Palimpsestos virtuais

De há uns meses a esta parte ( para não dizer anos) tenho ficado embasbacado com o grau de conhecimentos específicos sobre fenómenos da música popular que se podem ler nos artigos da especialidade no Público ( e certamente noutras publicações portugueses).

Nos últimos dias, no suplemento P2 e Ípsilon, do Público, dois artigos de fundo de catálogo, serviram ao leitor, as impressões e opiniões, numa escrita feita de verbos retóricos, no presente do indicativo e em pretéritos perfeito e mais-que-perfeitos, acerca de dois personagens da cultura popular dos anos sessenta: primeiro Lee Hazlewood e depois, Leonard Cohen, em escritos assinados por Kathleen Gomes e João Bonifácio, respectivamente.

O que impressiona nos escritos aludidos, para além da retórica dos verbos em presentes e pretéritos, em relatos de tempos improvavelmente vividos, é o espantoso conhecimento enciclopédico digno de uma wikipedia sem direitos de autor. A quantidade de referências concretas a um tempo passado, com décadas de distância e experiências relatadas em aparente primeira mão, nota-se nos escritos como se os autores narrassem o vivido presencial que os verbos atestam.

Lee Hazlewood está a beber whisky com a eternidade”, é a primeira frase do texto sobre Hazelwood.

De onde virá a tremenda inspiração para tal frase narcótica? Do jornal inglês The Telegraph, uma das duas fontes citadas para o obituário, a par do suplemento do Observer e ainda da página no MySpace? O que sustentará a prosaica referência, mais genérica ao “ assim rezam as crónicas”? É certo que tudo isso está ao alcance de dois cliques, no genérico da Wikipedia, mas ainda assim...

Vamos então, direitos ao assunto: escrever obituários, crónicas musicais retrospectivas ou mesmo recensões críticas de discos antigos, nos jornais de hoje, é “piece of cake”, para qualquer escriba em défice de ideias e tempo para as pôr em Word. Copiar imagens, é trabalho de qualquer principante e composição de textos inspirados em trabalhos alheios, é mais fácil que mudar fraldas a bebés.

Perante esta facilidade de cópia e colagem imediata a ideias alheias, porque não citar os originais ou mesmo as fontes directas do conhecimento? Para que serve passar em claro, todo um conunto de fontes de saber, virtual e metaforicamente enlatado, em lugares selectos na Net? Para alardear sabedoria emprestada, escrita em palimpsesto e esconder as fontes de origem, apresentando-as como propriedade intelectual do escriba?

O jornal The Telegraph ou o suplemento do Observer ou o sítio do MySpace, explicam em parte o artigo sobre Hazlewood, mas não explicam tudo e muito menos a frase do início, que continua a ser um mistério transcendental.

O artigo sobre Leonard Cohen, começa numa intimidade de quem reproduz um passado presenciado: “ Eram quatro da manhã naquela noite de 1970, na Isle of Wight, costa sul da Inglaterra.” Frightening. E a apreciação crítica em modo sumário, é definitiva: “Songs of Love and hate é o mais respeitado disco folk do século XX, mas não é um disco folk”. Ok, uma opinião respeita-se sempre. O problema são os factos que a sustentam e por exemplo os discos de Woody Guthrie e Pete Seeger, para ficarmos pelo continente americano.

No entanto, como a crónica assegura que irá contar em duas páginas, incluindo fotos tamanho gigante, a “história de como se chega ao extremo de amarga lucidez”, a leitura torna-se obrigatória para perceber como se escreve um artigo de tamanho fôlego sem uma única citação de fonte, de cópia ou mesmo de inspiração. Astounding.

É de meridiana evidência que estes escritos devem sempre algo a alguém que antes disso escreveu sobre o assunto. Será talvez difícil descortinar a fonte original, mas quem começa a escrever que “eram quatro da manhã naquela noite de 1970, na Isle of Wight” o mínimo que pode fazer, por respeito de quem lê, é dizer onde leu primeiro o relato de uma experiência que não podia ter vivido.

