A cultura pertence à direita

"Há ideias de esquerda, mas só há cultura de direita. A cultura é o costume, a regra a norma, o Direito; as ideias, ma medida em que são elaboradas na consciência, são a transgressão, o desvio, a crítica do Direito. Mas a cultura não nasce das ideias, antes, sim, da vida. O problema todo é: como mudar a vida?"

Para já fica assim (amanhã darei a explicação para este pequeno texto a que faltam uns sinais), porque o epílogo sabe-me a pouco...

Nota de actualização explicativa, às 17h10m de 6.9.2007:

Há ideias ou sistemas de ideias de esquerda, há projectos de esquerda, como já vimos. Mas a cultura, no significado que se nos afigura mais operacional neste género de discussões, é um meio integrador da sujectividade num outro meio, que os antropólogos designam também por “cultura”, o meio tecno-social, que é anterior à consciência. A “cultura” naquele sentido é a expressão simbólica de vida estabelecida; as ideias podem ser a contestação dessa vida.

Estas frases, incluindo aquela inicial a que, propositadamente, suprimi as aspas que agora coloquei expressamente, inserem-se num texto publicado por António José Saraiva, no Diário Popular de 21.10.1976.

Foi nesse ano que AJS fundou, com Carlos Medeiros e José Batista, a revista Raiz e Utopia, em que lidava com estes assuntos. Passados 30 anos, a discussão estiolou. Pior: reduziu-se ao clubismo da Esquerda que nem percebe o significado de Cultura, pretende à viva força assenhorear-se da mesma e despreza as divergências semânticas.

Publicado por josé 01:59:00  

4 Comments:

  1. Luis said...
    Essa agora! Era só o que faltava! Então a esmagadora maioria dos fazedores de cultura (escritores, pensadores, compositores, artistas plásticos, cineastas, fotógrafos, etc.) são e foram sempre assumidamente de esquerda e agora a cultura também já é da direita. Isso queriam vocês! Contentem-se com as grandes propriedades (rústicas e urbanas), as grandes empresas, o grande capital, as grandes fortunas, que já não é nada pouco, a cultura, essa, não é nem nunca será vossa.
    zazie said...
    Esta agora é que foi a cereja no topo da série.

    Que diabo, é o que eu digo. Ainda vai a sábio

    eheheheh
    zazie said...
    Os fazedores não são nada. O que fica é produto do tempo e o que o tempo mantém é que é a cultura. Por isso o património nunca anda ao sabor das mudanças de ideias.

    O José falou de uma coisa tão importante e tão inteligente que até mete dó não aparecer ninguém que a compreenda.

    Como mudar sem ser apenas ar.
    lusitânea said...
    Estou a ver as angustias daqueles criadores de públicos que eventualmente leiam este post... que já veio tarde para aquele famoso cineasta subsidiado para fazer filmes a preto e só preto a côr na berra que per si implica logo pagamento.

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