O modelo republicano

O jornal Público, com a mudança estética, operou uma pequena cosmética nas letras, títulos e arrumos de assuntos nas páginas renovadas. O recheio ético, poético, patético, sintáctico e programático continua o mesmo dos últimos anos. Logo, a melhoria da aparência nada de substancial irá mudar na audiência e credibilidade do jornal e a verificação está apenas a poucos meses de vista.

Qual o problema central do Público actual? Para mim, a questão que se coloca, é a própria “filosofia” do jornal. À semelhança do ocorrido com o alterado Libération, francês, cujo paralelismo de crise mais de uma vez assentei como referência, incluindo a particularidade de os directores de ambos os periódicos terem passado os tempos de juventude a clamar publicamente e por escrito em jornalecos, por uma sociedade sem classes do tipo maoista.

JPP, no Público de Sexta-feira, escreveu que os jornais de referência, devem ser “mais compactos, mais pequenos, especializados, menos generalistas, comunicando de forma próxima com outros media”. É uma opinião que carece de demonstração de bom funcionamento. Se alguma vez alguém o fizer, logo se verá o acerto ou desacerto da impressão.
Quanto ao Público, parece-me mais acertado comparar com o que se passa lá por fora, em países com semelhanças latinas, por exemplo, em vez de as procurar em semelhanças anglo-saxónicas.
Tomemos por exemplo, o caso de La Repubblica, como poderíamos tomar o caso comparativo do EL Pais ou El Mundo, para rever páginas diárias de informação e cultura.
Na Terça-feira, 27 de Fevereiro, o Público dedicava a primeira página a assuntos nacionais: A OPA e a PT; A contestação dos magistrados aos números estatísticos do Ministério da Justiça; a censura – Castigos infantis, Portugal condenado, era o título- de uma decisão do STJ por um órgão do Conselho da Europa ( Comité Europeu dos Direitos Sociais); protestos pelo fecho de serviços de urgências e uma sondagem do Eurobarómetro sobre a confiança das novas gerações.
No âmbito internacional, refere-se a deliberação das Nações Unidas sobre Srebrenica, sobre a ausência de culpa da Sérvia no genocídio e destacam-se notícias do suplemente da P2, sobre a moda e os prémios das estrelas da noite dos Óscares, uma referência às atribulações sobre a credibilidade de uma guatemalteca, Nobel da Paz em 1992 e agora candidata à presidência do país.
Como é que o LaRepubblica retrata a Itália e o mundo, na primeira página desse dia?
A política caseira, toma toda a importância de um título dedicado às…reformas da Segurança Social. Lá como cá, os sindicatos estão contra. Mas a primeira página transcreve dois artigos de opinião, continuados nas páginas interiores, sobre assuntos de política interna: a reforma eleitoral e um outro sobre as duas esquerdas, a estalinista e a libertária e o “duelo nunca acabado”. Uma referência ao estudo científico do efeito de estufa, com artigo de correspondente de Londres. Num quadradinho de chamada, em fim de página, um título, “as declarações de inquérito”, evidencia a existência de mais um escândalo de corrupção com “50 milioni pagati ao politici”.
No noticiário internacional, uma referência a um livro de Ariel Toaff, israelita polémico que põe em causa teses oficiais sobre assuntos de guerra; uma notícia sobre a decisão de não condenação da Sérvia, pela Onu. O título semelhante ao do Público, tem desenvolvimento nas mesmas duas páginas , 12 e 13. A comparação dos artigos do Público e do La Repubblica, dão toda a imagem da diferença entre os dois jornais. As fotos são praticamente idênticas e colocadas do mesmo modo, até. E mesmo os artigos são assinados por uma jornalista, num jornal como noutro. Mas o sumo, a essência do escrito, diz a diferença e dita a sentença: a extensão, profundidade de análise e o próprio estilo de escrita nem se devem comparar, porque a derrota nacional está assegurada.
E a P2 portuguesa, comparada com a italiana, original? Sabendo que a loja italiana tem melhor recheio, mesmo assim, valerá a pena comparar:
Na P2 nacional, o relevo todo vai para os Óscares de Hollywood e para o túmulo encontrado pelo cineasta James Cameron, em Jerusalém, reivindicado como sendo o de Jesus Cristo.
A P2 nacional, ainda iniciou uma coluna de citações de blogs, em papel. A ideia vale pouco, parece-me. Reproduzir opiniões anódinas de gente anónima ou nem tanto, vale o mesmo que alargar a secção das cartas ao director, com recolha de cartas abertas em lugares escolhidos.
O LaRepubblica - tem nada disto, mas tem, pelo contrário, referências aos sites relevantes, através da indicação precisa e principalmente, a indicação de livros sobre os assuntos ensaiados nas páginas do jornal. Acontece isso mesmo, nesta edição que dedica sete páginas a assuntos de cultura geral, com particular atenção à discussão ente as “duas esquerdas”, com artigo de Anthony Giddens e caixinha de comentários dedicada a Norberto Bobbio, já falecido, mas com direito a ser ouvido nestes assuntos. Sintetiza assim: “ enquanto a esquerda liberal é interna à dimensão do capitalismo, a outra esquerda, a “verdadeira”, a “autêntica”, “boa esquerda”, pressupõe a definitiva superação.” Mas a questão ocupa três páginas, bem ilustradas e com referências ao site na net- Eric Hobsawm, Vittorio Foa, Ralf Dahrendorf e Robert Hughes e uma arrumação gráfica dos textos e imagens, exemplar. E sem cores. Mesmo assim, bem colorida, é a discussão que se estende por mais três páginas da secção Cultura, sobre o assunto de capa que atenta na polémica que o Parlamento israelita levantou ao condenar o livro de Ariel Toaff. Alguém ouviu falar no assunto, por cá? E alguma vez a P2 publicaria um artigo de duas páginas sobre a Inquisição, com a isenção revelada nas páginas 42 e 43 do LaRepubblica?
O Público é a cores; o La Repubblica, é todo a preto e branco, mesmo a publicidade. Contudo, as cores da narrativa, descrição e análise, são muito mais vivas neste, do que naquele. Fenómeno óptico, certamente. Por exemplo, sobre os Óscares, o Público omitiu totalmente a referência ao prémio de carreira recebido por Ennio Morricone. O La Repubblica, dá-lhe a referência máxima, ainda mais do que a Scorsese. Poderia escrever-se: não admira, é italiano. Contudo, Scorcese também descende de Rómulo e Remo. E o assunto, neste caso, é música. De filmes.
Poderíamos continuar a análise comparativa, com as edições de fim de semana, da Sexta-Feira última. Retenho apenas o assunto do obituário de Schlesinger. O Público, na sua loja P2, dedica uma página do correspondente Dennis McLellan. No LaRepubblica, escreve um enviado, Vittorio Zucconi. A arrumação do texto e da imagem, tornam o artigo italiano, mais apetecível de ler, mesmo a preto e branco. Repare-se apenas no tratamento da mesma imagem ilustrativa, nos dois jornais de Sexta:


