A palavra do Poder

O Público de hoje cita a revista americana Journal os Personality and Social Psychology, para nos apresentar uma opinião supostamente científica acerca do comportamento das “massas”: “A forma como avaliamos a opinião dos grupos afecta as nossas percepções da realidade”, cita-se .
O estudo citado, de uma dúzia de páginas, destinava-se a procurar entender o modo como alguém avalia a opinião colectiva de um grupo e como é que essa avaliação é influenciada pela repetição de mensagens.
Campo de manobra vastíssimo dos variadíssimos spinners e profissionais de mercado de opinião pública, estes estudos contém em si mesmos, um forte pendor opinativo, embora capeados pela autoridade de um inquérito estendido a cerca de mil estudantes universitários americanos, no âmbito de uma pesquisa curiosa: um grupo de estudantes leu uma opinião veiculada por uma só pessoa; outro, leu a opinião de três pessoas diferentes e ainda um outro, a repetição da opinião de uma única pessoa.
Acharam os estudiosos que a opinião veiculada por mais pessoas é prevalente, assim como aquela que é repetida por uma só. “Uma só voz repetida pode soar como um coro”.

Onde andará a novidade destas descobertas que concluem também que “a exposição repetida a uma opinião pode levar uma pessoa a alterar as suas atitudes em relação a um assunto”?

Desde tempos antigos que se conhece o valor da Propaganda, para formar opinião de massa e influenciar pessoas, conduzindo-as ao redil e por vezes ao abismo.
A retórica, o desembaraço discursivo e a eloquência verbal, por vezes fazem milagres. Mas também é sabido que ninguém consegue enganar toda a gente o tempo todo. E o desengano começa pelo dissenso de alguns que se apercebem da ilusão, do truque e da falsidade.
Para sapar dissensões, todo o poder contestado se tenta no recurso à repressão, sob variadíssimas formas. Desde a manipulação de informação, apresentada de modo edulcorado e selectivo, até à censura pura e simples do que não interessa divulgar, passando pela solerte repressão policial e administrativa, o poder conhece e utiliza mil e uma maneiras de influenciar a opinião geral.
A existência num país soberano, de uma opinião pública equilibrada no dissenso e no consenso, depende da evolução civilizacional. Chamamos democracia ao regime político que melhor define essa evolução e assegura as suas conquistas.
Em Portugal, por força de alguns decénios de propaganda genialmente conseguida, andamos atrasados em relação à evolução democrática de outros países.
Em Itália, o antigo primeiro-ministro Andreotti era apelidade abertamente de “belzebú”, na primeira página do La Repubblica, em escritos de Eugenio Scalfari.
Por aqui, alguém imagina a primeira página do Público apelidando, em modo de alcunha e em editorial, o actual primeiro ministro, José Sócrates de... “O mentiroso”?


Em Itália, sofredora dos males do autêntico fascismo, mas que rechaçou em devido tempo as sereias do anti-fascismo, mudando o nome ao partido comunista e expurgando-o de resquícios estalinistas, alguém da Administração Pública se atreveria a censurar, suspendendo-lhe as funções, a conduta de um funcionário que se atrevesse a apelidar de Belzebu, o primeiro ministro do país?

Alguém já se deu ao cuidado de ler de vez em quando o Charlie-Hebdo francês ou até o Canard Enchainé? Haja alguém que veja as caricaturas dos detentores do poder e compare com o caso português.

Não há desenhadores, em Portugal, para que o humor desenhado nos jornais, se fique pelas meias tintices correctas, de um Luís Afonso?

A claustrofobia democrática também passa por aqui. E a palavra do poder é muitas vezes a mentira.

Publicado por josé 11:25:00  

2 Comments:

  1. Antonio said...
    Se não me engano a PANORAMA

    pertence ao grupo de BERLUSCONI.

    Pois é........
    josé said...
    Não, não se engana nada. A Panorama é do grupo Mondadori, pertença de Berlusconi.
    Assim, como o Expresso de cá é pertença de Balsemão e do grupo Impresa...
    Mas também não se enganaria se lesse a Panorama e reparasse que não é propriamente uma revista de esquerda clássica ou mesmo um tipo de esquerda que a Visão de cá, representa.
    Seria ainda mais interessante se visse que publica alguns artigos da Economist.

    Sabe o que a Economist escreveu de Berlusconi, quando foi eleito e depois disso? Algum órgão de informação português escreveria o mesmo de um Santana, para não irmos mais longe e para este desgraçado, que se julga acima do ridículo, Sócrates de seu nome?

    Além disso, vá ao google e digite L´Espresso Belzebù e depois diga que o L´Espresso italiano também será do Berlusconi. Ou o La Repubblica no caso citado...

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