Desfocado


O jornalista Ferreira Fernandes escrevia hoje no Correio da Manhã, a propósito da publicação por esse mesmo jornal, do teor de certas conversas telefónicas:
Ontem, a Lusa disse que no julgamento do processo Casa Pia foi ouvido um inspector da PJ sobre escutas a Paulo Pedroso. Diz a notícia: “Nas escutas há, designadamente, uma conversa entre Paulo Pedroso e o ex-juiz Simões de Almeida onde se refere que Carlos Cruz teria ‘comprado’ a capa da revista ‘Focus’.” Comprado, na notícia, vem entre aspas. Na altura, eu era director da ‘Focus’. Um jornalista que se deixa comprar, com aspas ou sem, é um canalha. Um advogado pediu para eu ser ouvido, como testemunha, e eu vou a Tribunal dizer coisa simples. Ou aquela referência não existe, e quem a inventou vai levar um par de bofetadas em público. Ou existe e quem a disse (de ex-ministro a ex-juiz) vai levar um par de bofetadas. É só. É tempo de este caso começar a ter ideias simples.

Ferreira Fernandes ( FF) , actualmente cronista no Correio da Manhã e na última página da revista Sábado, tem um extenso currículo como jornalista. Dos bons. Daqueles que aprecio, na escrita, no estilo e nos modos.
O seu jornalismo pouco tem a ver com o que por aí dirige publicações especializadas, sustentadas por publicidade subsidiária, inserida em manadas de impalas de papel que infestam escaparates de supermercados. Prefere agora, porventura, a ética de grupo da cousa fina, mas o jornalismo que defende não é de manadas, mesmo sofisticadas , parece-me.
Contudo, em tempos que já lá vão, colaborou e depois dirigiu uma dessas pontas de lança do jornalismo de manada, intitulada Focus, com recendência teutónica, mas aflitivamente carente dos seus elmos e pergaminhos.
Nessa época fulgurante, de há meia dúzia de anos atrás, a promessa do primeiro número da revista da PressEuro de Jacques Rodrigues, era auspiciosa: “uma revista para os tempos modernos”! Nem mais. Para tal, resumiam o sucesso da congénere alemã, com citações estrangeiras que garantiam futuro de luxo em papel glacé. E no miolo, entrevistas a notáveis, reportagens de África assinadas pelo mesmo FF e cronistas de luxo certo, como é o caso de Lobo Antunes, António.
Espremendo bem esse fruto dos tempos modernos, será justo dizer que era seco e desenxabido. Com pouco sumo, estiolou depressa e afundou-se nas vendas que são o barómetro mais certo do futuro das publicações e o grande aferidor de modernidades prometidas.
Em 2003, a revista contava já direcções variadas e sem rumo definido. Encartava já suplementos sobre carros e tecnologias e a capa que se apresenta é o modelo mais aproximado de mau gosto que se pode arranjar no jornalismo moderno, em Portugal.

Dirigia então a revista precisamente FF. Do grupo inicial de jornalistas que compunham o projecto de revista para os tempos modernos, tinham saído já nomes como Ana Sousa Dias, Leonardo Ralha, Miguel Coutinho, João Gobern, Marina Ramos, Martim Avilez de Figueiredo e…claro, de Lobo Antunes, António, o rasto já estava na Visão.
Um ano depois, a revista já era orientada por outro jornalista de méritos consagrados no tabloidismo nacional, Rocha Vieira que publicava sem assinar um artigo sobre as “o escândalo das cassetes” que o Correio da Manhã revelara e escrevia “Souto Moura ´ainda`procurador-geral”, grafando a palavra “ainda”, com intenção deliberada, entrevistando logo a seguir, extensamente, Ferro Rodrigues, a quem concedia o direito de proclamar “Até os inocentes têm razões para temer”.
Mais um ano a seguir, estamos em 2005 e a revista era já dirigida pelo conhecidíssimo Frederico Valarinho, o que acabei agora mesmo de confirmar.
Em resumo: o jornalismo da Focus, antes, durante e depois de FF, não se recomenda a ninguém que esteja a ponderar uma profissão de futuro na área. A qualidade, na minha modesta opinião de comprador, nunca passou o limiar amplo da mediocridade e o futuro dos tempos modernos ficou irremediavelmente comprometido.
Sobre as capas alegadamente compradas por um determinado indivíduo influente, nada sei. Lembro-me vagamente de em certa altura, no tempo referido em que FF dirigia a revista, outras publicações impaladas terem, à vista desarmada, expostas em escaparates, fotos e nomes sobe o assunto.
Quanto à capa que se publica apenas posso atestar que o artigo que a acompanha está escrito de modo escorreito e sem riscos. Não nos mostra nenhum estanho mundo, mas deixa-nos entrever um mundo estranho no jornalismo de investigação e que é o exemplo concreto da ausência dela.

A reacção quente e de sangue na guelra, de FF, agora, ressuma a uma atitude de bravata barata. Déjà vu. Desnecessária.
FF não precisa de provar nada, enquanto jornalista e profissional de qualidade na escrita em jornais. Mesmo apesar do fracasso na Focus, os artigos de FF são dos que costumo ler quando a eles acedo. Cada vez menos, porém, uma vez que a revista do grupo Cofina, onde actualmente escreve ao Sábado, não me interessa de todo. Segue a mesma rota de futuro da Focus e fatalmente lá chegará.
Mesmo que FF seja mais um cronista com opiniões sólidas sobre tudo e sobre nada, e sobretudo sobre nada, tal como a maior parte, são dele alguns dos recortes que guardo pelo gozo que me deram ao ler. Lembro, assim de repente, Rir é o melhor remédio, na Focus 61/2000, sobre Manuel João Vieira candidato a Belém e Mistério á nossa moda, sobre Camarate na Focus anterior a essa.

