A dor crónica de Rui Rangel

Rui Rangel, o "juiz desembargador" que escreve no Correio da Manhã, como cidadão comum, assinando a sua profissão, as crónicas de costumes que se lhe conhecem, escreveu hoje, uma, amarga como a aguardente destilada no despeito.

À semelhança de outros, ataca indiscriminadamente os "blogueiros anónimos", com esta crónica fria, onde chama "gente rasteira" a quem "só tem arte para discutir pessoas e não ideias". São os tais do "submundo da blogosfera".
Os quais, porém, não páram de aumentar, como cogumelos na humidade e que já vicejam, até no grupo dos blogueiros com nome, alguns apaniguados do cronista, em caixas de comentários e afins, incluindo os jornais e media em geral.
Uma praga, portanto e que os denunciadores dos "blogueiros anonimos", não perderão tempo em tentar meter na ordem, para restauração plena do respeitinho. Como havia dantes.

Esta praga é ainda uma desgraça para os cronistas de nome posto que já não sabem o que fazer à vida sossegada das croniquetas de jornal, por convite pessoalizado na relevância mediática, obtida de modo casual .

Fora desse terrível bas-fond, onde vegetam os piores boateiros, principalmente aqueles que têm a lata de lhes atirar com certas verdades, à fronha dos artigos de opinião, comentando-os sem cerimónia de maior e confrontando-a com um contraditório a que nunca estiveram habituados.
E assim, em vez de responderem no local próprio, servem-se novamente do palanque da crónica para zurzir a cobardia dos anónimos do submundo da blogosfera.

Esta classificação distintiva, no entanto, não deve abranger de todo em todo o blogueiro anónimo, juiz ainda por cima, para desgosto profundo do "juiz desembargador", e que lhe apontou as asneiras jurídicas que escreveu na croniqueta da semana passada. E que por tal, o cronista entende hipoteticamente alguém dever denunciar ao CSM, indicando o caminho certo do respeitinho. Um desaforo, portanto.

Como se pode ler aqui, no lugar certo no blog InVerbis, lugar dos tais "blogueiros anónimos", nenhum deles ousou ofendê-lo, para além de lamentarem o escrito e a excessiva exposição mediática, em tons de protagonismo, de um juiz, desembargador ainda por cima e com responsabilidades especiais por isso mesmo, uma vez que assim assina o escrito. Portanto, críticas leves, mas contundentes quanto às ideias e à atitude pública de uma pessoa que se assume na escrita como juiz.
E num comentário certeiro, de um comentador Manitu, juiz suposto, uma crítica objectiva às tais ideias, erradas ainda por cima, como lhe foi apontado sem grande escapatória.

Terá sido esta a razão principal, para a destilação de insultos aos anónimos, na crónica de hoje?
Não sei.
Acresecenta-se ainda, apocrifamente, uma explicação devida:
Aqui, nesta Loja, já apodada de lugar de cobardes anónimos, também se comentou a croniqueta da semana passada, de Rui Rangel. Pode ler-se, aí em baixo. Fez-se o link para a revista digital InVerbis, lugar onde comentam alguns anónimos e pseudónimos que se adivinha serem magistrados. Mas que não assinam o nome próprio porque não querem.
A meu ver, fazem muito bem, porque se livram de críticas directas e invectivas pessoais dirigidas ao cerne do seu poder que se exerce no tribunal. Até me parece ser essa a principal razão para que não assinem o nome. Alguns até assinam e fazem mal, a meu ver e segundo essa perspectiva que é uma visão errada do "dar a cara", numa bravatice escusada se o expediente anónimo não ultrapassar as fronteiras da crítica admissível. Por mim, raramente me foi dado ler algo, nessa revista digital que o ultrapassasse. Raramente. E ainda assim, aceitável.
Rui Rangel não percebe isso e entende que a crítica que lhe foi dirigida é de pessoas "com fraca personalidade". Pelo contrário. Mas explicar isto, leva algum tempo e quer-me parecer que será inútil.
Por outro lado, tomei como sendo dirigida a esse putativo blog que o não é, como já referiu o seu autor, mas uma revista digital, a crónica de Rui Rangel, de hoje.
Se equívoco houver, embora duvide porque não conheço blogs com as características do apontado, a culpa cabe interinha ao cronista, porque atira a pedra da sua invectiva a eito, aos que estão à mão...sem precisar alvos.
E isso, não parece lá muito corajoso. Parece até mesmo isso que parece: um exercício idêntico ao que recrimina aos outros anónimos.

