raciocínios aritméticos

Um licenciado em assuntos de História, escreve hoje no Público. A crónica, de Rui Tavares, versa um problema magno que muita gente, ao longo das últimas dezenas de anos, tentou perceber e sobre o mesmo escreveu: o funcionamento do mercado e o modo de produção de bens e serviços.

Rui Tavares, sobre o facto de, em Portugal, cada vez mais licenciados ficarem num desemprego estável, alvitra uma opinião, contra a corrente opinativa comum: a culpa deste fenómeno, talvez resida mesmo no mercado e não, como muitos julgam e parecem acreditar, no sistema de ensino universitário público que não se adapta às condições correntes, desse mesmo mercado.

Acrescenta um argumento interessante e que merece ampla reflexão: as universidades , para além da formação específica, devem proporcionar uma aquisição, a cada estudante, de “capacidades de raciocínio, disciplina mental, criatividade e autonomia”. Seriam esses, os requisitos para o exercício de actividades profissionais, em áreas diversas das licenciaturas acabadas.

Partindo desse raciocínio, Rui Tavares, conclui, afinal, que ao acabar uma licenciatura, uma pós-graduação ou um doutoramento, o estudante adquiriu, além daquilo que é específico, também a cultura geral para entrar no mercado. Seja em que área for, mesmo em Enfermagem, actualmente com excesso de oferta; ou em Psicologia, como o mesmo tipo de problema.

Portanto, ao mercado, bastaria escolher licenciados, de uma qualquer licenciatura, porque a preparação básica e fundamental já viria na embalagem cultural, como brinde, em todos os cursos superiores.

Não parece difícil de rebater, esse raciocínio simplista, se entrarmos abertamente na área das disciplinas técnicas, onde o saber especializado, não pode ser substituído pela absorção cultural da maior facilidade de raciocínio ou da maior disciplina mental.

O saber específico em áreas concretas, cada vez mais, é um factor de diferenciação que o mercado entende. Nenhum caçador de cabeças, irá escolher para chefe de operações de controlo aéreo, um filósofo pós-moderno. Mesmo que este possua uma grande capacidade de análise da trajectória dos objectos voadores não identificados, lidos nos livros de ficção científica, dos anos cinquenta. E que até conheça a Argosy, mas não saiba ponta de um corno, de vectores e cálculo.

Nenhum escolhedor de talentos, dará primazia a um historiador muito culto, versado em antiguidades sumérias, para dirigir um departamento de análise financeira, em detrimento de um recém-licenciado em Análise Económico-Financeira e que não saiba o que é o código de Hamurabi, mas perceba de gráficos e sinais hieroglíficos, em écrãs das bolsas de valores.

Resumindo: o artigo e ideias de Rui Tavares, são típicos dos letrados em Humanidades que julgam as matérias técnico-científicas, como uma dependência da suprema área da filosofia e espistemologia do mundo moderno.

Por contra, o blogger do Blasfémias, João Miranda, responde em dois postais, ao argumento especioso de Rui Tavares, com considerações de costume liberal. Em defesa do mercado, quase sempre à outrance.

A culpa do desemprego dos licenciados em Farmácia ou em Psicologia, longe de pertencer ao mercado regulador de tudo e de todos, agora, caberia inteirinha, às universidades que não compreendem os sinais de fumo desse mercado, por causa dos subsídios que recebem do Estado. Portanto, devido à falta de incentivo desses lugares de ensino, para adequarem os cursos ao livre jogo da oferta e procura.

De resto, a culpa principal, até pertenceria aos indivíduos, porque não sabem escolher bem os cursos, olhando para os sinais de fumo da mão invisível.

No mercado, residiria toda a virtude. Em estado puro e selvagem. Nos indivíduos que o procuram, ficaria a culpa dos infortúnios da escolha.

Portanto, temos dois licenciados, escribas de jornal, supostamente cultos e com capacidade de raciocínio, adestrados para a criatividade e autonomia, a pensar e escrever de modo completamente diverso.

Um, atira as culpas deste status quo deprimente, para o mercado. Outro, atira-se aos indivíduos que não entendem esse mercado sagrado, de mão invisível em riste e que orienta, omnisciente, o curso das coisas e da História, nos lugares onde o adoram.

O meio termo destas posições antagónicas, se calhar,- porque nestas coisas invisíveis, o que parece nem sempre acaba por ser,- residirá num lugar improvável e de definição incerta, apontado no mesmo jornal Público.

