Correcções e revisões

As primeiras sete páginas do Público de hoje, deveriam ser lidas nas escolas de ensino básico como manual de história portuguesa contemporânea, em substituição daqueles que foram inspirados pela inteligentsia de esquerda nestes últimos 32 anos.

O artigo de Vasco Pulido Valente é dos seus melhores artigos de sempre e a fidelidade e rigor histórico, naquilo que posso perceber, é fundamental.
O artigo é sobre "A queda e o exílio de Marcelo Caetano" e tudo se resume em poucas linhas que nunca vi escritas por mais ninguém:

"Logo a seguir, no meio de grande entusiasmo, Spínola entrou no quartel e encontrou o presidente do Conselho sentado num sofá, numa "atitude serena e digna". Na sala ao lado, César Moreira Batista e Rui Patrício pareceriam "desmoralizados". Segundo Marcelo, antes mesmo de o cumprimentar, Spínola desabafou: " A que estado estes gajos [o MFA] deixaram chegar isto!" "Isto" , era a multidão do Carmo e o povo na rua. Num livro de memórias ( de 1978) Spínola transformou esta frase de gneral de cavalaria numa declaração histórica: "O estado em que Vossa Excelência me entrega o país." E acrescentou: "É tarde para Vossa Excelência reconhecer a razão que me assistia". Esta pequena diferença acrimoniosamente discutida no futuro, escondia uma querela maior. Marcelo queria demonstrar a inconsciência de Spínola e a fraca autoridade que ele tinha sobre o MFA. Spínola queira passar a Marcelo a culpa da queda do regime e do desastre de África."

Nestas linhas se pode encontrar toda a subtileza da passagem do regime de Salazar/ Caetano ao novo regime de Abril. Fundamental, perceber isto, parece-me. VPV apanha "isto" porque percebe o essencial. Outros, parece que não. Vítor Dias, não percebe deste modo.
E outros que se lhe seguiram também não. O pessoal da revista Visão, por exemplo, herdeiro da tradição duma esquerda que sempre foi moderada, também não vê as coisas históricas desse modo.
O problema não reside nessas perspectivas diferentes. Reside apenas na divulgação das mesmas. Até agora, a divulgação predominante foi a visão da esquerda. Agora, aos poucos, permite-se uma ténue abertura a uma visão ligeiramente diferente e que permite a quem queira, ler o quadro todo e ver a escrita correcta de todo o fenómeno que nos marcou nestes últimos trinta anos.

Parabéns, Vasco Pulido Valente! E, já agora, ao Público e seu director, José Manuel Fernandes.

Aditamento:
Quem ouvisse o telejornal das 20 horas da RTP, ficava a pensar que Marcello Caetano foi um benigno professor de Direito, que teve a infelicidade de o 25 de Abril lhe ter cortado uma carreira ao serviço dos portugueses, cujo bem estar ele mais que tudo desejava. Dizer-se de um homem que fez a sua formação política nos anos do autoritarismo que não desejava o "poder", é apenas um exemplo do absurdo de toda a peça jornalística. Duvido que o próprio se revisse na visão wishy-washy que uma mistura de ignorância e de revisionismo histórico dá da sua vida e carreira
.

Neste pequeno texto, do Abrupto, há todo um programa. Por este pequeno texto se pode obter uma das razões explicativas para 32 anos de ...obscurantismo. Não se trata de contestar a verdade sobre o desejo do "poder", o que a própria filha de Marcelo, Ana Maria, acabou de esclarecer para quem viu a entrevista que acabou de dar na RTP1. Não!
Trata-se de escrever que toda a peça jornalística é um..."absurdo".
Absurdo...pois.

Publicado por josé 15:15:00  

34 Comments:

  1. senhor antónio said...
    Gostava de conhecer, José, a sua posição sobre o conflito no médio oriente. Será possível?
    josé said...
    Pode. O conflito no Médio Oriente é um problema sem solução, desde há muito e durante os próximos anos.
    Não tomo partido, mas vou lendo e vendo.

    Casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. Quando nem sequer há casa, o problema ainda é pior...
    O Cristianismo, o Islamismo e o Judaismo terão de conviver numa casa comum.
    Acha possível?
    Que posso fazer? Tanto como V.
    lusitânea said...
    O Caco recebeu o bastão e tinha uma boa "imagem", que obviamente não foi suficiente com a avalanche que se seguiu.Convenhamos que os politicos que emergiram também não ajudaram nada.Se ainda hoje alguns têm o tique do bota abaixo e já passaram 32 anos...
    Julgo que sem sangue não poderia ter sido feito muito de diferente.A recuperação é que se estranha ir a passo de caracol...
    zazie said...
    isto é uma maravilha de se ler. A volta que lhe deram às palavras. E o VPV não a tinha contado nas "desventuras da razão"
    senhor antónio said...
    Do ensaio de Vasco Pulido Valente, no Público, sobre Marcello Caetano, sublinho a expressão do ex-presidente do Conselho de Ministros, quando, em vésperas da primeira eleição para a Assembleia da República:
    «Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, tridores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes da Câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros.»

    Mal imaginava o homem o quanto estava certo. Mesmo quando não podia prever o quanto a situação pioraria de então para cá.
    senhor antónio said...
    Se o problema no médio oriente não tem solução à vista, então resta-nos esperar morrer antes do tempo.
    sniper said...
    Post muito interessante e de grande qualidade, sobre um artigo do VPV também não menos interessante e de qualidade. Como eu costumo dizer aos meus amigos, se não houvesse guerra colonial, talvez e só agora é que estariamos a fazer uma transição para a democracia " à espanhola". Como é mais do que óbvio, não estou rigorosamente nada de acordo com o "bate-papo" entre o Marcelo e o Spínola, na hora da passagem do "poder", porque e apesar de acreditar que só os burros é que não mudam, ambos tiveram culpas imperdoáveis no cartório, tanto na situação do ex-ultramar como na antiga metrópole. O denominador comum ou epicentro de todos os problemas, foi o desenrolar da guerra colonial, o seu desenvolvimento, a sua evolução ao longo do tempo, e os reais motivos que se "escondiam" por detrás da guerra. O governo metropolitano antes e depois do Marcelo, e as altas patentes das forças armadas eram coniventes a 100%, e só o deixaram de ser, quando os verdadeiros colonialistas, ( aqueles que nunca foram a áfrica ), mas que detinham o poder económico, através da compra das matérias primas a preços controlados e fixados pelo governo metropolitano, realizaram em perfeita sintonia com o governo de Marcelo, que económicamente era impossível manter a guerra, e os respectivos custos, a níveis baixos e controlados. Os movimentos de guerrilha, que muito cedo perceberam isso, focaram práticamente toda a sua capacidade bélica, através de sabotagens, emboscadas aliatórias e aparentemente sem "nexo", na minagem de estradas, etc, de forma a criar um grande desgaste económico, físico, moral e psicológico ás forças armadas no terreno. Em termos práticos, uma tonelada de arroz, sisal, algodão, café, cáju, etc, etc, que custava x+y escudos quando transportado de A para B, passava a custar x+5x(y) porque a estrada por onde passava tinha sido flagelada ou atacada pelos guerrilheiros, ou minada, o que obrigava em futuros transportes de matérias primas, a um acompanhamento por uma coluna militar, com picagem da estrada, etc, etc. O preço era mantido políticamente e artificialmente a x+y. Isto multiplicado por "n" estradas, ou acessos ás origens de muitas matérias primas, que eram exportadas para a metrópole a preços de vergonha e nojo, para quem as produzia e vendia aos testas de ferro locais dos verdadeiros colonialistas. É preciso não esquecer que um agricultor de algodão, ou de qualquer outra matéria prima importante, não podia exportar livremente para qualquer país, aos preços que estas mercadorias tinham em diversas praças mundiais, mas sempre para a metrópole e ao preço que a metrópole ditava. Em resumo, o verdadeiro colonialismo em todo o seu esplendor, em que mais cínicos e hipócritas diziam que era para ajudar o esforço de guerra. Depois do assalto ao navio Angoche que poucas pessoas se recordam, cuja a autoria não foi com 100% de certeza da Frelimo, na costa de Moçambique, marcou decisivamente o curso da guerra naquela ex-colónia. Já não era seguro transportar seja o que fõr pelo mar, e para ser seguro, mais custos para ter uma corveta a escoltar...Como também é óbvio, o bom do Marcelo começa a "ladrar" para os "Spinolas" militares e civis na metrópole e nas ex-colónias, que existiam à época, para tentar encontrar uma saída airosa e o mais decente possível para todo aquele imbróglio insustentável. Tarde demais, e com muito pouca credibilidade. Os custos da guerra, as colossais sobrefacturações feitas pelos grandes senhores da metrópole nas importações pelas ex-colónias de produtos não contigentados e de fácil obtenção de BRI(s) para quem tinha alvarás, claro....,. Por exemplo, numa exportação "daqui para lá" e pelo simples facto de nínguém ir contar o número de anti-palúdicos que eram exportados numa encomenda/caixotes, que eram por exemplo também, declarados e pagos como sendo 10 milhões de comprimidos pela ex-colónia, mas onde só iam 2 milhões nos mesmos caixotes...vindos da metrópole. Isto multiplicado por "n" anos e "n" encomendas...Aliás ainda reconheço na televisão um dos grandes campeões destes malabarismos, figura esta muito associada à "esquerda moderada e civilizada", com ligações fortes a certas lojas...
    Vou terminar que isto já vai longo demais, só para dizer que o "quadro pintado" no quartel do Carmo, foi uma farsa porque ambos sabiam de antemão o que se ia passar, e que quando decidiram "acordar", já era tarde demais. De nada valeu o "sprint" final do Spínola para se distanciar do Marcelo, (que continuava ainda bastante "agarrado" aos lobbies económicos com interesses em áfrica, a qualquer custo) , com o seu o livro e outras actividades paralelas, porque o jogo e a corrida eram viciadas à partida. Foi tudo coméstica. Marcelo e Spínola, dois bons exemplos de quanto péssima foi e é, a élite que nos governava e governa.

