A rebaldaria dos (ir)responsáveis editoriais

O Provedor do leitor do Público de hoje, assume um erro e um lapso do jornal, motivados por uma notícia simples. Em 3.2.2007, uma jornalista do jornal que leio todos os dias cada vez menos, escrevia que um “Procurador no STJ critica Pinto Monteiro”.
O procurador em causa, é Bernardo Colaço, que falava em público no VII Congresso do MP, no Alvor. Pinto Monteiro é o actual PGR.
Bernardo Colaço, segundo noticia o Provedor, logo a seguir à leitura da notícia, mandou e-mail “à senhora jornalista responsável pela notícia bem como ao sr. Director do Público e ao Provedor, para que procedessem á rectiticação do título, nomeadamente eliminando a referência a Pinto Monteiro” . Que fez o Público, segundo relata o Provedor? A jornalista em causa, Paula Torres de Carvalho, reconheceu o erro imediatamente, logo após a leitura do título que saiu no Sábado, dia 3. Telefonou ao visado; deculpou-se, não assumindo culpa directa, nem sequer responsabilidade derivada: o título inicial não era aquele que saiu e foi alterado pelo responsável da edição.
Não dá o nome desse (ir) responsável; desculpa-o até na sua putativa ingenuidade sem intenção maliciosa, mas ainda assim reconhece a utilização abusiva do nome do PGR no título da notícia, para o associar ao discurso do PGD no STJ. “O erro foi detectado, reconhecido, inclusivamente junto das pessoas envolvidas”.
Para além desse erro, inicial, não corrigido a contento do público leitor, sem indicação do seu autor e portanto um erro grave e anónimo para o leitor desprevenido, há ainda um “lapso”, para o ilustre Provedor. Resultante da não publicação da “nota de redacção” devida e reconhecida como tal pelo próprio Provedor, em função da sua análise do Livro de Estilo do jornal.
Um “lapso”, portanto, na interpretação, mais uma vez benevolente, do Provedor do Leitor.
Um erro e um lapso sobre a mesma notícia, acrescidos ainda de uma publicação diferida no tempo de quatro dias (uma eternidade para um jornal diário, como muito bem sabem os jornalistas), de uma “carta ao director ( uma reserva estratégica para uma simulação de atenção ao leitor, como também sabem), é indício de algo muito grave num jornal, a nível da sua direcção.
O que estes erros e lapsos frequentes revelam, é mais do que uma mera negligência de benevolência inconsciente. Há uns meses, o mesmo (ir)responsável anónimo por uma das edições, titulava a propósito de um caso singular numa comarca do país:“procurador suspenso por falta de produtividade”. Não era procurador; não estava na comarca indicada; não fora suspenso pela falta de produtividade e…o (ir)responsável não ouviu ninguém responsável. Leu apenas uma decisão , num processo administrativo…e com isso se bastou para lançar lama a outros procuradores que não tem problemas de produtividade, não foram suspensos e nada tem a ver com a imputação impessoal errada e generalizante. Resultado? Pior ainda do que neste caso: nem uma rectificação ou pedido de desculpas, após o protesto escrito de alguns dos visados.
Ontem, o mesmo jornal adiantava através de fontes anónimas, que a história que se conhece do caso do envelope 9, revelava uma “rebaldaria”, na PGR de Souto Moura. A intenção, infundamentada, é de gritante evidência. Mas se o não fosse, no mesmo jornal, a editora de “semana política” do jornal punha nos píncaros da coluna de opinião que sobe e desce, o actual PGR: “mostrou capacidade de liderança e eficácia”! Isso, a propósito da investigação de um caso que toma todos os contornos de uma questão de natureza política que nenhum poder judicial poderá ou deverá, alguma vez, sindicar…

O Provedor, sobre estes assuntos de erros e lapsos, entende que não é por mal. “Não é intencional”.
Portanto, a rebaldaria, fica para outros lados, pessoas, instituições e lugares que o Público e os seus anónimos responsáveis editoriais, indigitam e julgam com base nas notícias do género e nas opiniões sólidas que publicam.

Na revista do Público, de hoje, o responsável pela renovação gráfica do jornal, Mark Porter, ( foto acima) afirma, singela e candidamente: “ os jornais em todo o mundo estão numa situação muito crítica e isso não acontece porque são mal desenhados mas porque, muitas vezes, não estão a oferecer o que as pessoas querem ler”.

O director do Público, sabe que os leitores diminuiram. Sabe que continuam a diminuir. Apostou na renovação gráfica, pela mão de um estangeiro que redesenhou o Guardian, depois de ter passado pela edição britânica da Wired americana.
Esta aventura do Público, cada vez me lembra mais o que aconteceu recentemente ao diário francês Libération. Nem sequer falta a tentativa de conquista de leitores através da nova imagem e dos novos tipos de letra e gráficos a condizer, com design internacional. O Diário de Notícias, aliás, já o fizera antes, com um ícone do design - Milton Glaser-antes de regressar a Henrique Cayatte. Os resultados, viram-se... O Público, começou com Cayatte e agora vira-se para o estrangeiro. Os resultados, ver-se-ão.
Como é já sabido, ( e nenhum jornalista o ignora) o Libération, faliu, aguenta-se mal e à base de injecções de um capital já cansado e nem as promessas de renovação impediram a saída do seu director, Serge July.
José Manuel Fernandes, ao não saber renovar e conseguir alcançar pelo menos a qualidade dos primeiros tempos do jornal; ao não controlar a rebaldaria autêntica que se verifica e exemplifica com as notícias mencionadas, supra, como exemplo ( e há mais, infelizmente), só terá uma saída: exactamente como a de July.
Resta esperar o tempo que passa.

