pretenso escândalo atinge singularmente alguns “famosos” da política que se servem dos jornais, quando lhes convém, e alguns deles até neles se empregam, cronicando e dirigindo, torna-se cinicamente curioso, ler quem se indigna pela publicação destas “notícias”, mas não o faça nas redacções onde elas emergem à solta e aí têm curso livre, entre iniciados que sustentam segredos e podam o respectivo interesse para o público.
Há agora quem queira( JPP) definir esta deriva como tendo começado com a Gente do Expresso, passando pelo Semanário e acabando na Nova Gente, sustentando que esta coscuvilhice pegada começou primeiro na imprensa "séria". Ahahahah!
Talvez uma vista de olhos a certos locais, dê para entender as subtilezas das curvas e contracurvas dos corações a palpitar e o contorno das montanhas russas da coscuvilhice .
Let´s look at a trailer:
Da inocência de finais dos anos sessenta, nas revistas Flama e Século ILustrado; do empenho político dos setenta, aos escândalos dos oitenta, passamos pelos noventa, já um pouco blasés e entramos no novo milénio, ao ritmo pimba europeu.







Acima: A Gente do primeiro número do Expresso e uma "notícia" do Jornal de 18.7.1980, sobre a dívida pessoal de Sá Carneiro à banca...








A Semana Ilustrada de Outubro de 1989 e o Tal e Qual de 15.3.1985
A Olá do Semanário, em 20 de Maio de 1995, por ocasião das bodas reais. Um número que é um must!
E uma primeira página, relativamente recente, do grande diário dos "famosos, do dinheiro e do crime"!

Publicado por josé 23:54:00 15 comentários  



Desabafos e discursos

Este free-lancer da opinião política, publicou no seu blog, Sobre o tempo que passa, este postal que exemplifica o propósito de dizer, não dizendo o suficiente. Deste modo, é postal inócuo, ficando certificado que a falta de vontade de dizer de modo explícito, esteriliza a eficácia de qualquer discurso. Empata. Adia. Equivoca.
Falta no postal, dizer os nomes. Do programa de rádio animado pelos "três estarolas" e do nome dos "boys" que também náo sei quem são e que serão apenas isso, sem conotação de maior.

Até lá, fica apenas um desabafo. E com desabafos destes temos vivido anos e anos, sem que a voz doa, ajudando a perpetuar o discurso dominante de que José Adelino Maltez e outros se queixam. Queixas inúteis, assim.

"Dos intelectuários que se servem a si mesmos

Acordo pela madrugada e ligo um dos raros programas dos últimos restos de profissionais da literatura e crítica, à João Gaspar Simões, essa subsecção da corporação de editores e livreiros, vértice autoritário daquelas múmias de uma “intelligentzia” que se assume como definidora de quem pode aceder à casta dos escritores e cronistas da nossa estreita e reaccionária praça.

Reparo que são três membros do mesmo restrito clube das citações mútuas, o tal que determina inquisitorialmente o que é a boa esquerda e a boa direita, bem como a boa civilização, a boa Europa, a boa globalização, isto é, aquele campo que decretinamente querem comandar só porque julgam conhecê-lo.

Os ditos, pretensamente omniscientes e omnipotentes, são daqueles nossos habituais bons rapazes, que se pensam os únicos e os bons só porque se encontram na esquina dos mesmos jornais que lhes pagam a mesada. Eles odeiam, fingindo que não odeiam, da mesma forma como fingem que não obedecem àqueles que lhes pagam. Muitos pretensos inteligentes não passam de meros intelectuários…"

