Enfoques em simplex.

Um conhecido síndico oficioso das medidas tomadas em gabinetes governamentais, insurge-se em postal, no seu habitual think tank, contra o uso de certos termos linguísticos em comunicações oficiais de determinados organismos de Estado.
No caso, parece-lhe algo aberrante que surja em papel timbrado ou em comunicado debruado dos serviços de alguma Excelência, a expressão “foi recepcionado”.
Acha o síndico oficioso que é dislate substituir o simples verbo “receber” por esse composto declinado em particípio passado. E achará bem, também acho.
Porém, a curiosidade em saber de onde provém tanta tralha assim recepcionada, levou-me a suspeitar da origem perversa do termo.
Nas dúvidas cibernéticas fica esclarecido que o verbo recepcionar foi também elencado por José Pedro Machado, mas rareia nos nossos dicionários, ao contrário dos brasileiros que usam o termo como quem bebe caipirinhas, que aliás, também não é palavra de uso corrente nos dicionários lusos.
Acicatado pela curiosidade em descobrir razões para o caiporismo do síndico, acostumado a ver argueiros pesados em prosas oficiais, fui levado( estes malditos particípios…) a consultar documentos valiosos e recentes, para ver se estariam, também eles, expurgados desses incómodos argueiros que justificam a profundidade dos think tanks.
Por exemplo, no celebrado documento...Simplex, título de desarmante e aterradora originalidade, modelo único saído das profundidades de think tanks desconhecidos, com paredes firmes, e que ancorou na Unidade de Coordenação da Modernização Administrativa, organismo oficialíssimo, dependente da Presidência do Conselho de Ministros do nosso país.
O documento, redigido numa linguagem que se esperaria simples e rigorosa, contém também as suas pérolas linguísticas, para além de um curioso uso dos tempos verbais e de uma sintaxe sinuosa e de efeito certo para perplexos.
Contudo, nada disso se aparenta àqueles horrores denunciados. Por exemplo, na página 69, a palavra “enfoque” é mais do que uma pérola, é um foco de luz nas trevas dos dicionários portugueses que a não conhecem.
Porém, se alguém quiser saber qual a palavra chave para entender a essência da densidade das suas 89 páginas, basta digitar a palavra “compreensibilidade” que aparece, profusa e militante, em cinco orações fervorosas( a págs. 12, 27, e em dose dupla na 69), em prol da modernização de métodos e apresentação de medidas para a simplificação de tudo o que se complicou ao longo de décadas de obscurantismo.
A palavra “compreensibilidade” é da família das palavras raras, na linguagem comum, portuguesa, castiça, prosaica ou mesmo erudita. É daquelas palavras que aparecem num texto e soam logo como pouco propínquas.
Contudo, experimente-se digitar o termo num google qualquer e a catadupa de citações remetem-nos logo para os nossos parentes brasileiros que esticam os confins da linguagem, em tratos de polé inimagináveis.
Parentes próximas da “compreensibilidade” poderiam muito bem ser a “significabilidade” e a “manejabilidade”, tal como o verbo intervencionar, o será em relação ao execrado recepcionar.
E no entanto, “compreensibilidade” não afectou a sensibilidade do síndico que certamente leu e releu o… Simplex e terá aprovado intelectualmente e sem pestanejar, a sugestão da designação quiçá genial de…Simplex!
Como também não afectou essa mesma sensibilidade, outra particularidade linguística que se detecta a fls. 69, página manhosa onde, aliás, se aninharam, caprichosas, algumas singularidades.
Aí se escreveu que “confrontamo-nos hoje com um sistema de leis ( ?) :
-de difícil inteligibilidade e compreensibilidade.
-incapaz de identificar as leis vigentes. (…)”,