Publicado por josé 15:32:00  

15 Comments:

  1. filipelamas said...
    Parabéns pela qualidade do blog!
    o-espectro said...
    Meu Caro. Comparar o José Manuel Fernandes ao Sergue July é um erro de perspectiva colossal. Existe a diferença de idades, de experiências( July privou de perto com o Sartre e o Tout-Paris dos 70´s... os anos de Ouro). JMF, que leio pouco, foi descoberto( sg. creio por Vicente Jorge Silva, esse, sim, fascinado pelo modelo July), ao mesmo tempo que o João Carlos Espada,o Nuno Pacheco( fundadores da Voz do Povo-UDP, mais acólitos) e um trotskista bloquista o J Vitor Malheiros. Tudo começou na Revista do Expresso, no início dos anos 80.Depois saltaram para o Público, numa jogada de alto risco. O Eduardo Prado Coelho, o Eduardo Lourenço e mais alguns pintos das Universidades- Pires Aurélio,a mulher do Carlos Eurico da Costa, JM Fernandes Jorge e JM Magalhães-davam a estrutura, o mote e cobriam a mediocridade e o arrivismo dos neófitos, dirigidos pelo entusiasta VJSilva. Tudo se passou bem: A Clara Ferreira Alves subiu de funcionária do PS a cronista literária newyorkina. JA Lima e Francisco Bélard envelheceram a contar sempre uma história traduzida do Monde, do Nouvel. Obs. ou da Quinzaine Litteraire.. Se optavam por outra coisa, saia asneira. Quem queria saber mais e melhor: ia passar temporadas a Paris ou a Nova Yorke, e acabva por ficar por lá, transido de horror ao pensar regressar a Lisboa. Niet
    josé said...
    O Serge July não é o que parece, espectro...

    E quanto aos outros que menciona, podem muito bem ser medíocres e concedo na maioria dos casos. Sempre que ouço o Vicente Jorge Silva agora, a falar seja do que for, arrepiam-se-me as ideias que nem tenho.
    NO entanto, no início do Público os colaboradores que por lá passaram e com a responsabilidade do VJS são muito melhores do que hoje: Rogério Martins, Ricardo França Jardim, são dois exemplos.

    Há ainda um problema em Portugal, no que se refere a jornais de referência: a falta de qualdidade vem da formação dos jornalistas.
    Parece-me medíocre.
    Parece-me.
    o-espectro said...
    Eu tinha-me esquecido de dizer que, com Laurent Joffrin, antigo director da Redacção do Nouvel Obs., o Libé parece estar agora a navegar, com injecções de capital mas de vultos e famílias da Esquerda. Aliàs, Joffrin diz na TV, quando passa, que apoia a Ségolène.

    Rogério Martins era o alter ego da social-democracia portuguesa, vindo do marcelismo recauchutado e com classe. Ricardo Jardim, da família do Alberto Joao, é conterrâneo do VJS...

    Agora, no contexto da época, o projecto-piloto da Sonae foi magnânimo e original, lá isso foi: o núcleo duro tomava as suas refeições amiúde no Hotel Embaixador e esteve 12 meses a fazer tiragens zéro. É obra.

    Serge July, que foi operacional das Brigadas Vermelhas francesas, tem um livro premonitório com Sarkosy, Olhos nos Olhos, e foi " expulso ", por Edward Rothschild da direcção do Libé, que , repito, parece ter pernas para andar... pelo menos até ao final do periodo eleitoral.

    NB:O espectro é uma evanescente sigla que me surgiu no registo. Já mudei, tentei mudar, ela aparece e não quer significar nada, a não ser algumas semanas de spino gozo- experiência interior( Bataille) na companhia do VPV e da CCS.

    Salut. Niet
    josé said...
    Quem se der ao cuidado de ler os jornais e revistas francesas nota uma qualidade intrínseca, intelectual, muito acima dos pretensos píncaros portugueses.

    Ainda agora, o LIbé descobriu o próximo Littel: um alemão de 30 anos que deu em escrever sobre dois alemães do tempo das invenções- Alexander von Humboldt e Carl Firedrich Gauss. O nome do escritor é Daniel Kehlmann. Daqui a uns meses talvez o suplemento do Público fale. Ou talvez não.


    Quanto ao July e à sua aventura sartriana com Bernarda H. Lévy, e a América Latina, é um mundo por explorar que começa no Quartier Latin e acaba na desilusão da rua Béranger.

    O resto fica para depois, porque há muito mais a dizer e agora tenho que trabalhar noutra coisa.
    o-espectro said...
    July era sartriano, Levy normalien aluno de Althusser e amigo de Foucault e Derrida.