    P.S.- José, a história do assalto ao navio Angoche tinha dado em qualquer país civilizado, culto e sem complexos pelo seu passado, "n" filmes, livros, investigações do mais diverso tipo, até ao apuramento da verdade possível.
    Tonibler said...
    Subitamente, os 100 anos do nascimento de Marcelo Caetano torna-se uma efeméride nacional ao ponto de se fazer uma "limpeza" mediática do carácter de um presidente de um governo de uma ditadura.
    100 anos do nascimento do MC é uma efeméride porquê?
    O que é que vem a seguir, os 45 desde que o Eusébio pisou o Estádio da Luz?
    Já agora, oh camarada José, porque é que quando dois homens estão juntos numa sala do quartel do Carmo, a versão de um é melhor que a versão do outro. E desde quando o VPV é gente credível???

    Espantoso, neste país consegue-se fazer uma campanha que corre os media todos, até com um morto!
    D' Aziscas said...
    O testemunho dos mortos sempre foi perigoso; mais perigoso é os que acreditam nele porque alguém, que não é próximo do morto, o contou.
    josé said...
    O testemunho dos mortos ficou nos livros e na memória dos seus contemporâneos.

    São esses testemunhos que contam e a fidelidade dos mesmos só pode ser sindicada por quem perceba o que se passa.

    Está à altura dessa tarefa ou a dúvida é só pela dúvida, metódica e cartesiana?

    É que nesse caso, a dúvida é apenas um cepticismo inexplicado e por isso irrelevante.
    D' Aziscas said...
    José
    Pare e pense.
    Pense no teor do seu post e no contexto do comentário anterior.
    Foi rápido mas pouco certeiro.
    josé said...
    Vejamos então com um pouco mais de reflexão:

    O que escreveu, deve-se ao cepticismo em aceitar como válido o testemunho dos mortos e de quem o interpreta?

