Erro gritante

Não tinha lido isto, no blog Sine Die, sobre o postal dos gritos, mas apetece-me agora escrever baixinho, para tentar demonstrar que a opinião, para um suposto jurista, muitas vezes, assume contornos insuspeitos, mas pouco surpreendentes, afinal.

O cronista do Sine Die, alvitra hipóteses, aparentemente, por não compreender a essência da mensagem. Interpreta, descose, tricota um palpite, entre vários. Nenhum deles atinge o alvo da intenção, mas todos eles revelam a noção da posologia particular do intérprete.

Escreve, palpitando, uma putativa “ visão regressiva das relações humanas”, no escrito de gritos. Confesso que não entendo o conceito. As relações humanas podem ser “regressivas”? Por contraposição a quê? “Progressivas”? Ficaremos na mesma. Quererá referir-se a um retorno ao papel reservado à mulher, no seio de um casal, nos tempos de antanho?

Supondo que seja esse o desiderato, falhou o alvo que aliás, nem se apresenta claro. Melhor seria a antiga e sempre nova designação: visão reaccionária. Deste modo, seria claro, de linguagem precisa e perfeitamente identificável.

Depois, escreve sobre “preconceitos temporalmente desajustados e socialmente indesejáveis, que continuam a perpetuar uma noção paternalista das mulheres ”. Mas...voltamos ao mesmo? Ou antes, regredimos na análise, outra vez? Passemos adiante, portanto.

Insistindo em imputar a intenção, em processo sem garantias de defesa, a não ser a posteriori, como agora se faz, recalcitra na assunção de que o escrito sobre os gritos, assenta no preconceito já dito: redução e regressão do papel social da mulher, ao “tradicionalmente atribuido”.

Portanto, começando a escrever em português corrente, tenho a dizer em minha defesa, o seguinte:

A mulher de António Costa, tem todo o direito de divergir da opinião do marido. O marido também, aliás.
Acontece que a mulher de António Costa, é professora. O marido é político, dirigente de topo do PS, ex-futuro e eventualmente mesmo futuro primeiro-ministro ( valha-nos Sª Engrácia...)

A mulher do político de topo, António Costa, não concorda com a política de educação deste governo de que o marido fez parte ( muitissimo importante) e cujo programa delineou, sufragou, propagandeou, aplaudiu, aprovou, legislou. E veio para a rua, aos gritos, contra a política que o marido e seus companheiros de partido e governo, defendem.

A mulher de António Costa, é dissidente do marido em matéria política e tem todo o direito de o ser. Tal como o marido o tem, também. Porém, em política, o que parece, é. Ou seja, a solidariedade política, entre correligionários, convoca a curiosidade alheia que lê nas aparências a realidade oculta.

Um político de topo, como António Costa, em matéria tão delicada e difícil, como são as reformas do ensino, não conseguiu convencer aquela pessoa que aparentemente lhe está mais próxima, da bondade intrínseca dessas reformas. Isto, é do mais chão senso comum e que parece falhar ao intérprete do Sine Die.

Tal como na Saúde, este governo queixa-se de não conseguir passar uma mensagem clara que obtenha o apoio popular. A partir desse exemplo concreto, será fácil entender porquê: as reformas estão erradas e muita gente, incluindo as pessoas mais próximas daqueles que as gizaram, não as aceitam. E até as contestam, na rua. Supõe-se que também o farão em casa, com grande harmonia de argumentos...

A conclusão lógica disto, será entender que o que escrevi tem a ver com a regressão das mulheres ao tempo e ao lugar reservado da cozinha?! Balha-nos deus...

Portanto, avançar mais do que isso, na análise do escrito de gritos, é abusivo. Próprio de jurista afoito a interpretações arrevesadas. Intencionalmente processual. Sem gritos, mas de injustiça gritante.

Publicado por josé 00:14:00  

1 Comment:

  1. Teresa said...
    Ó José, eu já tinha lido e estranhado o teor, completamente a despropósito.
    Fiquei até com a ligeira, ligeiríssima, suspeita que o postal trazia água no bico, dirigindo-se mais ao autor (josé) do que propriamente ao postal dos gritos.

    E também estranhava a aus~encia de resposta. Ei-la, finalmente.

    Boa Páscoa.

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