Que seja bem-vindo este Xaile


É raro, mas por vezes acontece: quando menos se espera, surge assim um som refrescante, vindo do desconhecido, e que entra directamente para a lista restrita das coisas muito, muito especiais.

Este «Xaile» é, sem dúvida, a melhor surpresa da música portuguesa nos últimos tempos largos. Um som de grande qualidade, mistura fina de música tradicional portuguesa, de recolha aturada e de bom gosto, com motivos sofisticados de jazz, folk e um certo tom místico pelo meio.

Parecem ingredientes a mais, mas a verdade é que, juntos, dão um produto mágico. Vale mesmo a pena ouvir este trabalho de lançamento de um grupo que, espero, venha a ser, muito em breve, um dos mais ouvidos e apreciados da música portuguesa.

A juntar à qualidade musical (mérito, sobretudo, de Rui Filipe e Johnny Galvão, os fundadores da banda), é delicioso apreciar a beleza estética das três protagonistas, diferentes entre elas mas harmoniosas como conjunto: Marie (a loura), Lília (a ruiva, vocalista principal) e Bia (a morena, que toca magistralmente cavaquinho e tem uma voz gaiata que dá ao tema «Haja Saúde» um lado especialmente divertido).

O resto terá que ser julgado por cada um. Eu, por mim, estou rendido.

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Os companheiros da alegria e o joelho de Claire.

Nos obituários de Eduardo Prado Coelho, sobressai sempre uma ideia matricial: a ideia de esquerda.

Um dos mais influentes membros dessa particular inteligentsia pátria é, sem qualquer dúvida, José Carlos de Vasconcelos, antigo director de O Jornal e ainda director do Jornal de Letras, um dos produtos culturais do grupo que também teve O Sete, a História e agora detém ideologicamente a Visão.

Este Jornal de Letras, dedicado aos aspectos culturais em modo de ler, ver e ouvir, com predominância para o sentido do olhar, faz na sua última edição, uma homenagem de primeira página a Eduardo Prado Coelho e a “tudo o que escreveu”.

O simples obituário de José Carlos de Vasconcelos (JCV), suscita logo o mote perfeito para a abordagem imperfeita do assunto vasto: a intelectualidade lusa dos últimos 40 anos, centrada em EPC.

JCV declara-se amigo de EPC, “há muitos anos”, o que lhe retira logo a carga de objectividade que poderia esperar-se do escrito. Mas nem por isso se evitaria a repetição dos lugares e tempos que a esquerda portuguesa visitou nestes últimos anos. Digo esquerda, porque não há melhor termo para o definir.

Tal como Tom Wolfe, no seu pequeno ensaio sobre os “três pontos” ( "my three stooges", publicado em Hooking Up de 2000), em que nomeava nas pessoas de Norman Mailer, John Irving e John Updike, o sentido de serem os melhores apontadores de deixas para o que pretendia dizer sobre os mesmos, também JCV se afigura como o exemplo perfeito de “ponto” para uma peça em vários actos que começa ainda antes de 25 de Abril de 1975.

O cenário é a sociedade portuguesa e o enredo, a política e os políticos que nos saíram em rifa nas eleições previstas.

JCV declara-se de esquerda há muito tempo e desde o tempo em que iniciou essa famosa aventura de O Jornal, de O Sete e ainda do Jornal de Letras, para não falar da pequena revista História. Por isso, é com um pequeno orgulho indisfarçado que lembra a sua contribuição para o percurso peculiar de EPC, ao convidá-lo, ainda nos anos sessenta, para redigir textos para a revista Vértice, essa “resistente revista de esquerda e de cultura e arte”.

Esta pequena declaração, contém em si todo um programa político, porque inefavelmente circunscreve à área da esquerda, no sentido afectivo e efectivo do termo, as matérias de cultura e arte. A direita, seja lá isso o que for, afectiva e efectivamente, não tem direito de uso sobre esses campos lavrados pelos cultores da igualdade social, sustentada por teóricos marxistas- leninistas. O privilégio da cultura e da arte, para o público apreciar a ler, ver o ouvir, é apanágio desta esquerda que vem de longe, de muito longe e muito andou para aqui chegar.

Em nome da ideia de esquerda, indefinida mas sempre presente nas apresentações públicas, a cultura portuguesa acantonou-se em nomes, pequenas correntes e capelinhas de culto privado para os connoisseurs de realidades mediatizadas por livros e filmes, como EPC e uns tantos que dominaram por completo o panorama da crítica e da opinião, na imprensa em Portugal, nos últimos decénios e impuseram um modelo de pensamento único sobre estas matérias. Fora da esquerda, não há salvação para a cultura e a arte, em português.

Provavelmente, a influência dessas poucas dúzias de pessoas, foi mais forte e mais implacável sobre a sociedade portuguesa das últimas décadas que os discursos políticos do partido comunista e socialista juntos e em companhia com os extremistas da esquerda do poder popular.

JCV cita Augusto Abelaira e Fernando Assis Pacheco como outros compagnons dessa route em que rodam ainda milhentos de outros corredores que perseguem a utopia que situam sempre do lado esquerdo da estrada que chegará um dia à meta da igualdade entre os Homens e à Harmonia universal, onde de cada um deles se pedirá apenas o que pode dar, e a cada um se poderá dar o que precisa. A definição destas necessidades e potencialidades, não se questiona, porque na ausência de uma mão invisível, lá estará sempre, até se chegar à meta, o Estado protector geral.

Esta utopia fantástica, animou a alma de milhares, mas o seu evangelho foi apenas proclamado por uns poucos, entre os quais, JCV e EPC.

Portanto, a crítica, o ensaio, o estudo universitário e as crónicas simples de jornal, circularam pela escrita de EPC como um contributo para essa esquerda militante da utopia e que nunca desapareceu do imaginário dos seus cultores. Mesmo depois do colapso de sociedades inspiradas no modelo avançado e proclamado por essa esquerda, as mudanças de velocidade engrenadas pelos seus pilotos, nunca os levaram a estações de serviço para mudar conceitos ou afinar ideias feitas. A maior parte deles mudou apenas de veículo e nunca de direcção ou sentido.

O marxismo-leninismo enquanto ideologia básica e definidora de princípios, mantém integralmente o prazo de validade para os seus antigos cultores mais notáveis, entre os quais se contam EPC e JCV. A moderação dos sentidos e a normalização da democracia portuguesa, manteve sempre e constitucionalmente, a ideia básica de que Portugal continuaria a seguir o caminho rumo ao socialismo, agora eufemisticamente modificado para um empenho na construção de uma sociedade livre, justa e solidária. A semântica constitucional, contudo, não alterou o conceito básico, essencial que preside desde há décadas à orientação ideológica da esquerda: o caminho é e será sempre para o socialismo, nesse entendimento canhoto. Um socialismo democrático, no entender evoluído e aggiornato, da intelectualidade espelhada nos escritos de EPC e JCV, mas ainda assim, um socialismo, mesmo travestido de uma inefável social-democracia que conserva as ideias básicas da utopia igualitarista. A matriz original, nunca se substituiu, porque alimenta ainda todas as esperanças da utopia e portanto, as variações de conceitos são apenas tácticas, porque imprescindíveis ao seu funcionamento imaginário.

Não existe, no Portugal actual, discurso político que a esquerda possa sustentar e que não percorra esses conceitos originários. A esquerda portuguesa não se actualizou ou evoluiu como as restantes esquerda por essa Europa fora. Não abandonou as referências de 1975, nem suplantou as esperanças ocultas num destino incerto e inconfessável, em nome do bem geral.

Tudo o que ultrapasse, pela direita, esse perfume invisível da ideia peregrina de finais do séc.XIX, que percorreu o leste da Europa e implantou a democracia social, com a sinalização mesmo equívoca, do caminho para o socialismo, é intelectualmente proscrito na afectividade desses amadores de utopias.

Um dos teste mais eficazes para se situar um esquerdista, na sociedade portuguesa, é muito simples de realizar: perguntar-se-lhe o que pensa do jornal O Diabo. Era o diabo, em figura de jornal, afiançam e continuam a colar-lhe o rótulo de jornal de extrema-direita. Outro teste infalível, é perguntar pela natureza do regime salazarista. Fascista, pois claro e nada menos do que isso.

O regime de Salazar e Caetano, foi, aliás, onde cresceram e aprenderam o que sabem. Foi nesse tempo que se formaram e em que se formaram os seus professores e nem a censura os impediu de aprender o que era então perseguido, numa lógica de regime autoritário que no entanto, não os impediu de lerem o que quiseram e seguirem quem entenderam.

Entre os filósofos, escolhem sempre Sartre, em contraponto a Raymond Aron. Não é que o não possam ou devam fazer. É apenas porque não dão espaço a outros para o fazerem. Ocupam todo o tempo e espaço mediáticos e nem se dão conta disso. São geralmente ateus militantes ou apaziguados, mas separam a esquerda e a direita num campo improvável: o da irracionalidade. Perguntados pelas razões da preferência em seguir sempre pela esquerda, mesmo numa altura em que já viram, desse lado, a destruição, a morte, a opressão e a involução, tudo aquilo que consensualmente é a maldade humana, não desarmam e apresentam o argumento de sempre: erros passados que não se devem repetir; mas a substância, essa continua válida e operante. É só esperar por melhores dias.

