A esquerda moderna

Na revista Sábado - cada vez melhor- o início da colaboração do grande Miguel Esteves Cardoso, deu-se com uma magnífica entrevista a Francisco Louçã.

Algumas passagens...

MEC - O BE continua a ser revolucionário?
Francisco Louçã- O BE é um movimento socialista. Desse ponto de vista pretende uma revolução profunda na sociedade portuguesa.

MEC - Pretende alterar o modelo de sociedade?
FL - Sim. O socialismo é uma crítica profunda que pretende substituir o capitalismo por uma forma de democracia social. A diferença é que o socialismo foi visto, por causa da experiência soviética, como a estatização de todas as relações sociais.E isso é inaceitável. Uma coisa é que meios de produção fundamentais e de regulação da vida económica sejam democratizados e vividos em igualdade de oportunidades pelas pessoas. Outra é que a arte, a cultura e as escolhas de vida possam ser impostas por um Estado.

No sábado, Jerónimo de Sousa, dizia ao Expresso...

Expresso - O marxismo-leninismo pode explicar o mundo do séc.XXI?
Jerónimo de Sousa - A luta de classes continua a ser a grande questão da nossa época, perante a miséria, a fome, a ofensiva a direitos que pareciam perenes. Marx e Lenine têm uma grande actualidade.

Expresso - O PCP continua a ter o objectivo de construir uma sociedade socialista. Qual o modelo, a URSS?
Jerónimo de Sousa - É muito difícil encontrar um projecto de socialismo que seja igual a qualquer outro. (…) Defendemos uma democracia avançada no limiar do séc. XXI, que tem como pressuposto a construção do socialismo e onde as eleições e a democracia são intrínsecas. Na economia, defendemos a coexistência dos sectores públicos, privado e cooperativo.

Expresso
- Esse modelo já é em si uma sociedade socialista?
Jerónimo de Sousa - É um modelo de democracia avançada.

Expresso - O socialismo é algo que ainda está depois?
Jerónimo de Sousa - Naturalmente. Não abdicamos desse horizonte.

Expresso - Como o seu camarada Domingos Abrantes, também pensa que a queda da URSS foi “uma enorme tragédia para o mundo”?
Jerónimo de Sousa - E foi. E foi. No seguinte sentido: o imperialismo, sem ter o contraponto das forças progressistas, sem ter o freio nos dentes, está a procurar implementar à escala planetária o seu sistema(…).

Expresso - Os grandes empresários são um inimigo a abater?
Jerónimo de Sousa - O PCP apenas combate privilégios, mas não defende renacionalizações, nem tem um grande plano de ofensiva contra “o grande capital”, passe o termo”.

Quem tinha dúvidas acerca do aggiornamento dos partidos de esquerda tradicional portuguesa, enterre-as aqui, à roda destas solertes declarações destes dois crentes indefectíveis no socialismo clássico, puro e duro que um dia virá, redentor e salvífico, como sempre foi e será, suplantar o modo de produção que temos, substituindo o capitalismo burguês, pelo socialismo proletário e depois pelo comunismo radioso.

Será então que se cumprirá a profecia: a cada um segundo as suas necessidades; de cada um segundo as suas possibilidades. Harmonia Mundi!

À porta destas declarações, ficam as esperanças de quem algum dia pensou que seria possível transformar o partido comunista português, num partido de social democracia, de ascendência capitalista, como fizeram os italianos.

À soleira destes propósitos ficam aqueles que um dia, julgaram que as propostas do BE, eram uma lufada de ar fresco e uma releitura da ideologia marxista-leninista, abandonando o comunismo agora semioticamente transmudado em esquerda moderna e socialista. As palavras enganam. E não deviam. Eles aldrabam… eles ganham?!

Nesta altura do postal, fui à busca do conceito de trotskismo do BE. E encontrei isto que é tudo o que queria dizer, com uma vantagem: está bem escrito; melhor do que eu o faria. Por isso o transcrevo, pedindo licença ao autor –Nuno Cunha Rolo - que publicito.