A não ser que seja tudo ficcionado, para começar um texto de antologia sobre a amargura da lucidez.

Publicado por josé 01:17:00  

10 Comments:

  1. MARIA said...
    É a "mentalidade jornalística" : " não tenho que revelar a fonte ..."
    Saudações.
    Maria
    zazie said...
    aahahaha
    Grande boca a da Maria
    MARIA said...
    Obrigada zazie, é uma querida.
    Um Bj
    Maria
    JB said...
    A falta de conhecimento é uma coisa, o falso testemunho é outra, e de outra índola. Aventar, por um segundo que seja, que ficcionei o que quer que fosse, é de uma total sobranceria, e de uma má formação moral que me repugna.
    Respondo-lhe, no entanto, para o deixar descansado: o texto sobre Leonard Cohen - que não é uma figura dos anos 60, mas sim do século XX (mas isto o senhor não é obrigado a saber) - foi baseado em vários biografias, todas elas disponíveis na Amazon, entrevistas que recolhi ao longo de cerca de 17 anos (talvez mais), artigos de jornais, e de revistas especializadas. Há, além disso, e para quem quiser consultar, vários documentáios (alguns sobre Cohen) em que o bardo é mencionado, outros em que esse concerto é abordado. Material mais que suficiente para a abundância de pormenores, que era, aliás, um dos meus objectivos iniciais ao escrever o artigo.
    Nunca consultei a Wikipédia (nem uma única vez), e sou do tempo em que se liam livros.
    Qualquer dúvida em relação a artigos pode colocá-las ao director, ao editor e ao provedor -o que será mais correcto do que o que fez.
    Fique também a saber que o livro de estilo do Ípsilon permite outro registo de escrita e que não hé um jornal do mundo que cite todas as biografias que utiliza, em particular num suplemento acima de tudo urbano e "jovem" (detesto o termo, mas enfim).
    Espero que não volte a usar o meu nome nos termos em que o fez.
    JB said...
    Peço desculpa por uma ou outra gralha, infelizmente já não é possível editá-las.
    zazie said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    zazie said...
    Então se consultou tudo isso porque é que não disse?

    E se não ficcionou como é que sabia que no dia x às horas y o sujeito estava a fazer não sei o quê?

    Quem lhe contou? foi o próprio?
    E estava a beber wisky com a eternidade? foi a eternidade que o inspirou?

    Ora, há cada um com cada lata...

    Temos Alexandre Dumas, só pode
    zazie said...
    E essa coisa do nome, como é? um jornalista tem alguma clausula que impede o uso do seu nome pelos leitores ou é fetiche?

    V.s andavam mal habituados porque escreviam o que queriam e os leitores o mais que tinham era de pagar e ficar calados.

    Isto dos blogues é uma chatice. E ainda por cima, uma chatice com trabalho muitas vezes bem superior (caso dos postes sobre música do José) e à borla.

    É mesmo uma vergonha.
    josé said...
    Caro Bonifácio:

    Não se abespinhe tanto. Sabe porquê? Em primeiro lugar porque não o insultei- limitei-me a criticar a sua crónica. Nem sequer lhe chamei abertamente ignorante, porque lhe faço a justiça de pensar que o não será.
    Fiz uma crítica, simplesmente. Aquilo que você faz, habitualmente, referindo-se a trabalhos alheios.
    Não está habituado? Então, vá-se habituando, porque tem aqui um leitor que quando lhe apetecer, desancar-lhe-á nos escritos, se o merecer. E olhe que merece muitas vezes, para lhe ser franco e nem sequer por outro sentimento menos digno que não a mera opinião pessoal.
    E vai ser sempre sem apelo nem agravo da sua parte, a não ser o do sentido de humor que já vi que lhe falta em alto grau.

    Depois, porque com um pouco de humildade ( ou humor), é possível mostrar inteligência...
    Abespinhe-se um pouco, se quiser, mas para dizer a todos como é que consegue escrever os verbos no tempo do costume, sem que saibamos em que tempo viu leu e ouviu, o lugar onde o fez, como o fez e já agora, se não for pedir muito, porque o fez.

