um umbigo demasiado abrupto

A maneira que Pacherco Pereira arranjou de 'comentar' o processo judicial que Sócrates intentou contra o autor do 'do Portugal Profundo' Pacheco Pereira foi - no mínimo - intelectualmente desonesta ao confundir perversamente planos que não são, não podem, nem devem, ser confundíveis. Ninguém contesta, em abstracto, a possibilidade de recurso aos tribunais, por quem quer que seja, para defender ou lavar a honra, e, não é isso, como Pacheco muito bem sabe - que está em causa. O que está em causa é algo de infinitamente mais grave, e que (in)convenientemente Pacheco branqueia, ao considerar o 'processo' de Sócrates a Balbino 'normal', e ao citá-lo no contexto do lixo blogosférico. Se o 'caso' da licenciatura 'faxeada' de Sócrates não tivesse sido levantado na blogolândia, e no do Portugal Profundo, nada se saberia, nada se escreveria, ponto. Tudo o que Balbino Caldeira escreveu foi, de uma forma ou de outra, validado e extrapolado, ,na imprensa 'tradicional', e - em entrevista - o próprio Sócrates reconheceu as 'dúvidas' levantadas como legítimas e pertinentes. Sócrates não processou a imprensa - que enquanto pode não se debruçou sobre o caso - Sócrates processou quem quixotescamente ousou, pura e simplemente, como na fábula do Rei nú, fazer perguntas. Perguntas com tanto de simples e pertinentes como de incómodas.


Há dias o João Paulo Henriques, numa prosa inspirada, escreveu isto a propósito de Sócrates. Em cheio. O pior, é que o retrato a que aludia, que Pacheco pintou de Sócrates é também - e demasiadas vezes - o próprio retrato do mais célebre habitante da Marmeleira. Também Pacheco, quando lhe convém, como agora, manifesta "uma indiferença face à honestidade e à verdade, uma opinião feita de trapalhices e trapacices intelectuais, um vale tudo para manter o seu espaçozinho mediático, ganhar uns pontinhos, esmagar ou humilhar um adversário, aqui e ali,um autoritarismo, uma arrogância para com os fracos, todos os que não tem o seu espaço, o seu status, e uma co-habitação subserviente e piedosa para com os (mediaticamente) fortes, um parecer mais que ser. Numa palavra - calculismo absoluto. Isto demonstra-se aliás, na própria prosa de Pacheco, ao misturar alhos com bugalhos.

Pacheco intimamente identifica-se com o drama de Sócrates - também a ele, Pacheco, um dos do 'Olimpo', como a Sócrates faltam sistematicamente ao 'respeito' na blogosfera. E isso se pode não deveria acontecer. Num país onde se é perseguido por delito de opinião (e nem falo da DRENagem, falo do que escreveu Vicente Jorge Silva), José Pacheco Pereira não consegue fazer mais do que olhar para o seu próprio umbigo. É pena, mas não é, de todo, surpreendente.

Adenda...
Transposto, para meditação, da nossa caixa de comentários, e assinado por Pedro...

José Pacheco Pereira declara-se hoje favorável à abertura da última porta que separava o Estado da censura na blogosfera. JPP quer que os bloguers sejam responsáveis por aquilo que os comentadores escrevem nos blogs de porta aberta. Para JPP a liberdade à americana, onde os políticos são trucidados por comentadores anónimos ou conhecidos e só têm como defesa os factos e os argumentos acaba onde começa as caixas de comentários dos blogs.

Mas o que foi que se passou de novo que não se tinha passado antes que fez com que JPP se mexe-se incomodado na cadeira ou no sofá? Desde há anos que na Internet anónimos ou conhecidos, achhicalham Pátrias, presidentes nacionais e estrangeiros, Deus, a Monarquia, a República, Fátima, e nunca isso tinha feito JPP lembrar-se de um lápis azul digital, de responsabilizar quem achicanlhou ou deixou achincalhar.

Só que desta vez os anónimos, que afinal são o Povo usando a internet, achincalhou o poder político com tal violência e asco que JPP percebeu, e bem, que é todo o sistema político corrupto português que está posto em causa. E eis que o político intelectualmente correcto se vai aliar ao mais arrogante e prepotente primeiro ministro desde há uma geração que se agora se lança raivoso e vingativo sobre quem lhe apontou imposturices.

