Caçador de Prémios


O jornal Público começou a publicar uma série de 20 álbuns de banda desenhada das aventuras de Lucky Luke. O primeiro é um dos melhores da série: A Diligência, publicada originalmente na revista Spirou em 1967, vale os quase cinco euros do passe. O humor inteligente e a história com alguns clichés do western e desenhos caricaturais, relembram divertimentos passados, em gags sucessivos.
Tudo o que há a dizer sobre as personagens e adereços da história dessas historietas tem vindo a ser escrito no jornal, pelo especialista em BD, Carlos Pessoa.
Na net, há um mundo de referências em sites oficiais e avulsos. Pouco resta a acrescentar ao que está escrito e um dos melhores lugares de visita é este.
A não ser dizer que descobri Lucky Luke e os temíveis Dalton, aos poucos, a partir da revista Tintin nº 39 de 19.2.1972 que trazia na capa precisamente uma imagem a publicitar a história O Circo do Oeste ( Western Circus no original de 1970) que já ia na 13ª prancha em que se aludia ao velho ditado de que “os elefantes nunca esquecem”.
Ao longo dos anos, fui vendo e lendo as sucessivas aventuras do cowbói que dispara mais rápido que a própria sombra e saboreando os deliciosos argumentos de René Goscinny que complementam na perfeição os desenhos de Morris.
Dois anos depois, em 16.2.1974, o começo da publicação, ainda no Tintin português, da historieta O caçador de Prémios( Chasseur de primes, no original de 1972), consagrou definitivamente a BD de Morris como uma das melhores que me foi dado ler e por isso até comprei o nº1 da revista que acima se reproduz, de Março de 1974 ( o 25 de Abril estava próximo).
Aquela historieta, acerca de um caçador de prémios detestado por todos, juntamente com a publicada em Abril de 1976, Psicanálise para os Dalton, e outras como O Pezinho mole ou O Imperador Smith, ficam nas memórias permanentes daquilo que entendemos como cultura.
As historietas originais, publicadas em francês, eram traduzidas, na época, pelos responsáveis da Bertrand que as publicavam na revista Tintin que distribuíam. Vasco Granja era o grande animador dessa aventura do Tintin em edição nacional.
Para reparar na qualidade das traduções de época e comparar com as actuais, ficam duas pranchas da mesma história, precisamente da historieta original La Guérison dês Dalton, publicada na revista Tintin, edição francesa, em 1975.
O título traduzido em 1976, para a revista Tintin portuguesa foi Psicanálise para os Dalton e fica em baixo à esquerda,uma imagem da primeira prancha. Em 2004, a editora Asa, publicou em álbum cartonado, a mesma historieta, com o título de Os Dalton e o Psicólogo. A primeira prancha comparativa, fica em baixo, à direita. Basta clicar para ampliar e apreciar as diferenças -subtis, mas importantes- na tradução. Prefiro a antiga...

Publicado por josé 00:39:00  

12 Comments:

  1. maloud said...
    E ainda tinha o cigarro! Que saudades!
    Ras al ghul (NS) said...
    Uma pérola, este post.

    De facto, até o teor das traduções é espelho da "modernidade" em quese caiu.

    Obrigado
    rb said...
    Já comprei o 1.º, mas, não é barato. Estas colecções são uma tentação vendidas assim semanalmente junto com o jornal como quem não quer a coisa. Caso fossem propostas em separado não tinham sucesso.
    Já fiz o Corto Maletese e o Tintim assim e agora estou tentado a fazer o Lucky Luke. Provavelmente vou seleleccionar só algumas desta colecção , o meu caro José não quer recomendar aquelas que serão imperdíveis?
    josé said...
    Caro atento:

    "Imperdíveis", quanto a mim, serão aqueles que têm argumento de René Goscinny.

    Entre os que o Público editará, escolhia como primeiro de todos, "Os Dalton e o psicólogo"; "A Diligência"; "Canyon Apache"; "Ma Dalton"; "Jesse james"; "O Imperador Smith"; "O Grão-Duque" ;"Dalton City" e... ficava já com uma bela colecção representativa do génio da dupla Morris-Goscinny.

    Mas é pena que não tenham sido previstos outros como "O Pézinho Mole" e "Caçador de Prémios", para mim, talvez os melhores de todos.
    rb said...
    Obrigado José! Vou seguir a sua sugestão.
    sniper said...
    Caro José, excelente post!
    Para quando uma referência à revista de BD, À Suivre?
    josé said...
    (A Suivre), meu caro?

    A essa revista cujo primeiro número saiu no ano sagrado de 1978? Mais precisamente no mês de Fevereiro desse ano, em que eu andava nas nuvens da felicidade e a comprei para ler as aventuras desenhadas por Tardi em Ici Même e descubro uma dúzia de números a seguir os desenhos lascivos de Manara e so sugestivos de Jean Claude Forest e principalmente a Fábula de Veneza de Hugo Pratt?

    Tenho esses números aqui mesmo, a uns passos de distância resguardados em estante discreta.

