andar à chuva

Wilson – “Did you know your phone is dead? Do you ever recharge the batteries?”
House – “They recharge? I just keep buying new phones.”

- Failure to Communicate


Vasco Pulido Valente assinou ontem no Público
, e republicou n'O Espectro, uma reflexão bastante interessante sobre o PSD. Em abstracto, o escrito, impiedoso, é inatacável mas não deixa de enfermar do um vício - diagnostica os sintomas da doença sem ser capaz de precisar com exactidão qual esta é, muito menos a cura.

Em primeiro lugar, falemos das directas. São, é verdade, um erro, de proporções históricas, mas não exactamente pelas razões que VPV aventa, nem - especialmente - por culpa do Dr. Mendes. São-no, pura e simplesmente, por uma razão muito mais prosaica - não garantem democracia, nem coisíssima nenhuma. O princípio do voto, directo e universal, é muito bonito e até pode levar à eleição dos maiores 'barretes', e a democracia é isso, o pior sistema à excepção de todos os outros. Acontece que não é isso que se quer implementar no PSD. No PSD não poderá votar qualquer potencial eleitor, poderão votar apenas os 'militantes', os quais, por artes mágicas, se costumam concentrar numa distribuição avessa à demografia nacional. Um caso prático - à 'pequena' escala - é o das eleições para a Distrital do Porto do PSD que se avizinham, onde para ganhar 'basta' assegurar o apoio de praticamente três concelhias - Trofa, Gondomar e Gaia, onde se concentra uma percentagem de 'militantes' anormalmente superior ao peso que estes três concelhos tem no total do Distrito do Porto em termos estritamente demográficos. Ao invés de se fomentar a democracia e a 'abertura' acaba-se é a fomentar ainda mais o caciquismo e a mobilização local, conduzindo - por via disso - à absoluta ingovernabilidade. Uma fórmula igualmente democrática, mas infinitamente mais representativa, seria algo semelhante ao modelo inglês, só que tal implicaria uma revisão do sistema político e eleitoral - uma maçada. Outra, mais exequível, seria manter o voto directo dos 'militantes', mas aplicando por estrutura orgânica do PSD (núcleo, secção, distrital) factores de ponderação que garantissem que fosse impossível a qualquer secção 'abaixo' ter nos orgãos acima um peso eleitoral substancialmente superior aquele que tem no 'país real' (i.e a concelhia A não pode ter 15% dos votos para a distrital B quando essa concelhia representa 3% dos eleitores do seu distrito)... Ultrapassada esta questão mais ou menos 'técnica' convém ainda recordar que o culpado de agora se irem discutir as directas não é o Dr. Lopes ou sequer o Dr. Menezes. A culpa de agora se irem discutir directas é do Dr. Pacheco Pereira e da Dr.a Manuela Ferreira Leite. Foram estas duas starlets laranja que aquando do último congresso resolvderam por razões de ordem táctica legitimar o tema, lançado como atoarda por Luis Filipe Menezes, atando de pés e mãos Marques Mendes, que - mal - optou por não denunciar as intenções tão ilustres 'apoiantes'.

Em segundo lugar, e quanto à forma de fazer oposição, Vasco Pulido Valente, tem e não tem razão. Eu explico. O que escreveu é dolorosamente verdadeiro mas é, provavelmente inevitável, com as presentes regras. Em Portugal, seja em que partido for, do PS para a direita, não há a tradição de haver correntes ideológicas fortes que preconizem o que quer que seja. O que há e sempre houve foi personalidades, e fidelidades. Todos os grandes partidos, no governo, já defenderam uma coisa e o seu contrário, e a essa luz, o pior que um partido pode fazer na oposição é ter ideias, ainda por cima quando há uma maioria absoluta que as pode implementar. Foi assim, por mero desgaste, que Guterres, Durão e Sócrates chegaram ao poder e está por provar que ser de outra maneira.

Em terceiro lugar, Vasco Pulido Valente fala da necessidade de spin doctors. Errado, absolutamente errado. Já os há e a mais. A última coisa de que o país precisa (e não acredito que seja isso realmente que o VPV realmente deseja) é de Marcelos e Portas na mó de cima, a última coisa que o país precisa é da política resumida a um circo em prime-time, onde o que conta é tão simplesmente o imediato.

O país, e o PSD em especial, precisam é que haja memória e consequência, de modo a impedir que se possa defender, quer no poder, quer na oposição, tudo e o oposto. Acabar com o sofismo, simplesmente. É por isso que o próximo Congresso será uma absoluta perda de tempo. Mais valia era abrir um grande debate e discutir a sério o Programa do PSD, e as medidas preconizadas, sector a sector. Mais complicado que as directas, já sei...


Publicado por Manuel 19:01:00  

2 Comments:

  1. DJ Oração said...
    Na mouche:

    Em Portugal, seja em que partido for, do PS para a direita, não há a tradição de haver correntes ideológicas fortes que preconizem o que quer que seja. O que há e sempre houve foi personalidades, e fidelidades.

    de Marcelos e Portas na mó de cima, a última coisa que o país precisa é da política resumida a um circo em prime-time, onde o que conta é tão simplesmente o imediato.
    Anónimo said...
    A ideia das directas é mais um sub-produto da iliteracia funcional dos politiqueiros do bairro. Sabem que se faz uma coisa parecida na América mas não tem a mínima ideia do que estão a falar. Ajuda a passar o tempo...

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