Em função desse idealismo com bases ideológicas falidas ou demonstradamente erradas, apostaram numa linguagem que moldou a sociedade portuguesa das últimas décadas e condicionou as políticas de governos sucessivos. A Educação em Portugal tudo lhes deve ideologicamente, claro, com os resultados que vemos.

Os mais idealistas de entre eles, incluindo naturalmente EPC e JCV, juraram sempre pelos mais próximos do poder perfeito para essa esquerda temperada. Após uma experiência PRD, surgiu Pintassilgo como candidata. Depois, foi a travessia do deserto, sempre contra a direita fantasmática e por fim, a promessa fugaz de Manuel Alegre continua a alimentar a ilusão de destino ideal, enquanto votam sempre naqueles que prometem a ideia de esquerda.

Os livros que se escrevem e que não lemos, o cinema que se vai filmando e ninguém vê; a linguagem escrita que se utiliza em jornais e revistas, tudo ou quase tudo lhe devem.

Na base destas asserções, reside a verificação empírica derivada da leitura da nossa imprensa e dos jornalistas que se formaram ao longo dos anos e aprenderam com os mestres da esquerda ideologicamente demarcada.

Os diários de época, como A Capital, o Diário de Lisboa, o Diário de Notícias, mesmo o Diário Popular e semanários como O Jornal e depois a Visão e ainda o Expresso, em menor grau, mas com parentelas similares, moldaram o modo de escrever notícias e relatar acontecimentos em Portugal.

As gerações que se seguiram não fizeram qualquer corte ideológico com essa mentalidade específica, porque lhes herdaram os lugares de redacção, onde vicejava a cultura já sedimentada.

A melhor síntese do fenómeno, é apresentada por Nuno Júdice, um dos sobreviventes dessas máquinas voadores sobre a realidade, e que escreve no seu obituário na última edição do Jornal de Letras, o seguinte:

Talvez por isso a tua arte preferida, para lá da literatura, fosse o cinema ou o bailado- onde os corpos se movem e impõem a sua dimensão física, dando essa possibilidade de contacto que pode começar pelo olhar, e acabar no gesto físico de uma ilusão fusional de que o intocado “joelho de Claire” é uma metáfora. O corpo- eis a suprema utopia; e a linguagem tenta envolvê-lo e vesti-lo, ou despi-lo, com a espessura significante que nos ensinou a linguística que aprendemos nos lisboetas anos de 1960 dessa faculdade de Letras que te inspirou um poema, a “Descida ao inferno” do bar de Letras onde se sonhava resolver todos os problemas do mundo.

Nesta simples frase, se pode revolver e explicar todo o fenómeno Zita Seabra, por mais improvável que pareça. Continuando…

“Raciocinavas com o sentimento; e sentias com a razão: o que explicava que só tivesses falado dos autores e dos livros de que gostavas, sem de modo nenhum teres recuado ao impressionismo que, nesses anos 60 era a “bête-noire” da época ( e João Gaspar Simões sentiu-o na pele).

Logo em 1972, dois livros indicam essa dupla tensão entre o “logos” e a “anima”; A palavra sobre as palavras e o Reino Flutuante. Compreendeste, Eduardo, que a palavra sobre a palavra seria o reino da redundância; e passaste a esse reino flutuante onde intervém, de modo surpreendente, uma “liquefacção” do signo, permitindo essa flutuação do discurso que segue a direcção das correntes do poema, mas em que o crítico pode também orientar a navegação segundo princípios que vão desde uma “letra litoral” de 1979 ( no qual publicaste a entrevista que te fiz, numa varanda do Restelo onde o António Sena nos fotografou para uma Vida Mundial de 1972)., em que a “letra” é essa margem verbal onde se começa já a avistar o litoral que irá desembocar no “fio do horizonte” das tuas crónicas até à Mecânica dos fluidos ( 1984) descobrindo que o imaterial obedece a uma máquina construída para que ela se mova, e fazendo do movimento o motor mesmo da vida do poema. Era por isso que o formalismo, o experimentalismo, que fixava artificialmente a dinâmica do texto nunca te atraiu.”

Este naco de prosa judiciosamente articulada a propósito de EPC, é o exemplo do solipsismo deste mundo intelectualmente fechado sobre si mesmo. Um outro, nas mesmas páginas e assinado por Mário de Carvalho dá o retrato perfeito de época, em que nem falta sequer o historial caucionador e antifascista de quem teve o pai preso e sofreu as consequências horrendas do fascismo luso, numa repetição de enredo que constitui todo o universo do imaginário do PCP.

A esta racionalidade cercada pelos preconceitos esquerdistas, no final de contas extremamente conservadora dos parâmetros estreitos dos afectos, prefiro a loucura dos sentimentos anarquistas, sem dono ideológico e que admite ao seu redor quem lhe aparece, sem situar o outro em campos de luta.

Todas estas considerações, no entanto, apartam-se da idiossincrasia das personagens e personalidades que evoluem neste meio. A de EPC, portanto, merecia melhor atenção. Filho de professor catedrático notável, logrou atenção especial da inteligentsia das épocas. Antes de 25 de Abril, o conhecimento pessoal e familiar dos protagonistas políticos acabou por influenciar a vida particular de alguns deles, como EPC. Foi para o estrangeiro de França, porque alguém se interessou por isso. Esteve no PCP, onde defendeu o extremismo possivelmente revolucionário e mudou-se logo para paisagens mais serenas, após o comício da Fonte Luminosa. Foi o governo de Cavaco, com Santana Lopes como secretário de Estado da Cultura quem o pôs em Paris, em actividades culturais.

Não admira por isso que um esquerdista do mesmo género, tenha dito em modo de epitáfio que “tinha mundo”. Pois tinha, mas um mundo pequeno e que não abrangia tout le monde, mas apenas o monde des siens. E foi esse que foi explicando, crónica atrás de crónica, livro após livro.

Uma boa metáfora, para este mundo particular, reside na circunstância de EPC, à semelhança de muitos outros, olhar para Françoise Hardy, com admiração, conforme escreve Rita Garcia na Sábado que designa aquela como “actriz”.

De onde viria a admiração de EPC por Françoise Hardy? Dos anos sessenta, seguramente, mas muito mais do que isso. Perceber o resto, é entender uma boa parte do esquerdismo: a irracionalidade e a impossibilidade em esclarecer positivamente as opções pessoais.

Tudo isso seria interessante, na sociedade portuguesa, conformando-se ainda como irrelevante, não se dera o caso de ser essa a mentalidade que prevaleceu nestes decénios.

Conhecer o percurso de EPC, como o de JCV ou de outros, como o já falecido e saudoso Fernando Assis Pacheco ou ainda de certos amigos ( que tenho como tal e que são de boa cepa) que aparecem por vezes em tertúlias no Incursões, ou na Margem Esquerda ( et pour cause) é perceber as razões do nosso estado presente , perante o passado recente.

Foram eles, enquanto dominadores da cena político-mediática que determinaram as políticas fundamentais para o nosso modo de viver actual.

Provavelmente, nem se dão conta disso mesmo, mas se Portugal fosse mais plural e não confinado nesse gueto de esquerda ideológico-afectiva em que permanece, o nosso modo de viver seria talvez melhor e mais democrático, no fim de contas.

Imagem: O Jornal de 12.5.1978

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Não sei em que medida

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Observatório 2008 - Hillary firme, Romney aproxima-se da frente

Mitt Romney: a aposta forte do ex-governador do Massachussets nos estados de arranque deverá dar-lhe a vitória nas primárias do Iowa. E se essa tendência se confirmar, atenção a este milionário bem parecido, mórmon e bem-falante, pois as suas hipóteses de retirar a liderança a Giuliani e Fred Thomspon serão reais...

