caminhos perigosos: cenário 2015


“A crise do Estado é geral [...]. O regime fabricou um Estado inviável, com o dinheiro que não tinha, ou esperança de vir a ter, para cumprir promessas que sabia de ciência certa pura fantasia ou puro cinismo”

(V. PULIDO VALENTE, Público, 6. Out.2006).

  • 1. É notória a gravidade da nossa crise financeira pública. E as principais medidas anunciadas pelo Governo para enfrentá-la – o PRACE e a reforma das “pensões” -, não chegarão em tempo útil, nem terão a relevância financeira indispensável. “Economia” e “facilidade” são os nomes dessa crise. Entre 1990 e 2005 o “produto” português cresceu 2,4% em média anual, real, enquanto a “despesa corrente primária” subiu 5% (1), as “despesas sociais” 6% e as “pensões” 7%. A uma economia em queda prolongada (2) correspondeu a “explosão” das despesas públicas. As consequências não poderiam ser diversas das que foram. Agora, já com mais de uma década de atraso, há que corrigir os efeitos deste irrealismo político. Porque os governos não são hoje capazes de provocar o crescimento económico, são mais responsáveis pela moderação dos gastos.

  • 2. Entre nós, não tem sido observado e entendido, com suficiente prontidão e rigor, o modo como evoluiu o último meio século europeu. Daí a notória dificuldade para aceitar o quadro essencial e premente das medidas de contenção dos gastos públicos. Distinguimos, naquele tempo, três fases bem distintas. Na primeira, até 1975, o Estado social provocou um crescimento “explosivo” das despesas públicas, sem sacrifícios fiscais, devido às elevadíssimas taxas de crescimento económico dos “30 gloriosos” anos. Na segunda, aberta pela “crise do petróleo”, de 1973, as economias desaceleraram e instabilizaram-se, e a cobertura das despesas sociais só foi possível através de sucessivos agravamentos fiscais. Por fim, e em redor de 1990, com a acentuação da debilidade das economias e a já excessiva sobrecarga dos impostos, soou o alarme europeu: uns países compreenderam-no e reformaram-se (Suécia, Dinamarca e Países-Baixos); outros não e nada fizeram (França e Itália). A estes deparou-se o inevitável: o Estado social vive do endividamento, que é um caminho sem saída. Portugal, com três décadas de atraso, repetiu o percurso da restante Europa capitalista. A sua economia cresceu a 6% (1960-1975), a 4% (1975-1990) e a 2,4% (1990-2005). Correspondentemente, a sua fiscalidade “saltou” de 21% (1975) para 36% do Pib (2005) (3). Como outros, o nosso País ficou sem “economia” e sem margem de manobra “fiscal”. E também se endivida.

  • 3. Aos factores negativos que se acumularam na economia, na demografia, nos impostos e na maturação do sistema de protecção social veio acrescer o esvaziamento dos poderes do Estado nacional: já não há o intervencionismo económico eficaz dos anos cinquenta e sessenta. A perda das políticas monetária, cambial, alfandegária, orçamental e de controlo da circulação de capitais, esgotou o Estado social-democrata e “arquivou” o Keynesianismo. Como Galbraith disse, já nos anos setenta, “a época de Keynes não era eterna”. Finalmente, a liberalização internacional do comércio entregou à exclusiva capacidade competitiva das empresas locais o destino e o ritmo de desenvolvimento de cada economia nacional. No último século, os Estados nunca puderam tão pouco como hoje. Nestas novas circunstâncias, os que prometem mais “economia” e mais “emprego” não passam de vendedores de ilusões.
  • 4. Segue-se que vivemos numa atmosfera plena de incertezas. O PEC/2005-2009 respeita a um tempo muito curto, foi elaborado sob a pressão da redução do défice e alimenta-se demasiado dos impostos. Não enxerga longe o nosso provável destino financeiro. E não conheço quaisquer projecções do Governo ou de outros que superem tais limitações. Face a este vazio, antecipo aqui o estado das nossas finanças públicas até 2015, com o grau de rigor que este tipo de exercício consente. Para tanto, consideram-se: a economia “provável”, com um crescimento médio anual de 2% a 2,5% (4); e a fiscalidade “suportável”, equivalente a 35-36% do Pib. Neste quadro hipotético de trabalho, a “despesa corrente primária” só poderá crescer à taxa nominal e anual de 3% (2005-2010), depois de se ter elevado à taxa de 8% (1995-2005) (5). Com um ritmo anual superior a 3%, as despesas do Estado já não serão fiscalmente financiáveis, antes de 2015.