Daí se parte logo para o alinhamento das simplificações desejáveis.
Algumas delas expõem-se como obrigando a “fazer a análise de alternativas de regulação e a eliminar toda a legislação manifestamente e obsoleta”(sic).
Outra obrigação premente e que se propõe é a de “alcançar um corpo legislativo fiável, actualizado e convivial”!
Nesta altura, já todos perceberam a distinção subtil entre os termos “inteligibilidade” e “compreensibilidade” e a sua redundância oficiosa será certamente fruto da determinação do Simplex. Um sinal, portanto, da sua autoridade argumentativa e orientadora.
O que já não se compreende lá muito bem, no entanto, é a necessidade de um corpo legislativo…convivial! O termo, mesmo na sua natural evolução semântica, remete para conotações algo festivas. Será isso que se pretende com o futuro corpo legislativo? Festas, para além do mais?! Infelizmente, parece que sim. Mas não para todos, claro, que o anfitrião tem poucos lugares nas mesas e parece que já estão tomados.

Será por isso que já se detectam alguns sinais visíveis de festa rija, nos lados de quem legisla no novo modo Simplex?
Segundo o que se pode ler no blog, Dizpositivo, pode escrever-se que houve um autêntico happening ( no melhor pano cai a nódoa do estrangeirismo), lá para as bandas de quem, na Presidência do Conselho de Ministros, rectifica diplomas rectificadores que por sua vez rectificaram rectificações. Exagero, dirão! E com razão…as rectificações foram três- e não quatro, como acabei de escrever.
Logo, este texto, como será fácil de reconhecer, não merece credibilidade por aí além. Aponta argueiros e não vê as traves que se lhe colocam na frente…e depois, no fundo de cada olho que vê, o que é que se escreveu por aqui?
Nada de relevante, para além da sindicância ao escrito do nosso síndico preferido.

Publicado por josé 16:59:00  

23 Comments:

  1. naoseiquenome usar said...
    "Exagero, dirão! E com razão…as rectificações foram três- e não quatro, como acabei de escrever.
    Logo, este texto, como será fácil de reconhecer, não merece credibilidade por aí além."
    Que espera que se comente?
    Titubenate, voltarei noutra altura, sabendo que essa sua afirmação é a mais certa das que " conhecidamente" (sem re, a palavra existe?), produziu!
    josé said...
    Caro:

    Eu sei que nome usar para dizer o que penso do que escrevo: divertimento. Raras vezes é caso sério, mas é sempre a sério, porque cuido do modo de não ultrapassar certas barreiras que me impus. Alguns não gostam, mas prefiro escrever contra as ideias do que contra as pessoas, mesmo que alguns não acreditem.
    É esse o limite que procuro impor-me.

    Este texto que aí fica, foi um divertimento e que me dispõe bem, só de pensar no que descobri...ao ler o Simplex, para comentar.

    Ao ler o síndico oficioso( está a ver, não é para ofender, mas acho que lhe assenta como uma luva no papel público de escriba que defende o seu meio) e o objectivo do mesmo em fustigar certas práticas de laxismo linguístico ( no que o apoio, note-se), fui dar com o famigerado Simplex, cheio de referências interessantes, como se podem ler.

    A mais interessante de todas é o "enfoque"...ahahahahah!

    "Enfoque-em-simplex" is a great metaphor. Fucking simplex, indeed! Ou, antes, fancaria!
    rb said...
    Retirado do Cyberdúvidas:

    Gostava de ouvir os vossos comentários sobre o uso (e, no meu entender, abuso) deste termo tão em voga nos monólogos dos "executivos."
    Dou-vos um exemplo: "... é preciso pôr um enfoque neste aitem!"
    Falando a sério: existe, porventura, esta palavra em Português?