    Se assim, for, como é possível saber o testemunho dos mortos e interpretá-lo?

    Primeiro de tudo, é preciso ler o que escreveram os mortos. Foi feito e documentado, com referências aos livros publicados pelos mortos depois dos acontecimentos em que intervieram directamente.

    Depois, é preciso avaliar, contextualizar, colocar dúvidas sobre eventuais intenções,propensões e carácteres de cada um dos mortos e também dos vivos.
    Parece-me que tal também se fez.

    Assim, peguemos na frase escrita no Depoimento de Caetano e na frase escrita do livro de Spínola.

    Qual delas merece mais crédito, sabendo nós que estaremos sempre peranto um processo de intenção?

    A de Marcelo que escreveu que o Spínola já não acreditava naquilo que "os gajos" estavam a fazer e que teriam passado além da Taprobana do que pensaria ser desejável, ou a de Spínola que descreve o momento de encontro com Marcelo com a grandiloquência de uma frase feita para figurar em manual de história tipo , " foi um pequeno passo para um homem mas um grande passo para a Humanidade"?

    Deixo á sua inteligência a tarefa de descodificar os discursos, neste contexto...
    josé said...
    Para além da leitura dos livros dos mortos ( que são legião e que abrangem a Filosofia, a Literatura e a História passadas e que fatalmente têm que ser lidos pois ninguém se compara a Matusalém e se isso fosse possível, este só viveu algumas centenas de anos), há ainda um pormenor nada despiciendo:

    Dessa história contemporânea portuguesa, há ainda muita gente com mais de 45 anos que se lembra muitissimo bem de todo o contexto; que nessa altura era céptcio em relação à deriva esquerdista e que continuou a acreditar que os regimes, sejam eles quais forem, contèm também aspectos positivos. Obliterar tudo numa razia intelectual, é um erro, parece-me.

    E por isso, há quem tenha conhecido Salazae, Caetano e os seus próximos e quem tenha dado testemunho disso.
    Se para conhecer as pessoas é preciso mais do que uma simples leitura do que escrevem, há quem escreva sobre as pessoas de modo a confirmar o que outros escreveram e a traçar um perfil aproximado de cada indivíduo.

    Para contestar esse perfil é preciso que alguém saiba fazê-lo com autoridade e com razão de ciência.

    Enquanto tais qualidades náo forem mostradas, fica apenas a dúvida sobre a capacidade de quem critica...
    Arrebenta said...
    O Centenário do Marcelo

    Pois, no meio desta agitação toda, que foi o "Braganza Mothers" de hoje, onde choveram Peruas, Madonnas, Cavacos, Stones, Câncios, Socratinas... e muitas visitas, esquecemo-nos do mais importante, que era o Centenário do Marcello Caetano, um gajo que viveu lá para os finais do fim de um Regime, de quem já poucos se lembram.

    Teve azar: se Salazar correspondeu ao anseio de uma vigorosa fatia profunda da população portuguesa --- Viva Salazar, Angola é nossa!... ---, um modo de ser e estar que se arrastava desde que Neanderthal recusou ser, neste rectângulo, substituído por Cro-Magnon, e que emerge, de quando em vez -- eles sentam-se ao nosso lado, nos restaurantes das sandes de leitão, na plateia das pipocas, em qualquer cinema, nas coxias apertadas dos "charters" das Finais dos Mundiais de Futebol, nos "viva Cavaco!...", nas caixas de comentários dos blogues, nos lacrimejantes rastejos de Fátima -- "dizia eu de que", quando fui ao "Google" à procura de uma imagem do homem, a coisa já estava fenomenalmente apagada (O pior que me apareceu até foi isto -- as senhoras que evitem ir ver... --, o que, por si só, indica obsolescência e uma clara rotura de paradigma...), porque, se Salazar correspondia ao difuso anseio de uma vigorosa fatia da população portuguesa, já este não passava do sucedâneo de um sucedâneo, o sucessor de um semi-morto que oscilava na sua cadeira moribunda, onde, de acordo com a "Encyclopédie du Bizarre", até morrer, lhe encenavam ficções, como a de fingir que ainda governava, que continuava a assinar decretos, e ainda era o homem mais importante de Portugal. Nada de inovador, se pensarmos em Fidel Castro, ou João Paulo II, entre outros dos ogres da nossa época de amanhãs que cantam.