São as últimas tendências na corrida para a Casa Branca, em Novembro de 2008:

-- Hillary Clinton mantém-se firme numa clara liderança da campanha democrata, com uma vantagem sobre Obama que oscila entre os 12 e os 20 pontos; Edwards teve um bom mês de Agosto e está a aproximar-se do segundo lugar, de tal forma que, nesta altura, nem se poderá falar tanto (como aconteceu nos últimos meses) de um duelo Hillary/Obama, mas de uma disputa entre o senador do Illinois e John Edwards pelo segundo lugar;

-- Edwards continua a disputar o Iowa e o New Hampshire e, no plano nacional, está a reduzir a desvantagem para Obama para 2 a 7 pontos;

-- Obama não consegue reaproximar-se de Hillary e estará a pagar a factura de algumas gaffes nas questões de política internacional. Continua bem colocado para disputar os primeiros estados, sobretudo a Carolina do Sul, onde lidera alguns estudos. Neste momento, será mesma a sua alternativa: apostar forte em bons resultados nos primeiros cinco estados, de modo a diminuir o impacto de estar tão longe de Hillary, nas contas nacionais. Terá ainda uma boa margem de crescimento no eleitorado negro e no Sul e continua a ser o campeão dos endorsments e da arrecadação de fundos. Continua, por isso, a ser o principal opositor a Hillary, mas não deve descurar Edwards, que lhe poderá retirar muito votos à esquerda, sobretudo nos sindicatos e nos jovens;

-- Al Gore adia a questão da candidatura e começa a vencer o cenário de que não vai mesmo avançar: a apenas quatro meses das primárias no Iowa, New Hamphire e Carolina do Sul, das duas uma -- ou surpreende tudo e todos e lança a candidatura em Setembro, ou já começa a ser tarde demais;

-- no campo republicano, reforça-se a ideia de que a vitória de Giuliani está longe de ser garantida. Fred Thompson ainda não declarou oficialmente a candidatura, mas, na prática, já está na luta e mantém o segundo lugar, a uma distância recuperável de Rudy (entre 4 a 9 pontos);

-- mas a grande sensação do Verão, no GOP, é mesmo Mitt Romney. Nos estudos nacionais, descolou de McCain e está destacado no terceiro lugar, com números muito, muito próximos dos de Thompson e não excessivamente longe de Giuliani (a cerca de 10 pontos). No Iowa, o antigo governador do Massachussets vence todas as sondagens e com um avanço considerável. Se mantiver o primeiro lugar no Iowa, pode ganhar um balanço importante, talvez mesmo suficiente para disputar a investidura;

-- John McCain recuperou ligeiramente, mas não dá mostras de poder sonhar com a nomeação. No Iowa, o estado de arranque (apesar da antecipação de calendário da Carolina do Sul, é de lei que o caucus naquele pequeno estado industrial terá que ser o primeiro), McCain reúne apenas 5 por cento das intenções de voto. Preocupante, no mínimo

ÚLTIMAS SONDAGENS:

Democratas
-- Hillary 36
-- Obama 21
-- Edwards 16
-- Richardson 7
-- Biden 4
-- Outros 4
-- Indecisos 12
(Fonte: American Research Group)

Republicanos
-- Giuliani 26
-- Thompson 18
-- Romney 16
-- McCain 10
-- Huckabee 6
-- Outros 6
-- Indecisos 18
(Fonte: Rasmussen Reports)

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Estou apaixonado



Via o senhor do Arrastão, que eu não conheço

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Segurança, precisa-se

Don Corleone é personagem de um livro de Mário Puzo, publicado em 1969 e que passou ao cinema, no início dos anos setenta, com o título sugestivo de O Padrinho.

Em 1984, o escritor publicou O Siciliano, sobre a vida breve de Salvatore Giuliano, um herói e bandido romântico que nos anos quarenta combateu diversas forças, incluindo o comunismo local e pretendia fazer da Sicília mais uma província dos EUA, no rescaldo da guerra. Depois de matar e mandar matar, morreu, por sua vez, ainda com menos de trinta anos, em 1950, atraiçoado pelos seus próximos.

No início dos anos oitenta, o clã de Corleone, cidade siciliana com o mesmo nome e com Totó Riina e Bernardo Provenzano à cabeça, começou uma guerra sangrenta de conquista de poder e influência, matando dezenas, centenas de rivais. O método Riina, para com as autoridades que o perseguiam por esses crimes, foi o puro terror. Homicídios escolhidos para infundir um medo extremo e de uma arrogância inaudita até então, conduziram ao assassinato, a tiro de metralhadora, do general Della Chiesa, tido como impoluto e que se destacara no combate ao terrorismo italiano dos anos de chumbo dos setenta.

O clã de Corleone foi apontado como o responsável e Totó Riina o seu mandante directo. Seguiu-se mais uma onde de violência extrema que desgostou um antigo mafioso, agora fugitivo: Tomasso Buscetta (falecido de morte natural em 2000). Este, decidiu colaborar com as autoridades, tornando-se pentito, arrependido, depois de uma tentativa de suicídio, na prisão. Conversou então, em 1988 e 89, longamente, com o juiz Giovanni Falcone, já encarregado de certos processos relacionados com a Máfia siciliana, em que lhe contou os segredos da Mafia da altura.

Numa entrevista de meados de 1992, já depois do homicídio de Falcone, ocorrido em 23 de Maio de 1992, numa explosão gigantesca que abriu uma cratera de vários metros, na autoestrada para Palermo, e que destruiu cinco carros e matou cinco pessoas, incluindo a mulher de Falcone e três guarda costas, Buscetta comentou [ entrevista publicada na revista brasileira IstoÉ, de 12.8.1992]:

Hoje [um jovem que entra na Máfia] pode ser atraído por ganhos fáceis, mas nos meus tempos era atraído pelo respeito que podia receber das outras pessoas porque se tornava o rei do lugar. Era considerado um homem de honra.”

A Cosa nostra é única, não tem imitações porque ninguém consegue imitá-la. A máfia espera, a máfia não tem pressa. A máfia condenou certa vez à morte, uma pessoa que saía sempre á rua com um menino, seu filho. Eu devia atirar. Ele estava sempre acompanhado do filho e eu não podia assustar a criança. Se o fizesse, os meus colegas poderiam dizer: “Você fez mal, assustou o menino!” E então esperamos doze anos. Depois de 12 anos…não fui eu…mas esperamos que o menino crescesse.
-O sr. atirou?
- Sim.
- Naquele momento o sr. se considerava um justiceiro ou um assassino?
- Eu me considerava alguém que devia cumprir o seu dever. Estava fazendo o que era justo e o que devia ser feito. Não era o juiz, claro. Estava fazendo o que tinham ordenado que eu fizesse. “

Esta pequena história, ainda não tem epílogo. Nestes últimos anos, Riina foi preso (em Janeiro de 1993); Provenzano também, ( só no ano passado) e quase toda a estrutura organizada da Cosa Nostra, o foi no devido tempo, porque todos os chefes e pequenos chefes foram sendo substituidos. A guerra foi ganha pela ordem estabelecida pelo Estado? Nem por isso.

Nada disso impediu a Mafia italiana de prosperar, nem evitou a recente onda de assassínios que ocorreram na região calabresa. A Mafia mudou apenas de poiso.

Segundo os jornais italianos, a mafia calabresa, a NDrangheta, uma designação derivada da noção de homem de valor e coragem, tomou conta dos negócios da droga e de armas, anteriormente e até aos anos oitenta, nas mãos dos sicilianos da Cosa Nostra.

A Ndrangheta, com poucas excepções ( o juiz Scopelliti e um deputado democrata cristão, António Ligato) nunca cometeu o erro de começar a matar personalidades públicas, como o fez a Cosa Nostra, aparecendo assim como a “irmã menor” da família criminosa mafiosa. Hoje, o polvo calabrês, é o que estende mais os tentáculos, por ser o maior.

O que mudou a essência e a estrutura criminosa da Mafia, foi a droga e os seus lucros elevados.

Aqui, em Portugal, as drogas, incluindo as sintéticas, são um negócio que dá lucros, também elevados. As apreensões de mercadoria, pelas polícias, ocorrem na maior parte das vezes, em situação de trânsito, para outros países. Não tem havido incursões nos circuitos internos mais escondidos.

Na chamada noite, em todas as cidades de Portugal, proliferam os lugares de diverso tipo e modo de estar, junto a um balcão de bebidas. São os bares, de alterne ou de convívio; de prostituição ou de mero engate e ainda de acesso reservado ou franqueado a quem o deseja.

A gravitar, neste mundo da noite, apareceram há alguns anos atrás, uns maduros de recorte e sem profissão definida que se foram agregando em empresas de segurança, algumas delas profissionalizadas, outras nem tanto.

A primeira vez que esta fauna da noite, mostrou o seu lado obscuro, de modo literalmente explosivo, foi em Amarante, numa discoteca de Mea Culpa. O balanço trágico, levou directamente à regulamentação legal dos grupos.

Mesmo assim, algum tempo depois, outro acontecimento trágico, levou a morte à própria polícia de investigação, na mesma zona deste norte de Portugal, com uma violência inusitada.

Depois disso, falou-se em mafias de leste e em banditagem de alto coturno que anda por aí à solta, a praticar realisticamente, car jacking, o que apenas se via, até então, em jogos virtuais para a play station.

Em tempos mais recentes, alguma da fauna da noite que se ocupa da segurança, foi inequivocamente associada, no Porto, pelo menos, a um clube de futebol e à sua claque que se borrifa para os apitos dourados. Os seus elementos de segurança privada, fizeram gala de aparecer publica e impudicamente a afrontar os seguranças do Estado que lograram deter e ouvir um dos seus mais dilectos heróis. Este aceitou e não se demarcou da segurança oficiosa, aparecendo bem na sua pele.

Agora, com estes “quatro assassínios na noite do Porto”, como titula hoje o Público, já não parece haver qualquer dúvida: a noite do Porto, está entregue aos seguranças. Um deles, segurança na discoteca River Caffé, foi assassinado e o River Caffé há anos que deveria estar encerrado. O motivo para a demora administrativa, tem a ver com uma circunstância prosaica: o desconhecimento do paradeiro dos proprietários.

