'Às portas do Inferno'

Estamos naquela época do ano em que é de bom tom dizer bem de Sá Carneiro. O facto, em si, nem é mau - Sá Carneiro, de facto, foi um político excepcional. Carismático, lutador, apaixonado, nunca, jamais, desistiu, muito menos optou pelo caminho mais fácil. Nestes tempos em que tudo é plástico, artificial, já não há, obviamente, daquilo. Resta-nos, por muito estranho que possa parecer, ir vendo o 'House' na TV - uma série de que Sá Carneiro seria apreciador incondicional - para perceber, um bocadinho, do que era Sá Carneiro.

Feito o 'introito' é penoso assistir, nestes dias, às absolutas pantominas que se tem defendido em nome de... Sá Carneiro. Sejamos claros - sou dos que acreditam que a sua morte foi fruto de tudo excepto de um mero acidente, sou dos que acham que se fez muito menos do que deveria ter sido feito, em todas as frentes, para esclarecer o caso, mas daí a defender-se agora a figura do tal 'procurador especial', ou a reabertura 'fantoche' do processo vai uma longa e penosa distância. Sá Carneiro seria o primeiro a não querer o seu nome associado a uma pantomina que mais não visa do que criar um regime de excepção, e um precedente, para determinados tipos de crimes retirando-os da estrita esfera do poder judicial. 'Hoje' é por causa dele, amanhã seria por causa de todos os outros casos, 'políticos', que não podem ser julgados por tribunais 'normais'.

É verdade que no caso de Camarate a Justiça não funcionou, como 'nada' funcionou. Todos, sem excepção, preferiram acreditar na tese do acidente a enfrentar os seus próprios fantasmas, resumindo a questão a uma querela ideológica (as votações das sucessivas comissões parlamentares de inquérito, sem qualquer voto tresmalhado, e em consciência, de um deputado de um dos blocos em favor da tese contrária, dizem tudo).

Ora se todos falharam, e os primeiros a falhar foram manifestamente os políticos, que desde a primeira hora tentaram formatar a leitura dos eventos e 'nunca' criaram condições para que uma investigação séria, objectiva e honesta acontecesse, é da mais refinada hipocrisia chutar 'agora' e mais uma vez para os tribunais.

Não que a Justiça esteja inocente, não está, mas porque não é nem mais nem menos culpada que todos os outros. Num caso em que não há dados novos (o inefável Marcelo foi à TV reconhecer que o que José Esteves revelou agora em público há muito o tinha revelado, em privado, a um grupo de 'ungidos') o arquivamento seria a única e natural consequência.

Talvez a hipocrisia faça parte da natureza humana, talvez. Mas, agora, e sobre Camarate, como no caso de Entre-os-Rios entre muitos outros, pretende-se tão só usar a Justiça como escapatória das falhas não de alguém em concreto, que tenha cometido um crime, mas como forma de absolver toda uma sociedade, todo um sistema, toda uma classe - a política - das suas culpas óbvias, aos mesmo tempo que se arranja um bode expiatório - o sistema judicial, nem mais nem menos culpado que todos os outros. Como outrora Pilatos, pretende-se tão só lavar as mãos e a consciência, enquanto 'en passant' se desacredita ainda mais o que resta da nossa Justiça. O Estado, como um todo, falhou, ponto.

Sá Carneiro não merece isto, mais, seria o primeiro a recusar-se a fazer parte 'disto'. 'Chutar' para a Justiça, agora e outra vez, é a solução fácil - e ele nunca foi de soluções fáceis. Se há quem ache que é preciso 'partir a espinha' às magistraturas, e há, se há que ache que tem legitimidade para a partir, que o diga e que o assuma, às claras, mas - em nome do mais elementar respeito, por alguém a quem nunca hão-de chegar aos calcanhares - tirem Camarate e Sá Carneiro do filme.

Aliás, através dos desígnios insondáveis do Senhor provavelmente tem sido feita Justiça - basta pensar num filme velhinho, e nas cenas finais, com o Robert de Niro, 'Às Portas do Inferno', onde a pena que cabe aos maus da fita, o seu 'inferno', é acabarem eternamente a descer num elevador, sem irem para lado nenhum, e sem fuga ou escapatória possível. Pensar nesse final, e olhar para Portugal...

Publicado por Manuel 10:49:00  

3 Comments:

  1. José Esteves said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    Ras al ghul (NS) said...
    Eu cá, sou todo a favor.
    E podíamos incluir no pacote uma lei que julgasse não prescrito o caso Costa Freire ou o Leonor Beleza, que são num instante os que me ocorrem.
    maria said...
    Parabéns Manuel pelo que escreveu. Se a hipocrisía, a traição, o cinísmo, a maldade e o crime, de que todos os "políticos" que deram cabo do nosso País e das ex-Colónias estão possuídos, pagassem imposto, Portugal teria mais ouro em barra do que o depositado no Banco Federal norte-americano. É pena a malignidade humana, ou melhor, o Diabo não pagar imposto. Muita pena, mesmo.

    Maria

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