A Banda a passar e os corações futuristas

A Banda, de Chico Buarque, saída para a rua em 1966, foi provavelmente a primeira canção da Música Popular Brasileira ( MPB) que escutei com alguma atenção.
E daí, talvez não…pois antes disso já cantarolara, a rolar, O Calhambeque, o redundante Quero que vá tudo p´ró inferno e ainda a frustrante Namoradinha de um amigo meu, todas da autoria de um outro cantor da chamada Jovem Guarda surgida em 1965, no Brasil: Roberto Carlos.
Ao longo dessa década e na seguinte, esse cantor da Jovem Guarda reincidiu com êxitos sucessivos: Eu te amo( 1968); Jesus Cristo e Minha Senhora(1970); Detalhes (1971) e a Montanha ( 1972) para ficarmos pelos mais óbvios e com radiofusão maciça.
A musica de Chico Buarque, um dos mais prolíficos e magníficos autores cantores da MPB, voltou a impressionar com Construção e Cotidiano em 1971 e no ano seguinte ouvia-se um Bom Conselho e depois o Fado Tropical.
Em 1972 participou num dos melhores discos ao vivo da MPB: Caetano e Chico juntos e ao vivo, cuja primeira música começa numa prédica: “Ouça um bom conselho; eu lho dou de graça”.
Os discos Chico Canta de 1973 e Sinal Fechado do ano seguinte, são dos seus melhores, tal como é o que gravou em 1975, em parceria com Maria Bethânia, irmã de Caetano Veloso. O disco Chico e Bethânia Juntos e ao vivo, continha a versão original de Tanto Mar, repescada em 1978 com letra diferente e após a (des)aventura do nosso PREC. A versão original dessa canção, desaparecida entretanto, das sucessivas reedições do disco, podia até há algum tempo, ser encontrada por aqui, neste site fantástico e animado por um anónimo português.