Leia-se a crónica:

Neste mundo global, ninguém questiona as virtualidades e as vantagens dos blogues, enquanto ferramenta multifuncional que promove uma nova forma de comunicação, uma forma de expressão completamente livre. De facto, quando o blogue é usado correctamente constitui um importante instrumento de debate público, de debate pertinente e sério, prestando um bom serviço ao exercício da Democracia.

Mas o blogue que permite que a grande maioria dos bloguistas se refugie no anonimato não é sério, nem presta um relevante serviço à sociedade. Bem sei que o anonimato foi uma conquista para fugir à opinião massiva, para poder discordar sem ser identificado, evitando ser colocado à margem do grupo. Mas também sei que esta característica específica dos blogues, assente no anonimato, tem servido para proteger gente cobarde e mesquinha, que se refugia nesta forma de comunicar para vinganças pessoais, para ofender a honra e o bom-nome das pessoas que dão a cara e que não têm medo de pôr a assinatura em tudo o que fazem. Esta gente rasteira que se esconde por detrás do biombo do anonimato só tem arte e engenho pa-ra discutir pessoas e não ideias e princípios. A espiral de silêncio de que nos fala a socióloga Noelle Neumann é a fronteira que distingue a qualidade e a honestidade intelectual entre os blogues.

O blogueiro anónimo é, infelizmente, também juiz. Também este, que é o rosto visível da Justiça, de uma Justiça que se quer de cara destapada e transparente, se refugia nesta forma desprezível de comunicar, torpedeando o que lê, caluniando, sem qualquer respeito e tolerância. Talvez o Conselho Superior da Magistratura devesse estar atento a alguns blogues que acompanham as questões da Justiça e que em nada dignificam o Poder Judicial.

As ofensas anónimas estão nos antípodas da crítica construtiva, proporcional e adequada. É bom que o juiz anónimo saiba que o blogue não foge às regras do ordenamento jurídico português nem aos limites do exercício de liberdade, de manifestação e de pensamento. E é bom também que saiba que o titular do blogue é responsável, civil e criminalmente, pelos comentários injuriosos. Para cada direito criado há limites.

Quem se esconde na caverna do silêncio e da penumbra, para ter o momento de glória quando escreve sem se identificar, demonstra fraca personalidade e não tem o mínimo de respeito e de amor pelos direitos de personalidade.

Rui Rangel, Juiz Desembargador

Publicado por josé 14:17:00  

4 Comments:

  1. lusitânea said...
    Será que o Exmos sr desembargador quer que se retroçeda ao tempo das tipografias clandestinas em que os bloguistas anónimos teriam que manusear o papel de bíblia e a tinta numa cansativa rotina para ainda por cima ter que ir pela madrugada distribuir a verdade e abrir os olhos aos cidadãos vidrados por tanta propaganda enganadora?
    É que quando se der o reviralho os bloguistas anónimos reivindicarão a sua contribuição no esclarecimento das mentes afectadas por tanta propaganda enganadora e lesiva dos seus interesses e em especial do país nunca dantes tão castigado por obtusos governantes e tão desastrosas políticas...
    um bloguista anónimo protegido por direitos constitucionais
    de.puta.madre said...
    http://pauloquerido.net/blogosfera/os-blogues-estao-muito-a-frente-da-imprensa/
    Fica aqui este link. Tem um excerto de uma voz dissonante, a do MEC.

    Pois, de facto, a blogostera tem muito de Antígona. Isso incomoda.
    Investigador criminal said...
    O contraditório, nomeadamente aquele que demonstra a ignorância de alguns escritos jornaleiros é de facto uma chatice.....
    Acabem lá com isso que isso não convem a nínguém......
    Pois, é Sr. Juiz Rangel, isto de estar ao mesmo nível e ser confrontado com os erros é uma grande chatice....
    Roy Bean said...
    E será que ele não tem que fazer na Relação, não?
    Não há processinhos para relatar?

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