Para os bloquistas, o comunismo/trotskismo é a etapa suprema da democracia, o fim derradeiro e esperançado da universalização da justiça social e da igualdade material, únicas e exclusivas 'utopias reais' da humanidade.

O Bloco, que tem na sua génese partidos e movimentos políticos defensores do estatismo colectivista e combatentes dos dogmas socialistas do politicamente correcto, é hoje, e sempre assim foi, um grupo político deveras defensor do conservadorismo político e social da extrema-esquerda.

Um dos maiores traumas originários do Bloco é a sua concepção de Política como um exercício de distribuição de produtos com o controlo (quase) total dos produtores. Pensam a Política sobretudo como um instrumento de embandeirar ideias em preterição dos resultados e dos actos a médio e longo prazo. A salvaguarda dos estatutos sociais, a defesa desenfreada dos direitos adquiridos a todo o custo, a protecção desmedida dos 'operários' em vez dos operadores, a maniqueísta visão de que quem não está com o Estado está contra ele, confundindo Estado com Administração.

Muitos autores (liberais é certo, refira-se), como Locke, Tocqueville, Constante, Olivier, Von Mises, entre outros, há muito escreveram que o maior perigo para a liberdade é o igualitarismo que, no campo das ideias, traduz-se numa profunda intolerância para o pluralismo político e social (se têm dúvidas, leiam o "1984" de Orwell).

Das utopias da "República", de Platão, e da "Utopia, de Morus, às distopias modernas de "O Leviatã", de Thomas Hobbes, "As viagens de Gulliver", de Swift, "A máquina do Tempo", de Wells, "Nós", de Ievguêni Zamiátin, "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, "O Zero e o Infinito", de Arthur Koestler, entre outros o mundo mudou. Mudou e comprovou-se que a fantasia de outrora pode bem ser a realidade da futura aurora.

Friederich Nietzsche, na sua obra "Para além do Bem e do Mal" escreveu «A loucura é um fenómeno raro em indivíduos – em grupos, partidos, povos e eras, é a regra.». A propósito, o mundo do BE é um mundo onde os recursos disponíveis pelo Estado são (quase) ilimitados, sobretudo porque sempre se pode ir buscar mais aos mais ricos, como se neste mundo fosse impossível, ou mesmo imporvável, a um pobre coitado a simples operação de deslocar o seu dinheiro de um banco para outro, ou de uma aplicação financeira para outra, ou mesmo de um país para outro.

A lógica do BE é a lógica do "Eles comem tudo", "O centro não existe", da "revolução", do assumir-se ser "Contra o sistema"... Para o BE o centro político é a luta social, o campo de batalha, o lugar por excelência da guerra contra "os patrões" e o diabólico insuperado "capitalismo".

No dia 24 de Julho de 2004, perguntava aqui «Porque é que há pessoas do centro-direita e do centro-esquerda a votar no Bloco de Esquerda (BE)?» E respondi (ou tentei responder) assim:

A minha tese, salvo seja, é a seguinte: as pessoas que se situam no «centrão» e votam no BE fazem-no porque querem que o BE seja oposição (ou seja, que nunca ganhe as eleições).

Bem sei que à primeira vista pode ser contraditória, todavia, como diria Hegel, as palavras são enganadoras. Na verdade, estes votantes do BE não defendem as ideias do BE, muitos até são declaradamente contra, outros, as desconhecem quase no seu todo, contudo, vêem no BE, nomeadamente em Francisco Louçã, um partido opositor, combativo, coerente, sério, competente.

Podemos dizer que o BE tem pouca concorrência no mercado da oposição política e parlamentar, Ferro e Carvalhas não têm o carisma e o intervencionismo políticos necessários para fazer frente a Louça e, entre outras razões, o BE cresceu em eleitores. Conjugando a oportunidade e a veemência do BE com a ausência de afirmação de liderança política e comunicacional no resto da esquerda, Francisco Louçã e o BE conseguem fazer uma oposição incisiva, sábia e eficaz ao governo da coligação. Assim, o voto «centrista» no BE é um voto de delegação de poderes de controlo e fiscalização do governo, não é um voto na ideologia ou ideias bloconianas. É, no fundo, um voto passivo e de conforto. Os eleitores do «centrão» votam no BE para não terem que intervir politicamente e para que este continue a fazer aquilo que melhor sabe.