O director, a propósito das dificuldades académicas, aponta o exemplo dos licenciados do jornal que um dia destes, escreveram : “Sócrates ganha PS com mais de dois terços dos votos”; isso, quando no texto, aparecia: “Sócrates deverá ter recolhido mais de 75 por cento dos votos.”

José Manuel Fernandes, mostrando esse exemplo concreto, escreve por causa do ensino básico de matérias como a matemática, assim, em editorial:

nenhum estudante deve terminar o oitavo ano sem ter aprendido os conceitos fundamentais de álgebra, saber resolver equações lineares e quadráticas, funções polinómios, cálculo combinatório e de probabilidades. Ou seja: acabe-se com as facilidades e regressemos ao essencial.

Pela minha parte modesta, restaria acrescentar uma outra coisa, de pequeno valor para um indivíduo, mas de grande importância para o desenvolvimento cultural geral:

Saber escrever, sem erros ortográficos e com aperfeiçoamento sintáctico. Desde a quarta classe. Ou quarto ano, como agora se diz.

Com estes dois pequenos problemas resolvidos, aposto que os licenciados em antagonismo conceptual, não tinham motivo para a escrita de hoje. Nem eu.

Nota: o texto foi corrigido, agora ( 17h e 35m, de 20.3.2008) por causa de erros sintácticos. Mesmo assim...

Publicado por josé 15:52:00  

17 Comments:

  1. Tino said...
    Espero não estar a ser injusto para Rui Tavares.

    Tem um currículo académico de mediano mérito, mas suponho que é do Bloco de Esquerda.

    E esta organização política é especializada em promover certas individualidades medianas a historiadores de primeiro plano. Foi assim com Fernando Rosas. E parece que será assim com Rui Tavares.

    A estratégia passa por ajudar estes investigadores a publicarem a suas obras, dar-lhes grande projecção pública, fazê-los aparecer nos jornais e na televisão.

    Mais do que um exemplo de um licenciado em Humanidades, Rui Tavares é um exemplo de figura promovida por um partido político.

    Forçados a aparecer e a escrever com uma certa frequência, caem bastas vezes na circunstância de escreverem impropriedades.

    Relativizemos estas situações e não generalizemos. Não há mais nenhum licenciado em humanidades que subscreva tais devaneios..., suponho...
    RCruz said...
    Não percebo!

    3/4 > 2/3

    Está correcto!
    josé said...
    "Sucede que dois terços corresponde a
    66,6 por cento, enquanto 75 por cento é igual a três quartos. Esta evidência não chocou muitos dos meus colegas."

    É esta a explicação dada por José Manuel Fernandes, do lapso.
    hkt said...
    Apresento-me: Licenciada em Humanidades (História). Não li o artigo de Rui Tavares, nem sei se é do BE (eu, seguramente, não sou).
    Há um claro divórcio entre a oferta universitária e o mercado. Os cursos de Humanidades foram em tempos muito populares entre os estudantes. A realidade é que não encontram uma "saída" fácil no mercado de trabalho. É triste ver o número de licenciados e mestres em busca de emprego. Mas, também é verdade, que as empresas preferem optar por alguém menos especializado e mais "em conta", sem tantas ambições. Não precisa de falar/escrever bem inglês... o suficiente chega (veja o espanhol do PM!).
    josé said...
    hkt:

    Dantes, há uns anos, um pouco mais de uma dúzia, os licenciados em Humanidades, tinham emprego nas escolas públicas.

    Agora, com a proliferação das escolas tipo ESE e Politécnicos diversos, a oferta de docentes, aumentou exponencialmente.

    De quem a culpa? Para mim, começou nos governos de Cavaco Silva e dos seus brilhantes ministros da Educação que tinham nomes como Deus Pinheiro e Manuela Ferreira Leite.

    Foi assim. Depois ainda ficou pior.
    gotika said...
    Ou eu estou muito bêbeda ou dizer que dois terços (66,6%) não *contraria* 75% dos votos, pelo contrário, dá mais força à vitória do que dizer "três quartos", ou estou totalmente fora do contexto, ou não percebi o José, ou estou mesmo muito bêbeda, ou o senhor do Público ainda é mais imbecil do que os licenciados. Conhecendo o horror que o jornal Público tem a licenciados, vindo a dizer que a maioria da direcção é constituída por não licenciados, parece-me que é mais a última hipótese.
    Custa-me ver este blog enveredar por escritas esotéricas de difícil percepção não obstante o rico português.
    Custa-me mesmo.
    gotika said...
    "E, entre os seis membros da direcção do PÚBLICO, só um completou a licenciatura, e não é o director."

    http://gotikka.blogspot.com/2007/03/o-estado-da-elite-intelectual-e-bem.html

    Depois disto é difícil não os achar ressabiados.
    Tino said...
    Nos casos dos cursos das faculdades de letras, o excesso de licenciados deve-se a várias razões:

    a) Numerus clausus demasiado aberto por conveniência meramente política, para manter fora da estatística do desemprego uns milhares de jovens que assim ficaram 4 ou 5 anos a viver na ilusão de que um dia acabariam por arranjar um emprego;

    b) Criação de licenciaturas excedentárias nas ESES, Politécnicos e universidades privadas, sem que os sucessivos governos se preocupassem em adequar a oferta de emprego às vagas dos cursos.

