Uma vergonha nominável

As últimas notícias sobre o caso Maddie, com os episódios recentes sobre o diário da mãe de Maddie e a notícia da sua apreensão iminente e de acordo com a vontade policial, são lastimáveis, indignas e imtoleráveis, neste caso, como noutros.

A comparação com o caso Ritto, é flagrante: neste caso, o diário do arguido, temido por muitos como revelador de intimidades perigosíssimas e potencial indiciador de provas relevantes, foi julgado ( julgado, repito) inadmissível como prova para qualquer facto a não ser o de que o arguido o tinha escrito e teria interesse para o processo.
Neste caso da Maddie, em que um diário, pode muito bem indiciar nada e apenas indicar pistas de mera circunstância, não só é revelado publicamente como sendo do maior interesse investigatório, numa incrível ultrapassagem da intenção policial, como aparecem hoje referências ao seu conteúdo. Já e sem qualquer rebuço de preservação de intimidades. Nelas se indicam já características psicológicas e comportamentais de pessoas, particularmente crianças de tenra idade e nelas se fazem já, num exercício pífio e abusivo de perícia de personalidade, relacionamentos, tirando-se conclusões indiciárias sobre culpabilidades, que são inadmissíveis seja por que ponto de vista se quiser entender.

No caso Diana de Gales, a perseguição mediática, seguiu-a até ao túnel da morte. Uma vez aí, logo após o acidente, dispararam em directo e no local, as máquinas em direcção aos mortos e agonizantes. As fotos existem e valiam milhões. Deixaram de valer, logo que se soube que a visada tinha morrido. A ética jornalística, nesse caso, valeu aí: na fronteira mediática entre a morte e a vida e porque os protagonistas tinham sido também testemunhas. Tivesse sobrevivido e as fotos teriam aparecido no dia seguinte nos tablóides de todo o mundo.
Comparem, meditem e tenham vergonha, directores de informação de jornal e tv!!!
Estes media estão doentes. Basta ver aquela mocinha que aparece em directo na RTP, bonita e bem apresentada e que relata em directo de Inglaterra, os acontecimentos do dia, como se estivera num evento social ou desportivo, com a cadência e expectativa do relatador no momento do penalty.
Os directores andam de cabeça esquizofrenicamente perdida, à procura das audiências alienadas, e o público é sempre o mesmo: panis et circensis. Pão e circo.
Nisto tudo, quem precisa da ERC para alguma coisa? Quem precisa de um Ministério Público mudo e quedo e quem necessita de uma polícia que não sabe dar-se ao respeito de admitir violações graves e reiteradas ao segredo de justiça, ou a denúncia pública da desinformação?

Ninguém parece assumir as despesas do senso comum e da comunicação directa, simples e eficaz.
Neste panorama, dêem a voz ao Carlos Anjos. Pelo menos, revelou algum bom senso que falta noutros lugares. Mas não fiquem por aí: meditem e comparem este caso, com o que se passou no caso da Casa Pia, porque por aqui se pode ver a profunda hipocrisia que permeia os meios político-judiciários em Portugal.

Publicado por josé 13:11:00  

4 Comments:

  1. Há do que said...
    Infelizmente não é apenas o caso Pio. Estou-me a lembrar do Padre Frederico, condenado pelos telespectadores (antigamente chamados de população, povo, cidadãos). Apesar de real só haver uma testemunha que afirmava que na hora do crime o Pe Frederico estava no seu estabelecimento, e de menos real outra testemunha que dizia ter visto um carro, que possivelmente seria o do Padre, todos o condenámos com sentença em directo pela Televisão.
    Outro caso recente foi o da mãe da Joana, há muito condenada pelos "telespectadores" porque, sendo uma cabra de vários homens, não poderia deixar de ser a assassina, que uma queda nas escadas dum estabelecimento policial deixou ambos os olhos "à belenenses".

    E isto com um Sistema Judicial dos melhores do mundo.
    zazie said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    zazie said...
    Mas vejam este anormal:
    http://gloriafacil.blogspot.com/2007/09/odor-cadver.html

    http://gloriafacil.blogspot.com/2007/09/mas-afinal-quem-est-histrico.html

    Não lhes basta o que fazem como jornaleiros, ainda repetem nos blogues
    Pedro Soares de Albergaria said...
    100% de acordo consigo quanto à questão do diário. Coisa extravagante, uma apreensão de uma peça de tal jaez, com tal significado íntimo (mas erá que ninguém lê Costa Andrade?), há um mês e agora presente a um JIC!? Para quê?
    Há cerca de uma semana coloquei um postal no "sine die", como que tomando as dores da justiça portuguesa. Foi um erro e uma percipitação, agora percebo.

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