    Fernando Araújo Gomes
    Portugal

    A palavra enfoque, uma forma surgida no Brasil, deriva de enfocar e refere-se à maneira de focalizar um assunto, um tema ou uma questão.
    Sobre o comentário pedido, não me refiro apenas a esta palavra, mas a uma atitude retórica. Para muitas pessoas, a utilização de alguns termos que – no seu imaginário – pertencem a determinadas áreas de saber constitui uma equiparação aos detentores do conhecimento que querem aparentar ter. Geralmente, este tipo de emprego de palavras acaba por gerar uma linguagem sem sentido e "kitsch" – de mau gosto –, mostrando exactamente o contrário, o tamanho da ignorância.

    A. Caffé
    rb said...
    No entanto, aqui http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx
    e no dicionário de verbos portugueses, da Porto Esditora, que consultei a este propósito, enfoque pode ser a 1ª pess. sing. pres. conj. ou a 3ª pess. sing. imp. ou 3ª pess. sing. pres. conj. do verbo enfocar, que se cojuga da mesma forma que o verbo "ficar".
    Portanto, apesar da origem brasileira parece que este verbo já está integrado pela nossa língua. Para quem tenha uma concepção dinâmica da nossa língua, como eu tenho, não me choca particularmente o emprego do termo. Apesar de não ser especialista nesta matéria, longe disso, parece-me que o José está a enfocar demasiado esta questão :)))
    rb said...
    "Alguns não gostam, mas prefiro escrever contra as ideias do que contra as pessoas, mesmo que alguns não acreditem."

    Então porque é que os alvos são sempre os mesmos??!!...
    xatoo said...
    a linguagem é um meio vivo de expressão
    evolui consoante os utilizadores
    a diferença entre "receber" e "ter recepcionado" deriva do tipo de gente que gere a coisa pública,,, é afinal uma forma de ocultação para aquilo que não desejam seja fácilmente entendido - mude-se de paradigma abandonando-se este simulacro de democracia e logo se verá se a linguagem não se simplifica tornando-se cada vez mais entendivel, na medida em que estes "complicadexes" forem perdendo os previlégios de embrutecer tudo em que tocam.
    josé said...
    Simplesmente porque estão mais expostos, influenciam a opinião pública e...as polémicas para serem úteis devem pegar em alguma coisa de interessante.

    Não há outras razões.
    rb said...
    Xatoo:
    Não querendo ser chato, escreve-se "previlégios" ou PRIVILÉGIOS.
    Pois é pela tecla morre o peixe ...
    rb said...
    José: mas V. até reconheceu que o reparo linguístico do "think tank" até fazia sentido ...
    josé said...
    atento:

    desenhando então, todo o retrato:

    Claro que reconheço. O problema é que o argueiro apontado pelo síndico oficioso, a alguém que não está identificado mas que certamente leu, percebeu e se calhar não gostou do recado assim dado, tendo em conta quem o deu, deixa de fora traves valentes que se podem observar no...Simplex.

    Ora o Simplex é um programa farol e a menida dos olhos, de uma Unidade de Missão, capitaneada por uma antiga colaboradora- Maria Manuel Leitão Marques- do tal think tank. Aliás, foi ela mesmo quem afirmou que o blog era um think tank, o que só me dá vontade de rir. Por isso refiro a fancaria do fuckin simplex, ou se quiser do enfoque em simplex.
    Veja lá o azar!
    zazie said...
    "fuckin simplex"


    ":O)))
    rb said...
    Caro José:

    Entretanto, reparei no último parágrafo do seu postal, em que fala de rectificações, e não é tão simplex como parece.
    Citando:" ... lá para as bandas de quem, na Presidência do Conselho de Ministros, rectifica diplomas rectificadores que por sua vez rectificaram rectificações. Exagero, dirão! E com razão…as rectificações foram três- e não quatro, como acabei de escrever."
    Sim, exagero, diria. A rectificação em causa rectificou uma rectificação que obviamente rectificava um decreto. Ou seja, trata-se duma rectificação duma rectificação, pelo que só se rectificou duas vezes e não três ou quatro, como diz.
    Pois é, convinha que hovesse um bocado mais de rigor nestas suas sindicâncias, para não ser tão simplex.

