A cópia do dia...

...é este pequeno texto de um cronista do JN. que habitualmente não se exalta com assuntos maiores, preferindo escrever sobre banalidades que muitas vezes lhe desmerecem as qualidades de escrita.

Como a crónica de hoje não é dessas, aqui fica, logo a seguir ao texto do Pinto Nogueira...

Perversidade

É absolutamente escandaloso contrapor à denúncia de casos de tortura de presos no Iraque, que continuam a dar que falar, e de que muitos, com bons fundamentos, dizem constituir apenas a ponta de um icebergue, as sevícias, torturas e violações de direitos humanos praticadas por militares e civis, durante o processo revolucionário português, sobretudo a partir do 11 de Março. É escandaloso, porque as situações não são comparáveis. Não lembraria ao diabo comparar o que se passou a nível interno do nosso país, durante uma fase revolucionária, com o que se tem passado no Iraque, tendo este país sido ocupado pelas forças coligadas da Inglaterra e dos Estados Unidos da América, a pretexto da libertação do povo iraquiano (depois de falido o primeiro pretexto, é certo) e nessa situação de ocupação terem ocorrido as brutalidades que têm vindo a lume. É escandaloso, porque violações tão graves dos direitos humanos nunca deveriam ser instrumentalizadas para fins particulares deste ou daquele grupo, da Esquerda ou da Direita, comparando-as e logo relativizando-as. A reiteração desses actos, onde quer que tenha lugar, não é apenas uma repetição; é sempre um acontecimento único, intolerável e carregado de uma abjecção sem nome, que põe em causa, radicalmente, os fundamentos do ser humano. É sobretudo escandaloso, porque politiza (senão mesmo partidariza) a tortura, servindo esta de mera arma de arremesso entre famílias políticas diversas ou entre facções partidárias. Como se se pudesse neutralizar a denúncia de tão monstruosas violações com a denúncia de situações equivalentes pretensamente atribuíveis a grupos adversos. É um golpe perverso, que inclui nessa perversidade a banalização do "inumano" que subsiste e se repete.

Artur Costa

Publicado por josé 16:15:00  

1 Comment:

  1. zazie said...
    A reiteração desses actos, onde quer que tenha lugar, não é apenas uma repetição; é sempre um acontecimento único, intolerável e carregado de uma abjecção sem nomeexcelente texto! e o que eu tenho mais lido são relativizações incluindo os pacifismos que se limitam a dizer que é guerra, logo é mesmo assim...

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