Relembro agora a JPP um episódio da nossa históra, porque ao contrário do que se diz a história repete-se e também ensina o futuro. Nos anos que antecederam a expulsão dos espanhóis de Portugal, a única forma que o Povo teve para contestar o domínio estrangeiro foi o panfleto anónimo. Atribuiu-se até a um tal Manuelinho, um louco, a autoria desses panfletos. Bem se retorceram os esbirros do Felipe, bem que perseguiram e amarfanharam os portugueses, mas ainda assim acabaram expulsos e vencidos.

Publicado por Manuel 12:07:00  

9 Comments:

  1. rb said...
    Acho curioso ver que aqueles que defendem com tanto zelo a liberdade de expressão e de opinião, não tenham a humildade de aceitar que os outros podem ter opinião diferente da deles e fazê-lo por mera convicção interesse.
    Não, os defensores dessa "liberdade de expressão", aos que não pensam como eles, aos que não acreditam nas mesmas coisas que eles, chamam-lhes logo de desonestos, politicamente correcto, lacaios do PS e coisas piores.
    rb said...
    queria dizer "por mera convicção e desinteresse"
    Atoardas said...
    O engraçado do processo é que o gabinete do Primeiro Ministro Sócrates não comenta, porque foi o cidadão Sócrates que instaurou o processo. Não ponho em causa a legitimidade do cidadão Sócrates em instaurar o processo, pergunto apenas se o cidadão Sócrates aconselha o político Sócrates a requerer a perda de imunidade que o abrange de forma a equilibrar o jogo?
    rb said...
    Atoardas,

    Diz o art. 196.º da CRP:
    1. Nenhum membro do Governo pode ser detido ou preso sem autorização da Assembleia da República, salvo por crime doloso a que corresponda pena de prisão cujo limite máximo seja superior a três anos e em flagrante delito.
    2. Movido procedimento criminal contra algum membro do Governo, e acusado este definitivamente, a Assembleia da República decidirá se o membro do Governo deve ou não ser suspenso para efeito de seguimento do processo, sendo obrigatória a decisão de suspensão quando se trate de crime do tipo referido no número anterior.

    Ou seja, Sócrates pode ser denunciado por Balbino, investigado pelo MP e ser acusado sem que seja necessário o levantamento da imunidade. Se lá chegarmos, a sua questão será pertinente.
    JPG said...
    A liquidação do anonimato nos comentários dos blogs não será o primeiro passo para que se liquide também o anonimato (ou a heteronimia) nos próprios blogs?
    Eliminado o anomimato (e a heteronimia), não se seguirá o controlo dos conteúdos?
    O que se pretende é acabar com os abusos (como se tal coisa fosse possível) ou acabar com algo mais? O objectivo é abater a árvore (doente, podre) ou cortar rente toda a floresta?
    MARIA said...
    Parabéns pelo "post", especialmente bem conseguido.
    Na verdade, o problema de algumas pessoas é nem sempre terem ideias muito claras a respeito de certas coisas, em particular, divergindo circunstâncias...
    Atoardas said...
    Caro RB,

    Grato pela sua resposta.

    Não sou jurista e, como tal, o comentário a seguir poderá parecer despropositado.

    Parece-me que, apesar do nº1 do artº 196 do CRP que menciona, o tabuleiro de jogo estará sempre inclinado para um dos lados.

    Cumprimentos.
    Kamikaze (L.P.) said...
    Excelente post - com clareza e acutilãncia põe os pontos nos ii.
    Parabéns.
    Pedro Menezes Simoes said...
    Felizmente, tanto Sócrates como Pacheco Pereira já perderam a batalha contra a blogosfera desde o início.

    Conhecem alguém que consiga ganhar umas eleições atacando os media?

    Continuem a atentar contra a blogosfera (em última análise, contra a cidadania), e terão a blogosfera em peso contra eles. E o resultado só pode ser um - o seu fom como políticos.

    A blogosfera já é uma realidade. Cresce a um ritmo alucinante todos os dias. Tem uma criatividade superior à de todos os legisladores juntos. Usaremos todos pseudonimos, se necessário. Não é possível travar o futuro.

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