    Meu caro, escrever sobre isso, é um dos maiores prazeres. Escrever sobre esse tempo e os gostos da época, é reviver essa idade de ouro da bd e da música!

    A minha dúvida é apenas saber se o deva fazer aqui ou num outro sítio mais catita que tenho para aí...onde já escrevi sobre o início do gosto pela bd e pela música popular. Comecei aliás, por outra revista ainda mais interessante: Métal Hurlant...
    josé said...
    Mas, se gosta de bd e entende o francês, nada melhor do que este sítio para reviver tudo o que de interessante se publicou no mundo da bd franco-belga.

    Deixo-lhe, aliás, a imagem do primeiro número da (A Suivre) que até fui buscar ali para rever...
    sniper said...
    Caro José,

    Obrigado. Fico a aguardar neste sítio, ou no sítio mais "catita", quando souber. BD e música popular é uma combinação perfeita.
    Ras al ghul (NS) said...
    Sim, também a mim me veio à lembrança o Jornal da BD, que coleccionei à custa da minha mesada nesses idos anos.
    Nunca percebi porque a deixaram de publicar, sem bem que mesmo depois da encadernação seja um pouco confuso ler as histórias intervaladas.
    Desde essa altura e até hoje, nada mais vi publicadoque se assemelhasse e andei que tempos a tentar encontrar o fim da saga do Incal Negro.
    Valeu-me a Fnac... já anos depois, que nem nas feiras de BD encontrava o final da saga.

    E, já noutro registo, porque é que já se vêm tão poucos "tio patinhas", como nós lhe chamávamos?
    Quem veio substituir tais pérolas?
    Lembram-se quando começarama editar tais edições em português ? O que se perdeu nas traduções brasileiras...
    Também sinto saudades da Mónica, do seu coelho, do pelezinho, e de outros.
    Que se lê hoje de bd para crianças e adolescentes?
    josé said...
    Caro ras al ghul ( ns):

    O Jornal da BD que saiu em edição do Expresso ( da mesma origem), publicou nesses anos algumas historietas interessantes, em papel e cores inadmissíveis.
    Tenho umas dúzias de números, mais por curiosidade do que pelo valor gráfico.
    No entanto, admito o altíssimo valor estimativo para quem descobriu as preciosidades da BD por essa via.
    Lembro-me de ter visto aí a publicação de uma série de Moebius, chamada Arzac ( com as variações semânticas Harzak e Arzach e outras) que surgiu em primeira linha desenhada, noutras revistas francesas, designadamente a Métal Hurlant, logo em 1975.
    Em 1973, a revista Pilote, publicou umas páginas estranhas assinadas por Gir, salvo erro ( não tenho agora e aqui, à mão, o volume para confirmar) que intitulou La Déviation. É a entrada de GIR no realismo fantástico e na heroic-fantasy, como se dizia dantes.
    É o relato escrito de uma viagem de carro, do autor e da mulher ( bem desenhada) por terras de França, em modo irreconhecível por entrar em domínios oníricos inconcebíveis até então, no autor de Blueberry.
    O desenho a preto e branco é o começo de uma saga que foi assinada por Moebius e dura até agora.

    Aqui há uns anos, em Paris, foi-me dado o prazer de ver uma série de desenhos, pinturas e ilustrações do grande mestre. Fiquei fascinado. Embasbacado. Esmagado pela arte.
    E tinha, poucos dias antes, ido visitar o Louvre e o Musée D´Orsay...
    josé said...
    Quanto ao Incal, a grande série de culto do Moebius e Jodorowski, em seis tomos, também a segui desde o início, mas no original da Métal Hurlant.
    Fiquei logo fascinado com o tema e a sua representação gráfica e envolvimento "teórico".
    Ao misturar fantasias diversas, esoterismos variados e qualidades bem humanas coladas ao protagonista principal, a história assume um lado picaresco que se liga poeticamente ao lado misterioso da existência humana, em termos tais que me fez compreender melhor a religião do que um qualquer tratado teológico o faria.
    É um marco da minha cultura, essa obra. Não tenho vergonha alguma de o dizer e que venham os filósofos todos contestar que por aqui estarei para lhes mostrar as imagens que dizem mais que mil palavras.

    A primeira delas, aliás, é a vinheta da primeira prancha:

    Um corpo de pessoa, em queda livre, numa floresta urbana estilizada futuristicamente, em plongé cinematográfico que nem sequer o filme Blade Runner ( que aí foi buscar inspiração) ou o 5º Elemento ( que aí foi copiar) conseguem aproximar em termos imaginativos.
    Fantástico, pensei na altura.
    Fantástico, continuo a dizer agora.

    O último episódio da série, chamado A Quinta Essência, já não chegou a ser publicado na Métal Hurlant.
    Também tive dificuldade em topá-lo e creio que também foi por aí numa qualquer livraria que o merquei.
    É fabuloso, claro, com a imagem antropormófica de um Deus pai dourado e que está em todo o lado...
    É apenas uma imagem, mas o arrojo estilístico é de uma força metafísica tal nos sintoniza com a harpa do crente.

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