    VJS nao era uma coisa nem Outra: delirava com o perfil de Miller Guerra e imitava o E Prado Coelho...

    VJS quando pode, desfez-se dos neo-trotskistas e liberatários arrebanhados em Paris por José Augusto Silva Marques.
    Salut! Niet
    o-espectro said...
    Eu sei que os tempos que correm, em Portugal,não favorecem o debate nem a perspectiva longa da análise.

    Evitei, como sempre, qualquer fulanização das questões. Senti que o José se intimidou: pudera, com esses opinion-makers de trazer por casa!!!

    Moral da História: Que o Libé tenha longa vida e o Público se transmute num grande diário. Niet
    josé said...
    Está enganado, espectro: náo tenho é tempo para discorrer a preceito.

    Mas não perde pela demora, porque o tema é aliciate e julgo poder acrescentar algumas coisas, mesmo que sejam disparates.

    Não se vá embora, que não perde pela demora.
    o-espectro said...
    Por favor, ao menos trate-me por Niet. A sigla tem uma aura mágica e, no estrangeiro, dá muita maçada alterá-la, se bem que eu o já tentasse, pois tentei imprimir o ohniet. Espero as suas palavras e vou ler o livro que o July escreveu com o Sartre e o Ph Gávi sobre os maoistas-spontex pariessenses e o lançamento do Libération. Creio que havia tradução portuguesa... Niet
    o-espectro said...
    Meu carO. Vi, hoje, o Público novo. Acho-o muito pior do que com o lay-out dos fundadores. Vai continuar a haver quebras... nas vendas pelo certo. Por que é que não puseram o VPValente como director, isto para não falar de António Barreto?!? Talvez descobrissem algumas caras novas no IC. Sociais ou no ISCTE, os grandes viveiros com a Nova e a Católica dos colunistas nacionais. ^Sente-se que Portugal está numa má, à espera de algum D. Sebastião impossível. E assim se faz a história, como dizia o meu amigo Eduardo Guerra Carneiro.

    Andei a ler o livro do Sartre sobre o Libé e outras estórias- On a raison de se révolter - mas o July não participou, mas sim, outro fundador do jornal e o lider da Guerrilha Urbana, Pierre Victor e Philippe Gavi. Mea culpa, pois.Niet ( a ganhar aos pontos...)
    josé said...
    Como? O July não participou em quê?

    Victor ( Benny Levy), Jean Claude Vernier e Jean René Huleu, os fanáticos da primeira hora, foram corridos em 74, por causa dos conflitos pessoais e políticos, tendo o jornal ficado com a direcção de Philippe Gavi, filho de ministro gaulista e protegido de Serge July e este mesmo.
    Em finais de 74, o Libé partia para outra, com jornalistas de todos os quadrantes ( libertários, trotskistas, comunistas europeus à italiana, entenda-se).
    O Libé dos setenta, associa as Mitologias de Barthes com a contra cultura desaparecida do Actuel.

    Conheceu o Actuel, niet? Bizot?
    Outro que tal...

    Isto merece um artigo largo, até porque tenho copiado as ideias de revistas que tenho por aqui ( Marianne por exemplo e Les Inrocks e ainda Technikart.

    Não falta material de cópia...mas a verdade é que me lembro do tempo porque o vivi, ahahahah!
    o-espectro said...
    Duas notas, pois a Internete por estas bandas está superlotada e perdi já uma imensa réplica.

    O July não participou no livro do Sartre, foi o que eu quiz dizer. O Pierre Victor e o Gavi sim.

    Eu, O António Caeiro e uma amiga dofuturo M.L.M. andámos na fundação do Libé.

    O VJS sabia das coisas em segunda mão. Pelos recortes ou notícias do Júlio Henriques e do JA Silva Marques, que chegou a ser Governador Civil em Leiria pelo PPD...

    O Bizot eraoutra loiça em comparação com o Bizot. Este chegou a dar entrevistas gigantescas na Le Débat, do Pierre Nora e do Gauchet, este último muito amigo e próximo de Morin e Castoriadis.

    Salut! E diga coisas sempre. Niet
    josé said...
    niet:

    Então, se participou na fundação do Libé em 73...conte lá a história, para publicação, aqui ou noutro lado, mesmo em pseudónimo.

    Por mim, vou tentar repescar as ideias que conduziram ao Actuel e ao Libé, segundo o meu ponto de vista diletante e particular e com a documentação que guardo.

    Como animo os blogs Portadaloja.blogspot.com e ainda Rapsódiasdomundomoderno.blogspot.com, vai ser aí que vou colocar os textos.
    o-espectro said...
    O ambiente era muito tenso por causa dos mao-spontex. Eu e o A. Caeiro( autor do livro sobre a China) e namorada: eramos novíssimos .Sonhavamos com a revol. e todos os dias se faziam barricadas em Jussieu. Até breve. Niet
    josé said...
    O blog das rapsódias, é este

    E, já agora, não conheceu o Luís Rego que cantava o Amor Novo e depois abalou para França e integrou os Charlots?

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