O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
Publicado por Manuel 02:48:00 1 comentários
"Balanço" do Lado-a-Lado Sócrates/Lopes
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Desgraça! Está tudo perdido!!!
Sócrates não olhou para a câmara quando fez as suas alegações finais. Está tudo perdido. O Bloco de Esquerda vai ganhar! E agora vou ver quem é o primeiro dos comentadores a sublinhar esta falha grave que destruiu por completo as esperanças do PS? ...
Sócrates cumpriu com as expectativas, Santana Lopes também. A vitória do primeiro, no debate, é já um facto histórico, podemos agora ir votar? Eu já tenho aqui o cartãozinho de eleitor. Please!
Publicado por Rui MCB 22:25:00 4 comentários
E quem perdeu foi... Portugal
Sejamos francos nem o Eng. Sócrates nem o Dr. Lopes convenceram. Nenhum esmagou, ambos demasiado com a lição bem estudada, demasiado calculado e frio, sem rasgo, a soar a artificial e a politicamente correcto, dissertaram sobre o óbvio e fugiram às questões de fundo. A grande diferença é que entre dois sabonetes os portugueses tem na memória mais recente as mega trapalhadas do Dr. Lopes. Enquanto o Dr. Lopes prometia (e ele ainda está lá) o Eng. Sócrates não (se) comprometeu. Provavelmente isto vai chegar para a maioria absoluta. Sabem que mais, tenho saúdades da "altivez" do Prof. Cavaco [em debates].
Publicado por Manuel 22:13:00 1 comentários
À atenção da CMVM...
Recomenda-se o estudo "teórico" das opções de utilização das acções próprias das nossas sociedades cotadas em bolsa, com o cruzamento da informação que pode e deve ser fornecida por operadores neste mercado. É que, com a garantia ou o penhor oculto sobre aquelas, uma venda virtual em alta, seguida, de imediato, de compra em igual quantidade em baixa, permite muitas mais-valias, que não têm necessariamente de ser escrituradas pois o património (quantidade de acções) não se altera. Isto é tecnicamente possível com apenas alguns telefonemas e as cumplicidades certas. Os ganhos podem ser elevados, repartidos e reservados a coberto, utilizando-se, à posteriori, com muito bem se entender.
Publicado por contra-baixo 20:06:00 6 comentários
direitos
Eu sei que vem aí o debate. O Abrupto aposta numa cobertura em cima do acontecimento - não sei bem para quê, mas enfim...
Para desenfastiar, fica aqui, deste blog, um postal em forma de pedrada para o charco da auto-suficiência dos becados...
A dispersão da jurisprudência induz a litigiosidade e inflaciona os recursos.Seria sumamente interessante indagar junto dos interessados, que são os visados, as "partes" de um litígio, quantos é que percebem inteiramente o teor das doutas decisões proferidas, sem intérprete, isto é, sem a consulta a advogado...
Quando as futuras decisões têm um elevado grau de imprevisibilidade, o cidadão aventura-se na lotaria processual.
Ora propondo acções, ora interpondo recursos. Faltam os mecanismos que permitam uma uniformização coerente e sistemática que dê credibilidade à interpretação e à aplicação da lei. Tão importante como o atraso da justiça, afigura-se também a segurança de uma justiça que não viva de contínuas e diversas soluções para idênticas situações.
Quando predomina o acaso, quando se encontra, quase sempre, uma interpretação que é contrária ao de uma outra, o sistema passa a permitir o seu (ab)uso irracional. Não é apenas o número excessivo de advogados, com o que, às vezes, se pretende justificar esse (ab)uso. São as circunstâncias de uma justiça proletarizada em moléculas de poder. Uma decisão não pode estar sujeita à roleta de uma distribuição.
A gente, às vezes, lê decisões de tribunais de qualquer instância em que os magistrados parecem estar a escrever para... para quem, afinal?! Os inspectores? Os antigos professores da faculdade?
Se isto não fosse tragi-cómico, seria talvez ridículo.
Mas talves seja mais do que isso. Como disse o filósofo José Gil, será tão só e apenas o Medo! O medo do nosso semelhante.
Dizia ele, na tal entrevista [Pública de 16.1.05], que...
Nós temos uma pobreza enorme de expressão em relação à nossa existência (...) Nós estamos agarrados a um texto e não temos forças para sair dele. É o Texto da sociedade normalizada, do bom senso, do política, social e afectivamente correcto. Assisti há dias a uma discussão de um casal num jardim. O marido dizia:"Não! Não aqui!" E a mulher calava-se logo. Temos um texto que nos diz o que podemos viver".O Texto dos magistrados diz-lhes que o que vem de trás, toca-se para a frente.
E de trás, quer dizer do tempo de Alberto dos Reis que gizou o código de processo civil e até das Ordenações Afonsinas...
Hoje em dia, os arautos têm outros nomes, mas o mesmo Medo...
Publicado por josé 19:40:00 2 comentários
isto será para os apanhados ?
«Coimbra devia impedir Sócrates de entrar na cidade» Afirmação é de Nobre Guedes. Portas apoia «direito à indignação», mas prefere bloqueio nas urnas. Entretanto Pedro Santana Lopes desafiou hoje o PS a dizer o que fazia de diferente em relação aos governos de maioria PSD/CDS-PP, sublinhando que nunca ouviu os socialistas a atacarem decisões tomadas pelo seu Governo. «Gostava de ouvir o PS a dizer o que fazia de diferente do Governo de Durão Barroso e do meu Governo», disse o presidente do PSD, durante um almoço com a Confederação de Turismo Português. «Qual é o caminho alternativo que esta equipa propõe», interrogou, acrescentando que gostaria «de ver uma diferença» relativamente às propostas do PSD. «É o choque tecnológico? Está bem, mas isso vamos todos fazer. O que resta saber é quem vai fazer um choque de gestão», sustentou. Oremos...