Protejam-se.

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Humor

O Laboraório Inglês que está a analisar o sangue do caso Madeleine Mccann detectou uma célula da ETA.

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As elites fidalgas

Rei morto, rei posto. Vasco Graça Moura, sucede a EPC, como rémora do politicamente correcto, na perspectiva situacionista de quem pretende conservar o que tem de seu. Compreende-se e… quem pode levar a mal?

Só mesmo aqueles que têm o mesmo direito de beneficiar das prebendas e privilégios de um Estado que é mesmo de todos.

É por isso que tem lógica completa, este motete sem música, pilhado aqui.

Pois se é

A mama que faz o fidalgo

acima dos outros fulanos,

democratize-se a chupeta

deixem-nos chupar na têta

que logo fidalgos ficamos

O artigo de VGM sobre as elites do PSD, hoje no D.N., não passa de uma pilhéria. Um escrito de silly season. Se as deixasse no limbo, ainda escapavam ao ridículo. Assim, obrigam-nos a lembrar quem tivemos no tempo das vacas gordas do cavaquismo, a orientar o destino da Pátria e olhar para o país que nos deixaram.

Se forem essas, as elites que agora se reclamam, será caso para repensar o conceito de elite. Vasco Graça Moura, até cita dois dicionários para lhe captar o sentido exacto. “ Os melhores e mais notáveis”. Ora bem. Quem são eles, afinal?

Quem definiu as bases para a educação nacional que temos? As elites do PSD. Quem definiu as prioridades de investimento público, nos anos a seguir ao maná da CEE? As elites do PSD. Quem privatizou empresas, entregando o que o Estado socialista pilhara, aos mesmos de sempre e que estavam já velhos de saber olhar apenas para si mesmos?

Foram as elites do PSD.

Quem moldou o Estado a que chegamos, nestes últimos vinte e cinco anos? As elites do PSD.

Claro que nestas elites, se encontram em amálgama natural, as elites do PS. Tão poucas eram que foram cooptadas de modo consensual.

Destas elites, dispensamos todos as respectivas benemerências. Todos, não. Vasco Graça Moura e uns tantos, precisam delas como de pão para a boca. Literalmente.

Publicado por josé 13:11:00 3 comentários Links para este post  



Setembro antecipado


«Manhãs de Setembro,
aragem fresca
construindo sonhos,
teias de gotas
enfeitando os matos,
perfume verde
a seguir meus passos,
lírios roxos
ponteando as margens
do fio de água
que escorre manso.
E tu E eu!
E a erva tombada
pelos corpos,
os lírios violados
na paixão.
E o céu!
Esse céu azul
sem limite.
O nosso limite.
A nossa eternidade»

«Manhãs de Setembro», Helena Guimarães

Agosto, na prática, já se despediu, nestes dias cinzentos a antecipar o fim de um Verão estranhíssimo. Que venha, pois, Setembro, o mês das reconciliações.

Publicado por André 14:58:00 2 comentários Links para este post  



Não há mais eduardinos

Morreu Eduardo Prado Coelho. Estranha notícia esta, depois de ter lido há minutos a crónica que ontem publicou no Público. Como habitualmente, lia-o de modo enviesado, porque sabia já o que dali viria: uma visão do mundo que não partilhava e uma pertinácia na defesa da ortodoxia correctamente política. Primeiro na esquerda comunista, nos anos setenta e depois, gradualmente, na esquerda afectivamente identitária, Eduardo chegou a ser Eduardo P.C. Actualmente, afinava mais pela opinião PS.

Prado Coelho, filho de professor com mesmo apelido, mereceu a atenção, desde muito novo, da inteligentsia pátria, ao ponto de lhe profetizarem um grande futuro entre a intelectualidade lusa. Afinal, a profecia, quedou-se na vertente intelectual de leitor e cronista menor, por vezes polémico, quase sempre alinhado por um poder situado à esquerda, jacobino, moderado na intervenção social e avesso ao liberalismo económico. Nunca foi Sollers nem sequer Paolo Flores D´Arcais. Derreou-se em Derrida e divulgou filósofos franceses com a linguística à ilharga.

Prado Coelho, suscitava em muitos escritos, uma repontice a puxar polémica e isso aconteceu por vezes, com virulência escrita nas respostas.
Com a morte, acabam as crónicas e já tenho saudades de lhes põr os olhos em cima, mesmo enviesados e que me sabiam a piratas eduardinos, engolidos de um trago.
Paz à sua alma e que encontre o Criador em Quem aparentemente, não acreditava.

Publicado por josé 13:31:00 11 comentários Links para este post  



Minas e armadilhas e mais eufemismos

JPP, no blog Abrupto, escreveu isto, sobre o caso Somague/PSD:

Numa primeira fase pareceu-me que no PSD se estava a responder bem ao "caso Somague", mas agora já não estou certo disso, em particular no que diz respeito aos responsáveis pelo partido na altura. Pode-se perceber a tentativa indirecta de atirar as culpas a José Luís Vieira de Castro, tanto mais sabendo que ele não se pode defender. Mas José Luís Vieira de Castro tem amigos que o conhecem bem, que o acompanharam no exercício de funções no PSD e no Governo, e esses amigos, entre os quais me conto, podem falar por ele. E aqui fica a minha fala para dizer que ele como governante nunca, repito nunca, faria um favor em troca de um financiamento partidário. E digo isto, entre outras coisas, porque ele muitas vezes discutiu comigo esses problemas enquanto era Secretário de Estado e muitas vezes me disse como tudo estava "armadilhado", (não só estava, como tinha recebido tudo "armadilhado" do governo anterior do PS) e como o único processo que encontrava para não se deixar envolver era enviar os processos de que desconfiava à Procuradoria e nunca decidir de forma diferente do que resultasse do seu parecer . Foi o que fez no processo da Somague, como em muitos outros. Uma análise à sua acção como Secretário de Estado revelará com clareza esse modus operandi, e não se lhe conhece decisão contrária aos pareceres que recebeu. Não é por aí que chegam lá.

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Barbas de molho

Este caso Somague/PSD, de 2002, com factos suficientes para se poder afirmar que houve financiamento ilegal de um partido político, em termos criminais, pode ser um nado-morto. Adiantará investigar criminalmente estes factos? São de há cinco anos atrás e poderão indiciar, digo indiciar, crimes tão imponderáveis como o de corrupção, tráfico de influências ( apenas criminalizado em 1995) ou até, numa abordagem esotericamente alcaponiana, o de falsificação de documentos (!), o que, atentos os cinco anos da praxe da prescrição do artº 118º C.P. já estará prescrito, se o documento for o mero documento contabilístico.
Tendo em consideração o actual standard de investigação criminal atingido pelo DCIAP e cujo melhor exemplo recente é o caso estranho da falsificação de um diploma universitário, será caso para se ponderar e profetizar desde já, mais um falhanço rotundo, perante os métodos conhecidos de pedir documentos, em vez de os procurar; de ouvir pela rama quem sabe pouco e nem sequer esgravatar um pouco mais para confirmar ou infirmar suspeitas legítimas e generalizadas.
O anúncio grandiloquente de instauração de inquéritos, um dia destes, ainda dará vontade de rir, se é que não é esse, já, o sentimento generalizado de quem está já habituado a ver resultados nulos, perante expectativas tão anunciadamente prometedoras.

Mais a mais, a percepção geral da comunidade é que este tipo de comportamentos dos partidos políticos, é tão vulgar como a aceitação de ofertas sem contrapartidas. Como é que alguns políticos que sempre viveram do que o Orçamento lhes pagava legalmente, conseguiram casas, mais casas secundáras, carros, quadros, fundações, viagens para todo o lado e ainda assim, andam por aí como autênticos beneméritos da Nação?

A hipocrisia do PS ( vidè Vital Moreira) e dos outros partidos, neste caso singular, tem uma vantagem: no futuro, serão lembrados destas atitudes moralistas, que só se aguentam por um período de tempo limitado e enquanto as barbas nem estão de molho.
Ponham-nas!

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Não é assim tão complicado

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Por uma vez...

Olha! Estou de acordo com Vital Moreira.

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E o Óscar de Melhor Notícia do Verão Vai Para....

