"Cidadãos Quê?"

Após disponibilização do texto pelo seu autor, acto generoso que agradecemos, a última crónica de Eduardo Cintra Torres, publicada ontem no Público, e aqui referenciada, reproduz-se abaixo ...

Em 1 de Outubro um terrorista explodiu-se num bar turístico na Indonésia. Os seus últimos passos foram filmados por uma câmara de vídeo e divulgados dois dias depois. As imagens, por alguma razão, tinham um ar policial. Parecia que o operador da pequena câmara andava atrás do rapaz da mochila. Mas podiam ser amadoras. Vá-se lá saber. Captadas por polícia ou por turista, eram amadoras mas impressionantes.

A capacidade descritiva da imagem é enorme. No caso, vimos perfeitamente o ambiente descontraído do bar e a determinação do anónimo terrorista, escolhendo o ponto mais interior do bar para se imolar.

A importância que a imagem adquiriu na vida contemporânea é penetrante, literalmente penetrante: na medicina e cirurgia a imagem tem permitido avanços na detecção e correcção de doenças e no conhecimento do funcionamento do corpo. Nos últimos tempos noticiários mostraram imagens duma operação ao nariz facilitada pelo vídeo; antes foi uma operação aos olhos: uma câmara de TV mostrou-nos uma sala cheia de médicos que a viam num ecrã gigante – os nossos olhos viram oftalmologistas olhando para imagens de um oftalmologista operando aos olhos... Seis olhares, seis imagens: a do doente, a do cirurgião, a da câmara, a dos médicos na sala, a da câmara de TV na sala, a do espectador em casa: haverá melhor exemplo da penetração da imagem – a visão em segunda mão  na vida quotidiana e profissional?

As imagens permitem até o reencantamento dos indivíduos, o regresso de um encanto perdido pelo cinismo que a informação massiva estimula: caso das imagens da National Geographic Society mostrando (e animando) a fecundação de um óvulo e o crescimento do feto e permitindo aos telejornais frases como a de que «os fetos abrem os olhos muito mais cedo do que se pensava anteriormente»  quer dizer, a «imagem» devolvendo um encantamento com a vida que a «ciência» havia obliterado.

Mas voltemos à Indonésia, entremos no metro de Londres em 7 de Julho ou vejamos o maremoto de 2004 no Índico: as imagens amadoras substituem o relato posterior por testemunhas. São as imagens que narram. Desta forma, elas substituem parte do trabalho do jornalista. Mesmo em diferido, este tipo de imagens mostra o acontecimento acontecendo. A narração por palavras, mesmo em directo, não obtém o mesmo efeito de veracidade.

Este poder intenso das imagens, o «ter-estado-lá», como escrevia Roland Barthes a propósito da fotografia, tem confundido a reflexão sobre a evolução do jornalismo e contribuiu para se desenvolver o conceito de «cidadão-jornalista». Para simplificar, digamos que no limite será cidadão-jornalista quem grava imagens de um acontecimento imprevisto com o seu telemóvel. As crescentes literacia mediática e possibilidade participativa das pessoas no «espaço público» através dos novos e velhos media levaram ao desenvolvimento do conceito de cidadão-jornalista contribuindo para a feitura das próprias notícias e comentários, como defendem Steve Outing (www.poynter.org) ou Dan Gillmor em Nós, os Media (Ed.Presença, 2005). O primeiro é um Moisés que escreveu tábuas (mas com 11 mandamentos) sobre como desenvolver a participação dos cidadãos no trabalho jornalístico. O segundo escreveu um daqueles livros americanos de estilo messiânico nos quais se vão repetindo até à exaustão do leitor as ideias principais.

Dado que uma característica fundamental do indivíduo social americano é agir como os outros querem que ele aja, este movimento messiânico de «nós os media» prevê uma forte intromissão criativa dos leitores, incluindo no próprio livro de Gillmor, que inclui várias páginas com centenas de nomes de pessoas que de alguma forma contribuíram para o resultado final publicado. Em última instância, o «cidadão» substitui o «jornalista» para bem de todos.

É certo que as novas tecnologias possibilitaram uma maior participação dos cidadãos nos media tradicionais e permitiram-lhes criar os seus próprios media, como os blogues. Isso contribui para aprofundar a democracia, para um alargamento do espaço público. Mas há uma forte deriva de determinismo tecnológico neste conceito que abarca ao mesmo tempo o jornalista dum jornal, o turista do telemóvel que filma o tsunami e o autor de um blogue diário. Não é por acaso que Gillmor escreve, com mais certeza do que um pastorinho em Fátima: «Não tenho dúvidas de que a tecnologia acabará por vencer» (p.229). Mesmo o título do livro, Nós, os Media, faz do cidadão uma tecnologia (media) e não um autor de conteúdos, que é o que um jornalista é.

Mas se é cidadão-jornalista aquele que enviou imagens do atentado no Metro de Londres, como defendeu um dirigente da BBC (em 06.10), também o deveria ser o habitual informador verbal dos jornalistas. Por exemplo, a mulher que descreveu para a CBS o embate do primeiro avião nas Torres Gémeas ou a mulher que descreveu para a RTP o som da derrocada da ponte de Entre-os-Rios e os faróis acesos afundando-se no Douro. Essas pessoas usaram a velha palavra e uma tecnologia antiga – o telefone – para participar na informação. As pessoas que descrevem um incêndio para a câmara profissional ou para um bloco-de-notas dum jornalista também participam na feitura da notícia com a sua narrativa pessoal. Por que raio se chama jornalista ao transeunte que faz umas imagens no metro de Londres e não à velhota que telefona para a SIC a dizer que há mais um incêndio no seu concelho?

Se o nível de participação é diferente, a função do narrador in loco ou do indivíduo que grava um ataque terrorista no telemóvel é a mesma. O primeiro existe há séculos. O segundo há cinco anos. E todavia, porque o contributo de um é oral e do outro visual são considerados diferentemente pelos teóricos do cidadão-jornalista. Como um reage ao jornalista e o outro o interpela, ou por usarem técnicas diferentes de informação, são considerados diferentemente.
No caso da TV, media que predomina nas tragédias comunitárias, são valorizados os contributos com imagem. Mas as pessoas que contribuem para ao notícia dificilmente se podem chamar cidadãos-jornalistas. São testemunhas circunstanciais. São fontes. Distinguem-se umas das outras pelo suporte do testemunho: a memória, que é subjectiva, ou a imagem, que é «independente» da pessoa que a grava, que é aparentemente objectiva e manuseável pelo media.

Publicado por Manuel 20:50:00  

1 Comment:

  1. Illdependent said...
    Uma crónica escrita num jornal não passa a domínio público desde que se cite a fonte?

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