Publicado por Manuel 18:56:00 0 comentários
De Gil Vicente a Eça
(...) Os moralistas têm vida curta entre nós; não só são gente de mau aspecto como se trata de pessoas cheias de inveja. Os portugueses são sarcásticos, quando se trata de moral - de Gil Vicente a Eça, há uma larga tradição de textos sobre o assunto, mostrando que a moral é matéria para consumo estritamente privado. Na verdade, padres, juízes, beatas envilecidas, fuinhas de toda a espécie, são pouco populares entre nós. É uma vantagem enorme que temos de agradecer ao destino. As pessoas sabem que há uma vida privada e que há uma vida pública; e sabem que, desde que a vida privada não assalte a vida pública, podem dormir descansadas. Os portugueses não apenas sabem isso, como também, porque são manhosos, percebem que a tentativa de moralizar não lhes vai ser útil nem agradável. Os portugueses gostam de desafiar a moral. E apreciam os gestos de gente livre e que não admite interferências do juízo moral dominante. (...)
O que os portugueses não gostam é que, em matéria de costumes, se apregoe uma coisa e se faça outra (como acontecia nos textos de Gil Vicente). As insinuações morais são sempre ridículas, cretinas e impopulares. (...)
Francisco José Viegas - Jornal de Notícias
Publicado por Rui MCB 18:45:00 1 comentários
novo léxico lusitano.
Publicado por Manuel 18:37:00 1 comentários
"O voto (verdadeiramente) útil "
É cada vez mais óbvio que o PSD e o PPD são, na hora actual, dois partidos inconciliáveis. O próprio Pacheco Pereira, depois de ter anunciado a intenção de votar em Santana nas próximas eleições, parece dar voz aos seus desapontados (e-)leitores para mostrar que o caminho pode passar por outras soluções: o voto em branco ou a simples abstenção.
Que está em causa, nas próximas eleições, para o PSD? Apenas, e só, a remoção do líder do PPD, Santana Lopes. Como conseguir esta proeza?
O PSD cometeu um erro estratégico: entregou o aparelho ao santanismo. Os militantes do PSD são agora gente como nós, na sua maioria sem uma estrutura que os enquadre – e os apoie. Mas os golpes de Estado não se fazem a partir do exterior.
O PPD de Santana soube tocar o país profundo «social-democrata». Depois da travessia do deserto com Guterres e do assalto às cadeiras do poder por parte dos jovens do PP no consulado de Barroso, Santana afagou a auto-estima do desalentado «Zé»: com ele, o país profundo voltaria à mesa do Orçamento.
Esta gente, que está agarrada aos fundilhos de Santana, há-de permanecer fiel ao actual líder enquanto houver uma réstia de esperança de se alçar ao poder. E essa esperança existirá se, após as próximas eleições, sobrevier um período de intranquilidade resultante de o PS não ter conseguido a maioria absoluta.
Neste contexto, os que se revêem no PSD só têm uma saída para unificar o partido: desejar uma maioria absoluta do PS. Só assim acabarão as ilusões do «Zé» (que tanto pode chamar-se Marco António como Luís Filipe Menezes), primeiro passo para fazer saltar o Dr. Lopes da liderança do partido. A verdade é que, se o PS não obtiver uma maioria absoluta nas próximas eleições, o primeiro (para não dizer o maior) derrotado é o PSD de Marcelo, Cavaco, Pacheco Pereiro, Marques Mendes… Falando claro, o voto útil, para o PSD, é no PS. Toca a unir as tralhas...
in Pula Pula Pulga
Publicado por Manuel 18:03:00 0 comentários
Mais ...
Com ... decisões assentes num estudo a cargo de empresas internacionais especializadas
Publicado por contra-baixo 17:45:00 0 comentários
"When the sous-chef is an inkjet"
A Chicago chef makes sushi with an inkjet printer, part of his endeavor to bring technology into the kitchen in new ways.
Homaro Cantu's maki look a lot like the sushi rolls served at other upscale restaurants: pristine, coin-size disks stuffed with lumps of fresh crab and rice and wrapped in shiny nori. They also taste like sushi, deliciously fishy and seaweedy.
But the sushi made by Cantu, the 28-year-old executive chef at Moto in Chicago, often contains no fish. It is prepared on a Canon i560 inkjet printer rather than a cutting board. He prints images of maki on pieces of edible paper made of soybeans and cornstarch, using organic, food-based inks of his own concoction. He then flavors the back of the paper, which is ordinarily used to put images onto birthday cakes, with powdered soy and seaweed seasonings.
[ler mais aqui]
Publicado por Manuel 16:44:00 1 comentários
Ideias Peregrinas
Agora que se descobriu que o Banco de Portugal ainda tem 400 toneladas de ouro, o que são muitos montinhos destes, vamos vendê-lo e pagar despesa corrente - a reforma da Administração Pública - e porque não, já agora, vendê-lo todo e pagar não o défice mas quase toda a dívida. Sempre são umas dezenas de milhões de euros.
Não se prendam com pormenores. A União Económica e Monetária. O Acordo de 1999. A independência constitucional do Banco de Portugal. As regras do Sistema Europeu de Bancos Centrais. O Tratado de Maastricht. Os efeitos no mercado de uma inundação desta dimensão.
Pensar no assunto prejudica o normal desenvolvimento do cérebro. E é desnecessário: o PSD já prometeu ponderar a questão. Com a seriedade do costume.
Publicado por irreflexoes 15:32:00 0 comentários
Será necessário dizê-lo?
Ou o inquérito do Ministério Público à fortuna pessoal, contas na Suiça e relações fiduciárias com o famoso sobrinho ilibou Isaltino Morais ou o anunciado regresso à Câmara de Oeiras é das piores notícias para a qualidade da governação (no caso, autárquica) do país.