  • 5. Depois de anos e anos de irrealismo financeiro, o potencial de crescimento das despesas públicas projectá-las-ão para os 100 (2010) e os 140 mm€ (2015) (6). Porém, nestes anos e conforme as circunstâncias económicas e fiscais aqui admitidas, as receitas públicas totais serão apenas da ordem dos 80 (2010) e dos 100 mm€ (2015), respectivamente (7). Teríamos então défices da ordem dos 20 mm€ (2010) e dos 40 mm€ (2015) (11% e 19% do Pib), que seriam insuportáveis.

  • 6. Sem a expectativa fundada de uma solução “económica” e de uma maior margem de manobra “fiscal” torna-se imperativa uma reforma profunda e urgente das políticas de despesas públicas. Tarde ou cedo o Estado enfrentará uma crise financeira séria, que os valores deficitários das projecções deixam entrever. Todas as reduções de gastos que forem conseguidas são positivas, mas nenhuma solução será consistente se desconhecer esta realidade: a “despesa corrente primária” e o “pessoal” + “prestações sociais” correspondem, respectivamente, a 90% e a 72% da “despesa primária” (8). O “pessoal” e as “prestações sociais” cresceram, conjuntamente, à taxa anual de 8% (1995-2005). Deverão desacelerar para 3%, já em 2005-2010 (9).

  • 7. A maior parte dos gastos com o “pessoal” e com as “prestações sociais” integram as “despesas sociais”: dos 47 mm€ da “despesa corrente primária”, despendidos em 2005, 43 mm€ destinaram-se às “despesas sociais” (10). Com um tão elevado peso relativo, não se conseguirá “arrumar” as contas públicas sem desacelerar fortemente os custos do “pessoal” e das “prestações sociais”. Expresso de modo diverso: sem uma profunda reforma do “Estado social” (“despesas sociais”), o Estado português não terá sustentação financeira dentro de poucos anos.

  • 8. Fixado, bem, o quadro prioritário da intervenção, o Governo pretende reduzir os gastos com o “pessoal” através do PRACE. Um dos objectivos essenciais deste consiste no abaixamento do seu peso. Fundamentalmente, importaria que diminuísse do equivalente a 15% do Pib para 10-11% (11). Em todo o caso, trata-se de uma meta que não será atingida, uma vez que: 1.º). Afastada a via dos despedimentos, haverá apenas “disponíveis”, com o direito a cerca de 50% dos vencimentos no activo; 2.º). Por cada 100 000 funcionários “disponibilizados”, reduzir-se-iam as despesas com o “pessoal” apenas em cerca de 6%. O PRACE não produzirá, por isso e em termos estritamente financeiros, o resultado indispensável: seria então preferível o congelamento dos salários actuais até 2010 (o peso do “pessoal” cairia para uns 12% do Pib).

  • 9. No que respeita às “pensões” da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações estão previstas, ou já adoptadas, diversas medidas. O respectivo alcance financeiro global também será muito reduzido, em atenção a que: 1.º). O seu peso na “despesa primária” é apenas da ordem dos 20% (14 em 65 mm€, em 2005) (12); 2.º). Os efeitos plenos só serão alcançados em 2015. As “despesas sociais”, além daquelas “pensões” abrangem também a Educação, a Saúde, a ADSE e todas as demais prestações da Segurança Social. Globalmente, estas últimas equivalem a 45% da “despesa primária”. Por isso, só com a reconsideração de todas ou de grande parte das “despesas sociais” (que equivalem a 66% da “despesa primária”) será obtido um efeito significativo e suficiente: nunca e apenas com as “pensões”. Por outro lado, a manutenção do regime da repartição, tal como se pretende, irá limitar-se a diferir novas crises e novas reformas: por cada uma, haverá novas injustiças e um maior descrédito para o sistema (13). Em suma: do PRACE e da reforma das “pensões” não pode esperar-se uma solução para as contas públicas em geral, nem para as “pensões” em especial.

