os limites da vida, e da decência.

A comunicação social americana tem agora um novo hit. Não se trata de um novo reality show, embora seja parecido. Em tempos uma jovem de 26 anos, Terri Schiavo, sofreu um precalço que a deixou inconsciente e mais ou menos cerebralmente morta há uma série de anos, sendo que se mantém viva ligada a um tubo que a alimenta permanentemente. Resumindo, todo o organismo continua a funcionar menos o cérebro.

O marido da senhora conformou-se, tratou de fazer nova vidinha, e defende que o tubo lhe seja retirado forçando o corpo a morrer literalmente à fome (processo que é suposto levar cerca de 15 dias) sendo que com a esposa morta se pode casar formalmente de novo e receber o pilim do seguro de vida que não será pequeno. Por outro lado os pais da jovem, que agora já não é tão jovem, querem-na ligada à máquina em regime de permanência ad eternum à espera que aconteça um milagre pondo de permeio em causa a completa e irreversível morte cerebral. Entre os desejos terminais do marido e o sonho dos pais o caso andou por variados tribunais anos a fio até que um destes dias um juiz determinou que o tubo fosse retirado. Parece que nem uma lei especial de corrida do presidente Bush vai fazer alterar o caso.

Não sendo simples, nada simples, ler o que se tem escrito por lá e por cá sobre o caso, causa alguma perplexidade. Causa perplexidade por ver o direito de posse, porque é isso que de facto se trata, a ser exercido pelo marido sobre a de facto ainda mulher. A sr.a deixou de (lhe) ser útil, será um vegetal (pese o facto de estes não rirem ou chorarem), não lhe garante qualidade de vida logo deixa-se morrer à fome. Causa perplexidade a posição de muito boa gente, presumivelmente, sensata em relação às fronteiras entre a vida e a morte, causa perplexidade o extraordinário pragmatismo discursivo sobre a utilidade humana.

Sobretudo causa temor a absoluta inumanidade subjacente a toda a discussão do caso. Eu não sei se a senhora está viva ou cerebralmente morta, tenho muitas dúvidas sobre se a posição dos pais se resume a amor filial ou se também contém doses estratosféricas de fanatismo religioso, agora o que não tenho rigorosamente dúvida nenhuma é de que é completamente desumano deixar morrer à fome por via legislativa/judicial, literalmente, um ser humano. E curiosamente este é o ângulo que ninguém discute.

Se dar uma qualquer droga para provocar uma morte rápida e serena é eutanásia, deixar a senhora secar, literalmente, durante duas semana, é o quê ? Um acto de humanismo, como apregoa o marido ? Eu não costumo perder muito tempo a pensar nestas coisas, mas há qualquer coisa nestas éticas (?) modernas que vai acabar mal... E daqui podia aproveitar a boleia e falar de Weimar. Fica para outra altura.
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Publicado por Manuel 21:48:00  

11 Comments:

  1. Luís Bonifácio said...
    Se o seguro se recusar a pagar, o marido continuará tão interessado?
    pindérico said...
    Partilho da sua indignação perante a indiferença com que vem sendo encarado este macabro desfecho.
    Quando recordo o caso do Ramon Sampedro e o quanto me incomodou a posição da justiça espanhola que condenava aquele homem a sofrer o que para ele era insuportável,e faço o contraponto com esta situação, fico literalmente arrepiado!
    Joao said...
    Mas será que a senhora sente fome? E será que o corpo envelhece e morrerá um dia? Ou nunca morrerá ser estiver ligada à tal máquina?
    É necessário discutir o que é Vida. Para mim um coração e um cérebro com dezenas de máquina em volta não define um ser vivo.
    sopeiro said...
    eu tb não costumo passar muito tempo a pensar nestas coisas e não conheço suficientemente o caso para me pronunciar sobre ele em particular. parece-me no entanto que antes de nos precipitarmos em acusações deveriamos fazer um esforço (eu sei que não é fácil) por nos pormos no lugar desse marido e tentar imaginar o que terão sido estes ultimos 15 anos.
    Anónimo said...
    Um dos atributos inerentes ao conceito de vida é a autonomia, e a capacidade de a usar.
    Quem a não possui ou a exerce com limitações pôe em causa necessáriamente a qualidade de vida possível de ser vivida.
    Outra característica vital é a vontade e a capacidade de a exercer.
    Estas duas ligadas à consciência de si e do mundo permitem a liberdade de pensar e agir.
    Agora pensemos o que acontece se: a)mantendo a consciência e a vontade, perdermos a autonomia; b)perdermos a consciência de si e do mundo e com ela a vontade e a autonimia.
    Penso ser esta a principal linha de fractura entre o caso Sampedro e o caso em apreço: Terri, acaso ainda possua faculdades cognitivas, não pode ou não consegue exprimir a sua vontade, a sua vida fisiológica está 100% dependente do seu mundo exterior.
    Questão a reflectir: quem e como se lhe pode substituir na manifestação da sua vontade, se ela a pudesse exteriorizar?