Olhando para outros casos, como o da autarca do PS "refugiada" no Brasil, de uma certa mala da qual nada se sabe, de mais do que suspeitas vidas desafogadas de quem, antes de entrar na política, pouco ou nada tinha (e os vencimentos são o que são, não enriquecem ninguém), é altura de perguntar...
Já não há vergonha na cara?
Publicado por irreflexoes 11:46:00 4 comentários
Uma PEQUENA diferença
O JCD volta à carga com o post A Cruz onde, entre outros, tenta estabelecer um paralelo entre Sócrates e Portas...
Caro Rui, andam por aí outros líderes de partidos sobre quem circulam exactamente os mesmos boatos que nunca 'preencheram a declaração'. Ontem não foi bem assim. Um líder de um partido preencheu o impresso. Disse, indignado, que não é judeu. E por muito que se filtre o sentido da indignação, o que sobrou é que ser judeu é mau. É?
Por falar em vida privada, roubo este texto ao Blogouve-se. Foi escrito pelo antigo director do Expresso, Joaquim Vieira.
"[Paulo] Portas tem realmente um problema com a sua imagem perante o eleitorado conservador que é o seu. Um político, pela natureza da função, está obrigado a um maior grau de exposição perante a opinião pública do que o cidadão comum (...). Portas defende as tradições, os valores familiares e a moral católica, e naturalmente os eleitores interrogam-se: quem é este homem? É católico praticante? Porque é que não casou? Que vida afectiva tem? Porque é que não se abre sobre isso? (...) São perguntas que não desaparecem. Portas sabe, e o eleitorado também".
Claro que isto não faz mal nenhum. É sobre Portas, e as virgens não se ofendam sobre tal personagem. Sobre assuntos de índole pessoal, importante e decisivo é impedir que católicos praticantes amigos do papa sejam comissários europeus.»
Caro JCD,
Quanto ao facto de Sócrates ter informado da sua orientação sexual lamento que não tenha resistido a responder à pergunta (confesso que não ouvi essa "confissão"), como se pode deduzir do que escrevi. Num país livre respondeu, como escreveste. Contudo, ao fazê-lo, pergunto-me se se sentiu verdadeiramente livre para não responder. Efeito curioso o do boato, não é?
Mas queres comparar essa pena com o que penso de quem fez desse boato arma de arremesso? A chatice que julgo derrubar a tua argumentação é que... Sócrates não é Portas. Sócrates não faz de uma moral que determina a sua conduta pessoal ou a sua orientação sexual matéria de discussão política, Portas faz.
Ora façam lá o favor de reler o que escrevi e atentar na frase 'Nem sequer o mais discutível argumento da coerência política pode ser utilizado pois em nenhum momento Sócrates fez dos valores homofóbicos a sua cartilha.'
Defender a moral católica e ser homossexual é aos olhos da Igreja e de muitos crentes uma incompatibilidade em termos. Onde é que Sócrates exaltou esses valores? Lamento JCD, mas o político José Sócrates não é o político Paulo Portas.
As posições políticas públicas de Portas deixam-no mais vulnerável a estes ataques. Ou melhor, legitimam a pergunta. E isso, para mim, faz toda a diferença.
É-me muito difícil aceitar que um político possa arrogar-se ao direito de viver pelo provérbio do "Faz o que eu digo, não faças o que eu faço." Apenas naquilo que ele escolhe ser matéria da sua posição política deverá perder o direito à reserva (o direito à mentira para preservar a intimidade se assim o desejar). Uma PEQUENA diferença, certo?
Publicado por Rui MCB 01:18:00 12 comentários
alta tensão...
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
O Dr. A. Morais [Sarmento] deu hoje uma conferência de imprensa onde basicamente acusou o Eng. Sócrates de ser um flop. Vai daí, o outro flop, o Dr. Lopes não gostou, teve uma crise de ciúmes apenas porque não terá sido avisado[da realização conferência de imprensa], e como resultado houve animação, sonora, extra para as bandas de S. Bento. No seu estilo peculiar, sóbrio, ponderado recatado, o Dr. A. Morais ameaçou partir tudo, "matar-se", ir embora, não sabemos se de regresso ao S. Tomé, etc,etc. O Dr. Lopes tê-lo-á afinal acusado, oh ignomínia, de ter sido um dos altos dirigentes do PSD que, nos últimos dias, telefonaram a altas individualidades do Partido Socialista a pedir desculpas por terem a ele como lider. Enfim... faltam 18 dias.
Publicado por Manuel 19:26:00 2 comentários
a frase...
Esquecemo-nos de que o que caracteriza o pântano é precisamente esta possibilidade de chafurdar na lama, de se poder sempre mergulhar um pouco mais no lodo – na ignomínia.
in Pula Pula Pulga
Publicado por Manuel 19:04:00 0 comentários
por cá já são muitos mais...
Procuradoria de Berlim investiga 25 pessoas por suspeita de manipulação de resultados.
Publicado por Manuel 17:54:00 1 comentários
Indicador de confiança nos consumidores mantém evolução negativa (Rev.)
Em Janeiro, o Indicador de Clima estabilizou. Em termos sectoriais, verificaram-se deteriorações dos níveis de confiança na Indústria Transformadora, no Comércio e nos Serviços, tendo-se apurado uma recuperação na Construção.
Em Janeiro, o indicador de confiança dos consumidores registou, pelo quinto mês consecutivo, uma evolução negativa.
in INE (Informação completa)
Publicado por Rui MCB 15:08:00 0 comentários
De que religião és?
A propósito desta posta do JCD...
Haja Respeito Pelas Minorias!
Se me acusarem de ser benfiquista, desminto, mas não digno que é indigno. Seria um insulto para todos os benfiquistas.
Se me acusarem de ser bloquista, desminto, mas não digo que é indigno. Seria um insulto aos bloquistas. (E à minha inteligência, também).
Então, porquê dizer que uma acusação de homosexualidade é indigna? Bastaria desmentir, não?
um pouco de troco...
