Marcelo Viana, alguém conhece?

Na passada quinta-feira, 2.3.2007, a Universidade de Coimbra comemorou o seu 717º ano de existência. A efeméride, por si mesma, justifica notícia e atenção. Tirando jornais regionais e alguns virtuais, a imprensa de “referência”, desligou do assunto, aparentemente local e acantonado nas Beiras.
Não obstante tal omissão informativa, o Público de Sexta-feira, titulava que “Número de doutoramentos mais que triplicou nos últimos anos”, baseado em notícias online de site do Observatório da Ciência e do Ensino Superior.
Tal fenómeno, aliás, era bem visível, na cerimónia de comemoração que se realizou no Auditório da Reitoria da Universidade, perante o “magnífico reitor”, vice-reitores e alguns docentes. Poucos, muito poucos mesmo, aparentemente desligados das comemorações.
A efeméride foi aproveitada para a Universidade homenagear publicamente, com medalhas , os “aposentados” do ano, professores e funcionários e ainda para entregar a várias dezenas de novos doutorados o diploma pelo doutoramento concluído no ano transacto. Um canudo em metal dourado, contendo um pergaminho em tromp l´oeil, escrito no latinório do costume e que provoca sempre o sorriso lato de quem lê, para garantia de que o titular possa escrever doutor por extenso.
Tirando este fait-divers, anualmente repetido, a Universidade de Coimbra, decidiu este ano, atribuir um prémio da própria Universidade e que em edições anteriores tinha já distinguido um historiador- António Hespanha- uma o actor e encenador- Luís Miguel Cintra- um neurocientista - Fernando Lopes da Silva- e uma professora jubilada, a classicista Maria Helena da Rocha Pereira.
Ora, este ano, o prémio recaiu em…Marcelo Viana. Marcelo Viana?! Mas, quem raio é Marcelo Viana?
Pois, é aqui que reside a razão deste postal. A estupefacção ao ouvir o discurso de agradecimento do prémio, justifica esta referência, acumulada pela completa ausência de notícia nos media de referência.
Marcelo Viana é um matemático. Dedicado à investigação matemática, na área dos Sistemas Dinâmicos ( área dedicada à compreensão e previsão da evolução de uma qualquer realidade ao longo do tempo).
Licenciou-se em Matemática pela Universidade do Porto, em 1984, e doutorou-se no Brasil pelo Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. O IMPA não é propriamente uma qualquer universidade independente, mas sim a mais prestigiada instituição da América Latina no estudo da matemática. O currículo justifica já atenção demorada, pois os prémios, convites para participações em conferências e publicações científicas, já é extenso. Talvez por isso, Marcelo Viana é considerado já um dos grandes especialistas da área de estudo dos Sistemas Dinâmicos.
Por isso mesmo, a Universidade de Coimbra, por empenho do seu departamento de Matemática, atribuiu-lhe o premido deste ano.
Quem o soube e deu a saber?
O Diário Digital, por exemplo. Também o sítio da Cabra.
Para saber mais de Marcelo Viana e do que pensa sobre o estudo da Matemática em Portugal, pode ler-se a entrevista aqui que reproduz genericamente o siderante discurso de agradecimento, em que destacou o progresso extraordinário alcançado por Portugal, nos últimos vinte anos no estudo da Matemática e o apresentou como exemplo do que por cá acontece, muitas vezes sem darmos conta disso e à margem do desenrascanço habitual , das modernas e lusíadas chico-espertices independentes e vergonhosas ( para quem tem vergonha).
Fica, porém, uma perplexidade registada: nem o Público, nem o Diário de Notícias, nem o Sol, nem o Expresso dedicam uma única linha que seja, ao assunto, na Sexta-feira e Sábado que passaram. Nada.
Marcelo Viana, já com profusas referências na net, não existe enquanto personalidade científica e nem mesmo o prémio importante que alcançou, chegou para ser noticiado.
Depois, interrogam-se acerca da crise de venda de jornais.
Seria tal omissão possível noutros lados, mesmo os mais mediterrânicos, como a Itália do la Repubblica ?
Veremos a seguir, para configurar uma análise perfunctória e mais prática do que a encetada por JPP, no Público, onde tem andado a tentar "pensar os jornais" ( e já vai no terceiro tomo).

Publicado por josé 11:44:00  

1 Comment:

  1. sniper said...
    Se a ignorância nos jornalistas fosse medida de 0 a 100%, 99% deles levavam 90%. São básicamente uns chicos espertos encartados, angariadores de simpatias, com pagamento em almoços e Deus sabe que mais, de informações de qualidade muito duvidosa, aliás em sintonia com quem as fornece ou produz.

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