Naturalmente que outras razões podem aventar-se, eu também tenho outras embora ache que são menores ou secundárias, no entanto, acho que esta é a que responde melhor à pergunta que fiz. E note-se que não quero dizer que este tipo de eleitores são a maioria do eleitorado do BE, isso daria azo a outra pergunta e a outras respostas...

A pergunta mantém-se...assim como aquilo de que é feito o BE. A sobranceria moral e, despudoramente, humana bloquista (porque não dizê-lo: conservadora!) teve o seu auge na 'condenação' de Louçã a Paulo Portas no debate da SIC-Notícias, subtraindo a este direitos por 'negligência de concepção paterna'.

Em nome do contraditório livre, e para um bloqueio de ideias, ler o respectivo Programa.

NCR


Publicado por josé 19:57:00  

4 Comments:

  1. 2mcmlvll said...
    lkjsdkljkjsdlfkçldsafºç
    josé said...
    Tente o Bushmills...
    Anónimo said...
    a Sábado, que começou como um projecto jornalistico e rapidamente degenerou num espaço de 'infotainment' (entretenimento mascarado de informação), está cada vez melhor??! Pensei que os vossos posts se inspirassem em fontes mais credíveis.
    josé said...
    Caro anónimo:
    COmo diz o povo, quem não tem cão, caça com gato.
    Aqui não temos a Economist; nem sequer o Le Point ou até a Marianne. Costumo ler a Time para desenfastiar, ás terças-feiras, lendo um ou outro artigo bem feito e jornalisticamente interessante.

    Por cá, a Sábado está cada vez melhor. Concordo que não tem o jornalismo que gostaria de ler. Mas a Visão não é melhor. E a FOcus, então, nem merece a pena a referência.
    Falamos dos semanários centrados na escola economicista? No outro dia comprei a Prémio. Afirma encima do título que é "em colaboração com a Business Week"! Lamento os 2,20 euros que esportulei. É uma revista aparentemente dirigida a um target de gestores e quejandos militantes do sucesso ambulante. É uma merda de revista, é o que é!
    Assim, resta a Sábado.
    No último número, o tal que é melhor que o anterior, temos um artigo de fundo sobre Miguel SOusa Tavares, bem feito e informativo qb. TEmos uns cronistas escolhidos e uma ou outra reportagem, leve e superficial.Infotainment a rodos, concedo e lamento.
    Temos o artigo do MEC e a entrevista ao Louçã. Uma boa entrevista, embora marcada pelo estilo MEC, que definiu o tom da entrevista assim:
    "O parceiro da esquerda procurava parecer acompanhar o parceiro da direita para melhor o conduzir pelo salão de dança- e o da direita fazia o mesmo, dando uns passinhos esquerdinos bem ensaiados na esperança de induzir na dama de vermelho uma sensaçõa fatal de segurança(..)".
    É um estilo de metáforas tongue in cheek; de humor já estafadote, mas que continua a brilhar pela inteligência do autor. Eu gosto do MEC pelo que fez; pelo que escreveu e por isso sou suspeito.

    Quanto à Sábado, o caro anónimo parece saber do que fala...
    Fale-me então do que gostaria de ver e ler numa revista que conseguisse ultrapassar totalmente o infotainment. Veja se consegue...
    E por favor, não me lembre uma coisa tipo Grande Reportagem mesmo a de há uns anos.
    A última coisa impressa em papel, assim a modos de revista que me lembro de ler e gostar a valer, foi, sei lá...o Observador de 1972? A Vida Mundial da mesma época? Olhe, já sei: foi o suplemento do Independente dos anos 90 , dirigido por...Miguel esteves Cardoso!
    O resto é eminentemente olvidável.

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