Se andassem à caça de judeus e o Estado te pedisse para pores num papel uma cruzinha correspondente à tua religião, preenchias o impresso, JCD? Afinal, bastaria desmentir que não eras Judeu para não teres chatices.
O que indigna é que ao espalhar o boato, ao transformá-lo em argumento, Santana Lopes aprovou uma lógica acusatória que envolve a orientação sexual de outrém. Há "respostas" que não podem ser dadas e é exactamente aí que deve terminar a confrontação com o boato. Exigir a quem o ouve que não se limite a ouvi-lo.
Todos devem ter liberdade para preservar um mínimo de privacidade e isso só se manterá se todos contribuirmos para recusar o escrutínio que serviu de pretexto ao boato. Nem sequer o mais discutível argumento da coerência política pode ser utilizado pois em nenhum momento Sócrates fez dos valores homofóbicos a sua cartilha.
Naturalmente o boato não procura qualquer resposta. Nem este teu post se afasta do boato em si, serve mais os propósitos de corolário de toda a campanha. Parabéns.
Publicado por Rui MCB 14:42:00 11 comentários
Ai sim...
Às críticas, Marco António Costa [número três da lista do PSD/Porto e líder distrital]responde: "Aqueles que me acusam de ser político-dependente são os mesmos que vão chorar para a porta de minha casa a pedir-me lugares." E passa à frente por entender que "quando as críticas são injustas não se contrariam, ignoram-se".
in Público
Publicado por Manuel 11:18:00 1 comentários
Que isto vai por um lindo caminho, vai! vai!
A 'P$%#' OFENDIDA
Santana conseguiu o que queria, que a insinuação e a calúnia se propagassem, fazendo-o de forma pretensamente ingénua lançando uma falsa questão. Agora vem exigir um pedido de desculpas ao PS porque não fez insinuações; lata e cobardia em demasia e comportamento indigno de um candidato a primeiro-ministro de um país civilizado. Que mais tarde ou mais cedo Santana Lopes se iria socorrer de tudo o que pode para sobreviver já era de esperar, mas vir armado em "p$%# ofendida" é que já é demais!
in O Jumento
Publicado por contra-baixo 08:59:00 1 comentários
dramático
terça-feira, fevereiro 01, 2005
Da DuplicidadeEm Santarém, Pedro Santana Lopes refutou as "acusações" do PS relativas às "insinuações" que ele "teria" proferido no fim de semana acerca de Sócrates. Como de costume, foi ele - e não Sócrates - quem ficou "extremamente ofendido". E disse mais. Ele, Santana Lopes jamais faria "comentários ou insinuações" sobre a vida de qualquer outro líder partidário."Gostaria de deixar isso muito claro", afirmou, deixando no ar a dúvida sobre "se isto não é tudo uma cortina de fumo para alguma outra coisa" e pedindo ao PS para "não arranjar complicações onde elas não existem". Mas isto não chegava. Para aproveitar bem o "contexto", Lopes esclareceu que "nunca na [sua] vida pública [fez] nenhuma insinuação sobre a vida de ninguém e se alguém tem sido, ao longo de 20 anos da sua vida, sempre sujeito a ataques, boatos, insinuações, sabem quem é, [ele] próprio". Condescendente rematou: "o que sei do engenheiro Sócrates é que ele é divorciado, pai de filhos, como eu. Quero que os portugueses votem nos líderes políticos em função das propostas que têm para a sociedade. A vida dele e dos outros líderes partidários é igual à minha e a minha igual à dele. Eu nunca entrei por aí, porque sempre odiei que me excluíssem por causa da minha vida privada". E lá avisou que, dê lá por onde der, vai continuar a "falar livremente", sem a preocupação de "pesar" o que disser em campanha. Esta engenharia semântica do ainda primeiro-ministro não engana ninguém. É, aliás, um método assaz conhecido. Se eu ou alguém por mim "deixarmos cair" determinada mensagem subliminar ou um qualquer trocadilho maldoso, eu, na realidade, "não disse nada". Quem? Eu? Perguntarei sempre com ar de virgem ofendida. Vocês é que são uns malandros e uns pérfidos que "imaginam" em demasia. Este "estilo" é qualquer coisa de muito português e é bem conhecido. Santana Lopes, como ninguém, é um manipulador. E como bom manipulador, recorre com perícia à duplicidade. Não é nunca ele quem ofende, pelo contrário, ele é afinal o "grande ofendido". Não é ele quem introduz maliciosamente a "farpa", são sempre os outros que no fim lha espetam. É, pois, este calvário manhoso e dúplice, inteiramente pessoal e intransmissível, que conduzirá Santana Lopes até 20 de Fevereiro. Ele lá sabe quem é.