Publicado por josé 16:08:00  

9 Comments:

  1. sniper said...
    Caro José, estou de acordo com o JPP. O resto é a falta de competência dos jornalistas portugueses, e respectivas administrações, apesar de considerar o José Manuel Fernandes um bom director de jornal, ( não administrador ), esforçado, trabalhador e inteligente. As chefias intermédias e por ai abaixo, é o valha-me Deus. Mas esta imagem é igual para os "jornais de primeira linha" da nossa praça. Veja o que aconteceu ao António José Teixeira, que para de ser um soarista insuportável, era e é na minha opinião, muito "macio" para qualquer cargo de chefia. Boa pessoa, mas isso não chega. Lixou um projecto e muito boa gente que embarcou com ele. Os jornais que temos são à nossa imagem e atitude perante a vida. A distracção total perante o que é realmente importante.
    o-espectro said...
    O La Reppublica deve ser o segundo maior jornal do Mundo, depois do NYT, em tiragens( abstraindo dos japoneses...). O Público atrofiou a redacção e não sabe tirar partido dos exclusivos internacionais, ao que me é dado ver... Voltamos ao ponto axial: VJSilva era( é) um palido clone do S. July, que por sua vez era(é) um fraco clone do J-F. Bizot. O July é agora editorialista na RTL-Paris, ao lado desse papa multimediático chamado Alain Duhamel, jospinista que apoia agora o Bayrou centista na corrida presidencial do próximo mês. Niet
    josé said...
    O que procurei demonstrar com as fotos em paralelas assimétricas, foi a falta de imaginação e de aproveitamento de matéria cinzenta.

    Os elementos disponíveis aos dois jornais eram idênticos.As fotos iguais, até.
    Sendo verdade que o La Repubblica tem formato maior, com seis colunas em vez de quatro do Público, ainda assim era possível fazer melhor gráfica e textualmente.

    O apelativo da mudança gráfica funciona ( se funcionar) durante uns tempos, mas neste caso concreto, nada mudou para melhor. E a foto do Público, do Schlesinger, é a cores...
    Que me interessa a mim, uma foto dessas, com a Baía dos Porcos à vista se o espaço que ocupa, come uma boa parte de texto que o La Repubblica usa para informar?

    O problema do Público, já o disse, é o seu director. Não tem emenda e o seu editorial de hoje é a prova disso mesmo. Fraco editorial para comemorar 17 anos de jornal.
    Escolheu como mote de comemoração, a geração dos 17 que nasceram com o jornal. Seria interessante perguntar e saber se algum dos jovens entrevistados lê o Público e porquê...
    A dona Kathleen Gomes, de quem deconheço tudo, nem sequer lhes perguntou algo sobre leituras de jornais. Achará que pouco vale a pena, apesar de fazer disso a sua vida profissional e o assunto ter a ver com a comemoração dos 17 anos do periódico.

    Enfim, critérios.

    Quanto ao J-F Bizot, ando a documentar-me. Perdi a ocasião, há uns tempos de comprar uma série de revistas Actuel dos anos setenta.´
    Quando me lembro sinto remorsos. Umdia destes volto ao ebay.
    josé said...
    Quando digo que "neste caso concreto nada mudou para melhor" refiro-me ao artigo sobre o Schlesinger.