Ferreira Fernandes não precisa de prometer bofetadas a ninguém, como Eça prometeu bengaladas a não sei quem.
Ferreira Fernandes dá bofetadas, sim, mas de luva branca, sempre que escreve com jeito. E essas chegam bem.

Espero, por isso que não diga, se isto ler, que “a identidade é condição necessária para se ter opinião”, como já escreveu por aí.

Publicado por josé 20:07:00  

8 Comments:

  1. Leonardo Ralha said...
    Clap, clap, clap!
    rb said...
    Só não percebi duas coisitas:

    - como é que ouviram as aspas?

    - quem é o desconhecido que no final da escuta parcialmente transcrita diz: -É. É.
    Anónimo said...
    De facto, os Juízes (com letra maiúscula, sempre) não deveriam ser equiparados a meros funcionários - NÃO DEVERIAM, ATÉ, SEREM CONSIDERADOS CIDADÃOS COMUNS !!!.
    Para o efeito, sugiro:

    1 - Que os Juízes, para o serem , sejam sujeitos, para além das provas de conhecimentos inerentes ao CEJ, a provas públicas fora deste orgão onde seja aferida a sua cultura geral, idoneidade, prudência, maturidade - capacidade, enfim, para o exercício do cargo.

    2- Que os Juízes, para o serem, prescindam de boa parte dos seus direitos de cidadania, tais como:

    a) direito de voto
    b) direito de associação
    c) direito de livre expressão
    d) direito de exercício de qualquer outro cargo, político ou cívico.
    e) direito ao enriquecimento para além de determinado limite
    f) direito de privacidade das suas contas e transacções financeiras.
    g) direito de participação em qualquer acto público.
    h)....
    i)....

    3 - Que os Juízes, para o serem, se obriguem ao uso permanete, em público, de indumentária (farda?) que os identifique inequivocamente perante os cidadãos comuns.

    4 - Que o Estado pague aos Juízes dee forma a compensá-los pela radical restrição dos seus direitos de cidadania.

    5 - Que o Estado obrigue os cidadãos a reconhecer o estatuto muito especial dos Juízes, concedendo a estes as honras, privilégios e primazias que a muito digna "farda" motivará.


    Desta forma - simplista e básica, eu sei - poderiam, ENTÃO, os Juízes reenvindicarem um estatuto de "não funcionários" e de "supra cidadãos"
    maloud said...
    Só por aí, José?
    Arrebenta said...
    Este texto é muito longo, confesso que não li.
    Todavia, lembro-me de um número inteiro da "Visão" comprado, para falar do Império Falido de Carlos Cruz. Um império falido, de florescentes "off-shores" e salários milionárioas pagos a advogados que são incapazes, dada a gravidade da coisa, de tentar deitar a mais pequena poeira nos olhos da Opinião Pública.
    Acontece.
    JTR said...
    Sou acérrimo leitor das crónicas e dos livros que vai escrevendo. Sempre o tive e continuarei a ter como um dos melhores jornalistas portugueses. Sempre o admirei e admiro pela sua escrita íntegra, isenta e acima de tudo reveladora de uma grande honestidade intelectual. Nem sempre concordo com ele mas sempre respeitei a sua opinião.
    JTR said...
    Ferreira Fernades resume o que deve ser um bom jornalista. Que continue sempre assim e se para tal forem precisas bofetadas, que seja.
    Arrebenta said...
    Parece que as tais meninas belgas, desaparecidas em Liège -- como eu gosto de Liège, faz-me sempre pensar em Príncipe de Liège, herdeiro do Trono do Rei dos Belgas... -- , já foram encontradas, quer dizer, não foram, porque já não estão entre nós.

    Pelos vistos, a "Coisa" continua activa: na vertente belga -- se é que estas coisas têm vertentes -- a investigação da Rede Pedófila terminou, consta, à porta do Palácio Real, depois de um arrastar de anos, com a eliminação física de muitas das testemunhas, o desaparecimento de outras, e o inculpar de uns quantos seres difusos, que foram levados para detrás das grades, aos gritos de que "a verdade não era aquela, e que toda a gente nunca mais dormiria se a soubesse!...".

    Toda a gente nunca mais dormiria se a soubesse, é um facto. Em Portugal, deteve-se, perante um sinistro muro de silêncio, que se chamou Fronteira da Classe Política. Havia Pedrosos, e compravam-se notícias e capas de revistas. Terminou nessa fronteira, mas essa era apenas a primeira das fronteiras.

    Nunca mais se soube da lista de personagens nacionais que tinham fornecido o número do seu cartão de crédito (Fontes do F.B.I.), para aceder aos tais "sites" de frequência livre de fotos, filmes e contactos pedófilos. Os cartões já caducaram, portanto, de acordo com a lógica do nosso Sistema Judicial e Bancário (la même chose), também já só eram prova até à data de validade.
    Adiante.

    Pena que nunca venhamos a saber se isso também dava acesso aos tais outros "sites", ainda mais complexos, protegidos por 40 níveis de "passwords", onde se assistia à violação, ou para as líbidos mais desgastadas, mesmo à EXECUÇÃO, em directo, de crianças, a partir dos dois meses de idade. Dirão os optimistas que ser cinéfilo não conhece limites, e parece que não conhece mesmo.

    Também ficará para sempre, no segredo dos deuses, se havia Portugueses naquele grupo restrito de gente muito rica, que podia participar, nos campos da civilizadíssima República Helvética, em caçadas, em directo de jovens, de onde não se saía com a pele da raposa, mas o escalpe do abatido.

    Como diria o Constâncio, duas meninas são apenas 0,000531% das mortes anuais no Mundo, logo não são elas que vão impedir a Retoma, e que retoma, deus meu, que retoma...

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