Os discos seguintes de Chico Buarque de Hollanda, também contém as suas tulipas como Mulheres de Atenas e Meu caro Amigo ( provavelmente José Nuno Martins), de 1976; Feijoada Completa e a segunda versão de Tanto Mar, já de 1978 e a Ópera do Malandro, de 1979, merecem a referência final a um artista da MPB que em 40 discos compôs mais do que a maioria dos compositores e cantou melhor do que muitos.
Antes de Chico e Roberto cantarem os seus êxitos, porém, a MPB, no final dos anos cinquenta, já tinha dado uma grande volta no violão de outras figuras de relevo.
António Carlos Brasileiro de Almeida Jobim em parceria com Vinicius de Morais, compuseram Chega de Saudade, num ritmo cuja batida ao violão de João Gilberto, em cordas de nylon, sufocava a tradicional exuberância tropical e numa voz inimitável, rendilhava notas subtis cantadas quase em sussurro. Bim-Bom, era a, Bossa Nova, meu irmão!
Tom Jobim é o grande compositor da MPB e João Gilberto, o seu cantor.
Wave( Vou te contar, a onde que caiu no mar…), Desafinado ( Se você disser que eu desafino amor), Samba de uma nota só e Garota de Ipanema ( Olha que coisa mais linda!), cantados por João Gilberto, nem precisam de apresentação. Águas de Março e Por toda a minha vida, cantadas por Elis Regina, no LP Ellis & Tom, de 1974, também não, mas a verdade é que só me foram apresentadas já muito depois de se tornarem êxitos e em plenos anos setenta.
À Bossa Nova de finais dos cinquenta, surgiu, uma década depois, no restolho da renovação artística generalizada e global, um outro movimento rítmico, compassado com o rock e cantado por mais dois artistas grandes da MPB: Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Em 1967, Caetano compôs Alegria, Alegria que ainda hoje alegra qualquer espírito e Gilberto Gil, Domingo no Parque. Depois de terem sido presos uns meses, pelo regime militar brasileiro, de ditadura, foram para Inglaterra de onde voltaram em 1972, com ideias novas trazidas da pop para a nova corrente musical que alguém cunhou como sendo o Tropicalismo.
A música de Caetano, dos primeiros discos, é simplesmente fresca. Coração Vagabundo, Avarandado, Irene, London, London, Maria Bethânia, etc, foram descobertas já dos anos oitenta, em colectâneas, mas no Verão de 1974, passava na rádio portuguesa, um disco de antologia do Tropicalismo: Temporada de Verão, reunia num concerto ao vivo, na Bahia, em Janeiro e Fevereiro de 1974 ( ao mesmo tempo que o Lp de Bob Dylan ao vivo, Before the Flood), as vozes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.
Uma das canções desse disco, Felicidade ( foi embora e a saudade no meu peito inda mora), cantada por Caetano, não sendo da sua autoria, ( é de Lupicínio Rodrigues) é um clássico inultrapassável de interpretações e sem dúvida uma das melhores canções que conheço, todos os géneros confundidos.O disco contém ainda O sonho acabou de Gilberto Gil e a cantiga do Sapo ( Olhó sapo, está cantando na lagoa. A chuva cai e o sapo fica contente e até alegra a gente com seu desafio. João? Que é? Foste? -Fui. Compraste? -Comprei. Pagaste?- Paguei. Me diz quanto foi! -Foi quinhentos reis).
Durante os anos que se seguiram, Caetano Veloso continuou a compor pequenas obras primas que ombreiam com as de Chico Buarque. Qualquer coisa, em 1975; Um índio, Tigreza, Leãozinho e Alguém Cantando, em 1977, no álbum Bicho e em 1982, no disco Cores Nomes, O Trem das cores, Sete mil vezes, Coqueiro de Itapuã e Sonhos.
Depois, nos anos seguintes, outros êxitos preenchem uma carreira ainda sem fim criativo à vista, acompanhada com magníficos espectáculos ao vivo.
Caetano, aliás, está cá outra vez, para outro espectáculo a não perder e deu entrevista à RTP2 de Ana Sousa Dias em que disse o essencial sobre MPB. Tom Jobim é o maior de todos e há muitos outros que não se conhecem e que fizeram da MPB o que ela é: Pixinguinha, Cartola, Ary Barroso, Luis Gonzaga e muitos outros que a memória guarda em arquivos sonoros e catalogados por aqui.
O disco de 1972 Caetano e Chico juntos e ao vivo, foi um estrondoso sucesso em Portugal. Ouça um bom conselho e Você não entende nada ( quando chego a casa nada me consola…) tornaram-se músicas repetitivas na rádio desse ano.
Tal como o fabuloso Casa no Campo de Elis Regina que em 1974 gravou o simbiótico e já referido Ellis & Tom que começa com Águas de Março ( É pau, é pedra…) e vai por ali fora, até ao romântico Por toda a minha vida ( eu sei que vou te amar).
Ainda em 72 foi dada audição alargada ao Quinteto Violado, cujo primeiro LP, começava com Asa Branca, numa versão da canção de Luís Gonzaga que ultrapassou a versão de Caetano, numa instrumentação notável e memorável.
Em 1973, um cantor desconhecido, vindo das influências do tropicalismo , com forte batida pop e textos em sintonia com o então desconhecido Paulo Coelho, assinava dois temas de audição contínua na rádio: Raul Seixas, que cantava Mosca na Sopa e principalmente Ouro de tolo, um dos melhores singles desse ano, com letras batidas em ritmo acelerado e música corrente mas apelativa.

Nesse mesmo ano, uma surpresa esperava os ouvintes dos cantores do rádio e que “levavam a vida a cantar”: Os Secos e Molhados de Ney Matogrosso e João Ricardo (de ascendência limiana), publicaram com estrondo o primeiro LP que começava com Sangue Latino, com um Vira a seguir e uma canção de antologia depois de O Patrão Nosso de cada dia , Assim Assado e El rey: Rosa de Hiroxima, para acabar com outra pérola: Fala. O disco do ano seguinte ainda se ouvia, mas a seguir só ficou Ney Matogrosso.

