Os tempos estão a mudar

Vasco Pulido Valente é entrevistado hoje, no D.N., a propósito da republicação de um livro seu, já com mais de 10 anos, “A Revolução Liberal, os “Devoristas”.

Sobre o tema do livro, VPV, esclarece que lhe parece interessante retomar a discussão do tema, porque a Revolução liberal, em dois anos ( 1834-1836) estabeleceu as bases do Portugal moderno, por ter sido arrasado então, o Portugal antigo. Ao contrário da Revolução de 1974, a Revolução Liberal foi mais profunda e intensa e provocou mais antagonismos e conflitos.

VPV, no capítulo da entrevista sobre a sua pessoa crítica, acaba por dizer que “está tudo no saber ver”, o que não deixa de ser a mais apodíctica das verdades.
Porém, para “saber ver”, é preciso algo mais do que visão perfunctória, quando se declara que “Portugal é tão esquisito que não atrevo previsões”.
Por exemplo, no Público de hoje, em editorial, José Manuel Fernandes escreve sobre o fenómeno de Fátima, para mostrar a sua impressão acerca do número de peregrinos que “tem vindo a crescer de forma exponencial e sustentada”, com “a presença de mais jovens vindos das zonas urbanas”. Conclui que “os que prognosticaram o fim das religiões estão a ser confrontados com sinais do que outros anteviram como podendo ser o “século das religiões” e apresenta o exemplo italiano, recente, para dar conta de um manifestação contra algo que por cá se tenta associar às comemorações da implantação da República.
Os italianos, como se sabe, são um povo retrógrado, inculto, numa palavra, bárbaro. Rejeitam aparentemente, certas ideias de igualdade, extensíveis a todo o tipo de casais. A manifestação contra o propósito legislativo foi "gigantesca". A contra-manifestação, "quase um fiasco". Sinais dos tempos?

Esta verificação de um director de jornal, confessadamente sem fé, entronca fatalmente no resultado da Revolução Liberal e na visão dos que podem ver algo para além das aparências e do sectarismo ideológico. "Está tudo no saber ver".
Nos últimos anos, em Portugal, o ataque sistemático às instituições da Igreja, sob o pretexto do laicismo oficioso e da separação do Estado e da Igreja, contende seriamente com um facto simples de observar: a religião cristã, continua a ser a religião da maioria dos portugueses, apesar do jacobinismo reinante e preponderante que se afadiga sempre em contestar a presença de entidades religiosas, em cerimónias oficiais da República e em tomadas de posse de governantes e notáveis.
Para os jacobinos do regime, nem o argumento democrático os demove. Mesmo que lhes provem ser o número de crentes e visitantes de um santuário como o de Fátima, muito maior que o número de militantes e simpatizantes habituais de um partido da sua afeição particular, acabam sempre por militarem activamente na repressão ideológica ao sentimento religioso da maioria.
Em nome de quê e de quem, é o que gostaríamos de saber. Para já, apenas temos a sua particular interpretação da lei, sempre aferrada na ideia de separação constitucional, de origem jacobina e liberal e de interpretação restrita e por vezes anedótica.
Mesmo contrariando a vontade popular, manifestada em evidências de números. Como disse VPV, “está tudo no saber ver”. Veremos então.

Publicado por josé 10:21:00  

5 Comments:

  1. JÚLIO SILVA CUNHA said...
    Mas em 2007 o José pretendia o fim da separação da ICAR e do estado?
    Bem sei que o folclore militante anti-ICAR cria anti-corpos mas a separação tem sido benéfica. Ou O José entend eo contrário? O seu texto é ambíguo e toca num ponto tadicional; "maioria dos portugueses é católica" - isso quer dizer que os que não são católicos devem circular por auto-estradas aspergidas com água benta católica?
    J.
    josé said...
    Entendo uma coisa simples, que bons entendedores também percebem:

    Não se deve perseguir ideologicamente e com acinte quem acredita em Deus, na Virgem Maria e nos mistérios da Fé cristã.

    Como em Portugal se pratica a religião católica, em grande maioria, o que fica provado com o fenómeno de Fátima, tanbém entendo que o jacobinismo perdeu a guerra.
    Logo, deveria acontonar-se no lugar das derrotas: o silêncio.

    Quanto aos não católicos, com crença ou sem ela, a tolerância é de rigor e a caridade cristã chega para que todos vivam em paz.

    Quem não entende isto, são os atéistas militantes e os jacobinos serôdios que á vista de uma cruz, espumam de raiva incontida contra o portador.
    josé said...
    E a ambiguidade é a palavera exacta, porque a tolerância assim o aconselha.

    Se existem templos, cruzeiros, mosteiros e escolas de inspiração cristã, deixem que existam e continuem a existir.

    O tempo dirá se têm futuro.

    No início do século, o anticlericalista Afonso Costa apostava em que acabava com a religião em Portugal, em duas gerações.

    Não sei se Afonso Costa deixou descendência com inclinação para a Fé cristã, mas sei que falhou no vaticínio, apesar dos herdeiros que por aí andam , apostados em executar o testamento diabólico.
    Isabel Magalhães said...
    Caro José;

    Gostei particularmente do seu comentário acima [2:56 PM, Maio 14, 2007]

    Nos últimos tempos atingiu-se uma intolerância enorme pelos que acreditam, de tal modo que no Natal passado senti-me 'estrangeira' no meu país, sem saber a quem [podia] desejar 'Boas Festas'.
    Não sou saudosista do 'ancien régime' mas tive saudades do tempo em que Natal era Natal e ninguém se sentia 'insultado' com o cartão natalício.
    Estou até a pensar que no próximo Natal, e em consequência de situações surrealistas que vi na blogosfera, colocar um aviso no meu blogue

    "ACEITAM-SE CARTÕES DE BOAS FESTAS"

    Saudações digitais.
    I.
    zazie said...
    Em grande, José!

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