  • 10. Não nos iludamos porque estamos numa situação em que vigora a “tirania das circunstâncias”: é secundário se se é de direita ou de esquerda, liberal ou conservador, representante da economia de mercado ou do socialismo (14). O mais grave problema que enfrentamos hoje é o do Estado: não se sustenta com a economia que temos e outra é irrealizável em tempo útil. Resta repensá-lo e reorganizá-lo. Os números com que fundamento esta posição podem ser discutidos, sempre com outros números. Mas, em circunstâncias normais, não se afastarão muito da realidade. E eles indiciam a existência de sérias ameaças a que só os néscios e os irresponsáveis podem ser indiferentes. Seja como for, ninguém poderá dizer que a gravidade da situação escapou a todos.


Notas:

(1). Representava 33% do Pib em 1995 e 40% em 2005.
(2). 6% de crescimento em 1960-1975; 4% em 1975-1990; e 2,4% em 1990-2005.
(3). Entre 1975 e 2005 a carga fiscal média da UE/15 subiu 8 pontos (de 33 para 41% do Pib), enquanto em Portugal aumentou 15 pontos (OCDE).
(4). Admite-se um crescimento médio na UE de 2,3%/ano até 2020 e de 1,1% entre 2020 e 2050 (cf. IFRI, Chronique d’un déclin annoncé, Avril 2003, cit. por LE BOUCHER, Economiquement incorrect, GRASSET, 2005, pp. 63-64).
(5). Q. anexo, cols. 1, 3 e 6.
(6). Q., cols. 4 e 7.
(7). Q., cols. 5 e 8.
(8). Q., col. 2.
(9). Q., cols. 1, 2 e 4.
(10). Q. col. 2.
(11). É a média da UE/15, em 2002, sendo: 7,9% na Alemanha; 10,3% na Espanha; 8,4% na Irlanda; 8,1% no Luxemburgo; 9,9% na Áustria; e 7,5 no Reino Unido (cf. EUROSTAT).
(12). Q., col.2.
(13). Acerca do sistema misto, vd. Livro Branco da Segurança Social, Janeiro de 1998, pp. 116 a 121. Posição do autor, pp.247 a 254.
(14). J.K. GALBRAITH, A era da incerteza, Morais Editores, 1980, pp. 13 e 14.

Publicado por Manuel 18:57:00  

18 Comments:

  1. António P. said...
    Boa noite,
    pois !
    Está na moda citar Vasco Pulido Valente e nomeadamente as suas crónicas de fim de semana, onde ( com mestria reconheço ) se pronuncia sobre tudo e todos em meia dúzia de parágrafos.
    Na frase citada há um sujeito de acção " O regime.." que convinha o autor explicitar melhor, até porque já fez ( ainda fará ? ) parte desse regime quer como secretário de estado (penso que da putativa cultura ) quer como deputado da Nação. Esqueceu-se desses seus cargos ou não tinha competência para os mesmos ?
    Já em tempos propus que o próximo governo fosse constituido só por EX - ministros e secretários de estado...é que depois de sairem de lá :
    - têm as soluções milagreirass;
    - ou os diagnósticos todos.
    Haja paci~encia.
    Cumprimentos
    hefastion said...
    De facto não há pachorra para este inglezinho de Oxford...
    Anónimo said...
    Pode-se atacar o mensageiro, pode-se argumentar que o mensageiro quando lá esteve...

    Agora, desmentir os números e o que eles auguram, isso não me parece possível.
    zazie said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    zazie said...
    Desmentir os nºs costumava ser a tarefa do Irreflexões. Agora que se foi embora parece que não sobra mais nenhum.