    Quanto ao aspecto gráfico do jornal, continuo a dizer que está melhor. Falta é o conteúdo a condizer.
    o-espectro said...
    O J-F Bizot, que ainda conseguiu herdar umas massas da empresa cimenteira familiar nos finais dos 60´s, publicou, em 2006, dois livros essenciais sobre a sua carreira no contexto da Press Underground: "Presse Libre " e " 200 tripes du counter-culture ". Os romances, que começou a publicar deste 1975- Les declassés(76); Les années blanches(79); Le portail(2000);et o autobiográfico sobre o combate vitorioso contra o cancro" Moment de faiblesse "(2003), estao na maioria publicados na Edit. Grasset. Au revoir! Niet
    jpmeneses said...
    Caro José, acha que o modelo do La Repubblica é reproduzível em Portugal? Com os leitores de Portugal? Não é (penso). Não há leitores suficientes para um jornal assim em Portugal; não há 50 mil pessoas disponíveis para comprar um jornal assim. Da mesma forma que não acredito que o actual DN possa algum dia vender 60 mil exemplares. Por isso o futuro do Público é dramático.
    josé said...
    jpmeneses:

    Permito-me discordar. EM Portugal, há muito mais do que 50 mil pessoas dispostas a comprar um jornal de qualidade como o La Repubblica.

    Quem compra o Sol e o Expresso e o Público, e ainda mais quem os não compra, por não haver outros melhores, compraria um LaRepubblica de bom grado.
    FOi assim que o Público chegou a vender o dobro do que vende agora, e não me venham com a treta da crise económica, porque em Portugal andamos sempre em crise e em 75-76, vendiam-se mais jornais do que agora, provavelmente.~
    Durante muito tempo aliás, dizia-se que não havia público para um jornal como o Público, que apareceu notoriamente como émulo do La Repubblica, e do El Pais.

    Falemos de outra coisa que os jornalistas não apreciam: a qualidade do produto que vendem.

    As notícias, agora, dão-se de borla, mesmo.
    Quem quer saber se o Valentim ou o PInto da Costa foi ou não pronunciado, vê tv. Quem quiser saber mais algumas coisitas, não precisa de ler o Público do dia seguinte: lê no Portugal Diário ou no Diário Digital ou no próprio site do jornal, as breves.
    Que diferença esperar do jornal do dia seguinte?
    Aquilo que os jornais como o LaRepubblica oferecem: informação detalhada sobre os factos e as personagens, com ligações, opinião e relatos de circunstância.
    O Público, hoje, fez isso?
    Vejamos:
    Duas páginas a abrir, assinadas pelos dois jornalistas judiciários, experimentados na arte de escrever sobre o joelho.
    É esse o problema do Público, em confronto com o LaRepubblica.
    No Público de hoje, a notícia em causa, refere um facto delicioso:

    " O juiz de instrução terá também dito ontem, numa sessão que decorreu à porta fechada , depois de os arguidos terem pedido restrições à publicidade( logo em segredo de justiça que alguém violou e os jornalistas continuam a estar-se nas tintas), que o cargo de dirigente da Federação implicava o conceito de funcionário do Código Penal."~

    Este pequeno segmento da notícia, é apresentado como uma pequena cacha, uma trouvaille jornalística, mas nem sequer os jornalistas em causa, logo que escreveram a notícia, possivelmente entre as 19 e as 22h, em procurar melhor informação sobre o que é isso do "conceito de funcionário do Código Penal". É que assim escrito, as pessoas ficam na mesma e duvido que os jornalistas percebam o que escreveram.
    Não obstante, o juiz do processo entender dar explicações públicas, numa atitude inédita e louvável, que pode ser lida, aqui
    josé said...
    Quer dizer, aquilo que é apresentado como uma petite trouvaille é uma informação que o juiz da pronúncia entendeu dar de borla e ao abrigo de disposições do CPP.

    Bastaria aos jornalistas ler o comunicado para informarem mais e melhor. Dir-se-á: não tiveram tempo. Pois...mas tiveram para saber coisas por inside trading, de índole mafiosa, potencialmente violadora de segredo de justiça.

    É assim o jornalismo que vamos lendo e é dessa falta de qualidade intrínseca que me queixo.

    Quem leu o LaRepubblica da altura em que foram detidos os implicados no escândalo do calcio transalpino, pode ver a diferença. Até fiz aqui, neste blog uma pequena referência.
    o-espectro said...
    Meu deus: Não se pode comparar de forma alguma o La Repubblica com o Público. Isso é um erro de perspectiva colossal. Na minha modesta opinião,os jornalistas-editorialistas do Le Monde( que conheco há muito tempo) e os de La Repubblica" valem" os nossos catedráticos- encartados e articulistas que se disseminam pelos três/ quatro médias editoriais que existem hoje em Portugal, depois do 25 de Abril. Aliàs, sobre tudo isso uma análise implacável morfo-genetico-ideológica estrutural( com Bourdieu, Habermas e Castoriadis a ajudarem na elucidação dos conceitos) seria de capital importância para desmistificar os homens do poder(es) do momento... Niet

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