A segunda década de 70, permitiu uma grande divulgação, em Portugal, da música do Brasil,particularmente a MPB.
O nome de Milton Nascimento, seguidor do tropicalismo e inovador por direito próprio, apareceu assim, com alguma naturalidade, antes mesmo de José Nuno Martins, o grande divulgador da MPB em Portugal, ter fixado na rádio do Programa 4, um programa intitulado “Os cantores da rádio” , uma retoma de uma música de Chico Buarque, de 1970, intitulada precisamente "os cantores de rádio"...
Em 1974, Milton, o grande cantor da MPB, vindo de Minas Geraes, ( como Egberto Gismonti) e talvez o maior de todos eles, seguramente o que tem a Voz mais impressionante, publicou um disco ao vivo: Milagre dos peixes ao vivo.
Um dos temas, bateu tão forte no ouvido interno que ainda nem de lá saiu: San Vicente, cantado ao vivo, e em conjunto com Cais, é uma elegia sem paralelo. Logo seguir, ouvir Saudade dos Aviões, Ponta de Areia e Cálix Bento, dos LP´s seguintes, Minas e Geraes, é, para mim, a síntese da beleza absoluta da MPB. Aproximada, mesmo assim, no LP de 1980, Sentinela que contém a beleza de Canção da América ( amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração), a firmeza de Sueño com serpientes de Sílvio Rodriguez e Mercedes Sosa e a cançoneta de Peixinhos do Mar com a balada de Itamarandiba. A gravação de qualidade excepcional deste disco, permite testar subwoofer.
Depois desssa experiência, ouvir os dois outros grandes discos da década de setenta e do cantor, intitulados Clube da Esquina e Clube da Esquina nº2, saídos em 1972 e 1978, é uma sublimação da essência da MPB, e de um cantor que se permite cantar Credo e Paixão e Fé, sem qualquer hesitação de entoação.Milton Nascimento, no início dos anos oitenta, veio a Portugal para alguns concertos, um deles transmitido em directo pela rádio ( Comercial) e patrocinado pelos amadores da MPB que então eram muitos e bons, com o incansável José Nuno Martins que deu mais a conhecer da MPB do que seria necessário, fixando marcadores de uma cultura que tem a nossa língua.
Em 7.9.1983, JNM, publicou no semanário Sete, dedicado aos espectáculos em geral e do grupo de O Jornal ( esquerda moderada bem marcada), um artigo sobre os “quinze indispensáveis da MPB”.
O primeiro dos quinze magníficos da MPB, é Amoroso(1977) de João Gilberto, o intérprete da Bossa Nova por excelência e num disco de referência que contém Wave ( Vou te contar); Tin tin por tin tin, S Wonderful, Triste e outras em sequência notável que a elegância da capa anuncia.
O segundo é “Meus Caros Amigos”( 1976) de Chico Buarque e que JNM considera o melhor de Chico. Talvez seja e o tema final, Meu caro Amigo ( que lhe será dedicado) é uma justa homenagem.
O terceiro disco é…Sentinela( 1980) de Milton Nascimento. Está tudo escrito sobre Milton, acima. Falta dizer, se ainda não disse, que é o meu cantor preferido de toda a MPB, num Olimpo difícil de atingir.
Em quarto, Gal Costa, e Fantasia, talvez o melhor de Gal Costa, uma das vozes femininas, marcantes, da MPB, com Elis Regina, Maria Bethânia, Simone, Rita Lee ( sim, na pop, vale a pena ouvir, Mania de Você e Desculpe o auê, para não falar na Flagra…) e poucas mais. Aliás, porque será que a MPB tem tão poucas vozes femininas de valor real? Mistério. E pena, porque a beleza da voz feminina, é um prazer acrescido. Só de lembrar Françoise Hardy, com a sua vozinha sumida, e Linda Rondstadt ou Maria Muldaur noutras latitudes, um programa musical se anuncia.