    Restam os "poetas" a fugirem para as velhas paranóias de uma citação quando o que importa é o estudo. Que não é do VPV mas do Medina Carreira
    António P. said...
    Viva Zazie,
    Se tudo o que Medina Carreira disse fosse "verdade" Portugal já naõ existiria !
    Por isso este estudo me deixou dúvidas sobre se não seria um sósia...já que pelo menos, segundo percebi, existiremos até 2015 !! Viva o luxo.
    Se ainda andarmos por cá falaremos na altura. Está de acordo ?
    E se andarmos por cá mas Portugal já não falaremos na mesma. De acordo ?
    Cumprimentos
    zazie said...
    O que o Medina Carreira aqui deixou foram estimativas. As estimativas refutam-se com outras estimativas. Até aí todos sabemos.

    Por isso é que o Irreflexões tinha alguma utilidade ao "arredondar" alguns nºs com ligeiras variantes.

    Que a segurança social caminha para a bancarrota ninguém tem dúvidas. O António tem?

    O que ele diz é que é a bancarrota se nada mudar. Não sei responder a isso e esta história não depende de "crenças". Há-de depender de estimativas e mudanças de políticas.

    Por isso, como lhe digo, ou se demonstram onde estão os erros do Medina Carreira ou vamos todos à bruxa

    ":O)))
    zazie said...
    E, se quer a minha opinião, mesmo sem saber que contas fazer, há muito que penso que este horizonte é bem provável. Por isso é que também tratei a tempo de mandar daqui para fora quem tinha de mandar.


    Tive esta perfeita noção aí por vota de 98. Acredite. Sem uma única conta. Só feeling.

    ";O)
    Arrebenta said...
    As Insónias da Lurdes

    Correm por aí uns rumores de que amanhã vai ser um grande dia para a Dona Lurdes. Não, não se trata de ter arranjado mais uma casinha para fazer as suas lides domésticas: parece que há mais de uma centena de milhares de licenciados deste país que lhe querem fazer a folha, ou seja, num país onde os licenciados não chegam a 10% da População, cerca de 1/4 a 1/3 deles vai-lhe fazer fervorosamente frente.
    Eu, como cavalheiro, vou-me pôr do lado da dama: acho injusto que pessoas que andaram 5 anos numa Universidade se levantem, em peso, contra uma alfabetizada nocturna dos Idos da Revolução. A Lurdes tem razão e razões: a razão radica na pouca-vergonha em que, ao longo de décadas de laxismo, o "Bolo" Docente Nacional se tornou -- desculpem usar a palavra "bolo": há quem chame ao Ensino Secundário o caixote de lixo das licenciaturas, estatuto a que se acede por concurso público, nacional, e com regras bem estruturadas, coisa, na qual, se distingue plenamente do Ensino Superior, conhecido pelas suas "Cunt-Connections", "Mouth-Connections" e "Ass-Connections", todas elas fruto de muitos concursos... privados...
    As razões da Lurdes... enfim, só ela as saberá. A Diana diz que a conhece, que a teve como proofessora, e que a respeita: está no direito cívico dela; pela minha parte, mas não posso revelar as fontes, sei horrores, e apenas digo que não a conheço -- já me escusei -- e não me apetece conhecê-la. O Sr. Walter, pelo contrário, veio de Macau, de onde Portugal importou todos os seus carácteres mais nobres, o Melancia, o Rui Rio, "les amis de Soares", e outros tantos, para quem a memória -- graças a deus -- me falha. Estamos, portanto, no puro nível da Nobreza.
    Dizem as más-línguas que tudo isto é um mero poupar de dinheiro. Dois dias de salários não pagos vão dar um jeitão para o equilíbrio das contas públicas, enfim, das tais centésimas com que o Capacho Constâncio tanto se masturba. Objectivamente... não é um mero poupar de dinheiro. A mulherzinha pôs os dedos nalguns dos pontos mais escaldantes do Sistema, só que ela não tem dedinhos, tem umas patolas de hipopótamo, é mal-educada, indecente, e onde toca não ficam pegadas, mas apenas nódoas negras...
    Amanhã, vai ser mais um dia de nódoas negras: uma fatia da culpa pelo estado do Ensino Secundário é da responsabilidade dos Irresponsáveis que foram ocupando essa Pasta; a outra, dos professores, para quem aquilo era mais um entretimento e um parco ganha-pão, sem se lembrarem de que, nas suas mãos estava a esculpir-se toda a Geração Futura. Em ambas estas frases há uma generalização abusiva, muito ao gosto da Lurdes: todos são maus, e todos foram irresponsáveis. A verdade é que dos bons não reza a História, e os maus saltam imediatamente à vista, o que faz jeito, é fácil, barato, e dá milhões.
    Quanto a mim, que queria ser breve, e já me estiquei, a responsabilidade maior vai para as famílias, muitas vezes meras poedeiras de ovos humanos, outrora despejados nas Rodas das Misericórdias dos abandonados, e, hoje, postos, em bruto, nos bancos de todos os níveis de Escola. Entre 17 e 18 de Outubro, por culpa da Lurdes, do Monstro que a tutela e da Indesculpável Apatia Nacional, muitos dos jovens deste país, e para quem a Escola é o primeiro ponto de convívio, de sociabilização e da afectividade -- que nunca viram... -- irão andar ao deus-dará, mais uma vez entregues a si mesmos, e entalados num processo, que, hoje, lhes parecerá uma folga, mas não é apenas mais uma folga, mas todo um sintoma de Demissão Generalizada, de uma Sociedade inteira, que perdeu o norte, os valores, e nada mais tem para lhes oferecer do que as floribelas, os brincos fáceis do Cristiano Ronaldo, os "Morangos com Açúcar", as idas ao B.E.S.,-se-não- tens-pai-rico, os exemplos do alinhar com a Mafia, do Mourinho, ou as margens do assalto e da violência, que separam aqueles que já têm daqueles que nunca chegarão a ter, mas essa é uma história velha como o Mundo, com a pequena particularidade de que, amanhã, virá para a frente mais frente do palco, e nos tocará, com toda a força, à porta.
    É o Admirável Mundo Cão, e em todo o seu esplendor.
    irreflexões said...
    "Por isso é que o Irreflexões tinha alguma utilidade ao "arredondar" alguns nºs com ligeiras variantes."