Blogue "pessoal" de Menezes é feito por assessor


O blogue de Luís Filipe Menezes é feito por um dos seus assessores, afirmou ontem ao PÚBLICO António da Cunha Vaz — da agência de comunicação que foi contratada para fazer a campanha do autarca de Gaia para a liderança do PSD —, a propósito da notícia do PÚBLICO que revela que o presidente da Câmara copiou, sem referir a fonte, artigos nomeadamente da Wikipédia sobre Michelangelo Antonioni, Bergman, sobre Hiroshima e sobre Miguel Torga. Continua

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Mais eufemismos

Esta história dos eufémicos que avançam sobre milheirais, para destruir simbolismos, tem o seu quê de romântico no imaginário da esquerda. Actualmente, a luta continua contra a globalização, com bandeira comum com o partido comunista. O Bloco de Esquerda, apoia, naturalmente. Ou não fosse o trotskismo aggiornato, um rebento da mesma árvore.
Em 1975, durante o nosso PREC, a luta era mais avançada e de punho erguido, contra a burguesia e a exploração capitalista.
Em Março desse ano, a revista Flama, dirigida por António dos Reis e Edite Soeiro e redigida por Carlos Cascais, António Amorim, Regina Louro e outros, dedicava uma boa parte dos seus números a lidar com os fenómenos do PREC que apoiava sem reservas editoriais. Um desses fenómenos, era o do activismo político de partidos e movimentos da extrema-esquerda revolucionária que nos anos oitenta, viria a desembocar directamente nas FP25, com o historial trágico que se conhece.
Em 7 Março de 1975, ainda antes das nacionalizações, a Flama dava conta do congresso da LUAR, ( Liga de União e Acção Revolucionária) um desses partidos que se propunham criar o poder popular, contra os partidos porque era "no seio dos trabalhadores que terá de forjar-se a unidade capaz de levar á revolução socialista".
Por isso mesmo, no congresso de Março de 1975, os dois únicos partidos que então enviaram mensagens aos congressistas da LUAR e que eram o PCP(m.l.) e a AOC, foram...vaiados. "O telegrama do primeiro foi pateado e assobiado; a leitura do segundo foi simplesmente recusada pela plateia", escreve a repórter da Flama, Regina Louro.
A LUAR era de tal modo uma força política implantada no seio do povo que nessa mesma semana, na Cova da Piedade, assaltou ( a Flama coloca aspas no verbo), um palacete privado, com dono conhecido, e transformou o imóvel de um momento para o outro, num Hospital do Povo. "É a isto que nós chamamos Revolução", disse então Palma Inácio, um dos mentores do assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, alguns anos antes, durante o salazarismo...para recolha de fundos para os revolucionários.

A violência da escrita contra a actuação dos eufémicos, pela actuação política, com recurso a delitos comuns ( ainda) sem grande gravidade objectiva, concentra-se em duas personagens políticas que viveram o PREC de modo distinto: o primeiro, José Pacheco Pereira, consta que terá sido no seio do povo e de um partido revolucionário.
Outro, Vasco Graça Moura, fez parte do IV Governo de Vasco Gonçalves ( embora sendo do PPD), como secretário de Estado da Segurança Social e que tomou posse no fim do mês de Março desse ano de 1975 durando até ao mês de Agosto desse Verão Quente.
É possível que estes acontecimentos, por motivos diferentes, despoletem memórias e acicatem a reacção destemperada desses cronistas e que provoca perplexidade a quem os lê.
Assim, para refresco da memória, aqui ficam imagens da época, dos percursores dos eufémicos, os antigos revolucionários e que queriam mesmo um poder popular, contra a burguesia e o capitalismo e que nessa altura enchiam completamente um Coliseu dos Recreios, de punho no ar e palavras de ordem revolucionárias. O revolucionário Camilo Mortágua, afirmava na altura que "se as condições o exigirem, se o contexto actual se modificar, estamos dispostos a repetir de novo a recuperação de fundos, para que sejam os capitalistas a financiar o esforço da revolução operária neste País.". Como é sabido, as condições mudaram e houve efectivamente o exercício dessa actividade de "recuperação de fundos". Os assaltos a bancos, efectuados pelas FP´s 25, anos depois, são a prova disso mesmo.
Resta saber, quem, hoje em dia, subscreve estas palavras. Porque há quem nada tenha esquecido e pouco tenha aprendido. Estão calados, mas não convencidos.


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Eufemismos

Vasco Graça Moura, eurodeputado por obra e graça do PSD, de há muitos anos a esta parte, o que lhe permite o magnífico tempo ( e réditos) disponível para traduzir obras de autores clássicos, escreve hoje no Público, denunciando uma ocorrência gravíssima que coloca em crise as instituições democráticas e exige a intervenção imediata do PR e a queda do Governo, já a seguir.

A questão dramática para tanta catástrofe, é a “destruição deliberada, organizada e selvática de um campo de milho transgénico por umas dezenas de malfeitores, à luz do dia e nas barbas de uma GNR vergonhosamente inoperante”. Tal malfeitoria, para VGM, assume foros de ser um dos “maiores escândalos criminais e políticos dos últimos tempos”. Será?

A TSF de hoje, noticia o seguinte:

O PSD violou a Lei do Financiamento dos Partidos, incorrendo em ilegalidades objectivas. O Tribunal Constitucional deu como provado o financiamento ilegal do Partido Social-Democrata em 2002.
Em causa está uma prestação de serviços da empresa Novodesign ao PSD que foi facturada em nome da Somague SA. Os inspectores encontraram uma factura emitida à construtora Somague SA, com data de 15 de Março de 2002, com o valor de 233415 euros.

Entre a ilegalidade que Moura reclama como sendo das mais graves a que assistimos nos tempos recentes, reclamando por isso a demissão do governo e a que agora se noticia, há uma diferença de grau: a malfeitoria dos eufémicos provocou um prejuízo a um particular, na ordem dos 4000 euros, já estimados pelo ministro da Agricultura em directo. O crime eventualmente cometido pelos malfeitores é o de dano. Simplesmente. Um crime de natureza semi-pública, que por isso depende de queixa do ofendido para que possa existir o procedimento criminal.

Em termos estritamente formais, nem sequer a actuação da GNR pode ser posta em causa: limitaram-se a identificar participantes na acção testemunhada para eventual prova. Se o ofendido não apresentar queixa ou dela desistir, nem há processo.Houve alteração da ordem pública? Onde? No campo de milho?!

A crítica de Moura( e outros), estende-se depois à apreciação da actuação da GNR. Sobre isso, dispensam-se comentários, tendo em conta o desconhecimento de Moura ( e outros) sobre a legitimidade de intervenção da GNR. A única justificação que Moura ( e outros) apresenta é a de que a GNR deve proteger a propriedade (privada). Deve? Sempre? E se o ofendido ( privado) não quiser, deve presumi-lo?

A questão que Moura ( e outros) apresenta, coloca-se assim com outros contornos que não os aparentes: os malfeitores, canalha para outros, são a encarnação do mal dissolvente da esquerda remanescente dos tempos do PREC. O ministro da Agricultura já nomeou o Bloco como a esquerda responsável pela malfeitoria. O responsável pelo Bloco, já respondeu a exigir responsabilidade pela malfeitoria da mentira que tal representa. A trica segue dentro de dias e portanto, o crime passou a ser de natureza política e capaz de abalar os fundamentos do Estado de Direito.

Quanto ao financiamento do PSD pela Somague, denunciado como ilegal pelo tribunal constitucional, não valerá mais do que umas linhas dispersas pelos órgãos de informação. Afinal, trata-se de uma infracção que nem sequer merece o tratamento como crime e de político pouco terá, porque a empresa Somague nada tem a ver com a política e o PSD nem está no governo e na AR não se nota.

Aliás, como todos sabem, o financiamento ilegal dos partidos, do PSD ao BE, é assunto que tem merecido atenção apenas dos maledicentes habituais, os quais, teimam em insistir que uma boa parte da corrupção existente no país, começa logo aí, nessa promiscuidade entre interesses privados e decisões públicas dos partidos de poder, para além da troca de favores que justificam obras a mais e a engorda de contas de uns tantos desconhecidos.

Que é isso, comparado com os 4000 euros de prejuízo, causado por uns vândalos agremiados em associações verdejantes de indignação contra a globalização?

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A superiodidade moral dos comunistas

“(…)a esmagadora maioria dos jornalistas, comentadores e analistas que se pronunciam sobre as posições dos comunistas portugueses(…)falam de Marx e Lenine, mas aparentemente nunca os leram. Quanto mais estudarem-nos.

(…) Não aderi à “revolução semântica dos conservadores e neoconservadores. Nos anos oitenta do séc. XX, revolucionaram, com sucesso, a terminologia política e económica. O capitalismo passou a ser designado como “economia de mercado”. Mais recentemente, trocaram o imperialismo por “globalização”. Só que um homem é um homem e um bicho é um bicho.

Tal e qual, estas citações do último artigo de António Vilarigues,Especialista em sistemas de Comunicação e informação” ( mais um eufemismo para a conhecida palavra propaganda?) no Público de hoje, são um tratado em si mesmas. Um tratado condensado e explicativo da enorme contradição que o comunismo encerra em si mesmo, hoje em dia.

Vilarigues, coloca-se sempre no plano superior das ideias progressistas, herdadas dos velhos mestres que cita com a propriedade intelectual que denega aos ignorantes atrevidos que os citam sem os ler.

A contradição de Vilarigues e dos comunistas em geral, é simples de entender:

As ideias veiculadas por Marx e Lenine, foram efectivamente aplicadas em países concretos e reais. Durante mais de 70 anos, milhões de pessoas, foram sujeitas às receitas políticas e seguiram a nova ideologia libertadora dos povos que fatalmente os conduziria à felicidade da igualdade, com a subjugação da burguesia à giena destinada aos opressores. Durante bem mais do que meio século, milhões e milhões, em terras férteis e de recursos naturais suficientes,com recursos humanos nada despiciendos, tiveram condições de aplicação dos princípios de organização económica e social, delineados pelos teórico-práticos do marxismo-leninismo.

