O ethos do Público


O Público faz hoje dezoito anos e a direcção do jornal pediu a José Pacheco Pereira, para ser director por um dia. JPP passou uma semana, na redacção, ficou fascinado e para notícia de primeira página escolheu o caso do Casino, já tratado jornalisticamente pelo Expresso e pelo Sol.

JPP, segundo conta o jornal, achou que a notícia servia para o Destaque, por lhe achar relevo noticioso, num aspecto pouco jornalístico: o processo de decisão política. JPP acha que os jornalistas devem escrutinar o processo de decisão dos organismos do Estado- Administração, particularmente na sua relação com os particulares.

A ideia é interessante, mas não parece que deva ser um fim em si mesma, a não ser para esse fim, ou seja, para explicar como é que os governantes decidem. É isso que faz o Público, hoje?

Não. O que o Público fez, é outra coisa. Partindo de uma suspeita já levantada pelos outros jornais, no sentido de a decisão que atribuiu o Casino de Lisboa, fisicamente considerado, à concessionária Estoril-Sol, ter sido politicamente orientada para um eventual tráfico de influências, ( é preciso dizê-lo, sustentando a presunção do direito à inocência seja de quem for), a investigação jornalística do Público, parece que partiu de um putativo “método histórico”, para chegar a uma história confusa e que pouco esclarece o leitor, mesmo com tempo e disposição para pensar no que foi escrito. A anatomia de uma decisão destas, precisa de mais tempo e espaço.

A grande notícia da cacha, é sobre uma “contradição sobre data do despacho” que comprometerá o político Telmo Correia. Ainda que assim seja - e não há elementos de prova indiciária suficiente para se cachar uma coisa dessas, a não ser com recurso ao conteúdo das escutas telefónicas, o que é dúbio, -o problema mantém-se: houve tráfico de influência, entre os políticos envolvidos ( e são vários, todos da área do CDS e eventualmente de outros lados) e os particulares da Estoril- Sol?

O Público de JPP, decide então pôr como cacha de primeira página a notícia que “Escutas contradizem Telmo Correia sobre data de despacho do casino”. E daí?

É este o jornalismo que JPP defende, em contraposição ao jornalismo que algumas vezes ataca, precisamente pelos mesmos motivos dúbios de lançar suspeitas sem fundamentação suficiente?

Toda a polémica do Casino, no aspecto mais relevante e que é a reversão do edifício para o concessionário particular, em vez de o ser para o Estado, ficou esvaziada com a verdadeira notícia do Sol, ao entrevistar Joaquim Caldeira, Inspector-Geral de jogos, na época ( governo Durão Barroso, com José Luís Arnaut como negociador): foi Caldeira quem “legislou” desse modo e ainda por cima erradamente e por lapso. Plausível, perante a explicação dada.

O jornalista JPP, insiste em mostrar o interesse da notícia, e em escalpelizar o “iter criminis” da decisão sub judice, com a justificação de que é sempre importante, saber as razões para as decisões políticas, porque “ Muitos governantes acham que o Estado é seu património e podem negociá-lo a seu bel-prazer. Este tipo de negociações não é escrutinado por ninguém, nem pelo Parlamento, nem pelas oposições, nem muitas vezes pela comunicação social, em parte porque estas negociações são discretas e secretas, fazem-se em conversas que nunca vão para o papel.”

Neste aspecto, pouco há a contestar ao jornalista, a não ser a generalização perigosa de quem “este tipo de negociações não é escrutinado por ninguém." Não é assim. Nunca seria possível ultrapassar a fase de decisão no sentido indicado, se o problema fosse escrutinado por quem tinha a oportunidade e o dever de o fazer: precisamente o Parlamento e o PR, aquando da aprovação e promulgação da respectiva lei. E não o fizeram, neste caso. Faltou por isso, na “anatomia” do caso, mencionar a parte patológica, relacionada com o laxismo das instâncias de controlo.

O que não costuma ser escrutinado, são os relacionamentos, as amizades perigosas, as frequências, as consequências práticas de certos actos. No caso, a Estoril-Sol, ficou beneficiada? De quem é a Estoril-Sol? Quem manda efectivamente e quem são os empregados e assessores desses mandantes? Quem é que trabalha para a sociedade em regime de prestação de serviços?

Mas ainda assim, passemos à frente, porque o assunto escolhido por JPP, tinha pano para mangas e com outras dimensões bem mais interessantes.

Porque não investigar por um dia, nessa perspectiva tão cívica, o facto de o político inactivo Jorge Coelho, ter sido recentemente convidado por uma das maiores empresas de construção e obras públicas do país, para seu consultor privilegiado, sendo sabido que um antigo governante, ajudante do mesmo Jorge Coelho, de nome Parreirão, já lá estava também a consultar, desde há muito e segundo se escreve por aí?

E porque não dar relevo à notícia do dia que é a investigação a uma outra transacção, esta nem mais interessante, envolvendo os CTT, de Coimbra, de há uns anos atrás?

O problema é diferente? Talvez. Estes são actuais, embora o dos CTT ainda seja mais antigo. O do Casino é bem do passado. Que não volta.

De resto, quanto à experiência de JPP como director do Público, há uma notícia deliciosa, no suplemento P2 do jornal ( e que justifica só por si a compra). A fls. 62, uma maldade que é o editorial de 31.3.1993, do antigo director do jornal, Vicente Jorge Silva, sobre “Os donos do Parlamento”.

Escreve VJS: “A verdade nua e crua é que quem quer mandar na Assembleia da República é o autor do regulamento que representa um dos mais pérfidos atentados à liberdade de informação de que há memória desde o 25 de Abril.

Destinatário directo: José Pacheco Pereira, então deputado do PSD, no Parlamento e que tinha declarado:

É preciso mostrar que quem manda nesta casa são os deputados”.

Eu lembro-me bem desta figura na Assembleia da República e acho que neste caso, foi uma figura triste. E não me parece que JPP tenha mudado assim tanto. O que já escreveu sobre os blogs e os anónimos, não augura nada de bom arrependimento, embora ultimamente o ethos do que escreve, seja menos influenciado pelos pathos. Veremos.

Esta notícia de hoje, do modo como foi construída e pelo que representa, também não vai muito longe, nesse pathos.


PS: O Público é o meu jornal preferido, desde o seu primeiro número, cuja capa reproduzo, com scanner tirado do primeiro número, original e que guardo. Longa vida ao Público que tem melhorado bastante, nestes últimos meses.

Publicado por josé 19:06:00  

1 Comment:

  1. Leonor Nascimento said...
    Viva a prularidade de opiniões!
    http://arrastao.org/jornalismo/a-confissao/

    Só uma dúvida: referem-se (ambos) ao mesmo jornal?

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