    Se não experimentou - porque é demasiado novo para isso- em directo e no tempo certo, as experiências que narra na primeira pessoa, quer que chame a isso o quê?
    Jornalismo à la Gonzo?

    Bem gostaria, mas infelizmente não lhe vejo talento para tanto. Mas nem por isso deve aborrecer-se, porque em terra de cegos quem tem um olho é naturalmente rei.
    Na crítica musical, cá na terra, os reis morreram todos há muito tempo, se é que alguma vez houve monarquia por cá.
    Houve um regente, que usurpou o poder em meados dos setenta, chamado MEC, mas não era crítico: era amador de escrita. E por isso fazia escrítica. Pop, no caso.

    Quanto ao assunto Cohen, diz que há cerca de uma dúzia e meia de anos que anda a recolher material. Fez bem. Como fez bem escrever sobre a recensão dos primeiros discos de Cohen.
    Mas poderia ocorrer-lhe que há quem os tenha ouvido na altura em que saíram...e também tenha espírito crítico para ouvir e comentar e tenha lido outros críticos, noutras revistas com bem mais do que os 17 anos de pesquisa.

    Para escrever sobre Cohen com um mínimo de interesse crítico, não basta aflorar umas ideias que parecem adequadas embora respeite a sua crítica, pelo trabalho que representa.
    Mas se aceitar a crítica à crítica dê-se ao trabalho de ler outros críticos, no que escreveram sobre essas três obras de Cohen.
    E não escreva com toda a facilidade do momento que Songs ...é o maior disco folk do séc. XX, a não ser com o espírito do escrítico que dizia o mesmo dos Joy Divison, in illo tempore.

    Sabe quem sabia mesmo escrever sobre Cohen? Jacques Vassal.
    Julgo que saberá de quem se trata e dispenso por isso apresentações.

    Em Maio de 1971 ( há muito mais tempo do que os 17 anos), escrevia numa revista que tenho aqui à minha frente, uma crónica do tal disco que é ( para si) o mais respeitado disco folk do séc. XX. Entre as diversas frases adjectivas, sobre o disco, refere expressamente a orquestração de Paul Buckmaster ( que você nem cita, como nem cita os músicos e seria importante fazê-lo), como refere as canções:
    Love calls you by your name ( melancolia etérea); Avalanche ( patética); Famous blue raincoat ( infinita tristeza dos coros que cheira intensamente a autobiografia); Joan of Arc ( surpreendentes rupturas); Dress rehearsal rag ( ironia desesperada). E a apreciação pessoal de Cohen: "homem da subjectividade total, tentando atingir não se sabe que sol e amar o seu ódio, de aconchegar o amor ao ombro, num impermeável rasgado, de cantar outra canção, ( por esta estar velha e amarga) e chamar o amor pelo nome e- nunca é demasiado tarde para o fazer-aflorar o sexo de Joana D´Arc".

    Como pode ler, estáo aí todos os clichés acerca do que se tem escrito sobre Cohen.
    E já foram escritos em 1971.
    A diferença, neste caso concreto, é que eu coloco aqui onde leio o que porventura escrevo e não gosto muito de palimpestar.
    Vocês, dão-se ao luxo de se acharem catedráticos da crítica.
    Tenho pena, da vossa falta de humildade e sentido de humor.
    MARIA said...
    Impressionante resposta, com a força e a elegância que já não surpreende, por fazer parte de uma essência que também sabe estar, como poucos.
    Claro que o pior que se pode fazer a uma pessoa que vive a criticar os outros , ( e quantas vezes se assiste por aí a críticas tão duras e gratuitas , dirigidas a quem sequer tem voz... ) é criticá-la, ainda por cima , tão fundamentadamente.
    No caso, de facto, nem foi dado a provar " do próprio veneno " , já que o que o crítico considerou crítica mais não foi que uma opinião séria e fundamentada sobre o trabalho que apresentou.
    Por isso, subscrevo, humor e humildade requerem-se sempre. E caiem bem ...
    Saudações
    Maria

Post a Comment