No fim de contas, nesses países, como é que esses milhões de pessoas, reagiram quando tiveram oportunidade de reagir e o tempo amadureceu para possibilitar as escolhas livres? Escolheram precisamente o oposto daquilo que lhes diziam ser a receita para a felicidade neste mundo. Livremente o fizeram e em condições que nunca tinham usufruido em mais de meio século de opressão comunista ( a palavra é adequada e nem sequer tem comparação com a opressão "fascista" nos países ibéricos, porque foi mais intensa, sistemática e eficiente nos objectivos imediatos, conduzindo à morte de milhões e milhões de pessoas e não, como por cá aconteceu, relativamente a meia dúzia de opositores recalcitrantes).

Vilarigues que responda e que aprenda, sem os laivos de alguma arrogância que perpassam nos seus escritos sectários. Desconfio que nada aprenderá porque nada esqueceu. As antigas bandeiras contra a burguesia, continuam desfraldadas, bem visíveis em lugares selectos como os lugares de reunião dos partidários do comunismo.

Em revistas como O Militante, insigne órgão de propaganda da ideologia comunista, em pleno séc. XXI, o Partido comunista português continua a defender as ideias do anos quarenta, aggiornatas com a análise crítica à semântica revolucionária dos conservadores. Durante mais de trinta anos, testemunhados pelo arquivo da revista, o comunismo português não evoluiu um centímetro ideológico para a modernidade de aceitação de outra ideia que não a antiga e inabalável crença da luta contra a burguesia e do capitalismo imperialista, agora travestido em globalização, com as receitas de sempre: nacionalização e colectivização dos meios de produção e centralização das funções do Estado, numa organização dirigida por um Comité Central, de iluminados que conduzirão o povo à vitória final sobre a burguesia opressora.

A análise teórica é a mesma; a análise sequencial continua a funcionar no mesmo registo de onda e a chamada cassete, é agora utilizada por Vilarigues, como antes por Cunhal e outros Bernardinos. Vilarigues é o actual intelectual do PCP. Jerónimo de Sousa, por carência de tempo e feitio, não pode preencher esse papel importante de difusor e guardião da chama teórica, porque representa a imagem de marca do partido: a do militante operário que alcançou o posto máximo de dirigente de um colectivo de trabalhadores. Jerónimo, como muitos outros, de operário, deve ter as memórias de há trinta anos...

No entanto, o problema essencial, central, fulcral, para a sociedade actual, de todas as latitudes, e incontornável até para os comunistas, é simples de entender e qualquer comunista que viva numa sociedade actual e ocidental o percebe muito bem, embora se recuse a admiti-lo em nome de um idealismo utópico que perdura no tempo: como produzir bens e serviços, para todos ou para a maioria, a um preço acessível a todos ou à maioria, com qualidade desejada por todos e em condições de equilíbrio para o nosso eco-sistema planetário?

Qual o sistema de produção, actual, que garante a melhor qualidade, com o melhor custo e com a maior satisfação pessoal e colectiva? Entre dois sistemas existentes – o capitalismo e o socialismo- há nuances significativas que matizam os sistemas práticos que existem nos países, incluindo o nosso.

O capitalismo e a ideologia liberal, como matriz ideológica da democracia de tipo ocidental, ao fim de decénios impôs-se mundialmente como o sistema dominante, ao ponto de o teórico Fukuyama ter alvitrado o fim da História. Todos os países europeus, afinam actualmente pelo mesmo diapasão desses princípios. A social democracia e o socialismo democrático incorporaram nos seus programas, regras típicas do modo de produção capitalista e que as orientam para a essência desse modelo, embora com laivos de protecção social mais aproximada aos sistemas colectivistas. Mas não foram esses sistemas quem ensinou o capitalismo a sua moderação, mas o próprio evoluir no tempo que obrigou a concessões de justiça socia, para o chamado Estado de bem estar social.

Mas o capitalismo praticado na China de hoje e o praticado nos USA ou o praticado em Portugal, difere em questões de pormenor significativo. A essência, contudo, mantém-se: a reserva da propriedade privada dos meios de produção e a existência de acumulação de capital que conduz a uma monopolização crescente, perigo que o próprio sistema prevê, como susceptível de o paralisar e por isso monitoriza de modo incomprrensível para um comunista.

Vilarigues reclama que os críticos do comunismo, nunca leram bem Marx ou Lenine, mas fica a dúvida se ele mesmo leu alguma vez Von Mises, por exemplo. Ou outros defensores do liberalismo que se opõe ao comunismo e colectivismo.

O socialismo, com o seu sistema colectivista, alguma vez permitiu esses desideratos que o sistema concorrente propõe e garante de modo mais ou menos aceitável na maior parte dos países do mundo? Onde, como e quando?

É a estas perguntas que Vilarigues deveria dar respostas concretas, em vez de tergiversar sobre os “atrevimentos da ignorância” daqueles que desvalorizam a ideologia comunista, como um falhanço rotundo, completo e definitivo.

Quando Vilarigues quiser falar de ignorância e atrevimento, lembre-se de Cuba e do regime cubano e da Coreia do Norte e do seu regime particular, dois case study interessantes para debater todas estas questões. É claro que este repto, não tem qualquer eco relevante na mente de Vilarigues, porque Cuba e a Coreia do Norte, serão sempre exemplos de regimes onde a diginidade de todo o Homem se afirma e pratica. Torna-se por isso inútil esta discussão.

Nem mesmo valerá a pena a discussão subsequente sobre os futuro de amanhãs a cantar que vigoraram durante décadas nos países do leste europeu. Quanto a estes, de nada adiantará chamar a atenção de Vilarigues e Bernardinos para procurarem saber que grau de aceitação ainda terão, por lá, entre o povo em geral que agora vota livre e universalmente, as ideologias e receitas que por cá continuam a defender como certas e infalíveis para um mundo melhor…

A verdadeira diferença que os mesmos nunca reconhecerão, entre os sistemas, reside também num facto prosaico: nesses regimes que ainda defendem depois de term caído fragorosa e irremediavelmente nos anos oitenta, estas discussões não eram possíveis, porque o grau de censura imposta pelo comité central em nome de todo o povo, eximia os curiosos de mencionarem publicamente as suas divergências.

Por cá, ainda pode ser feita. Isso, os Vilarigues, Bernardinos e Jerónimos, nunca reconhecerão. Preferem apodar de arrogantes quem deles discorda.

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Altos funcionários

No tempo do PGR Cunha Rodrigues, calhou como director da PJ, o agora conhecido Fernando Negrão, então juiz requisitado em comissão de serviço para a tarefa de orientar a principal polícia de investigação portuguesa.

Cunha Rodrigues era, na PGR, aquilo que se convencionou imaginar como “um senhor”, um condottiere da imagem de uma procuradoria da República, algo pindérica e desajustada da imagem do seu líder máximo. Como exemplo máximo a apontar, pode elencar-se a suprema vergonha de, paredes meias com o gabinete do senhor PGR, vicejar um foco de corrupção potencial que deu em condenação criminal, por delito comum, de burla e outras malfeitorias que o anterior senhor PGR, eventualmente desvalorizava e se limitava a apreciar com uns meros reparos de circunstãncia tipo “ então, snrª drª, está tudo bem consigo?”, ou coisa que o valha, segundo rezaram as crónicas de jornal ao tempo do escândalo. A este, o senhor PGR da época, sobreviveu e ultrapassou, sem mácula e sem consequência, como se nada tivesse a ver com a sua excelsa personagem de recorte florentino. O ridículo não mata toda a gente, mas apenas aqueles que se dão ares. E um inteligente nunca se dá ares de coisa nenhuma.

Numa entrevista deliciosíssima ( todas as entrevistas do antigo PGR Cunha Rodrigues são dignas de leitura atenta), em 6.5.1993, ao Público, C.R. afirmava sem qualquer rebuço que “A polícia deve obedecer à magistratura”.

Laborinho Lúcio, ministro da Justiça, em 28.10.1994, por ocasião da nova lei de combate à corrupção, numa entrevista ao mesmo Público, enviava recados a Cunha Rodrigues, no sentido de o mesmo se conformar com os meios que até aí reclamava para combater o flagelo da corrupção.

Em Dezembro de 1994, houve um encontro celebrizado entre o então director da PJ, o juiz Mário Mendes e o PGR Cunha Rodrigues, para afinar estratégias de combate à mesma corrupção. Os resultados, passados estes anos todos, são amplamente conhecidos: quase zero.

Em Outubro de 1998, em pleno governo guterrista, um general, Garcia dos Santos, e um líder da CIP, avisavam através de apito, nos media, do problema grave de corrupção na JAE. Cunha Rodrigues, ouviu o apito e mandou seguir o comboio, sem inspeccionar devidamente as carruagens, por falta de inspectores a sério.

