As lágrimas de Leonor

Leonor Beleza, presidende de uma verdadeira fundação privada - a Fundação Champallimaud- foi convidade para um evento, por uma outra fundação, esta semi-privada -a Fundação Inês de Castro, uma parceria pública e privada, onde está presente um tal José Miguel Júdice, através da Quinta das Lágrimas, onde decorreu, aliás, o evento.
Numa conferência ontem realizada e publicitada pelo Público, Leonor Beleza, falou sobre um assunto que conhece bem, tendo, aliás, apelado à sua experiência como governante: a influência dos partidos de poder, na administração pública.
Leonor Beleza entende o fenómeno como um mal a combater, apresentando-se como combatente dessa luta, denunciando-o, segundo o Público, como reflexo de "um mundo ao contrário, com profissionais da política- sem experiência de vida nas empresas, no sector público ou na intervenção cívica- nos lugares de topo da administração pública."
Adiantou ainda que nos governos de coligação, em que participou, presencicou "acordos partidários de partilha do terreno da administração" e até "revoltas das bases partidárias e de quadros intermédios, as mais das vezes locais, porque não se procedia de acordo com os seus interesses."
Não sendo estes fenómenos, qualquer novidade ou até notícia requentada, resta saber que importância terão as denúncias públicas de Leonor Beleza, feitas num local de memórias funestas: a Quinta das Lágrimas, ligada a José Miguel Júdice.
Até poderíamos entrar pelo campo escorregadio da análise, simples e directa, do modo como José Miguel Júdice conseguiu tanto poder em Portugal, ao longo dos anos. Como é que um indivíduo que ao refazer a Quinta das Lágrimas, confessou em entrevista, ter gasto tudo o que tinha, enterrando-o no local e passados uns poucos anos, compra, recentemente, por uma dúzia de milhões de euros um Hotel no Porto. Isso depois de ter comprado outros, igualmente de monantes faraminosos. Fantástico sucesso empresarial que poucos se podem dar ao luxo de apresentar. Mas, sobre o assunto, não desviemos a conversa, até porque aparece já alguém por aí, a dizer que a inveja é o mal deste país...esquecendo de caminho, outros dois pecados capitais.
Portanto, nos lugares de topo da Administração Pública, estão comissários políticos e esse fenómeno repetido e normalizado, sempre incomodou a consciência cívica da actual filantropa.
Vejamos: os lugares cimeiros da Administração pública, são as direcções-gerais e ainda as direcções de serviços e outros, inventados pelos governos de bloco central ao longo destas três décadas.
Se o problema vem directamente do facto de os titulares nomeados pelos directórios partidário-governamentais, serem pessoas sem experiência de vida nas empresas, sector público ou intervenção cívica, subsiste outra questão ainda mais grave: quem é que vai, e como, para os directórios partidários que assumem o poder político?
São os que têm tal experiência? E onde a adquiriram? Nas universidades? Nos escritórios, geralmente de advocacia?
Tomemos o caso dos primeiros ministros que fomos tendo, ao longo dos anos. Algum deles preenche o requisito necessário da tal experiência redentora?
A questão, como é já notório, reconduz-nos a um problema bem mais interessante: como é que se formam elites, em Portugal? Nas universidades, apenas?
Na revista Visão, desta semana, há um artigo sobre António Vitorino. Escreve-se que é o mais influente apaniguado deste governo. Mais do que Jorge Coelho ( é o próprio quem o reconhece) e sem contar com o acólito Vital. Escreve-se mais e que até já era sabido: se António Vitorino quisesse, tinha sido ele o primeiro-ministro, em vez do actual, José Sócrates.
Podemos então concluir que a escolha deste primeiro-ministro, não foi por mérito próprio, exclusivo e naturalmente impositivo. Sócrates não ganhou o poder, porque assin quis em primeiro ligar, mas apenas porque os do grupo lho ofereceram.
Podemos mesmo concluir que existe no partido que apoia este governo, um grupo poderoso que poderá, por isso mesmo, destituir o actual primeiro-ministro, logo que tal se lhe afigure necessário ou conveniente.
Para perceber bem o país, o modo de governar, os reais beneficiários de algumas medidas deste governo e a explicação de algumas medidas governativas, será preciso incluir estes dados de análise.
Se um dos problemas do país, é efectivamente a enxúndia de quadros políticos que vindo das bases partidárias, querem as migalhas do poder de distribuir tachos, outro, porventura mais grave, é o das elites e do modo como se formam, ascendem politicamente e tomam as rédeas do poder.
E sobre isso, Leonor Beleza, aposto que sabe ainda mais do que sobre o fenómeno celerado. Mas sobre isso, não fala. Et pour cause.

Publicado por josé 11:50:00  

3 Comments:

  1. KILAS said...
    Caro José:

    Quanto a mim pôs o dedo numa das feridas que atormentam este país: O TRÁFICO DE INFLUÊNCIAS.

    E esse tráfico de influências começa em baixo e vai por aí acima.
    Traduzindo e dando exemplos comezinhos, ainda ontem li na Visão que o futuro novo Presidente da PT, Zeinal Bava, colhe simpatias à esquerda e à direita no panorama político nacional, ao que não será alheio o facto de ter dado emprego aos filhos de vários políticos, por exemplo, António Guterres, ao filho de Jorge Sampaio, etc....
    Por outro lado, segundo me disseram, a filha de Jorge Sampaio, Drª Vera Sampaio, que terminou o curso de Direito com a notável média de 10 valores ( e digo notável sem qualquer ironia, pois basta ter " o azar " de ter 3 ou 4 dozes para estragar essa notável média de 10 valores ), é agora assessora do Minsitro da Presidência Pedro Pereira...
    Pergunto:
    Quais as provas a que essas pessoas foram sujeitas para irem ocupar esses cargos?
    Isto, claro está, sem por em causa a sua competência.
    Isto não será tráfico de influências???

    Tudo isto faz-me lembrar uma história engraçadíssima que ouvi a propósito de corrupção, outro flagelo deste país:
    O Governo e O Mº Pº andam tão empenhados no combate à corrupção que já foi deduzida acusação contra um coveiro do Cemitério de Benfica por ter recebido um valor não apurado, mas nunca inferior a € 10,00...

    Pois....

    Aquilo é que é a corrupção e o coveiro o corrupto....

    Pois...

    Há muitos coveiros em Portugal...
    Jorge Oliveira said...
    Um dos problemas do país é, de facto, o processo pelo qual (não) se formam as elites partidárias e como ascendem dentro dos partidos aqueles que chegam ao poder.

    Sobre o assunto tenho algumas ideias, porque já fui militante do PSD, durante 10 anos, de 1997 a 2006.

    Dispensando pormenores, posso dizer que escrevi uma carta expondo essas ideias a Marques Mendes. Por duas vezes. Nem sequer se dignou responder.

    Eu até podia ser um grande burro e as propostas não terem qualquer mérito, mas por sinal até era um militante que tinha prestado algum trabalho válido no Gabinete de Estudos. Isto não tem cura.
    zénacidadeazul said...
    Ora, a mim, se me derem 500 milhoes de euros para eu fazer uma Fundação com a obrigação de ``largar´´ cada dois anos 1 milhão pró ingles ver, prometo que construo um edificio emblemático no espaço publico da zona ribeirinha de Lisboa.

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