    Era um tempo sem Coca-Cola -- e, muito menos... Coca... sem cola, e democratizada -- poucos "jeans" e de televisão a preto-e-branco, como o "RTP-Memória" bem nos lembra, a mostrar um Carlos Cruz tão novinho que se diria capaz de se pedofilizar a si próprio, a Maria de Lurdes Modesto, a ensinar os famélicos de aldeia a fazer Cozidos à Portuguesa simples, com couves e solas dos sapatos velhos dos vizinhos ligeiramente mais abastados, o Poeta Pedro Homem de Mello a andar por tudo quanto era feira e bailarico, a apalpar e a mamar nas maçarocas dos mancebos, antes de que a Guerra os destruísse, e... sim... ah, sim... estou agora mesmo a ter uma visão... sim, é ele... um cavalheiro de cangalhas de massa preta, vestido de gato-pingado, "avant-la-lettre", à Cavaco Silva, e sentado numa poltrona de alicerces bem sólidos -- lagarto, lagarto, lagarto... -- a falar longas horas fidelizadocastradas para enormes plateias de analfabetos.

    Não sei para que é que a poltrona servia, mas na altura devia ser para assistir às muitas marés de mutilados e mortos, que, diariamente, chegavam do lado de lá de todos os nossos Oceanos, tradição que, infelizmente, conseguimos prolongar até aos dias presentes, nos "racings", nas contra-mãos e nas "overdoses" de "raves" de discoteca.

    O gajo da foto podia ter transformado Portugal numa pequena España próspera, evitando a bomba-relógio em que ele se tinha transformado, mas, realmente, não tinha mesmo nascido para isso: era um mero pré-Sócrates em potência, e a História concedeu-lhe um justo epitáfio menor.
    JM Ferreira de Almeida said...
    Um excelente post que não desmerece do texto de VPV que o inspirou.
    Felicito-o.
    C. Marques Pinto said...
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    C. Marques Pinto said...
    O artigo de VPV evidenciou-me um Marcelo Caetano mais próximo, mais humano, nas suas misérias e nas suas grandezas da história desencontradas.

    E senti que o rigor com que VPV e o Público me presentearam esta proximidade, me reconciliou com esse homem, distante de quem sou politicamente.

    E sinto que é o rigor com que vemos a proximidade do outro que cria e alimenta a nossa tolerância por ele.

    E sinto que andam todos disto distraídos.

    E sinto, como Goethe, que "O próximo afasta-se"...
    zazie said...
    Não lhe chamaria humanismo porque não faz parte das preocupações do VPV. Mas completa alguns aspectos que ele já tinha referido no Marcello Caetano. As desventuras da razão” que escreveu em 90. Vale a pena ler esse apanhado em capítulos breves mas muito objectivos- do Delfim do Regime, ao africanista fora de época em total oposição com um integracionismo a que sempre se opôse que acaba ultrapassado por um regime que já não existia e pela armadilha do Spínola .
    Era o homem da legitimidade cristã do exercício do poder. É isto que o JPP nem entende. Ele próprio pediu a demissão antes do golpe, por não ceder aos integracionistas. Falar-se em apego ao poder é mesmo um absurdo. Como muito bem classificou o José.
    zazie said...
    Quanto a outros comentários que atiram para o ar com as habituais paranóias ideológicas resta-lhes dizer que devem desconhecer uma disciplina que se chama História.
    josé said...
    Este pequeno ensaio de VPV é o complemento natural e ao mesmo nível daquele que publicou na K, em Novembro de 1990.
    Julgo que será esse o artigo que refere.