in Portugal dos Pequeninos
Não, não bastava que o Dr. Lopes fosse objectiva e inapelavelmente mau, não bastava que os portugueses, 73%, considerem que o seu curto consulado foi mau ou muito mau, agora com a estratégia tropical de campanha mais imbecil d etodos os tempos só comparável na ignomínia à soez campanha que foi movida nos idos de 80 contra Sá Carneiro, o Dr. Lopes praticamente entregou a maioria absoluta ao Partido Socialista do Eng. Sócrates. Ao optar-se, assumidamente, por uma campanha rancorosa e negativa perdeu-se, ao menos, uma oportunidade única de falar claro e debater os verdaeiros problemas do País. Nem sequer é eleitoralismo, é pura estupidez, já que a esmagadora maioria dos portugueses suportou e compreendia os sacríficios exigidos pela Dr. Ferreira Leite e tem perfeita noção que não nadamos num mar de rosas já que uma boa parte nem sequer acredita que seja possivel evitar um novo aumento de impostos. Sejamos francos, para quem não é militante cada dia que passa há cada vez menos razões para votar neste PSD, por muitas razões. Um grupo parlamentar com meia dúzia de deputados chega perfeitamente para se fazer uma oposição sóbria e eficaz, por outro lado, e em termos eleitorais, quanto pior for o resultado nas legislativas maiores são as possibilidades de nas autárquicas o PSD se manter como Partido mais votado, e há sempre o Prof. Cavaco e as presidenciais. Em suma a sobrevivência do PSD não está em questão. Depois, convém recordar que o actual sistema político não é unipessoal ou uninominal. Vota-se no Dr. Lopes para primeiro-ministro e, na sua entourage. É impossível votar no PSD sem votar no Dr. Lopes como é impossível apoiar um cabeça de lista sem votar nos restantes elementos que o acompanham. A política, como a vida, é feita de escolhas. Quem, ainda há poucos meses, aclamava o Dr. Lopes em Congresso, em Braga, não pode ter pretensões de branquear o (seu) passado imputando responsabilidades excluisivas ao Dr. Lopes. É que o problema não é o Dr. Lopes ser como é, problema dele, o problema é, em nome do pragmatismo, do cinismo, de uma alegado realismo, tantos, e alguns que já foram tão bons, terem desistido, contemporizado e se resignado. Regressando ao Eng. Sócrates, vi-o à pouco na televisão, certinho, com a lição bem estudada. Esforçado, falha ao não dizer o essencial - que o que aí vem não será fácil e que sacríficios são inevitáveis. E os sacríficios exigem firmeza e autoridade, algo que Sócrates ainda não provou ter, num partido que ainda não esqueceu as free rides dos tempos idos de Guterres. É um fraco. E no entanto não há de facto alternativas. Dramático.
Publicado por Manuel 22:43:00 4 comentários
uma no cravo...
Publicado por Manuel 19:23:00 3 comentários
A virgem ofendida
Em delírio, as mais de mil mulheres presentes no almoço de Famalicão mostraram partilhar desta apreciação. A seguir, foi a vez de Manuela Cardoso levar a sala ao êxtase: "Ele ainda é do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para suas companheiras", afiançou esta funcionária pública, lembrando que Deus assim o quis. "Bem-haja os homens que amam as mulheres!", sentenciou ainda. "O outro candidato [José Sócrates] tem outros colos. Estes colos sabem bem", confessou Pedro, no final, aos jornalistas.
[Público, 30/1/2005]
O presidente do PSD, Pedro Santana Lopes, declarou-se hoje "extremamente ofendido" com a ideia de que proferiu insinuações sobre a vida privada do secretário-geral socialista, José Sócrates.
[Público, 1/2/2005]
Publicado por Nino 18:44:00 2 comentários
Tribunal Constitucional: da sopa de pedra à catequese
É conhecida a história da sopa de pedra. Um pedinte bate a uma porta e pede:
– Dê-me um bocado de água para fazer uma sopa de pedra.
– Um bocado de água, questiona o dono da casa, chega-lhe para fazer uma sopa?
– Sim, empreste-me também uma panela e vai ver…
Ao observar o pedinte a colocar uma pedra na panela, o dono da casa pergunta-lhe:
– Mas essa sopa não leva mais nada?
– Bem, ficaria melhor se levasse cenoura…
– E isso chega?
E assim lá vai aparecendo a batata, o feijão, a couve… até ao momento em que a pedra pode ser deitada fora.
O Tribunal Constitucional recorreu ao método da sopa de pedra. Primeiro opôs-se a que o controlo das contas dos partidos fosse atribuído ao Tribunal de Contas (cf. Pula Pula e causa nossa). Após ter sido incumbido desta missão, o Tribunal Constitucional exigiu a criação de uma entidade independente (sic) que coadjuvasse os juízes na análise das contas dos partidos. Hoje, na cerimónia da sua posse, o presidente da tal entidade independente («Entidade das Contas e Financiamentos Políticos»), Miguel Fernandes, declarou que a sua equipa não tem meios suficientes para conseguir controlar as contas dos partidos. Vai, como se previa, recrutar técnicos (sem concurso?) que saibam fiscalizar as contas…
Mas os partidos não têm que se preocupar: agora o Tribunal Constitucional dispõe-se a ensinar o Pai Nosso ao vigário. No discurso que proferiu na sua posse, Miguel Fernandes já acalmou as hostes: “como não existe tradição em Portugal” na fiscalização das contas dos partidos nas campanhas eleitorais, a entidade agora criada vai adoptar “uma postura iminentemente pedagógica”. Que pensaria o caro leitor se fosse criada, por exemplo, uma brigada fiscal e o seu responsável máximo entendesse que deveria assumir “uma postura iminentemente pedagógica”, dado não existir “tradição em Portugal” de cumprimento das obrigações fiscais?
in Pula Pula Pulga
Publicado por Manuel 17:06:00 4 comentários
Notícias da Cultura
- 1 - Na “Actual” do Expresso deste último fim-de-semana vinha uma notícia em que o citado Presidente do Instituto das Artes – Paulo Cunha e Silva, qualificava a Ministra da Cultura Maria João Bustorff de “ter uma visão surrealista da realidade”, de usar de “manobras intimidatórias”, alertando também que “são precisas políticas sérias e seriedade política”.
Sabe-se desde há algum tempo que Paulo Cunha e Silva, com razão diga-se, anda em "guerra" com a tutela; imagina-se que Paulo Cunha e Silva queira ser útil ao PS; sabe-se também que Paulo Cunha e Silva foi convidado para o cargo por se movimentar numa área de influência que é transversal a todos os partidos; mas o que não pode ser ignorado é que Paulo Cunha e Silva foi nomeado para o cargo em que se mantém a exercer por um governo PSD.
Assim, e em pré campanha eleitoral, cabia a Paulo Cunha e Silva, não se demitindo, esperar em silêncio pelo próximo governo e ser ao menos leal a quem teve a ideia de o nomear, sobretudo, numa altura em que não corre o risco de ser exonerado do cargo. Um comportamento correcto com todos fica sempre bem e, por este andar, por muito protegido que se sinta, arrisca-se a que alguém, nas costas dos outros, veja as suas. Faço-me entender?
