E tudo o Vento Levou !

Tal como há uns anos atrás, a moda das energias renováveis voltou a acolher Portugal como país perfeito para a sua implementação. Desta vez, a construção de parques eólicos capazes de reduzir a factura energética do país. Uma falácia.

Acontece que, uma vez mais, Portugal está a fazer tudo ao contrário. As diferentes formas de energias renováveis apresentam de facto uma curva de rendibilidade marginal que, quando comparadas ao actual preço do petróleo, ainda se apresentam com custos mais elevados para o consumidor. Tudo porque a inovação tecnológica, na produção e na distribuição, ainda não está suficientemente desenvolvida para permitir uma redução de custos.

E isto levanta um problema. De que vale a Portugal a produção de energia ainda que a preços mais caros que a que actualmente é importada? Poder-se-á até ajustar o desequilíbrio na balança de pagamentos, mas internamente as empresas terão um custo maior pelo preço da energia, funcionando esta como uma autêntica escapatória de desinvestimento em Portugal.

Quer isto dizer que Portugal deveria estar quieto? Não, seguramente que não, e grande parte da dependência energética do petróleo em Portugal é decorrente de escolhas estatais no modelo de desenvolvimento, por mais escondido que ele seja.

Por exemplo, é conhecida a forte dependência das finanças públicas portuguesas dos valores que o consumo de combustíveis gera, através do ISP. Como se não bastasse o governo Português está de mãos e pés atados no que à área metropolitana de Lisboa e em termos de transportes públicos diz respeito. Os elevados valores que as concessões da Ponte 25 de Abril e Ponte Vasco da Gama, impedem o governo de agir de forma pró-activa num reforço de uma política de transportes públicos integrados. Tudo culpa de quem concedeu à Lusoponte, cláusulas inimagináveis. Quanto pagou o Estado à Lusoponte para o comboio lá andar hoje ?

Uma fórmula duplamente eficiente - O uso dos transportes públicos, reduz o consumo de gasolina e demais combustíveis e melhora a qualidade do ambiente.

Obviamente que a construção de parques eólicos é um princípio, mas não servirá para grande coisa. A redução expectável pelo governo da factura será de 6,00 %, na assumpção que a procura energética não cresce. Ora, é conhecido que um dos efeitos do crescimento da economia assenta no aumento da procura de energia. A redução será seguramente uma miragem.

Compete ao governo tomar as melhores opções. Negociar com Espanha os caudais do Douro e Tejo Internacional que permitam aumentar a produção hidroeléctrica é uma solução de consenso difícil, mas negociável. Mas é sabido que qualquer redução significativa só acontecerá quando se “atacar” o consumo individualizado de petróleo, sentido através do uso do automóvel privado.

Ao mesmo tempo requalificar a produção de energia, já há algo que é manifestamente impossível de efectuar - Portugal foi, é e será sempre dependente do exterior em termos energéticos, dado que os recursos naturais que possuí, os poucos que ainda possuí, não são passíveis de produzir energia, e mesmo a biomassa florestal não é olhada com bons olhos.

No fim a cereja. As autarquias sedentas de novas fontes de financiamento querem pertencer aos parques eólicos integrando o consórcio. Ora a partir deste momento, a medida deixou automaticamente de ser exequível, pois a proliferação de gestores municipais, passará a sugar toda a capacidade financeira dos consórcios.

Há no entanto uma pequena solução. A Galp Energia, que ainda não se sabe bem de quem é, e muito menos quem será o seu próximo dono, sendo apenas certo mais uma elevada mais-valia, deveria definitivamente abandonar a procura de um parceiro estratégico apenas para realizar mais-valias e procurar uma estratégia concertada com Angola e o Brasil.

À Galp Energia não pode estar apenas confinado o papel de gerar mais-valias. Quem não se lembra dos 525 Milhões de Euros de mais-valia, ainda por cima isenta de imposto por Guterres, quando a Petrocontrol vendeu à ENI ? É certo que o Professor Freitas na altura presidente da Petrocontrol, pode falar melhor sobre este assunto...

Começamos pela dívida de Angola a Portugal. Depois de devidamente reclassificada, é apurado um volume de barris de petróleo diários a conceder à Galp Exploração. É certo que a dívida de Angola abate no défice, mas não é menos certo que o crescendo do petróleo tem esse perverso efeito. À Sonangol interessa-lhe a rede de exploração ibérica da Galp. Parece simples, a rede passa a ser detida 51% pela Galp e 49 % pela Sonangol, e em troca mais um acréscimo no volume de barris de petróleo. A Galp ganha capacidade de exploração. A Sonangol capacidade de comercialização que tão cedo não existirá em África. E o Brasil ? A Petrobras, ao fornecer capacidade de exploração à Galp, ganha rede na Europa.

Percebem hoje porque o suposto falhanço na compra da rede Shell em Espanha foi uma machadada que apenas a Pina Moura, e aos seus espanhóis, interessava ?

Perante isto, e uma redução da exposição à variação do preço do petróleo, Portugal estaria em condições de avançar, quer na construção de mini centrais hídricas, capazes de abastecer alguns distritos ou mesmo concelhos mais numerosos, e ao mesmo tempo desenvolver no Alentejo um parque de captação de energia foto voltaica e solar, que fornecesse energia para toda a região a preços mais baratos, capazes de captar investimento, e mesmo na construção de mais barragens.

É certo que para isto funcionar, a Galp tinha que fechar as instalações na Irlanda da sua subsidiária e trading-arm Petrogal Trading Limited e que no ano de 2004, registou vendas num regime fiscal mais favorável , por forma a que quer o Estado quer o país beneficiassem com o diferencial entre a compra e a venda...

Ao mesmo tempo Pina Moura teria que definir em que tabuleiro joga. Se como deputado, se como presidente da Iberdrola Portugal, e representante em Portugal dos interesses espanhóis, sabendo-se como se sabe que qualquer solução para saída da ENI do capital da Galp, passa sempre por ele.

Pina Moura teria de definir
, porque ninguém está a ver este governo a definir coisíssima nenhuma.

Publicado por António Duarte 15:30:00  

1 Comment:

  1. Vasco said...
    A eólica é competitiva com o petróleo, sobretudo aos preços actuais. O problema é que a produção energética assenta essencialmente sobre o carvão (e, menos, sobre o gás, mais caro mas muito mais limpo), a um preço que de tão baixo nunca vai permitir concorrência "no mercado". Apenas se se penalizar o preço da energia produzida à base do carvão (as famosas taxas sobre a emissão do CO2) se vai criar condições para que a eólica (e a solar, já agora, com custos de instalação proibitivos) seja competitiva "no mercado".

    Em Portugal, acresça os custos do tempo perdido em burocracia, que pode chegar aos 5 anos (estão prometidas mudanças radicais), e o preço elevado de extensão da rede eléctrica aos locais remotos onde a instalação das turbinas é normalmente aconselhada (topos de montes com perfis de velocidade média do vento elevados, distância a grandes centros populacionais, etc.)

Post a Comment