Não há mais eduardinos

Morreu Eduardo Prado Coelho. Estranha notícia esta, depois de ter lido há minutos a crónica que ontem publicou no Público. Como habitualmente, lia-o de modo enviesado, porque sabia já o que dali viria: uma visão do mundo que não partilhava e uma pertinácia na defesa da ortodoxia correctamente política. Primeiro na esquerda comunista, nos anos setenta e depois, gradualmente, na esquerda afectivamente identitária, Eduardo chegou a ser Eduardo P.C. Actualmente, afinava mais pela opinião PS.

Prado Coelho, filho de professor com mesmo apelido, mereceu a atenção, desde muito novo, da inteligentsia pátria, ao ponto de lhe profetizarem um grande futuro entre a intelectualidade lusa. Afinal, a profecia, quedou-se na vertente intelectual de leitor e cronista menor, por vezes polémico, quase sempre alinhado por um poder situado à esquerda, jacobino, moderado na intervenção social e avesso ao liberalismo económico. Nunca foi Sollers nem sequer Paolo Flores D´Arcais. Derreou-se em Derrida e divulgou filósofos franceses com a linguística à ilharga.

Prado Coelho, suscitava em muitos escritos, uma repontice a puxar polémica e isso aconteceu por vezes, com virulência escrita nas respostas.
Com a morte, acabam as crónicas e já tenho saudades de lhes põr os olhos em cima, mesmo enviesados e que me sabiam a piratas eduardinos, engolidos de um trago.
Paz à sua alma e que encontre o Criador em Quem aparentemente, não acreditava.

Publicado por josé 13:31:00  

11 Comments:

  1. Radagast said...
    "menor"...
    josé said...
    Menor, efectivamente. Se fosse maior, escrevê-lo-ia, mas a caridade do momento não pode esconder a justiça da apreciação pessoal.

    Os maiores, geralmente,são consensuais e neste caso, os comentários de circunstância limitaram-se aos amigos, correligionários e até beneficiários das crónicas. Os quais, aliás, não reivindicaram a grandeza intelectual ou até da obra.
    Aliás, o que é que um Sócrates ou uma Pires de Lima, podem reivindicar neste campo?
    Alguém os levaria a sério?
    Arrebenta said...
    A infinita falta que nos faz Prado Coelho...

    http://asvicentinasdebraganza.blogspot.com/2007/08/ps-epitfio-de-eduardo-prado-coelho.html#links
    Ana Clara said...
    Nada do que possa escrever aqui acrescentará seja o que for sobre o Eduardo. Deixou-nos este fim-de-semana. O dia de sábado, 25, Agosto, acordou cinzento. Talvez fosse já o presságio da notícia negra que viria a ser anunciada a meio da manhã.
    Eduardo Prado Coelho falecia aos 63 anos, na sua residência, em Lisboa. Tive o privilégio de privar com o EPC, duas vezes na vida. A segunda, mais alongada, e, por isso, mais gravada na minha tenra memória, de jornalista e mulher.
    Do «intelectual público» todos já falaram. O papel do jornal já escreveu. Do homem também. Não consigo imaginar alguém que se encontrasse com o EPC e não gostasse dele. Por todas as razões e mais alguma o Eduardo não desapareceu. Apenas perdemos todos nós, os leitores, atentos e assíduos, as mulheres e homens, que ficam com o Eduardo nas vidas que continuam.
    Amanhã já não tenho o EPC para ler. Para aprender. Para crescer. Mas não esqueço a simplicidade das palavras que o homem, um dia, era eu uma mera estagiária, há algum tempo, me disse ... «Tu, jovem menina, não te encantes demais pelo jornalismo. Às vezes, ele não é tão bom como parece». Como sempre, o Eduardo tinha razão!
    Pedro Morgado said...
    Apesar de inúmeras vezes discordar das opiniões de EPC, a verdade é que é uma referência. E o último texto publicado em vida é um espelho do humanismo, da sensatez, da assertividade e da inteligência que tão bem caracterizaram Eduardo Prado Coelho.
    Adolfo Letria said...
    http://pequenaloja.blogspot.com/2007/08/silogismos.html
    fiodore said...
    Menina Clara, nem sempre o EPC tinha razão. E quando leio presentes como

    "Não consigo imaginar alguém que se encontrasse com o EPC e não gostasse dele."

    Apetece-me também dizer

    «Tu, jovem menina, não te encantes demais pelo jornalismo. Às vezes, ele não é tão bom como parece».

    O jornalismo não é para meninas ingénuas, e o EPC lá acaba por acentuar tal razão.

    Em tributo ao EPC, faça uso da mesma.
    Arrebenta said...
    Felizmente, continuamos a ter geniais pensadores, mesmo quando Carrilho vai para Paris, cof, cof, cof...

    http://asvicentinasdebraganza.blogspot.com/2007/08/carrilho-vai-para-paris-sem-sua-brbara.html#links
    Ana Clara said...
    Mas eu também não disse que estou encantada pelo Jornalismo.
    Sublinhei, penso eu, que tal aconteceu, nos tempos em que eu era uma mera estagiária. Quanto ao «não consigo imaginar alguém que se encontrasse com o EPC e não gostasse dele», mantenho. Porque, na minha opinião, é verdade!
    Esplendor said...
    Num país onde é pecado criticar os mortos, e onde alguns intelectuais se tornam ícones por aquilo que fizeram (e pouco depois esqueceram) há muitos anos atrás, sabe bem ler uma opinião que procura, pelo menos, ser honesta.

    Quanto ao EPC, que descanse em paz.

    andré
    Carlos said...
    Tenho 34 anos. Como tal, em parte, cresci com a opinião publicada de EP Coelho que segui com intermitências várias. Num pensador procuro essencialmente uma visão do mundo. A de EP Coelho tornou-se cada vez mais previsível aos meus olhos, à medida que fui adquirindo formas de melhor reconhecer essa previsivibilidade. Lê-lo tornou-se, de alguma maneira, uma forma de aceder a opiniões com influência entre decisores de políticas culturais, e pouco mais do que isso. De resto, nestes dezasseis anos de crónicas no Público, nenhum livro li, nenhum disco ouvi e nenhum filme vi sob inspiração de um texto que tivesse escrito. Também não recordo uma única ideia que me tivesse feito hesitar nos termos em que já pensava, apesar de ser bastante vulnerável à opinião publicada. Não imagino, por isso, pior balanço da produção de um intelectual.

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