Marcas amarelas

José Pacheco Pereira, escreve hoje no Público, um texto que arremeda de certa forma a temática do livro de Umberto Eco, A Misteriosa Chama da rainha Loana, de 2004.


O livro de Eco, de memórias de uma infância, por um desmemoriado que vai retomando parcialmente as recordações, traz aos leitores, bocados de memorabilia, sobre livros, cartazes e figuras de infância, com inclusão de figurinhas de banda desenhada, dos fumetti do Corriere dei Piccoli e dos comics, vindos da América pós-guerra. Numa das páginas, refere as imagens que encontrava nos comics do agente secreto X-9 e de Terry and the Pirates, com as pernas das mulheres, desenhadas a sair da racha dos vestidos, de modo que ainda hoje se lembra...

No texto de JPP, não temos desses snipets idiossincráticos, mas temos outros. Apanha-se o combóio da publicação pelo Público, das aventuras de Blake & Mortimer, no mesmo tom de uma misteriosa chama que queima na infância, para todo o sempre.

No caso de Blake & Mortimer, as aventuras agora publicadas em álbuns, são-no, na sua maior parte, relativas a histórias publicadas originalmente, em revistas de fascículos do tempo, com alguns decénios em cima.
Lembra-me de apanhar a primeira aventura original, de Blake & Mortimer, no Tintin português de 14.10.1972, com o título de As três fórmulas do professor Sato.
Nessa altura, as historieras de banda desenhada, publicavam-se originariamente em revistas como o Tintin, ( a edição belga, original, da revista, no seu primeiro número de 26.9.1946, continha já a primeira aventura de Blake & Mortimer, precisamente os dos volumes já publicados pelo Público, O segredo do Espadão- informação recolhida na Wiki).

Portanto, em 1972, a maior parte das aventuras clássicas da dupla desenhada e escrita por Edgar Pierre Jacobs ( E.P. Jacobs), tinha já sido publicada e impressa em revistas avulsas, durante as décadas precedentes. A anterior ( O caso do colar) , tinha sido em 1967 e por isso, ainda fora do alcance da curiosidade natural de um jovenzito nascido no ano em que foi conhecida a Marca Amarela. A revista Tintin, em edição portuguesa só apareceria em 1968 e mesmo assim, só despertou a curiosidade do jovenzito, no começo do ano de 1972.

As três fórmulas do professor Sato, foi precisamente a última história desenhada e escrita pelo seu autor original. Depois disso, a segunda parte da historieta, publicada em 1990, já teve intervenção directa de outro autor de bd, Bob de Moor, seguindo o guião do mestre e após a morte deste, em 1987.

Mesmo assim, em Outubro de 1972, a revista Tintin, estava no seu auge.
Para além das Três fórmulas, publicadas a conta-gotas de uma página por semana, tinha duas , cómicas, de Spaghetti, de Atanasio e Goscinny ( uma das figuras mais relevantes da bd franco-belga); de um universo onírico de Olivier Rameau, por Dany e Greg ( outro portento na bd franco-belga); Dan Cooper, em modo de aventuras tipo indiana jones, mostrando realisticamente um Parténon como nunca o vi, vazio e inóspito; o cómico Rataplan, em modo de encher páginas, como aperitivo para duas cheias das aventuras automobilísticas de Michel Vaillant, desenhado por Jean Graton e que fez muito pelo imaginário das corridas de automóvel; o impagável Lucky Luke, por Morris & Goscinny, em Canyon Apache; os Franval, em modo de encher páginas, com aventuras no Oriente; Mr. Magellan, no Vaticano, em ficção científica de realismo fantástico, com guardas suíços e monsenhores; Ric Ochet, nas aventuras de espionagem; Astérix, de Goscinny e Uderzo, na Zaragata que reune a personagem Detritus aos resistentes da Gália; Alix, logo a seguir, sobre a mesma temática da antiguidade clássica latina, mas em desenho realista de Jacques Martin e as duas últimas páginas, com Tintin, na aventura Os charutos do faraó.

Nesse ano, publicavam-se notícias sobre o combate à droga, em França, por iniciativa do governo e em cartazes de banda desenhada. Sob o tema genérico: droga, loucura, morte. Curiosidades de um tempo passado que não volta mais, contadas por um Vasco Granja que dali a dois anos se reconverteria à oportunidade dos desenhos animados de Leste.






