O quinto disco de JNM é Luz ( 1982) de Djavan, outro cantor de voz segura.
O sexto, a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, de 1979, tem uma entrada operática, sobre o tema da Géni e o Zeppelin, que vale a escuta.

Os restantes discos, incluem, Cores, Nomes de Caetano; Álibi, de Maria Bethânia, Corações Futuristas de Egberto Gismonti ( um artista muito esquecido), Saudade do Brasil de Elis Regina e até Roberto Carlos, com Ele está para chegar, de 1981 e que contém um tema sobre…as baleias.

Nesse compêndio dos melhores de quinze, faltam muitos, como o próprio JNM reconhece. Falta Toquinho. Falta Edu Lobo e Jorge Ben e outros também.

Um dos nomes que faltam, seguramente, é Taiguara (Chalar da Silva).
Em 1977, o artista esquecido, publicou um disco fundamental da MPB. Imyra, tayra, ipy que está completamente esgotado no mercado habitual.
Contudo, em Junho de 1977, o grande divulgador e locutor de rádio, João David Nunes, publicava na revista Música & Som, saída no ano anterio, para colmatar um vazio editorial no género, uma recensão ao disco, com apreciações ditirâmbicas do mesmo e ainda de João de Menezes Ferreira ( antes da política…) e de Manuel Bravo(?).
O disco que conta com a participação de grandes músicos brasileiros – Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Novelli,( músicos de Milton Nascimento) Ubirajara Silva e o próprio Hermeto Paschoal- foi apreciado por um outro grande divulgador da MPB: James Anhanguera que lhe dedica duas colunas para dizer que é disco a ombrear com os melhores Milton Nascimento, Egberto Gismonti e isso depois de dizer que não gostava da voz de Tayguara e de ter duvidado da sua utilidade em promover a sua importação, pela Valentim de Carvalho que na altura o empregava como escolhedor de discos brasileiros para publicação em Portugal. James Anhanguera, publicou em 1978 o livro Corações Futuristas ( mesmo título do magnífico Lp de Egberto Gismonti, de 1976). O livro recolhe em escrita corrida, sem grande pontuação e em caótica organização temática, uma miríada de apontamentos diversos a que falta um fio condutor e uma lógica que disperse a densidade de referências e lhes dê consistência para uma leitura amena.

Os temas do disco de Taiguara, ainda por cima com uma qualidade de gravação excepcional, são todos imprescindíveis e destacam-se Pianice, Delírio Transatlântico ( eles querem lotar o Maracanã e precisam de mim- lá vou eu…) e Terra das Palmeiras, uma sequência musical com instrumentos fundidos na voz, com destaques de flauta de Hermeto e sons da selva amazónica ritmada em contraponto. Fantástico.
É o meu disco de culto da MPB. Esse e um single, de 1978, barato e de efeito fácil, banda sonora de telenovela que passou cá nesse ano, com o título O Casarão. O autor é o esquecível Hermes Aquino e o tema é a inesquecível Nuvem Passageira.
Reconheço que sendo uma xaropada, mesmo pimba, me deixa sempre de sorriso aberto e espírito sonhador desses tempos…inesquecíveis em que formei os meus gostos básicos na MPB. Uma música para ouvir, dançar e curtir intelectualmente e ainda de encanto certo em alguns temas. A MPB será das músicas “do Mundo”, uma das mais ricas em variedade de géneros. Do pagode ao forró; do sertanejo ao samba e da bossa nova ao tropicalismo, há de tudo um pouco para curtir a música com ou sem caipirinha.
Para se gostar da Nuvem Passageira e ao mesmo tempo da Saudade dos Aviões, de Milton, é preciso reconhecer que a música tem destes segredos em que o gosto tem razões que a razão desconhece e nem sequer admite como compreensíveis. É isso que dá razão à MPB e gostos, como todos sabem, não se discutem. Apresentam-se.
Sirvam-se!