Em 1999, o director da PJ, o tal Fernando Negrão, afrontou directamente e sem temor, o senhor PGR Cunha Rodrigues, que com o seu ar florentino lhe respondeu em directo pelas televisões que não respondia a observações de “altos funcionários”, reduzindo-o logo ali, ao lugar de director geral que verdadeiramente é o do director da Polícia Judiciária.

O confronto prosseguiu, conduzindo directamente a uma participação crime, apresentada contra Negrão pelo senhor PGR Cunha Rodrigues, a propósito de uma evidente violação de segredo de justiça, apanhada numa transcrição telefónica anulada postreriormente em decisão superior, por invalidade formal. Ficou porém à vista que Fernando Negrão enquanto director nacional de uma polícia de investigação, anunciou antecipadamente uma busca policial e ficou impune por isso.

Em Março de 1999, Negrão conseguiu polarizar uma guerra institucional entre a PGR do senhor PGR Cunha Rodrigues e uma fronda de juízes empenhados em alterar o figurino da investigação criminal, em Portugal. Um desses juízes, Antero Luís, ( o do abraço da foto supra), é actualmente o número um do SIS , neste governo PS.

O juiz Orlando Afonso, moderado e sensato, mas presidente, à época, da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, tomou partido nessa guerra contra o senhor PGR Cunha Rodrigues: “A PJ não pode ser uma polícia privativa do MP”, disse então, congregando o sentimento de muitos outros. Neste cenário e conforme o Público de 27 de Março de 1999, o senhor PGR Cunha Rodrigues, declarou não querer comentar…apesar de escrever ao Público a lamentar a desinformação do jornal em assuntos particulares e de relevância judiciária. Às acusações de “maquiavelismo e hipocrisia”, o senhor PGR Cunha Rodrigues respondeu então com uma elegância actualmente desconhecida de muitos actores políticos: limitou-se a escrever que essas não eram características da sua personalidade ou do seu carácter. Mais uma vez, um senhor da renascença italiana.

Fernando Negrão acabou por se demitir, regressou aos tribunais como juiz de círculo, e numa das suas primeiras decisões, enquanto juiz, a propósito de caso de tráfico de droga, teceu duras críticas aos investigadores que antes orientara, na PJ. Exemplar.

Sobre o percurso de Negrão, está á vista: política, PSD, deputado, candidato à CML. Antes juiz de direito, actualmente político a tempo inteiro, sem grande sucesso ou relevância, após a passagem pela polícia.

Tudo isto vem a propósito do conflito aberto e institucionalmente objectivo que estalou agora entre o senhor PGR Pinto Monteiro e o director da PJ, Alípio Ribeiro.

Alípio Ribeiro, um magistrado do MP, culto, inteligente e com savoir-faire, amigo pessoal do actual ministro da Justiça, declarou que não concorda com o facto de o actual senhor PGR, ter mandado abrir um inquérito à denúncia possivelmente anónima, relativa a factos que envolvem mais uma vez, gente do futebol e magistrados e polícias que a investigaram.

Alípio Ribeiro, declarou frontalmente , ressalvando o devido respeito ao senhor PGR, que tal “não se justifica”.

Provavelmente, Alípio Ribeiro terá razão. No que pode muito bem não ter, é no modo de o exprimir.

Um director de polícia, “alto funcionário”, como lembrava o senhor PGR Cunha Rodrigues, não deve falar publicamente, sobre o que o PGR decide ou não fazer.

A questão será sempre institucional, mesmo que aparentemente pudesse ser pessoal, como o terá eventualmente sido no caso de Negrão e Cunha Rodrigues.

O estilo de Alípio Ribeiro não é obviamente o de Negrão, como também o estilo de Pinto Monteiro não é o de Cunha Rodrigues. O estilo é o homem, já lá dizia o outro.

Espera-se que Alípio Ribeiro tenha pensado bem neste estilo de intervenção institucional, porque as circunstâncias mudaram em dez anos, mas não mudou a essências e modo se ser das pessoas e a natureza das instituições.

A atitude do director da PJ é neste caso, em tudo semelhante à atitude de Fernando Negrão, com a diferença, irrelevante no caso, de ser ainda mais frontal e transparente: a discordância objectiva, torna também objectivo o conflito entre duas instituições que não devem conflituar publicamente.

Imagem, do Público de 27 Março de 1999.


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Agora que o tempo abriu - bom fim de semana

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A crítica aos críticos continua

Quem quiser ler uma verdadeira crónica de costumes do tempo de Elvis Presley, com música à mistura e de um modo que deveria ser o habitual em papel de jornal dedicado aos sons populares, leia este excerto, tirado desta incursão no tempo de há cinquenta anos:

(...)Tudo isto porque, subitamente, descubro que Elvis Presley morreu há 30 anos. Isto das efemérides tem muito que se lhe diga. Em boa verdade, Elvis, morrera muito antes, dez, doze, quinze anos antes. De facto, em 62 ou 65, como queiram ele já criara todas as belíssimas canções que conhecemos. E que canções! Dispenso-me de fornecer aqui essa longa e gozosa litania porque Elvis tinha o toque de Midas. Vivi esses anos atormentado. Encantavam-me aquelas canções ( e não só as dele. Os meus últimos anos de liceu foram preenchidos por Bill Haley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Chuck Berry, Fat’s Domino, eddie Crochram, Platters, four Tops, Buddy Holly e dois cavalheiros estranhos a este universo, ou não tanto: Harry Belafonte e Nat King Cole. Desculpem a lista mas eu tinha esta dívida por pagar. A eles, aos meus amigos e à minha juventude). entretanto diziam-me, um bom revolucionário não liga a essas ninharias, a música americana e particularmente o rock é um produto do capitalismo e destina-se a fazer esquecer a consciência de classe, a urgencia da revolução e mais um par de patacoadas do mesmo género. Daí o meu desconcerto.
Os discos ainda eram em 45 rotações, lado A (o bom) lado B (assim, assim). E nem todos traziam duas canções em cada lado. No Colégio dos Carvalhos, uma prisão educacional igual a outras tantas, um dos nossos colegas tinha um gira-discos (um luxo) e não passava uma semana sem comprar um disco, às vezes dois (uma blasfémia capitalista num tempo em que o dinheiro estava contado para o tabaco, o cinema de domingo e pouco mais). Chamávamos-lhe o “Discóbulo”, num misto de inveja e espanto. Ele não se importava mas antes de dar a ouvir a preciosidade comprada, ouvia-a sozinho um par de vezes, para a decorar. Estava no seu direito de pernada. Ao fim e ao cabo fora ele que ardera com os cacaus para comprar mais esse disco.
Cinquenta anos depois, vejo-o distintamente, o Discóbulo, alourado, cara de pássaro, cabelo cuidadosamente abrilhantinhado e ligeiramente comprido a imitar sei lá que cantor.
Mas tudo isto vem a propósito do maior, do King, de Elvis. Deixemo-nos de coisas. O homem mudou, não o mundo, mas isso ninguém muda, mas muito, muito do que éramos, aqui, à beira mar plantados, pasmados, fartos de Fado de futebol e de Fátima, por muito que isto desgoste algum leitor menos generoso. O rock começou a nossa revolução e nisso incluo não só a música mas também as letras. Muitas delas serão ingénuas, repetitivas mas basta fazer o sacrifício de comparar o que se cantava à volta com os do rock e estes últimos parecem Bach.

(...)E, último apontamento, última homenagem: Elvis trouxe a música negra, o gospel, o primeiro soul e sobretudo o rhythm’n’blues para o palco da América. Fez mais pela causa do anti-racismo que vinte leis anteriores. Deu uma boleia a muitos grandes criadores negros, tornou-os visíveis, eles que como bem dizia Ralph Ellison, constituíam o “Invisible Man”, livro grandioso que me abriu insuspeitos horizontes para já não falar dos autores que na esteira dele li. Mas isso fica para outra história.
Agosto acaba por ser um mês de múltiplas efemérides. Relembremos apenas que Woodstock se celebrou justamente no meio do mês e deu, também ele o bilhete de identidade definitivo à grande música popular americana. Já sei que me virão falar de Monterey dois anos antes (em Junho-Julho dessa vez). Convém porém dizer que se bem que importante e inaugural foi ainda um encontro minoritário (pese embora a aparição da Janis Joplin ou de Otis Redding para não citar Hendrix ou os Mamas and Papas).
O texto, que nada deve de substancial às wikipedias da música ( a não ser uma ou outra lembrança eventualmente), é modelar daquilo que pretendi dizer sobre a escrítica pop actual: em vez de repositório de ideias feitas, alheias ainda por cima, deveria ser o lugar da opinião pessoal, escrita com o estilo. Podia até ser o d´Oliveira

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Os apaniguados do sistema

Página de Sócrates na Wikipedia alterada em PC do Governo”, é o título de uma notícia do Público de hoje, a qual, de resto, retoma a descoberta original, publicada no blog Zero de Conduta.