    Estou comovido, a sério que estou.
    ruy said...
    A Despesa Pública, também tem rosto.
    Com a governação Guterres, entraram na Administração Pública cerca de 120.000 novos funcionários. Mas foram professores que entraram nas escolas? Ou foram médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem que entraram nos hospitais? Ou ainda novos juízes e procuradores? Ou novos policias ou novos tenentes, capitães e generais? Será que com a entrada de mais de 20% de funcionários (de 600.000 passaram a 720.000) contribui para a melhoria da Educação, Saúde, Segurança na mesma ordem de grandeza, nos mesmos 20%? Seguramente que não. Afinal onde se acoitou esta gente? Nos Institutos, Comissões Reguladoras, órgão, Gabinetes, Conselhos, Centros, Fundações e outros órgãos igualmente ineficazes e esbanjadores dos dinheiros públicos. Muitos deles criados apenas para servir de coutada à nossa classe política.
    A Despesa Pública originada por estas novas admissões e as despesas correntes funcionais de tais organismos rondará só por si cerca de 25% da massa salarial da Função Pública ou seja 3,75% do PIB.
    É este o rosto da despesa pública no nosso país. O combate à despesa pública deveria iniciar-se por aqui. Pela extinção pura e simples destes organismos. Mas não são estas as medidas preconizadas pelo governo. Bem pelo contrário. O PRACE é um enorme Bluff que a seu tempo se demonstrará. Verifica-se já, por exemplo, que à extinção da Direcção Geral de Viação, sucedem-se dois Institutos e um Gabinete. Da extinção dos governadores civis, órgãos do salazarismo de controlo político dos distritos com ligações directas à PIDE, ninguém quer ouvir falar, pois servem de coutada à clientela partidária.
    O problema não reside já na mudança de governo. O País deve encarar hoje uma mudança de regime.
    O combate à despesa pública tem vindo a ser executado por este governo apenas à custa da receita e não com o combate à despesa. A despesa em nada diminui, pelo contrário tem vindo a aumentar, enquanto a receita, com aumentos de impostos e perdas de “regalias sociais” tem vindo a atenuar o défice do Estado. É um processo irreversível com este regime. No futuro seguir-se-ão novos cortes sociais. E de nada vale a caridadezinha do ministro da Saúde ao isentar os mais pobres dos mais pobres dos aumentos das taxas moderadoras.
    Dezenas e dezenas de milhares de privilegiados, cujo número aumenta a cada ano, têm vindo a esbanjar em benefício próprio, ao longo dos anos, a parca riqueza produzida pelos cidadãos deste País. Quem poderá acreditar que a nossa classe política abdique voluntariamente dos privilégios que tão bem soube erguer ao longo dos anos?
    zazie said...
    ahahahaha