Publicado por josé 18:09:00  

23 Comments:

  1. rb said...
    Grande postal José! Eu sou um devoto convicto da MPB, sobretudo da bossa nova. Essa batida singular brasilieira com "Influência do Jazz" (Carlos Lyra, uma referência dos "primórdios" da bossa nova). É vulgar dizer-se que BN é música composta pelo Tom Jobim, com letra do Vinicius de Moraes e intrepretada por João Gilberto. Como diz Caetano, João G. tocava violão para um lado e cantava para o outro. E aí residia o encanto daquela nova batida - a bossa.
    Julgo que será ingrato resumir num postal um universo musical tão vasto como a MPB. Por exemplo: a música nordestina, que até tem mais a ver com a portuguesa, com a sanfona a fazer lembrar o acordeão do nosso foclore, é uma das melhores fatias desse universo musical. A degostar. Luis Gonzaga, ou Jakson do Pandeiro, este, autor de algumas músicas citadas no post como aquela: "Tião? Oi. Foste? Fui. Compraste. Comprei. Me diz quanto foi? Foi 500 reais ..."
    Tem vindo dessa região alguns dos criadores que mais aprecio, da actualidade, como Chico Cience, Lenine, Chico César e outros.
    Mas os velhinhos são mesmo preciosos no meu coração musical meio brasileiro. Chico Buarque, admiro-o imenso porque além de compor a musica melodica e harmonicamente de forma perfeita, diria, é um letrista único. O Tom por ser (talvez) o melhor compositor da MPB. Logo a seguir a estes dois monstros, vem um pelotão compacto com Gilberto Gil, Djavan, João Bosco, Caetano Veloso, outros compositores/interpretes admiráveis. E com os simplesmente interpretes, e que interpretes!, de canções como Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Maria Bethania, Gal Costa, Elis Regina e tantos outros "jovens à vista".
    Parabéns José pelo requintado bom gosto!
    rb said...
    Há uma música do Chico Buarque que resume bem a nata da MPB e de como podemos ouvi-la . Diz ele:
    O meu pai era paulista
    Meu avô, pernambucano
    O meu bisavô, mineiro
    Meu tataravô, baiano
    Meu maestro soberano
    Foi Antonio Brasileiro

    Foi Antonio Brasileiro
    Quem soprou esta toada
    Que cobriu de redondilhas
    Pra seguir minha jornada
    E com a vista enevoada
    Ver o inferno e maravilhas

    Nessas tortuosas trilhas
    A viola me redime
    Creia, ilustre cavalheiro
    Contra fel, moléstia, crime
    Use Dorival Caymmi
    Vá de Jackson do Pandeiro

    Vi cidades, vi dinheiro
    Bandoleiros, vi hospícios
    Moças feito passarinho
    Avoando de edifícios
    Fume Ari, cheire Vinícius
    Beba Nelson Cavaquinho

    Para um coração mesquinho
    Contra a solidão agreste




    Luiz Gonzaga é tiro certo
    Pixinguinha é inconteste
    Tome Noel, Cartola, Orestes
    Caetano e João Gilberto

    Viva Erasmo, Ben, Roberto
    Gil e Hermeto, palmas para
    Todos os instrumentistas
    Salve Edu, Bituca, Nara
    Gal, Bethania, Rita, Clara
    Evoé, jovens à vista

    O meu pai era paulista
    Meu avô, pernambucano
    O meu bisavô, mineiro
    Meu tataravô, baiano
    Vou na estrada há muitos anos
    Sou um artista brasileiro
    josé said...
    Meu caro atento:

    Claro que é ingrato tentar fazer o apanhado geral da MPB num postal.

    Mas pode crer que está aí quase tudo o que de importante ocorreu na MPB que passava na rádio, desde os anos sessenta.

    Porém, como diz e muito bem, há muitos compositores e intérpretes que ficaram no anonimato relativo das capas de disco. A alguns deles é feita justiça pelos grandes intérpretes, outros nem tanto.
    Também não realcei o suficiente a música nordestina, mas falei no Quinteto Violado que ninguém conhece e me encanta como os três primeiros discos. E havia ainda o SOm Imaginário em instrumental a contar a Matança do Porco.