    Em suma, isto deve-se a uma combinação de incompetência governativa com políticas eleitoralistas de esconder debaixo do tapete futuros desempregados que os ulteriores governos haveriam de suportar.

    Enfim, esta gentalha que nos governa não vê e não pensa além dos 4 ou 8 anos do mandato.

    Mas o que se passou nas humanidades em primeiro lugar passa-se já em todas as outras licenciaturas, à excepção de medicina e engenharias electrónicas e de telecomunicações.

    Acrescente-se a destruição pós-abrilina do ensino técnico e técnico-profissional e o estabelecimento da ilusão igualitária de que todos haveriam de ser doutores e engenheiros: duas das conquistas mais frutuosas do actual regime...

    Só acrescentaria que há alguns milhares de empregos que poderiam ser ocupados por licenciados e estão preenchidos pela rapaziada e raparigada do PS e do PSD, independentemente das suas habilitações. Entre as autarquias e os ministérios, isto absorveria quase todos os desempregados licenciados. Mas o cartão partidário ainda vale mais do que um diploma universitário...
    josé said...
    tino:

    absolutamente de acordo, com o diagnóstico.

    Quanto aos números esotéricos, nada tenho a ver com a reflexão concreta sobre as percentagens de 2/3 ou 3/4.
    São do director do Público.

    O meu ponto de vista, é outro e que passará por aquilo que o mesmo director afirma:

    O conhecimento básico da aritmética elementar e que dantes se ensinava ( e aprendia, é bom frisar), nos primeiros anos do ensino secundário, bem como a escrita ortograficamente correcta, no caso de serem levados a sério como medidas a aplicar efectivamente no actual sistema de ensino, permitiriam reduzir o desemprego, em poucos anos.

    Agora, quanto aos termos em que a questão aparece formulada pelo director do Público, já daí lavo as mãos...
    Nuno said...
    Eu sou de um área técnica mas entendo ser óbvio que Tavares não propõe pôr um filósofo a exercer medicina ou engenharia. o que ele diz, e tem razão, é que qualquer licenciado pode desempenhar bastante bem uma série de outros cargos exigentes que não exijam qualificações técnicas específicas.
    josé said...
    Pois sendo isso verdade, não se pode generalizar e aplicar a mezinha como a receita para curar os males do desemprego, atribuindo as culpas ao mercado, particularmente a este mercado que temos e que é o nosso.

    Se este mercado não quer licenciados em Psicologia ou em Farmácia, a fazer outras coisas que não aquilo para que supostamente estarão preparados ( e isso ainda é outro problema), então, temos que aceitar que o mercado não quer, por alguma razão.

    Talvez a razão esteja no facto de o mercado ser constituido por indivíduos que não aprenderam a ler, escrever e contar...não?
    JMC said...
    José.

    Aprecio a sua maneira de contestar. A maioria das vezes discordo dos argumentos que usa nas suas contestações, não dos temas que contesta.

    Sobre o tema do seu post pouco haveria a dizer, não fosse você constatar que escrever mal é um mal, sem se dar conta de que você próprio escreve mal, com muitos erros sintácticos.

    Se levássemos a sintaxe à risca, a maioria dos seus posts seria incompreensível. Deverá passar a ter mais cuidado com as orações e com os lugares onde põe as vírgulas.
    josé said...
    jmc:

    Tem toda a razão. Aliás, acontece-me frequentemente escrever o postal, reler e publicar, sabendo que tem erros.
    Erros ortográficos, dou poucos. Muito poucos e normalmente detecto-os, porque tenho vista apurada para os ditos. Porém, sempre que me acontece cometer um genuíno, fico deprimido. Ligeiramente.Ahahahah!

    Agora, quanto aos erros sintacticos, aceito que erro mais vezes, coloco mal as vírgulas, por força da pressa e da vontade em publicar. Por vezes, volto atrás, nos postais, para refazer os textos que escrevo sem cuidado de maior, porque é assim que me dá gozo escrever: de repente, com afã de escrevinhador e inventor de palavras que por vezes nem existem, mas a que procuro dar um sentido.

