Júdice no País das maravilhas...
quarta-feira, abril 06, 2005
José Miguel Júdice, ex bastonário da Ordem dos Advogados, e um dos cabeças de cartaz da PLMJ, que alberga parte significativa dos juristas do Bloco Central, dá hoje uma curiosa entrevista ao Jornal de Negócios. Entrevista essa que é, diga-se, puro serviço público.
Lá pode ler-se que José Miguel Júdice, na mais pura ortodoxia pós-liberal, acha que o Estado e as Empresas Públicas deviam ter de pelo menos consultar as três maiores sociedades em Portugal sempre que precisam de advogados. Mais, o advogado diz que nenhuma das três «quer privilégios» (!), mas sempre o Estado ou Empresas Públicas têm de escolher advogados, «pelo menos que consultem estas três sociedades.», não explicando porquê aquelas três, e só aquelas três. Júdice refere-se à PLMJ, de que é sócio, à Vieira de Almeida & Associados e à Morais Leitão, Galvão Teles Soares da Silva & Associados. «O estranho», continua, «é se em qualquer operação do Estado não nos consultarem. Diria que se não nos escolherem, é preciso que justifiquem.» Numa longa entrevista, aliás a primeira que dá em Portugal sobre a sua sociedade e nestes moldes, José Miguel Júdice defende que as sociedades de advogados são Centros de Decisão Nacional. «Só neste escritório trabalham 300 pessoas, é metade da Bombardier. Fala-se em preferência nacional para todos os sectores mas não na advocacia. Porquê?», questiona. Pelo meio Júdice fala ainda das relações com o Estado e com a banca de investimento, da nova imagem corporativa e da atitude de crescimento da sociedade.
Para quem não se lembra a PLMJ do Dr. Júdice foi a tal sociedade selecionada pelo Dr. Sarmento (também sócio da mesma...) para, à módica quantia de 595 contos por hora, assessorar o Estado no processo de privatização da GALP, o qual como toda a gente sabe foi abortado por estar pejado de ilegalidades, e não consta que a PLMJ, que terá recebido para cima de meio milhão de €uros, não se sabe ao certo para quê, tenha devolvido um tostão. Quanto à Vieira de Almeida & Associados, representaram o consórcio vencedor dos submarinos (a PLMJ representava o "perdedor") e apareceram citados recentemente na trapalhada da Freeport, etc, etc, etc.
Estes senhores julgam que são donos do País. Não são eleitos, nunca tem culpas, mas em contrapartida tem muitas ideias, e ainda mais contactos. José Miguel Júdice acha que chegou a sua hora, a hora de bater o pé, às claras, ao poder político. Tal decisão não abona muito a favor do perfil, alegadamente cavaquista, do Eng. Sócrates, mas é uma decisão legítima, tal como é legítimo o Estado dialogar com o lobbyes, e relacionar-se com estes. O que já não é legítimo, é o Estado amamentar esses mesmos lobbyes.
A PLMJ do Dr. Júdice não é uma sociedade de advogados, é - isso sim - uma mera sociedade de representação de interesses, e sendo tal legítimo, como plano de negócios, também é legítimo questionar o relacionamento, nada transparente, do Estado, com essas mesmas sociedades. Por outro lado não deixa de ser curioso este oligopólio, reminiscente dos tempos do salazarismo, alguns dos artistas são ainda os mesmos, que é profundamente redutor.
Para Judíce o que conta é só o tamanho, apenas o tamanho, somente o tamanho, a competência, e o desempenho, medem-se só e apenas pelo tamanho. Tanta presunção, particulamente com tanta, e mediática, má performance, causa dó, mas deve ser levada a sério.
Até que um dia haja uma reforma a sério e se saiba claramente quem é o quê, e para quem. Para que haja transaparência, para que não se diga que fulano foi para o governo tratar da vidinha da firma ou que cicrano se recusou a ser governante, preferindo na firma tratar da vidinha do governo...
Desta vez, não é preciso mais nenhum desenho...
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Publicado por Manuel 17:45:00
Mesmo com algum ranço, é roquefort só para aficionados...
"Grandes Causas" e começa assim:
"O universo dos advogados portugueses é de constelações, galáxias, estrelas, planetas e até buracos negros.
Segundo dados estatísticos não confirmados, poderá haver cerca de vinte mil causídicos em Portugal, muitos de escritório montado, com janelas viradas ao sol das causas que a vida lhes traz."
É o que dizia: roquefort para afastar incautgos...
";O)
Tiro em cheio !
Júdice acha que se os outros têm preferência, ele também devia ter. Onde foi ele buscar a ideia que ter preferência é o mais correcto?
Deixemo-los a todos, "de preferência"!
Será que vai haver processo disciplinar?
morrissey adaptado, de "Suffer little children"
"... o.a. so much to answer for..."