- 2 – Por cima da notícia anterior veio uma outra que, a ser verdadeira, é lamentável. A secretária de estado Teresa Caeiro quer que as companhias de teatro devolvam os subsídios já recebidos, por causa de um recurso interposto por um concorrente. Acontece que este facto não é superveniente, pois já antes Teresa Caeiro tinha dado um despacho de não homologação dos resultados do concurso devido a uma reclamação interposta pelo mesmo candidato, revogando-o mais tarde, homologando assim os resultados do concurso, pois para além de não ser possível transferir a dotação existente no orçamento de 2004 para o de 2005 era, também, preciso sossegar todos os subsidiados, não fossem lembrar-se de lhe aplicar o mesmo tratamento que os estudantes guineenses ameaçaram o seu embaixador em Moscovo.
Teresa Caeiro ao ordenar em Dezembro o pagamento dos subsídios, fê-lo com consciência da ilicitude do acto, o que lhe pode vir a sair muito caro e nem o regresso do indevido a exclui da responsabilidade financeira, pondo antes ainda mais a nu aquela irresponsabilidade na gestão de dinheiros públicos.
Publicado por contra-baixo 14:47:00 0 comentários
Henrique Medina Carreira
A Verdade não mora aqui
Cada vez mais vejo gente que sabe quem não quer, mas não sabe quem quer. Ou antes, não quer nenhum.
António Barreto, Público, 23.01.05
1. Teremos em breve eleições legislativas. As terceiras desde 1999. E é improvável que, em Fevereiro de 2005, se encontre uma solução política adequada para enfrentar a nossa gravíssima crise. O Estado é inoperante, insustentavelmente sobredimensionado, está em crescente desqualificação e perdeu poderes decisivos de intervenção económica (monetário, cambial, alfandegário e orçamental). A economia fragilizou-se no último quarto de século, só reagindo, ocasionalmente, com o impulso de ocorrências externas, muito favoráveis. O peso da despesa pública levará, em poucos anos, ao colapso financeiro do Estado, com pesadas consequências para todos mas, em especial, para mais de 4,5 milhões de indivíduos dele directamente dependentes(1). Ninguém revelou, na política activa actual, discernimento, aptidão e credibilidade para tranquilizar o País e vencer uma tal crise. Com o “anonimato” dos candidatos a deputados, generalizou-se a promoção do demérito; os principais partidos políticos são hoje a melhor e a mais procurada agência de empregos para uma certa “mão-de-obra”; a ilimitação dos mandatos favorece a inércia e a rotina; o exclusivo partidário da apresentação de candidaturas visa a obediência e a hipocrisia política(2); a opacidade do financiamento dos partidos estimula a corrupção. O sistema semi-presidencial que vigora mostra-se inconsequente: o Presidente da República medita, reúne, exorta, insiste e é muito aplaudido, mas nada acontece. Os governos são escolhidos a partir de programas eleitorais irrealistas e demagógicos; enfraquecidos pelo inevitável incumprimento das promessas, são diariamente fustigados, julgados e condenados no primeiro acto eleitoral que aconteça. O Parlamento, com gente a mais e que nada representa, é palavroso e inconsistente, e vai degradando a imagem da democracia. Os problemas do País acumulam-se e agravam-se, e o tempo útil das soluções está a esgotar-se. Nos anos 20 e 30 do século passado, na Europa, este tipo de democracia atraía os ditadores. No início do século XXI, mantém o atraso e conduz à pobreza.
2. Só uma mirífica e muito rápida aceleração do crescimento económico poderia evitar-nos o tombo que já está à vista. Porém, a nossa capacidade competitiva não melhora; os “motores” da Europa não arrancam; do alargamento e das deslocalizações virá mais desemprego; o preço do petróleo será alto; os juros subirão, mais mês, menos mês; o câmbio euro/dólar aumenta com os défices dos Estados Unidos; a China está aí à porta, pronta a entrar livremente, com consequências preocupantes; o investimento estrangeiro não encontra aqui factores suficientes de atracção. Por isso, e por agora, nada prenuncia o fim da estagnação. De resto, a análise do nosso comportamento económico, pelo menos desde 1980, revela uma desoladora incapacidade: com excepção de dois períodos muito favoráveis (num total de dez anos), a taxa média de crescimento anual e real quedou-se pelos 0,6%(3). Nos anos 80, valeu-nos sobretudo o preço do crude que desceu fortemente; nos anos 90, foi a entrada para o euro e a consequente baixa dos juros, que expandiu e generalizou o endividamento dos agentes económicos, e fez “explodir” a procura interna. O que vale, afinal, a economia portuguesa, sem “choques” externos positivos?
3. Dispersos na nossa sociedade, temos 4,5 milhões de indivíduos que integram uma espécie de “Partido do Estado”. Têm em comum a dependência directa do Orçamento e representavam, em 2003: 43% da população residente; 56% do eleitorado; 62% da população com mais de 24 anos de idade. Pensionistas e subsidiados (mais de 3,8 milhões), equivaliam a 70% da população activa. Este “Partido do Estado” absorvia 70% dos impostos cobrados (1980); atinge agora os 85% (2003). O pessoal político dos principais partidos “invade” progressivamente o Estado e pretende mais funcionários, mais pensionistas, mais subsídios e mais subsidiados, porque aí pode angariar mais votos. Os que ainda estão fora do “Partido do Estado” constituem uma minoria cada vez mais desiludida, reduzida e silenciada, e menos influente. Adormecido e enganado, Portugal trilha o caminho para o desastre financeiro do Estado e para uma pobreza mais generalizada dos portugueses. Ninguém nos acode.