Quanto às historietas, agora publicadas em álbum pelo Público e pela Asa, há uma observação a fazer. Os álbuns Blake & Mortimer, são cartonados ( o primeiro, pelo menos), e com boa apresentação gráfica, essencial neste tipo de produtos, para apreciadores de algo mais do que historietas já conhecidas.
As cores deste primeiro álbum, atenta a data da publicação original, nos anos 40, terão alguma modificação, em relação à cor original. No entanto, deve dizer-se que nos anos cinquenta, a revista Cavaleiro Andante, em 1956, por exemplo, já publicava O enigma da Atlântida, da mesma série Blake& Mortimer, com aspecto gráfico colorido que não envergonharia niguém da época, em relação às técnicas de hoje.

Ora, o trabalho da Asa e do Público, na publicação da série anterior, sobre Blueberry, deixa muito a desejar, em termos de aspecto gráfico. E é pena, porque o trabalho de cor dessas historietas, vale o esforço do rigor gráfico. O problema, pode ser da impressão, do controlo de saturação de cor, ou de outro aspecto técnico. Mas a responsabilidade é de um perito e conhecedor de bd: Carlos Pessoa.

Ficam aqui duas imagens: a da direita, a original, publicada na revista Pilote, nº 671 de 14.9.1972 e à esquerda, a mesma imagem, tirada do álbum agora publicado pelo Público. A saturação da cor impressa, quase esborrata a imagem originalmente publicada naquela revista francesa. Para mim, é inadmissível. Não vi o álbum Chihuahua Pearl, da mesma série, mas já fico desapontado, só de pensar nisso e no cor que deram aos olhos cobalto da cowgirl.




























Publicado por josé 19:27:00  

6 Comments:

  1. VML said...
    «Dêem-me uma frase de quem quer que seja e eu encarrego-me de o fazer guilhotinar»

    Prisões de Abril
    Gavião dos Mares said...
    e o Sourcouf?
    josé said...
    Surcouf?
    josé said...
    Para quem se interessa por estas coisas, as duas imagens que aí estão, diferem um pouco das impressas em papel: a da esquerda, que aparece esborratada no papel do álbum, aqui fica um pouco mais baça e com os defeitos atenuados.

    Na da esquerda, original da Pilote, a imagem daqui sofre uma ligeira perda de qualidade, precisamente pela perda do brilho que o papel lhe dá.

    Curiosidades.

    Ainda assim, não vejo justificação decente, para se publicar assim um álbum, com estas cores muito saturadas, quando se sabe que nos anos oitenta, a Meribérica/Liber, publicou estes mesmos álbuns, com grande qualidade gráfica.
    E em historietas desenhadas, para quem aprecia o desenho acima de tudo, isso conta.
    A.Teixeira said...
    Uma excelente recriação dos princípios da década de 70 (que para mim é nostálgica e suponho que o seja também para si) no estilo que o José já nos habituou. Pelas gravuras que passou pelo “scanner” e afixou no “poste” percebe-se que não deve ter a sua colecção de Tintins encadernada.

    Tem toda a razão quanto ao pouco cuidado nas cores das reedições modernas. Também gostava de deixar uma nota minha de protesto nesta edição do Público pela decomposição em três volumes do “Segredo do Espadão”, quando a história foi originalmente concebida para dois.

    E um pormenor: o herói jornalista- detective do Tintin, da autoria de Tibet e André Paul Duchateau, escreve-se Ric Hochet
    josé said...
    Pois é, o Ric Hochet. Não era dos meus preferidos, nessa altura. Mas era dos que também lia.

    Os preferidos, sempre foram os Blueberry de Gir e os Bernard Prince ou Comanche, de Hermann.

    Esses foram os primeiros a chamar a atenção, pelo desenho.
    E comecei logo a comprar o Tintin belga que também aparecia nessa altura ( 14$00 contra os 7$50 do português), porque lá se publicavam as historietas originais do Comanche. Era uma maravilha que ainda hoje tenho como uma das maiores descobertas artísticas, nessa nona arte. E já vi o Louvre e o Beaubourg...e outros lados que me deixaram embasbacado.

    Mas essas imagens dos primeiros Comanche, publicadas no Tintin belga, são notáveis. Vi e remirei vezes sem conta essas pranchas.

    E tenho um sítio para essas coisas.

    aqui, na portadeloja

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