    De resto, referi a extraordinária variedade de género da MPB e da música folclórica brasileira também. O forró é MPB? E o samba?

    Verifico no entanto que nós, aqui em Portugal damos relativamente pequena importância à música brasileira, tirando os consagrados que vêm apresentar os discos do momento. Alguns deles não merecem duas linhas. Outros mereciam um tratado.

    Mas não há tratados para ler sobre a MPB. Ao contrário do que aconteceu com o rock, ainda não apareceu o historiador da MPB que me desse gosto ler.
    Esse livro do James Anhanguera é um dos poucos que tentou, mas está escrito de um modo quase impossível de ler com agrado. Mesmo descontando o subjectivismo da abordagem musical ( muito Hermeto e muito Egberto), torna-se difícil ler com abreviaturas e parágrafos sem pontuação em letra densa. Mas é um bom livro sobre a MPB.

    Falta aparecer o Nick Cohn ( o magnífico autor de wopbabalumablambambum, sobre o início do rock n´roll) da MPB.

    Para dizer a verdade, por mim, não me importava nada em fazer esse trabalho.
    Mas talvez seja areia demasiada para a minha dumper...
    josé said...
    Agora, sobre a Bossa Nova:

    descobri a música da Bossa, já muito tarde, nos anos setenta. Descobri, é um modo de dizer pois os clássicos do género já andavam por aí em versões americanizadas e mesmo originais, por causa do impacto mediático que tiveram.
    Mas só entendi o papel e importância de João Gilberto e Tom Jobim, depois de terem feito quase tudo o que teve importância.

    De João Gilberto e da sua voz melíflua acompanhada a uma viola de cordas de nylon, quase sem som harmónico, comecei a apreciar a subtileza do género quando tentei cantarolar as cantigas e verifiquei que a versão do cantor é inultrapassável.
    Sobre Tom Jobim, comecei a verificar que são tantas as composições feitas por ele que só uma rendição à evidência permite fazer-lhe justiça.

    Agora, sobre Milton Nascimento:

    Quando ouvi a primeira vez Saudade dos Aviões da Panair, foi um choque emocional.
    A composição que é da sua autoria e de Fernando Brant, é simplesmente fantástica, só comparável às três primeiras canções do disco e que a precedem...ahahaha!

    E essas músicas ouvi-as quando saíram e depois de ter ouvido e ficado extasiado com o Milagre dos Peixes ao vivo, principalmente a composição San Vicente.
    Na mesma altura ( 76) li na Rock & Folk francesa uma recensão de Raoul Dengdet aos seis primeiros discos de Milton, os primeiros dos quais ainda não ouvira ( principalmente Milton Nascimento e Milton).
    Claro que essa recensão ficou em memória residente e só descansei quando desencantei, já nos oitenta, tudo o que podia do Mineiro.
    É o maior e Saudade dos aviões a minha preferida de toda a MPB
    zazie said...
    Mais outro para guardar!
    rb said...
    Caro José:

    Relativamente ao seu primeiro comentário é de facto difícil definir até onde vai a MPB. Os autores que menciona no post fazem parte do conceito, mas o termo musica popular até nem encaixa bem em autores como Tom Jobim. A Bossa Nova pode considerar-se como música popular? Será que MPB abrange tudo? Enfim, sobre o assunto um dos maiores especialistas, julgo que com obras publicadas, é o Nelson Mota, que até tinha um programa na TV. Quanto à sua arrojada ideia de escrever sobre o assunto. Why not? A julgar aqui pela amostra tem todo o meu apoio e ... atenção.
    rb said...
    Quanto ao segundo, sobre a bossa nova, ela é caracterizada por uma batida ritmíca, normalmente executada pelo violão, e por uma harmonia e melodias tipicamente jazzisrticas. Importada da América, ao estilo de Frank Sinatra e outros da altura que influenciaram aquela batida. Foi sendo experimentada por Carlinhos Lyra, que acima citei, e foi efectivamente criada pelo mestre João Gilberto. Este, um músico obcecado pela perfeição e com uma personalidade açlgo estranho, ao ponto de se irritar com o público a bater palmas, ou quando não havia o silêncio que ele entendia necesdsário. CV também diz que JG a cantar parece fazer Yoga. Isto porque as suas frases, muito longas e muito homogéneas, quase sem respiração, parecem mantras. Tem também característico umas gostosas inflexões de voz, que provocam uma pequena desafinação momentânea. Por isso CV cantava numa música "... aprendemos para sempre com o João, a ser desafinados, a ser desafinados ...".
    Se me permite, eu não incluiria o Milton Nascimento, sem dúvida uma das melhores vozes da MPB, no capítulo da BN. Isto porque ele tem um estilo muito próprio, que é mais MPB do que BN.
    josé said...
    Mas eu também não incluo o grande Milton na Bossa Nova. Aliás, nem o incluo em lado algum, a não ser no desenvolvimento da tendência tropicalista. Uma das primeiras canções, do mesmo, é "Para Lennon e McCartney".