    Merecia uma destacável, em opúsculo, porque não há muito mais do que isto, sobre Marcelo e a queda do Regime, neste registo.

    Para saber a lenga lenga da esquerda radical, já temos por aí os Vítor Dias, habituados na escola daqueles que safavam pessoas das fotos quando deixavam de lhes agradar. Depois de os terem eliminado na vida real...alguns deles.
    zazie said...
    Creio que é. Mas foi publicado pela Gótica em 2002.

    Também penso que este do Público merecia publicação
    sniper said...
    Confesso zazie, que só você é que me fazia rir com o comentário em que escreveu, "habituais paranóias ideológicas" e "desconhecer de uma disciplina que se chama História"!!!No comentário anterior a este que acabei de citar, você escreveu, "Era o homem da legitimidade cristã do exercício do poder"; zazie, era exactamente isto que pretendia escrever? Francamente não percebo.
    zazie said...
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    zazie said...
    Exactamente. Era isso que pretendia escrever. Marcello tinha esta formação católica e o exercício do poder insere-se nele.

    Conhecer as motivações de um personagem histórico ajudam-nos à sua leitura. Assim como os factos.

    O VPV procura tudo isso quando faz história.

    Interpretações ideológicas, neste caso, parecem-me vir de quem sem conhecer a biografia da figura negam a sua credibilidade apenas por oposição ideológica ao historiador.

    Um trabalho histórico e rigoroso só se pode debater a nível científico por quem também o fez.

    Se v. sem ter estudado nada atira com meia dúzia de bocas é apenas isso que faz. Mais nada.

    Só uma pergunta:

    O spiner por acaso alguma vez estudou ou teve acesso às fontes em que se baseia o VPV para os pequenos ensaios que tem escrito sobre o Marcello?

    Leu algum?

    Sabe do que se está a falar ou apenas lhe deu para embicar com a frase por supor que o Marcello era jacobino?

    É que fica-se sem perceber se está a negar as idiossincrasias do Marcello Caetano ou as do historiador.

    Ou a coisa para si em História se resume a fazerem-se julgamentos morais e manter tabus?
    zazie said...
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    zazie said...
    Não o assusta uma versão oficiosa a ser debitada por meio mundo e transmitida uniformemente nas escolas?

    A mim assusta. Pelo simples facto que era suposto que a democracia tivesse servido precisamente para nos libertar de cartilhas e a permitir estudar o passado sem tabus
    zazie said...
    Este é mesmo um exemplo que nunca deveria passar por mais um "debate de artigo de opinião".
    zazie said...
    Mas quer ver um exemplo de leitura histórica do VPV a propósito de Marcello?

    “Tirando o que deriva da existência de instituições democráticas e de uma linguagem um pouco datada, trinta anos depois os valores de Marcello não se distinguem da actual ortodoxia ideológica do poder: E, se alguma coisa o separa dela- e hoje pouco- é a desconfiança do velho corporativismo pelo liberalismo económico. “A máxima liberdade conduz à máxima desigualdade” escrevia ele em 1971, para concluir que o Estado tinha a obrigação de «estabelecer mais igualdade», mesmo «limitando a liberdade».

    Contudo, desta viea autoritária e populista a que se mistura um certo rancor ao privilégio (e à riqueza) de nascimento, e um ódio sem disfarce à «estúpida», à «idiotíssima», «bronca» e cobarde burguesia portuguesa, acabou por sair um dos mais genuínos e duráveis representantes do novo regime, Cavaco Silva, que foi no estilo e nos métodos uma cópia de Marcello sem a erudição académica nem a estatura intelectual. O homem de acção, que sonhava com os tempos heróicos de um novo ressurgimento como o de 1926, falhou. Mas não falhou o professor. A sua escola sobreviveu incólume ao 25 de Abril”