    apareceu o Irreflexões. Eu tenho este vício idiota de querer ser sempre muito justa mesmo nos casos em que até corto relações com as pessoas

    É verdade que me lembro de umas percentagens de "funcionários públicos" que foram corrigidas e me pareceu que com toda a pertinência.

    ":O))))
    JPRibeiro said...
    "O mais grave problema que enfrentamos hoje é o do Estado" dixit Medina Carreira. Para os criticos deste artigo deve-se fazer como na história dos 3 macaquinhos: é melhor não ver, não ouvir e não falar.
    future_visit said...
    1. O produto não cresce. Eis a principal conclusão.
    O produto não cresce.
    Pois não cresce, não entram novas receitas.

    Em 15 anos "o produto não cresceu mais que 2,4 por cento."
    As receitas que deviam entrar desse crescimento não entraram.

    “Porque os governos não são hoje capazes de provocar o crescimento económico,
    são mais responsáveis pela moderação dos gastos.“

    3. Em 15 anos a “despesa corrente primária” subiu 5% (1), as “despesas sociais” 6% e as “pensões” 7%.
    “Com um ritmo anual superior a 3%, as despesas do Estado já não serão fiscalmente financiáveis, antes de 2015.“
    Certíssimo. Só podem subir o produto, para novas receitas sob risco de haver mais pessoas, com 340 euros de salário. Médio. Há peritos que o sabem fazer, e ver o que está errado.
    sniper said...
    O Prof. Medina Carreira é um optimista. Não sei se chegaremos a 2015.
    Anónimo said...
    obrigado pela disponibilização do texto! comentei no meu blog: http://oartolas.blogspot.com/
    Arrebenta said...
    O Orçamento dos Cobardes

    Adoro todos os Ministros das Finanças, desde o defunto Professor Oliveira Salazar. Têm mais ou menos a mesma pinta, aquele "look", arraçado de manequim da Rua dos Fanqueiros com gato-pingado da ex-Agência Salgado, têm geralmente uma voz grave, tutelam todos os outros ministérios, são gente ponderada, e tudo fizeram para que Portugal se transformasse numa Suíça Ibérica.

    Quando, devido à Tectónica das Placas, vulgo "deriva dos Continentes", Portugal entrou no seu Período Colombiano, os Ministros das Finanças começaram a assemelhar-se às formiguinhas: as formiguinhas -- agora vou escrever à Miguel Escreves um Nojo -- as formiguinhas libertam um odor chamado ácido fórmico, e por isso traçam carreirinhos, onde andam atrás umas das outras, As formiguinhas gostam muito de andar atrás umas das outras. Quando é Inverno, fecham-se nos formigueiros; quando é Verão, voltam para a superfície, e libertam ácido fórmico, para poderem continuar a andar umas atrás das outras.

