Direita, volver

Já toda a gente percebeu que a eleição do Prof. Cavaco mais do que o fim de um ciclo é o início de uma nova etapa, nomeadamente para a direita portuguesa. Termina, contudo, aqui o consenso. Para uns será Cavaco que, de Belém, não resistirá à tentação de pastorear a direita, para outros Cavaco, no 'poder', será um empecilho que impedirá uma verdadeira regeneração da direita, que agora se quer arejada, liberal, whatever, prendendo-a ao passado. Em paralelo a estas questões há, à margem, e com uma guerra civil no PSD a avizinhar-se como pano de fundo, um debate, mais ideológico, vivo sobre qual a identidade 'ideal' da direita, e sobre a identidade, e até 'função', dos partidos e da relação destes com a sociedade.

Teremos pois em gestação uma corrente liberal, agora muito na moda. Grosso modo não existe. Ou melhor, existem, digamos assim, três grandes facções, que se consideram - e só a elas - genuinamente, liberais. Uma, é composta por pessoal com pouca ou nenhuma experiência política, e que tem do mundo uma visão eminentemente académica e teórica, axiomática, que peca muitas vezes por não ter em conta as vicissitudes do mundo real. A outra, mais 'religiosa' para não dizer fundamentalista, é composta por quem que já foi, ou tentou ser, político, e que mais do que ser 'liberal' é simplesmente contra, contra (a bovinidade d)o Estado, que vê sobretudo como sinónimo de 'Lisboa', contra os partidos, e contra qualquer tipo de poder instituído. Finalmente, há os 'neo'-liberais, profissionais da política, ou com aspirações a tal, que face à falência das ideologias viram no 'liberalismo' não só um balão de oxigénio mas também um novo fôlego que lhes permitiria marcar a 'diferença' (aqui a metamorfose d'O Acidental com o início desta legislatura fala por si...).

Dito isto, nesta altura do campeonato, discutir o liberalismo, em 'abstracto', seja sob que vertente for é o mesmo que querer construir uma casa, iniciando-a pelo telhado. Pode ser conceptualmente muito interessante, e divertido, mas não leva a lado nenhum. Antes, é preciso levar este debate ao seio dos partidos. Partidos estes que andam, há muito, distantes dos cidadãos cujos interesses, em última instância, devem defender. E tem andado, por culpa fundamentalmente de dois factores, por um lado dos próprios eleitores que vêem a política como algo de pouco recomendável e se afastam, deixando-a, muitas vezes, a cargo de pessoal muito pouco qualificado, e da comunicação social, muitas vezes por preguiça, que alimenta e se alimenta, de um universo mais ou menos virtual criando uma realidade (política) que pouco ou nada diz ao comum dos mortais. O corolário desta conjugação perversa é o pouco interesse das massas na política e a inexistência de uma pressão popular que ponha na agenda uma reforma, a sério, do sistema político vigente.

Felizmente, lentamente, as coisas estão a mudar. E estão a mudar porque começa a existir, do interior do próprio establishment, um forte cansaço face ao decorrer dos acontecimentos. Cansaço dos mesmos protagonistas, das mesmas pantominas, cansaço sempre de uma recorrente sensação de deja vu. Em suma, cansaço de andar em ciclo, às voltas, para nunca se chegar a lado nenhum. É por isso que o que se vier a passar no interior do PSD é importante não só para a direita como também para o país. Tema a que me dedicarei numa prosa próxima.

Publicado por Manuel 16:49:00  

3 Comments:

  1. Gabriel said...
    As coisas que eu aprendo!

    Descubro que, sem ter de tal consciência terei uma postura política «religiosa», que sou «fundamentalista», que já tentei ser ou fui «político», que vejo o «Estado como sinónimo de Lisboa», que sou «contra os partidos», e por fim, nem liberal devo ser pois que terei uma postura anarquista, uma vez que serei «contra qualquer tipo de poder instituído».

    Obrigado Manuel. Eu andava enganado sobre mim mesmo. Mas agora vejo a luz!
    A sua «pertinente» análise fez-me poupar umas centenas de euros de psicanálise.
    Manuel said...
    Oh, meu caro...

    Deixemo-nos de teatralidades. A afirmação é obviamente uma generalização que na globalidade assenta como uma luva.
    Gabriel said...
    Pois, esse é o problema das visões colectivistas: tentam conformar a realidade conforme os seus interesses, sem terem de a assumir.

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