    Maria da Fonte II
    Anónimo said...
    A facilidade com que V.Ex.ª ataca o marido é deveras chocante.
    Anónimo said...
    O Manuel fica perplexo sobre o que se escreve sobre o caso. E chocado. Mas começa por dizer que a senhora está "mais ou menos cerebralmente morta".
    Mais ou menos?
    Não há aí uma diferença enorme?
    LusoFin_oBlog said...
    Espanta-me a leveza com o marido é aqui reduzido a um individuo ganancioso e sem escrupulos que apenas se quer livre da mulher... N'ao se terá esquecido da teoria que "ela ficou assim porque foi vitima de violência doméstica e ele teme que ela o possa acusar"?

    francamente, se ainda fosse no Ocidental ou noutro blogue onde dão ouvidos aos boatos que vendem ao publico americano.

    Já agora, conhece aquela história de que ao marido foi oferecido uma quantia avultada por um milionário para que ele desistisse? (verdade ou mentira desconheço, mas lá está, quer-se ver livre dela...)

    E que tal... "o senhor ama-a profundamente e perante a impossibilidade dela viver uma vida, porque isto de ser vegetal não é vida, não a quer saber mais prisioneira naquele corpo? Ou até que també ele não aguenta este sofrimento? Lá está, egoísmo. E agora não estou a ser jocoso.
    Unknown said...
    É uma maneira de ver a situação. Outra poderia ser: "Estará ela realmente viva?"

    Ninguém que por aqui passe sabe o que é estar quinze anos a dormir, a ter que ser alimentado por uma palhinha, sem sequer saber que está a ser alimentado... Nem sabe o que é viver quinze anos na situação do marido de Terry!

    Podemos ver a situação egoísta do marido ("para poder casar" - já nem comento a questão do seguro) ou podemos ver a situação egoísta dos pais ("fanáticos religiosos" ou "recusam-se a perder a filha"). É claro que se calhar não tem interesse nenhum olhar para a situação da senhora. Está (cerebralmente) morta. Até hoje, conseguiu-se recuperar pessoas a quem o coração tinha parado de bater. Nunca se recuperou ninguém cujo cérebro tenha parado de funcionar. Acho que a discussão passa mais pela forma da eutanásia a aplicar do que pela própria eutanásia.
    blogadict said...
    Até quando o egoísmo de quem pensa ser dono da vida de alguém vai durar? Até quando será obrigatório viver sem ter vida? A vida a cada um pertence, somos responsáveis por ela enquanto, isso mesmo, enquanto É VIDA, não um arremedo, não um estádo vegetativo como o de Terry. Deixem-na 'adormecer' em paz
    lb said...
    Ao contrário do Manuel, não faço juízos sobre os motivos dos intervenientes neste caso.
    Motivos dos intervenientes à parte, o Manuel tem a solução categórica para o caso? Ou seja, não há necessidade determinar quem deve decidir sobre o caso, porque a decisão certa se impõe? Qual é:
    1. Alimentar até aos 60, 70, 80, 90 anos? Aproveitar todos os meios técnicos disponíveis para prolongar a vida?
    2. Matar? Por injecção letal?
    3. Deixar morrer de sede e fome?

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