    (isto foi escrito em 90)
    sniper said...
    zazie, obrigado pelos esclarecimentos. Como sempre você faz uma defesa inteligente e eficaz dos seus argumentos, mas penso que estamos em patamares diferentes, ou melhor em percepções diferentes. Confesso que estudei outras coisas, e não o Marcelo Caetano. Bastou-me "levar com ele" e com o seu grupo de "notáveis", tanto civis, como militares antes do 25/04/74, por minha livre vontade, quando tinha outras opções. É nessa base que faço a análise aos "factos" relatados aqui no post, e não só. Estou 100% de acordo consigo quando diz " A mim assusta. Pelo simples facto.....e a permitir estudar o passado sem tabus", mas o facto que constato é que muitas pessoas são pouco permeáveis as outras abordagens ao mesmo assunto, criando elas próprias tabus nessas mesmas abordagens. zazie, quanto ao "cristão", já gosto mais quando muda para católico, e nesse caso o exercício do poder faz todo o sentido...Sabe zazie, eu sou cristão.., e já fui católico...Um mundo de diferenças...Uns chamam sequelas, outros paranóias...
    PAmaral said...
    Não sei se é fruto desse artigo publicado na revista K; o certo é que VPV tem um extenso artigo no Dic. Hist. de Portugal, vol VII, 1999, pp. 198-216, sobre MC. Acho-o muito bom e dá uma boa perspectiva sobre MC.
    Vale a pena ler. Existe, se não estou em erro, uma separata.
    zazie said...
    Spiner,

    Substitua-o por “recto e prudente exercício do poder” como o próprio dizia. Ou pelo “imperativo de justiça” com que defendia África.

    Se há aspecto a que o VPV dá importância na formação do Marcello é o escutismo.

    bjs
    zazie said...
    Quanto à permeabilidade a abordagens históricas não sei. Eu separo as questões. Interessa-me a História por si mesma.
    Esse interesse tem um fundo de curiosidade e outro de rigor. O seu uso moralizante ou manipulador nunca me interessou.

    O meu 1º comentário dirigia-se a reacções como as do Tonibler o d'Aziscas.

    E a do JPP inclui-se por essas bandas. Esse é que continua a carregar uma estrutura mental de chavões de esquerda.
    sniper said...
    Obrigado zazie. Estou esclarecido. Como provávelmente sabe, nutro uma certa admiração pelo JPP, por motivos que já aqui escrevi, mas confesso que por vezes o JPP tem uns "despertares" estranhos, que são motivados pelos seus "fantasmas esquerdistas", ah, ah. É pena, porque é um homem inteligente. zazie, sou um homem muito pouco habituado a "mimos", mas retribuo os seus "bjs", com votos de um bom fim de semana.
    Tchau
    josé said...
    Esta vai atrasada, mas só agora li o mail da Loja.
    Aqui fica, com as desculpas ao leitor que quis marcar posição pessoal- e marcou.

    "José Couto Nogueira - Aug 18 (7 days ago)

    Tentei postar um comentário no seu blog mas não consegui - não sei se por
    incompetência minha se por impossibilidade ideológica.
    Segue o texto; se quiser (literalmente...) publique-o. Assinado, com
    certeza.

    Reescrever a História não deixa de ser um exercício interessante... mas
    apenas um exercício, claro, já que nunca se sabe o que realmente ocorreu num
    contexto em que estavam presentes poucas pessoas, todas elas com interesse
    em ficarem bem para a dita História!
    O que interessa realmente é que, mais balbúrdia menos confusão, vivemos num
    regime em que se pode discutir à vontade a História, pseudo-historiadores
    como VPV podem reescrever-la e bloguistas como o Zé podem mandar as bocas
    que quiserem - e ninguém vai preso nem é perseguido por isso.
    Quanto ao centenário de Marcelo"

    O resto da mensagem é que a efeméride se ficava a dever à silly season.

    Não fica, não caro leitor!

    É mais importante do que parece e disso nem V. se se deu conta.

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