Vanessa Sequeira



Incapacidade, impotência, tristeza, muita tristeza. É a mistura desses sentimentos que passaram a tomar conta de mim desde ontem à tarde, quando fui golpeado com a notícia da barbárie sofrida pela minha amiga Vanessa Sequeira.

Vanessa era uma jovem pesquisadora portuguesa. Tinha 36 anos. Foi brutalmente assassinada enquanto cumpria mais uma etapa de sua importante pesquisa, necessária à defesa da Amazônia e de sua gente.

Conhecia-a em meado de fevereiro deste ano e desde então uma crescente amizade e afeto foram sendo cultivados entre nós. Nem a distância física em que nos encontrávamos há dois meses foi suficientemente grande para atrapalhar. Parecíamos ligados há muitos anos.

O que me aproximava dela era seu imenso valor humano, que me parece estar perdendo terreno em nossa sociedade para a brutalidade, para a falta de sentido da vida, ou mesmo para um sentido banal dela.

Vanessa era uma daquelas pessoas com sentidos de amor ao próximo, de solidariedade, de preocupação social - o que deveria estar norteando o comportamento de todos nos neste novo milênio.

Enquanto pesquisadora, sua principal preocupação era a formação de capital social. Durante seu trabalho, sempre encorajou estudantes e recém-formados a participarem de sua pesquisa, mesmo sendo capaz de desenvolvê-la sozinha.

Sempre procurou proporcionar às familias, nas comunidades que visitava, conhecimentos que fossem capazes de ajudá-las, mesmo após a conclusão de sua pesquisa. Sempre trabalhou de forma transparente, envolvendo a comunidade e superando os mais diversos obstáculos que teriam feito muitos desistirem do trabalho.

Eduardo Amaral Borges, pesquisador e extensionista do Pesacre


A tese de doutoramento que Vanessa estava a desenvolver:

Balancing forest conservation and livelihood security of forest dwellers in the Western Brazilian Amazon

Can people really make a living from the forest whilst conserving it, or is there a cost in terms of human welfare and/or conservation of the forest? This is a particularly complex question in the context of the Amazon rainforest, where perceived values differ according to the interests of each particular stakeholder. If conservation policies and strategies are to be successful, it is fundamental to address the divergent goals of different stakeholders and identify viable solutions to minimize trade-offs between environmental conservation and socio-economic development. These solutions are urgently needed given the annual loss of forest cover of about 18,000 km² in the Brazilian Amazon alone, and where 16% of the original forest cover has been lost over the past decades, threatening both biodiversity conservation and the livelihoods of forest-dwelling people.

The study will determine the impact of forest dwellers' livelihoods on the forest resources by focusing on case studies from forest frontier areas in Acre, the westernmost state of the Brazilian Amazon. Specific objectives are: 1) to identify how households achieve livelihood security through forest-based production systems, and determine the extent to which income is generated through forest resources; 2) to determine the impact of livelihood activities on forest conservation; 3) to determine actual and potential trade-offs between livelihood security and forest conservation, and identify ways to minimize them. The fieldwork will principally consist of household level interviews of forest dwellers, complemented with remote sensing techniques. Information will be collected relating to indicator variables which will subsequently be analysed both qualitatively and quantitatively. It is aimed to conduct at least 200 household interviews within the study areas over the period of a year.


Em conclusão, as Vanessas deste mundo, por maior que seja o seu amor ao próximo, nada podem contra os filhos da puta.

Publicado por Nino 20:15:00  

8 Comments:

  1. Arrebenta said...
    Há coisas perigosas para investigar: a Amazónia, e, por exemplo, as ligações do "Major" Valentim Loureiro...
    e-konoklasta said...
    Ninno,

    Lamento e sinto muito pelo que aconteceu à sua amiga e manifesto a minha indignação como o faz, nos termos em que o faz.

    Devo, no entanto, acrescentar, que isto acontece, com vários graus de gravidade, mesmo aqui por Portugal a muitas Vanessas, com ou sem doutoramentos, na primeira esquina, a dois passos de casa, e, por vezes, dentro de suas próprias casas e não vejo tanta indignação nestes casos... ou será que as vanessas anónimas não merecem essa indignação a não ser que sejam investigadoras doutoradas ?
    lusitânea said...
    No Brasil aquilo está a saque.Morre-se por tudo e por nada.Acho bem que metam(os familiares), com ajuda do nosso Governo, uma acção visando indemnização como no caso gisberta... ou comem todos ou não come ninguém...
    maloud said...
    Se pudesse recuar 30 anos não registaria uma Vanessa. Parece que em Portugal dá azar. Há um ano, julgo eu, tivemos o sórdido e repugnante caso daqui do Porto, agora nem a distância as poupa.
    Ultraperiférico said...
    Compreendo a indignação emocionada de Ninno. Mas a sua afirmação final não é correcta. Disse:
    "As Vanessas deste mundo, por maior que seja o seu amor ao próximo, nada podem contra os filhos da puta".

    E eu digo-lhe: o que falta a este mundo é mais Vanessas. Os filhos da puta proliferam e, ao que parece, não há Vanessas suficientes para equilibrar o barco.
    Zé "Prisas" Amaral said...
    Como deve calcular, todos os dias convivo e lido com alguns "filhos da puta".
    Uma teoria que tento desenvolver com um gajo cá dentro que é psicólogo, é precisamente tentar perceber estes actos injustificáveis.
    Crê-se que o "filho da puta" em questão estaria ébrio e de mau humor por discussões familiares que
    nada justificava este acto criminoso e gratuito, e a única coisa que posso lamentar é a perda de uma vida que, segundo aqui leio, era auspiciosa e válida no campo humano e da investigação.

    Posso dizer que entendo essa impotência (uma raiva que nos assola) e essa tristeza.
    Já passei por isso.

    E "tratei" do caso.
    Rosa de Ferro said...
    Entretanto podemos ajudar toda a gente (não só as Vanessas)a interiorizarem medidas de segurança e prevenção habituais. Mesmo que se pense que isso não funciona sempre...
    Rosa de Ferro said...
    E arescentaria, que não nos ficaria mal intervir naquela obscena fábrica de reprodução de f*da*p chamada "praxe" académica.

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