4. Os resultados das políticas orçamentais de 2002 e de 2003, da ministra Ferreira Leite, já estão estimados (A economia portuguesa, Junho de 2004-MF/DGEP): entre 2000 e 2003, o peso no produto das despesas com o “pessoal”, com o “consumo intermédio” e com os “juros”, diminuiu globalmente 1 pp.(4); e aumentou nas “prestações sociais”, nos “subsídios” às empresas e em “outras despesas correntes”, no equivalente a 3,5 pp.(5). As “prestações sociais” subiram ao ritmo anual médio e real de 7,5%. Globalmente, “pessoal” e “social”, absorviam 79% dos impostos cobrados (2000), 85% em 2003. Os números “falam” por Manuela Ferreira Leite, que só não conteve o que não era possível. Anuncia-se o inevitável ocaso do Estado-providência. A crise que atravessamos é, sem dúvida, a mais difícil e virá a ser a mais longa desde há muitas décadas: é a primeira que só venceremos com autênticas e impopulares reformas estruturais, para cuja realização nos temos mostrado incapazes; encontra-nos impreparados para suportar os “choques” externos desfavoráveis, mais sensíveis nas economias abertas e frágeis, e o “envelhecimento demográfico”; o Estado, na Zona Euro, perdeu os instrumentos de intervenção económica e, o que poderia restar-nos – a política orçamental –, está “bloqueado” pelos desatinos financeiros dos anos 90. Desde há muito que não enfrentávamos exigências e condicionantes tão fortes.
5. Perante tudo isto, as evasivas nada resolverão. Não basta afirmar que a “democracia” tem sempre soluções alternativas; hoje não vislumbramos nenhuma à altura da crise. Não é suficiente a detenção de uma “maioria absoluta”, se não for acompanhada de capacidade para executar um programa realista e impopular. A proclamação de “objectivos” ambiciosos, mas inviáveis, não conquista eleitorados, gasto como se encontra o método, com trinta anos de uso imoderado. As mensagens de “optimismo” não bem fundado criam suspeitas sérias de incompetência ou são simples embustes. O enunciado das soluções de longo prazo – mesmo quando bem intencionadas, adequadas e realizáveis – nada adianta se os governos, ao cabo de um ou dois anos, estão “destruídos”; nunca se chega a promover o longo prazo, porque se capitula no curto prazo. Quatro governos em cinco anos não deixam ilusões. Sem “verdade”, são bem prováveis mais legislaturas incompletas.
6. A avaliação do mérito das propostas eleitorais dos partidos que poderão formar Governo pressuporia a apresentação pelos mesmos, bem antes das eleições, de uma caracterização rigorosa e quantificada da nossa situação económica e financeira e da sua previsível evolução nos próximos cinco e dez anos. E ainda a resposta, nomeadamente, às seguintes questões:
- 1.º) Que medidas propõem para conferir mais eficácia ao sistema político, para aperfeiçoar o sistema eleitoral, limitar os mandatos, incompatibilizar funções, modificar o regime imoral das reformas do pessoal político, reduzir o número de deputados, remunerar adequadamente os governantes e um número indispensável de deputados competentes, e financiar os partidos?
- 2.º) Como projectam promover uma maior qualificação dos estudantes e dos trabalhadores, pela via da exigência, do rigor e da disciplina, e não pela estafada expansão dos gastos para contentar as “corporações”? (6)
- 3.º) Como, no imediato e no médio prazo, estimularão o crescimento económico, considerando que se fosse pela forte aceleração da “procura interna”, ela só se sustentaria à custa de volumosos financiamentos externos?
- 4.º) Como prevêem a criação maciça de emprego, fora do Estado, e como financiarão as medidas necessárias para o efeito?
- 5.º) Em que sectores ou rubricas promoverão a baixa do peso no produto das “despesas públicas correntes”, considerando a evolução acelerada das “prestações sociais”?
- 6.º) Que efeitos financeiros globais aguardam com as reformas dos funcionários, que passarão a receber como aposentados, entrando como seus substitutos outros que receberão como funcionários?
- 7.º) Que medidas irão adoptar, e em que prazo, para que o peso dos gastos com o “pessoal público” diminua de 15% para 11% do Pib (média da UE/15)? (7)
- 8.º) Como se propõem assegurar o financiamento futuro das “prestações sociais” – o Estado-providência -, que aumentaram de 14% para 17% do Pib entre 2000 e 2003 e cujo acréscimo absorveu, só por si, 90% do aumento verificado das arrecadações fiscais? (8)
- 9.º) Quais os valores admitidos para os aumentos salariais, os das pensões e os dos subsídios (+10 euros por cada indivíduo e por mês, equivalem a um total de 630 milhões de euros anuais, isto é, a 0,5% do Pib em 2005)? (9)
- 10.º) Qual o limite máximo admitido para o défice público (8%, 10%, 12%), tendo em conta que, sem receitas extraordinárias, ele já se situa à volta dos 5% do Pib?
- 11.º) Aceitando, assim, maiores défices haverá uma aceleração do peso do endividamento público e dos seus custos financeiros futuros: como conciliar isto com o aumento dos encargos decorrentes do “envelhecimento demográfico”?
- 12.º) Que conjunto de medidas legislativas, administrativas e judiciais, propõem para uma eficaz acção contra a evasão e a fraude fiscais?
7. É cada vez maior o número de portugueses que não acredita na generalidade dos políticos, nem na capacidade das instituições vigentes, nem nas promessas que lhes são feitas, nem no futuro do País. O próximo acto eleitoral de 20 de Fevereiro teria sido uma boa oportunidade para dizer toda a “verdade” e justificar todas as “exigências”. Porque, durante alguns anos, não se sabe quantos, teremos mais esforço que laxismo, mais contribuições que benesses, mais deveres que direitos e mais dúvidas que certezas. Terá de reconstruir-se tudo a partir de quase nada. Entretanto, muitos terão pago um preço imerecido.
