Socorro

Estou preocupado. A crer no Correio da Manhã, os bombeiros voluntários portugueses perdem 21 cêntimos por cada quilómetro de ambulância percorrido. Numa época de crise de valores humanos, sobretudo o do petróleo, um grupo de probos cidadãos abnega-se, endivida-se diariamente no asfalto em prol do bem-estar dos demais. Como? Vendendo terras na aldeia, organizando quermesses na paróquia, vendendo o “borda de água” nos semáforos, apagando mais fogos, abanando o capacete e despindo a farda em pistas de discotecas. Até quando suportarão? Eu não consinto compactuar na desgraça e humilhação de um grupo profissional a quem devo a vida: foi sobre a maca de uma ambulância, em revisão na garagem do meu tio mecânico, que os meus pais se conheceram e me conceberam.

De futuro, sempre que pretender deslocar-me a um hospital por qualquer motivo válido – uma picada de melga, um teste de gravidez à minha companheira, uma refeição grátis ou uma escapadela de alguns dias do frenesim do trânsito - prometo contactar antes a mais credível central rádio táxis do país (já colei o seu telefone na porta do frigorífico). O Instituto Natural de Encenação Móvel, esse sim, está especialmente vocacionado e certificado pelo Estado para o transporte seguro de bens – nomeadamente adereços de espectáculo de rua como desfibrilhadores e ambus - e de figurinos trajados a rigor de coletes reflectores e tetoscópios, que me descarregarão, pelo menos seco e enxuto, à porta de um qualquer serviço de urgência, geralmente sob as palmas de uma entusiasta plateia.

Publicado por Nino 08:00:00  

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