    Os Ministros das Finanças fazem o mesmo: o único trilho de dinheiros que conhecem, ou querem conhecer, é o que sai dos cofres do Estado, na direcção dos Funcionários do mesmo. Não de todos, porque os Funcionários do Estado são como os porcos: há uns que são mais iguais dos que outros. Os que ganham muito são pouco vigiados; os que ganham pouco, têm sempre a Máquina Depredadora, que os persegue. Para o cidadão comum, o processo é bom, e funciona como um bode expiatório: é fácil dizer que uma empregada marreca, que passa os dias encostada a uma secretária, em estado de semi-invalidez, a carimbar as entradas num elevador de Ministério, não deveria estar a receber 400 € por mês. Aliás, se é marreca, deveria receber menos, porque os marrecos não devem ganhar tanto quanto ganham as pessoas perfeitas; um deficiente, um cego, por exemplo, deve ganhar substancialmente menos, porque tendo só 4 de 5 sentidos, deve ser tributado, de modo a ter menos 20%, correspondente ao sentido que lhe falha.
    Isto é Finança pura, como poderia explicar o Professor Cavaco Silva, um dos criadores deste tipo de raciocínios, enquanto Cacique das Finanças, e Cacique da Colômbia Ibérica.

    Do mesmo modo, um coxo deve receber menos do que alguém que anda, porque quem anda gasta muito mais dinheiro. Um reformado não pode estar a receber tanto como aquele que durante décadas recebeu, porque já não trabalha, e, portanto, não é justo que ganhe o mesmo do que pessoas que se esfolam a trabalhar, aliás, a bom ver, nem deveria estar a receber nada, porque ele nada produz.
    E isto poderia ser subscrito por um cretino da craveira de Pedro Arroja.

    O Estado limita-se a tributar, sistematicamente, os circuitos da Finança evidente, aqueles cujos proventos sabe de onde vêm, e para onde vão. Houve um tempo em que o fazia discretamente: desde o Cherne, passando por aquela coisa cavilosa que hoje é Ministro das Finanças, mais a Ferreira Leite, que quase parece santa ao pé destes, passou a fazer-se a coisa às descaradas. Por ali passa o dinheiro que nós sabemos, de modo que vamos já directamente lá.

    O Orçamento ideal, e não há orçamentos ideais, deveria marchar na direcção do Desconhecido, uma espécie de "scanner" de causa/efeito, que varresse o país de alto a baixo, passando pela ostentação da propriedade, à ostentação dos carros, às contas dentro e fora do país -- na Europa não há dentro nem fora, não é?, a não ser para o que convém... -- aos jogadores "comprados" pelos clubes de Futebol, aos rendimentos declarados pelos "tais" Advogados, aos compradores de apartamentos acima de 500 000 €, e à quantidade de apartamentos de qualquer valor, desde que comprados, em massa, sempre pelos mesmos, às operações "stop" aos jactos privados, sobretudo naquelas aterragens, no Aeroporto de Faro, em que voltam, dos leilões de Londres e Paris, com bagagens de mão, invulneráveis às alfândegas, carregados de Picassos, Monets e Porcelanas Han e Ming; rusgas, mas surpresa, às festas da Quinta do Lago e da Marinha, inspecções aleatórias às contas do Millennium-B.C.P., inspecções periódicas aos fabricantes de armas de Portugal -- alguém, aqui, sabe o nome dos cavalheiros que se dedicam à Indústria Nacional do Armamento?... -- e aos tais Industriais de Sucesso, que, de tempos a tempos se reúnem, para reditar as ideias salvadoras da Pátria.

    Este é um Orçamento de Cobardes, aliás, típico das tácticas das cabeças de quem sai, e da Figura Lúgubre que é Primeiro-Ministro de Portugal, um mero roberto nas mãos de interesses inconfessáveis, cujos fluxos financeiros mensais, se tributados, dariam para equilibrar, para sempre, todas as contas de Portugal. É um governo que carrega de impostos cegos, velhos, inválidos e desprotegidos. É um Governo que prefere atacar a marreca da secretária à Marreca do Sistema, essa Coisa Calcinada e em vias de explodir que nem os operadores de "marketing" já conseguem ocultar. É certo que um dia a coisa estoira, de modo baixo, vil, e ignóbil. Ao nível da farsa da Câncio, que nós próprios não sabemos quanto nos irá custar, em 2007. Cheira mal, muito mal, e, como alguém já disse, a próxima não será com... cravos...
    zazie said...
    grande crítica, ó Arrebenta!

Post a Comment