Notas:
(1). Cerca de 730 000 funcionários públicos; 2 591 000 pensionistas da Segurança Social; 477 000 reformados e pensionistas da Caixa Geral de Aposentações; 307 000 beneficiários do subsídio de desemprego; 351 000 beneficiários do RMI. Com os familiares próximos poderão ser uns 6 milhões de indivíduos, numa população de 10 milhões.
(2). “Os bons não querem ir para lá, e os maus querem porque aquilo é um emprego fácil”. “As direcções partidárias gostam de deputados amigos ou gente que não chateie” (VICENTE JORGE SILVA, Grande Reportagem, 22.01.05). Já pressentíamos o que agora é confirmado por quem saiu há semanas da Assembleia da República.
(3). Entre 1985 e 1991, taxa anual de 5,5%; entre 1995 e 2000, taxa de 3,8%. Nos restantes catorze anos, à taxa anual de 0,6%.
(4). Consumo intermédio: -0,6 pp.; juros: -0,3 pp.; pessoal: -0,1 pp.
(5). Prestações sociais: +3,0 pp.; subsídios às empresas: +0,4 pp.; outras despesas correntes: +0,1 pp. O subsídio de desemprego contribuiu com +0,5 pp (2000 a 2003).
(6). Em 2002 só na Turquia e no México as percentagens da população com o 2.º ciclo eram mais baixas do que em Portugal (OCDE - Regards sur l’éducation, 2004); entre os adultos, só no México os indicadores são mais desfavoráveis que os nossos.
(7). Com um crescimento económico à taxa média anual de 2,2% (1990-2003), a diminuição dos custos com o “pessoal” para 13% do Pib (2008) e 11% (2012) e o aumento das “prestações sociais” à taxa anual de 7,5% (2000-2003), as “despesas correntes primárias” atingiriam os 43% (2008) e os 47% do Pib (2012), níveis insusceptíveis de financiamento fiscal. Neste quadro hipotético, a estabilização das “despesas correntes primárias” ao nível dos 40% pressuporia uma década de crescimento económico à taxa média de 4%.
(8). As arrecadações fiscais cresceram 6,8 mil milhões de euros e as “prestações sociais” 6,1 mil milhões.
(9). Valor correspondente a 4 500 000 x 10 x 14 = 630 000 000.
Publicado por Manuel 10:52:00 4 comentários
A campanha, segundo o DN
... No contenente António Lobo Xavier espetou o prego que faltava no já frágil relacionamento do PP com o PSD, ao atribuir ontem a queda do Governo à fragilidade da liderança de Pedro Santana Lopes. "O que aconteceu na crise política deste Governo é um problema de falta de liderança", afirmou o dirigente do CDS/PP num colóquio sobre a reforma do sistema político que se realizou na Universidade Católica do Porto. Lobo Xavier ainda disse que não queria "enfatizar as fragilidades do PSD em relação ao CDS", mas deixou claro que a "falta de condução" originou o fim do Governo. Não sabemos se o Dr. Sarmento vai escrever mais alguma carta. Já no PSD a questão dos valores sociais (ou questões civilizacionais) irá cada vez mais marcar a campanha social-democrata, com inspiração nas recentes presidenciais norte- -americanas. "George Bush fez uma campanha dura, a falar para o seu eleitorado, com muita firmeza nos valores morais e foi isso que lhe deu a vitória", recorda um dos estrategos do PSD, não sabemos se Luis Delgado. A questão do aborto, a defesa da família, ou a oposição aos casamentos homossexuais e adopção de crianças por estes, são alguns dos tópicos que Santana terá na ponta da língua. Do lado do PS alega-se que "o nível da campanha está a descer", e que "começar a faltar salubridade na campanha". A indignação mostrada pelos socialistas refere-se, nomeadamente, ao facto de no sábado passado, num almoço de campanha eleitoral com mais de mil mulheres, em Famalicão, Pedro Santana Lopes ter proferido um conjunto de declarações enigmáticas e em código - para usar uma formulação benigna -, ao dizer (citado pelo Público) coisas como "as características pessoais dos líderes partidários, no que não respeita a questões políticas, não nos interessam"; "é bom que o povo saiba o que fez cada um na vida política"; "não entrem por esse caminho, porque se nós quisermos entrar por aí, isto entra num nível que não é do meu agrado"; "nunca ofendi nenhum adversário político, nunca respondi, nem respondo, à calúnia com a calúnia, mas se querem entrar pelo conhecimento público desses lados da vida de cada um, só quero dizer que estou inteiramente à vontade"; "é bom que digamos o que cada um é, o que cada um fez e o que cada um se propõe fazer". No final do mesmo almoço com as mulheres minhotas, Pedro Santana Lopes ainda disse que «o outro candidato tem outros colos. Estes colos sabem bem". Referia-se ao outro candidato directo a primeiro-ministro, José Sócrates, mas não esclareceu a afirmação. E é esta a ditosa Pátria minha amada.
Publicado por Manuel 01:34:00 9 comentários
Enquanto que na Madeira, segundo o DN, as coisas se resolvem à bolachada...
Elisabete Albuquerque, mulher do Presidente da Câmara do Funchal, respondeu a uma reportagem publicada, no fim de semana, nas páginas do Garajau, com um "par de estalos" ao sub-director do jornal, Eduardo Welsh, que, por sua vez, atirou com um copo de água à cara da arquitecta.
A cena passou-se no final da manhã de ontem no restaurante "Apolo", um dos mais concorridos da baixa funchalense. Welsh compareceu no encontro, marcado a pedido da visada, soube-se depois, munido de um microfone que gravou toda a confusão.
Por acaso, no local estavam as mulheres do Ministro da República e de Alberto João Jardim que deram os parabéns a Elisabete pela "coragem".
Publicado por Manuel 00:29:00 1 comentários
é bom ver que o sistema, apesar de todas as caneladas, está mesmo a funcionar ...
Publicado por Manuel 00:01:00 0 comentários