    PS: então e aquele post dos Eagles?
    Luar said...
    Caro José, a ideia de um corpo legislativo «convivial», na acepção festiva que dá ao «neologismo», parece-me particularmente auspiciosa. Eles (corpos) que são, geralmente, tão insípidos e desconjuntados!
    xatoo said...
    tem razão atento diz, 3:03 PM, Junho 08, 2006
    é "pri" é
    a vida está boa é para os revisores
    não para quem tenha algo a dizer,,,
    josé said...
    Os Eagles estão quase prontos a voar.
    O blogger é que não deixa...
    sniper said...
    Voar ? Eagles ? José, bons tempos!!
    Politikos said...
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    Politikos said...
    Tem que se actualizar em matéria de dicionários e afins, José. O Priberam e o Ciberdúvidas não chegam. É curto para se fazerem afirmações peremptórias… Além de que não se deve fiar só num, sobretudo nos mais antigos que se copiam uns aos outros. O «enfoque» existe e já está dicionarizado (Academia e Houaiss). Quanto ao «recepcionar», não me chateia grandemente, e até já escrevi sobre isso (se por acaso lhe interessar: http://polisetc.blogspot.com/2006/05/recepcionar-no-avilta-lngua.html). Todas as palavras que aponta estão bem construídas, pelo que pouco há a dizer... Ou concorda-se ou discorda-se da sua utilidade, mas é necessário não perder de vista que a língua é um corpo vivo… Apesar disso, estou de acordo com o fundo do seu texto, além de apreciar o seu estilo algo «aquiliniano» de escrita (quem se lembraria do «propínqua», por exemplo?!?!). Não seja é demasiado severo na crítica, meu caro, olhe que se alguém lhe pega nos textos e lhes faz a exegese da ordem, é como o Traffic, «ninguém sai ileso ;-)
    zazie said...
    Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
    zazie said...
    ó POlitikos: você não se enxerga? não viu que o que acabou de dizer se aplica como uma luva ao grande crítico Vital Moreira?

    E não sabe a diferença entre um texto de blogue e um texto oficial de Estado?

    Quem devia ser "menos crítico" era o dito Vital. Esse é que disparou sem olhar para a sua própria casa.

    Ou será que a "casa" também é sua e daí enxofrar-se tanto?
    Politikos said...
    Ó Zazie, claro que tb se aplica ao Vital, onde é que está dito que não? Até disse que concordava com o fundo do texto. Convém ler antes de «disparar», não?
    Além disso, se há por aqui alguém «enxofrado», não sou eu... Ou sabe ler a tecnicidade mas não sabe ler a ironia nos textos!
    Quanto à casa não é minha - se quer saber - mas tb se fosse o comentário era o mesmo.
    josé said...
    Calmex! Este Simplex é um gozo! Vão ler, vão!

    As 333 medidas, são, obviamente, tomadas em boa fé e de modo a melhorar o que temos.

    O drama é pensar que "isto" será tudo o que se consegue fazer para melhorar
    e entregar a tarefa a diletantes voluntariosos esforçados, como me parece.

    Esse aspecto à parte, o que me deu goso especial- e estou a repetir-me-foi ler os brasileirismos que inundam o texto.
    Tal qual o brasileirismo execrado pelo estulto Vital...
    Ahahahah! Será que o tipo não se enxerga, como diz a Zazie?

    COmo se pode levar a sério, depois disto?

    A escrita num blog, se não for predominantemente descontraída e descomprometida, não terá espontaneidade e naturalidade que para mim são essenciais.

    NO tal blog, parece que o espírito é outro: o de think tank! Se o ridículo matasse, a esta hora estaria a lamentar o desaparecimento do blog causa nossa.
    E que fique bem entendido: aprecio o blog em causa- mesmo sendo deles!
    josé said...
    GOZO...

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