    Este postal que comento, tem erros- sei bem.

    Mas porque os apontou genericamente vou corrigi-lo. Mais não fora, para demonstrar o que acabei de escrever: que os erros que dou, devem-se à premência da escrita e à lassidão na correcção.

    Sabe o que me dá maior gozo, nisto?

    Apanhar palavras em voo. Explico: exactamente o que acabei de escrever: apanhar palavras em voo. à medida que vou escrevendo, surgem ideias sobre composição de conceitos breves e é esse gozo que me leva à escrita.
    Como é eminentemente ( uma palavra em que costumo errar, por causa da confusão com iminente), pessoal, passo por ter menos respeito por quem lê. Ainda assim, por vezes, nem corrijo, porque me parece não valer a pena. Quando o erro é flagrante, conto com a inteligência de quem lê, para o colmatar. Quando não é, sofro um pouco mais, depois, quando o descubro.

    Enfim, vou refazer o texto.

    Obrigado pelo apontamento.

    Mas espero que compreenda que o sentido do que escrevi, é um pouco mais profundo do que o que diz.
    josé said...
    E pronto,já está corrigido, conforme o que me ocorreu ao ler de novo.

    O texto e a capacidade de escrita, é um dom que apenas exercito como diletante.

    Há quem escreva de modo soberbo, usando termos simples, palavras inteiras e sem rodrigos de maior. Há quem as use como um pantagruel de gosto apurado, ( é o caso do blogger Dragão, no Dragoscópio que recomendo a quem pretenda ler palavras extintas na escrita corrente de jornal) e há ainda quem saiba pura e simplesmente escrever com classe rara. Nestes últimos que são muito poucos, aponto apenas dois ou três que conheço da escrita em blog. Um deles, chama-se Rui Pelejão, é jornalista desportivo e dantes tinha um blog, chamado Vodka7.
    Uma vez li por lá uma apologia de um certo poema de António Botto e perdi definitivamente a pachorra para voltar.
    Um dia volto. Pode ser que se tenha corrigido...
    josé said...
    Além disso, olho muitas vezes para o que escrevo como um simples work in progress. Uma tentativa de texto acabado que sei poder corrigir quando me apetecer.

    Essa faculdade que os jornalistas e escritores de jornal não têm, permite-me relaxar o modo de escrita.

    Se escrevesse para um lugar impresso, provavelmente teria mais cuidado. Se recebesse dinheiro por isso, ainda mais teria.
    Se me vierem apontar os erros, de certeza que o efeito será o mesmo, até perder a vergonha completamente- o que felizmente, ainda não aconteceu.

    Outro escriba de jornal que me apetece ler por ler, é Vasco Pulido Valente.

    Se formos para o estrangeiro, há mais. Um deles, PJ O´ROurke, dá-me um gozo excepcional no modo como usa as palavras e a sintaxe, mesmo em inglês.
    Tino said...
    Para o jmc:

    Não conheço o José de lado nenhum e ele não necessita de defesa, muito menos feita pela minha humilde pessoa.

    Toda a gente comete erros ortográficos ou sintácticos, especialmente quando se escreve na e para a blogosfera.

    Eu quando escrevo, olho apenas para o teclado, sem olhar para o ecran. Os erros são inevitáveis. E mesmo que se faça uma revisão, há erros (melhor dizendo "gralhas") que permanecem.

    Quem publica textos impressos sabe que, por mais revisões que se façam, mesmo por duas ou três pessoas, há sempre "gralhas" que subsistem.

    Se isso sucede na revisão de textos impressos, por maioria de razão acontece com os textos de suporte informático.

    O que releva são as ideias e a qualidade da prosa. O José, que eu não conheço, está seguramente entre os melhores escritores da blogosfera.

    Post script: revi o texto uma vez. É bem possível que contenha gralhas.
    josé said...
    tino:

    Obrigado, mas preferia não merecer o elogio. A sério e por uma razão:

    Gostava de poder ler mais pessoas a escrever melhor e com ideias que me entusiasmassem.

    Sempre que descubro alguém com talento a sério, neste caso, na escrita, fico embasbacado e contente.

    Agora, para rematar o assunto dos erros ortográficos e sintácticos:

    O importante, será perceber que se cometeu um erro de escrita, quando e onde. Não é tanto dá-los...
    e é por isso que subscrevo o escrito de José Manuel Fernandes, nessa parte.

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