Publicado por josé 11:18:00 6 comentários  



os dentes da reacção

"Evocar Marcello Caetano é, antes do mais, recordar o homem e o amigo de minha família, desde o final dos anos 3o do século passado. O homem. Impoluto no carácter, determinado na personalidade, austero, aparentemente distante e frio, inteligência rigorosa e metódica, grande sistematizador e expositor, cultura clássica e moderna sólida, de claro pendor francófono, facilidade e recorte estilístico na escrita. Na intimidade, ainda, afectivo e atencioso, muitas vezes nos mais pequenos pormenores. Sempre de uma persistência (aqui e ali talvez teimosia) de um critério meticuloso no trabalho, de um sentido de responsabilidade pessoal, cristã e cívica marcada por uma educação conscienciosa, uma carreira inicial a pulso, uma militância católica e de serviço comunitário (de que a Conferência de S. Vicente de Paulo foi exemplo), marcada pela doutrina social da Igreja e o neotomismo. O amigo de família desde o final dos anos 30. Mestre de vida e superior do meu pai. Na Mocidade Portuguesa, onde o teve como colaborador e ajudante de campo até 1944. No Ministério das Colónias, onde beneficiou do seu secretariado até 1947. Novamente, conselheiro no Governo, nos anos 6o, Marcelo Caetano como ministro da Presidência, meu pai como subsecretário de Estado da Educação Nacional. Ou, no início dos anos 70, Marcello Caetano presidente do Conselho de Ministros e meu pai ministro de várias pastas. E, antes e para além de tudo isto, com sua mulher, a inexcedível Teresa Barros, filha do escritor e pedagogo liberal João de Barros, padrinhos de casamento de meus pais (em 1947), seus filhos Ana Maria e Miguel padrinhos de meu irmão Pedro, em 1955, e eu próprio devendo-lhe o nome, apesar de Marcello Caetano ter entendido que o padrinho deveria ser da geração do pai e não mais velho do que ele (escolhendo Camilo de Mendonça). Como não lembrar a narrativa que me chegou da lua-de-mel de meus pais em S. Martinho com carro emprestado pelos padrinhos, os sucessivos Natais na velha casa junto ao Camões, os passeios na Quinta do Linhó, as sugestões dadas no liceu, a apreciação de trabalho do 5° ano sobre a Constituição Francesa de 1791, as obras oferecidas estimulando (e pesando decisivamente) na ida para Direito, os sábados à tarde na Choupana (entre 196o e 1966, ouvindo, a sua tertúlia política), o rigor com que impôs o afastamento da Choupana e do convívio pessoal enquanto fui seu aluno (de 1966 a 1968), o modo paternal como me acolheu em jantares semanais entre 1968 e 197o, na ausência moçambicana de meus pais? São centenas de episódios ou histórias familiares, que continuaram no Brasil, onde, no Rio de janeiro, Marcello Caetano conviveu com meus pais e meu irmão Pedro, e de onde respondeu a cartas minhas até à sua morte, em 1979. Mas, para além desta dimensão pessoal - sem dúvida a mais importante para mim e minha família -, como não lembrar a do cientista e professor de Direito, a partir da década de 30? Cientista, que criou uma verdadeira Escola de Direito Público na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, escola essa que teria como seus sucessores André Gonçalves Pereira e, depois, Diogo Freitas do Amaral, e influenciaria, de modo impressivo, o ensino de Direito Administrativo na sua Faculdade, na da Universidade Católica, na da Universidade Nova de Lisboa, na do Minho, na do Porto, assim como a legislação e a jurisprudência mesmo após 1974. Embora tendo cultivado o Direito Constitucional, a Ciência Política, a História do Direito, o Direito Internacional Público, o Direito Colonial e Ultramarino, o Direito Comparado, o Direito Penal e até a Economia Política e a História da Filosofia Política, foi o Direito Administrativo o seu domínio de eleição, cabendo-lhe a fundação da correspondente Ciência, em termos globais, desde o Curso, depois Manual, de 1936. "
Este retrato de Marcello por Marcelo Rebelo de Sousa, ( um com um L a mais e outro a menos...) hoje no Expresso e que se estende nas páginas da Actual num artigo insosso de 4 colunas e várias fotos, assinado por Manuela Goucha Soares, vale o seu significado. É a primeira vez, que me lembre ( e tenho boa memória arquivada) que se pode ler este desvelo quase familiar e intimista por Marcello C., vindo de Marcelo R.S. Em trinta anos( não teve tempo antes, lê muito...), chegou a vez da verdade afectiva se sobrepor a uma verdade funcional? Haja Deus!
Será capaz de dizer isto, neste tom, na tv? Esperemos para ver.

Em 31 de Outubro de 1980, por ocasião da morte de Marcello, o Jornal, pela pena de José Freire Antunes, traçava um obituário menos personalizado, com o título “Marcelo e o fantasma de Salazar”:
Caetano viveu, mal, entre 1968 e a rendição no Carmo, com o fantasma de Salazar às costas, o pai político que três vezes negara para melhor amar. Quis renovar para subsistir. Rebaptizou a PIDE e a União Nacional, jogou os liberais, soltou as rédeas de certa oposição , abrandou a Censura, tomou banhos de multidão e falou em apanhar o comboio da Europa. Antigo ministro das Colónias, teórico ultramarino abalizado, começou por serenar os espíritos, jurando a defesa do património africano. Sabia quão desfasada era já a arenga do velho mestre, os tempos mudavam afinal, por mais penoso que fosse dizê-lo a um velho. Mas acabou por perder a cartada : deixou-se embrulhar pelo ultramontanismo; a sua Primavera política teve um invernoso epílogo e acabou a carreira, pouco gloriosamente, dentro de um Chaimite.”
Ao ler estes textos, carrega-se-me a perplexidade ao lembrar que ainda esta semana passada, o Consultor Vítor Dias, do PCP, escrevia no Público a recalcitrar que este agora retratado continuou a obra de Salazar, dando substãncia política ao regime que não hesita em continuar a reivindicar de “fascista”… Os argumentos de Dias, aliás, podem exemplificar-se com esta pérola da lógica argumentativa: “(…) há centenas e centenas de coisas e pessoas a quem o PCP nunca chamou fascista”! Isso para responder à pergunta retórica sobre se havia alguém ou alguma coisa em Portugal a quem o PCP não tivesse ainda chamado “fascista”…