O gesto virtual, feio na ética internética para apagar manchas na putativa brancura da biografia do actual primeiro-ministro e realçar a alvura do perfil , é anónimo.

O que não ficou no anonimato, porque o diabo cobre com uma mão e descobre com as duas, como os apaniguados em comandita já se deram conta, foi o lugar de onde partiu a empreitada: um computador ligado ao Centro de Gestão da Rede Informática do Governo. Os responsáveis não comentam e se comentarem, já se sabe: n-e-g-o.

Quem comentou, acusando-se abertamente de habilidades semelhantes, que no caso serão legítimas porque pessoais e intransmissíveis, foi uma jornalista, adepta da glóra fácil e que colabora num blog que abomina os anónimos que lhes estragam arranjos de conveniências. O comentário, habilidoso, procura desvalorizar a diferença entre a intervenção pessoal, legítima e segundo as regras do lugar, de um visado, na enciclopédia online, associando-a e normalizando-a à intervenção de uma equipa, de um governo, de um país, para edulcorar biografias e apagar referências incómodas, mesmo que nem se tratem de falsidades. É por isso um trabalho institucional, pago pelo erário público e dedicado a proteger a imagem de quem manda. Um trabalho de sabujos? Depende do ponto de vista. Por mim, julgo tratar-se mais de um trabalho de apaniguados, ou seja, de protegidos e sectários. Avesso, por isso, à dissonância e à oposição, confundidas manobras de caluniadores em "campanha".

Na taxinomia própria à facilidade, os da fronda da crítica a este tipo de gente, acoitam-se nos blogs caluniadores, difamadores e de “campanha” e que assim estragam a festa da maioria absoluta, conquistada com habilidades, como por exemplo prometer impostos de pataco, para fustigar as corporações.
Veremos como vai ser quando a festa acabar e os apaniguados tiverem de desmontar a tenda de bugigangas e banhas da cobra, para irem pregar a glória fácil para outra freguesia.

Quem afinal combate, na prática, estes apaniguados, com a técnica que liberta, tornando-se um dos inimigos da mentira e da dissimulação, é Virgil Griffith, cujo perfil se encontra, precisamente na Wikipedia . Merece um louvor público e o reconhecimento de milhões.

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A lógica do sistema

Entrevista muito interessante de José António Barreiros à revista Sábado que saiu nesta Quinta-feira.

Além do mais, pronuncia-se sobre um acontecimento que explica em parte o governo actual que temos, do Partido Socialista.

José António Barreiros, foi enviado para Macau, por conta de nomeação do PS ( a que pertencia e de quem se desvinculou depois de ter regressado) e para substituir António Vitorino, “depois de a Administração Pinto Machado cair. Mário Soares designou Carlos Melancia governador e eu fui para secretário adjunto da Administração e Justiça”, conforme explica.

Como explica ainda a exoneração do actual ministro da Justiça, Alberto Costa. Assim:

Foi uma decisão óbvia. Justifiquei-a por escrito e não voltaria atrás. Tinha grande apreço e admiração por ele, mas na posição em que ele se colocou era meu dever demiti-lo.”

Mas teve uma consequência, adianta o entrevistador Nuno Tiago Pinto…

Demitiram-me. Sabia o que estava a arriscar e percebo que o sistema tem uma lógica. Quando mais tarde vi Alberto Costa ministro, compreendi perfeitamente.”

Percebeu o quê, afinal, José António Barreiros?

É uma lógica a funcionar. Basta ver o rol de testemunhas que arrolou- Jorge Sampaio, Jorge Coelho, enfim-, para se compreender que o futuro estava com ele. Eu era o obstáculo que tinha de ser removido. E fui.”

No final da entrevista, JAB explica que pertenceu à Maçonaria do GOL e depois da GLRP. Saiu em 1992, porque descobriu então que a Maçonaria, em vez de ser um clube de reflexão filosófica, era mais um clube de filosofia de vidinhas em luta pelo poder. Como hoje acontece.


A lógica do actual sistema de poder política fica aí explicada. Nas entrelinhas, cosem-se as demais parcelas do pano que daria ainda para muitas mangas. A questão da licenciatura de José Sócrates, arrumada pela anomia reinante, é uma delas.

Estamos tramados. Por uma clique que não merece este poder que lhe caiu nas mãos.


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Um prenda que chegou do Brasil

Publicado por Carlos 00:39:00 2 comentários Links para este post  



A crítica dos críticos, parte 2.


A imprensa de hoje, refere a efeméride da morte de Elvis Presley, faz agora precisamente trinta anos.

A diferença entre estas três décadas, relativamente aos media, reside num aspecto curioso e que se banalizou, mas ainda impressiona: a quantidade de informação disponível sobre o assunto, seja a factual, seja a meramente opinativa, aumentou exponencialmente, à medida em que se vulgarizou o acesso à informação em Rede que permite além do mais, facilitar a informação em papel e suporte vídeo.

Sobre Elvis Presley, existe hoje em dia, uma quantidade de informação avassaladora, acrescida pela publicação dos seus discos, colectâneas e reedições sucessivas que acrescentam algo muito importante e que em 1977 não existia deste modo: o conhecimento da música do artista, em praticamente todas as gravações disponíveis e a preços acessíveis, quando não de graça, através dos canais certos da Rede.

Mesmo assim, que podemos ler acerca da música do intérprete que dominou a era do rock n´roll, naquela meia dúzia de anos em que durou? Considerações sobre o “rei”, afirmações de princípio, em segunda ou terceira mãos e opiniões de quem, não tendo vivido o tempo original, inventa as memórias que nunca teve, copiando as de outros.

O Público de hoje, cita John Lennon, através de outros citadores não nominados para dizer que “antes dele, não existia nada”, como se o disco do próprio Lennon, Rock n´Roll, publicado em 1975, não fosse uma compilação de músicas contemporâneas do aparecimento de Presley na cena americana, algumas delas ( Hound Dog, de Jerry Leiber/Mike Stoller ou Be bop a lula de Gene Vincent ou Ain´t that a shame de Fats Domino), anteriores ao próprio sucesso de Elvis…tal como Chuck Berry ou Fats Domino e principalmente a primeira gravação tida como o primeiro êxito do rock n´roll: Rock around the clock, de Bill Haley and the Comets, de Julho de 1954.

Para citar todos estes nomes, basta dar uma olhada rápida à Rede e relacionar factos e acontecimentos históricos, narrados em profusão em diversos sítios, a abarrotar de informação.

Nenhum jornal ou revista portugueses, hoje em dia, suplanta esta fonte de informação, que se espraia da Rede. Qual a diferença, então, que se poderia e deveria ler, nessa imprensa? A opinião abalizada e bem escrita, sustentada com os factos histórios conhecidos ou potencialmente conhecidos de todos os que se interessam. E com citação expressa das fontes e dos locais mais aprazíveis para se saber mais. O que nem é difícil, porque o Google e a Wikipedia, permitem essa facilidade até aos mais inexperientes.

Infelizmente, não temos por cá, seja quem for que mereça a atenção devida, para realçar essa diferença de modo escrito. Temos, em quantidade mais do que suficiente, quem faça recopilações de opiniões allheias, e recolha textos de outras fontes de informação. Alguns, a maioria, fazem-no sem sequer citarem as fontes originais, onde foram buscar directamente a informação. Outros, erigindo-se em decanos da escrítica, citam a formação livresca e revisteira, porque a jornaleira só adviria de um Melody Maker desaparecido de vez ou de um New Musical Express já transformado. Os escribas originais desses jornais, reciclaram o papel antigo e escrevem agora em revistas mensais, como a Uncut, a Record Collector, Goldmine ou a Mojo, ainda as melhores fontes de informação original, porque aí escrevem aqueles que viveram a época, ouviram os discos e viram os concertos.
Desta vez, o artigo do Público sobre Elvis Presley, cita a revista inglesa Mojo como fonte da inspiração citadora, o que parece ser novidade, ainda tímida e desgarrada ( a citação vem no fim e no miolo nada se lê com referência directa). Veremos amanhã, no artigo de fundo da Ípsilon, quem aparece citado…

Nota em 17.8.2007:

Afinal o Público, na Ípsilon de hoje, apenas publica a crítica ao disco de Elvis Presley, Elvis the King, da autoria de Mário Lopes.

O escrito, assinado por quem já me surpreendeu positivamente, uma vez ou outra, vem logo referenciado na abertura: a All Music Guide, enciclopédia online que também se consulta em papel, em livros especializados por géneros. A edição de 1997, que foi a segunda, sobre o Rock, tem mais de 1200 páginas, com entradas em letra minúscula.

O escrítico, porém, padece das mesmas enfermidades apontadas acima: reposita referências estereotipadas, sem a alma de uma crítica pessoal à música, ou o estilo que a suplantaria como acontecia no caso do MEC.

Ficamos assim à espera de algo diferente do que se pode obter na Rede, confirmando a noção de que a informação, sendo interessante, precisa de apreciação crítica diversa do lugar comum de há muitos anos a esta parte.

Publicado por josé 18:54:00 1 comentários Links para este post