    E sobre João Gilberto, Amoroso era considerado por José Nuno Martins o melhor disco da MPB. Disco de 1977...muito longe do início da Bossa e de Chega de Saudade.
    rb said...
    José, só mais duas pequenas coisas:

    1. Não faltará uma referência a Tom Zé, pouco amado no Brasil, talvez pela sua rebeldia, mas muito reconhecido nos EU. David Byrne que o diga. Ele é um dos percursores da Bossa Nova e sobretudo do movimento Tropicalista e um músico irreverente, extremamente criativo e que ainda hoje com 70, ou quase, anos de idade vai fazendo obras notáveis como o seu mais recente trabalho: http://www.tomze.com.br/.

    2. O album do Chico Buarque ao vivo com o Caetano, Chico Canta, que cita como sendo um dos melhores, não tinha esse nome original. Soube disso através uma colecção de DVDs que foi este ano editada sobre o autor, onde o próprio explica que o nome do disco original era Calabar, só que este não passou na censura que o substituiu por o tal Chico Canta, um título sem qualquer sentido. Além disso, houve passagens do disco, como por ex. na canção Ana de Amsterdão em que a censura também se encarregou de apagar ou disfarçar. E como? Aumentando o volume do público de forma a abafar a parte da letra inconveniente. Digamos que era um lápis azul muito curioso.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    rb said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    josé said...
    Falta. Claro que falta. COmo faltam outras.

    Quanto ao álbum que refiro é o "Caetano e Chico juntos e ao vivo".
    Se estamos a falar no mesmo, referi esse disco de 1972 como um dos mais passados por cá, antes ainda de 25 de Abril.

    As canções Ouça um Bom conselho, ou a versão de Você não entende nada ( quando chego a casa nada me consola)lembro-me como se fosse hoje, eram cantaroladas na rua porque passavam muito na rádio.

    O disco de 73 Chico Canta, com o título original Calabar, tinha o Fado Tropical, uma das melhores composições de Chico ( ó musa do meu fado...).
    Mario said...
    Esse percurso por todos esses nomes conheco-os bem, fizeram parte da música com que cresci nos anos 70 e 80.
    Uma das minhas grandes penas é nunca ter comprado o disco de Tayguara e hoje não o conseguir encontrar !
    Muito bom post!
    Alberto Moby said...
    Quem está a procurar o disco Imyra, Tayra, Ipy, do Taiguara (1976), eu o tenho.
    jim sawyer said...
    Regist(r)amos sensibiliZAZAdíssimos destaque a Corações Futuristas - notas sobre música popular brasileira. E em tal companhia! Nunc et semper...
    E com 30 anos esta noite... Maio de 2008!
    ACESSEM NOSSO WEBSITE:

    revoluciomnibus.com

    TEM - E TERÁ CADA VEZ MAIS E MELHOR - MÚSICA DO BRASIL DE CABO A RABO

    Queijos limianos dá uma água na boca...

    ass. James Anhanguera, Edgar Lessa e Jim Sawyer

Post a Comment