Assim, continuando a saga da recolha de artigos sobre o nosso “fascismo” e quem o crismou, apresentam-se hoje mais uns episódios da epifania dessa celebração semiótica que nos ensaiou o discurso politicamente correcto.
Em Setembro de 1974, alguns descontentes com essa epifania e alguns apaniguados do antigo regime, apanhados com as calças na mão, na vertigem do 25 de Abril de 1974, decidiram-se pela reposição da sua voz, julgando ainda que sintonizava com a do povo em “maioria silenciosa”. Erro fatal!
Em menos de cinco meses, Portugal, com a ajuda preciosa de todos os media e as manifestações de rua de todos os partidos organizados para a luta popular, vivia a uma só voz: a do antifascismo! Os que ansiavam por outra coisa que não uma república popular democrática, à maneira de uma Cuba bem edulcorada nos media e que desejavam um governo escolhido por um parlamento eleito e um regime de efectiva separação de poderes, com controlo democrático feito de pesos e contra pesos, e a recolha dos militares às casernas, tinham pela frente os pesos pesados do antifascismo militante que os apodavam, sem qualquer rebuço de “fascizantes”, ou mesmo fascistas puros e duros. Ultramontanos, como também se dizia.
Não foi assim? Então ficam as imagens que substituem as palavras. São imagens desses primeiros seis meses após o 25 de Abril. Algumas referem-se aos acontecimentos de 28 de Setembro. Nessa data, a “maioria silenciosa” que não tinha voz nos media e que tinha vindo do 25 de Abril, sem lhe detectar o estigma fascizante, tentaram a sua vez. Fizeram uma tourada no Campo Pequeno, como costumavam fazer antes do 25 de Abril e que passava na tv e convocaram uma manifestação da tal “maioria silenciosa”.
Apareceu-lhes pela frenta a maioria ruidosa do 25 de Abril, capitaneada pela vanguarda revolucionária do poder popular, em diversos cambiantes, mas com predominância comunista já instalada nos media.
O Diário de Lisboa( dirigido por A. Ruella Ramos e José Cardoso Pires) e o Sempre Fixe( dirigido por A. Ruella Ramos e outros anónimos), fizeram-lhes a folha.
O cartaz de convocatória foi completamente aproveitado e redesenhado, passando a designar uma “minoria tenebrosa” , com o apelo expresso “abaixo a reacção”.
A manisfestação, patrocinada pelo “fascizante” Spínola que meses antes tinha sido o herói nacional com a imagem estampada em t-shirts, fracasssou e foram presos, numa leva inédita desde o 25 de Abril, os celerados conspiradores fascistas.
Os jornais moderados ( Expresso, República e outros, poucos) vertiam tinta de crocodilo, ao ecoar o chavão de que a “revolução, implacável, costuma devorar os seus filhos”…

Estas imagens, copiadas da edição do Sempre Fixe, de 30 de Setembro de 1974, revelam as peculiaridades idiossincráticas da linguagem que nem é sequer a "madeireira".
Mas nos dias, semanas e meses que se seguiram, até ao 25 de Novembro, quem se lembra, sabe que houve muito mais e melhor.

Para quem não se lembra nem quer lembrar, aqui ficam mais alguns exemplos:
Conforme se pode ver ( e ler, ampliando a imagem), começava mesmo nessa altura a caça efectiva aos reaccionários e "fascistas" de várias matizes e cores. Alguns deles foram mesmo apanhados e colocados em "boas mãos". Nomes bem conhecidos, podem ler-se nestes recortes amarelecidos pelo tempo. E por aí se pode ver o rosto do verdadeiro "fascismo" português, aquele que Vítor Dias e ainda uma São José de Almeida, porventura querem manter na memória viva de quem perdeu algumas memórias residentes.

Publicado por josé 18:11:00 11 comentários