Apetece-me dizer muito mal

Eduardo Carrega Marçal Grilo, antigo ministro da Educação do primeiro governo de Guterres, escreveu hoje no Público que lhe apetece dizer bem de muitas coisas em Portugal.

Apesar de saber que “há corrupção, incompetência, desleixo, falta de planeamento, gente sem qualificações em lugares onde não devia estar e muitos outros pecados que nos afectam e penalizam”, dizendo assim, mal de quase tudo, no próprio artigo em que lhe apetece dizer bem e atropelando-se por isso no próprio teor discursivo, Marçal Grilo elenca uma lista curiosa de coisas que “nos satisfazem e nos dão orgulho de sermos portugueses”. Algumas delas, são simplesmente hilariantes.

São várias e notáveis, incluindo o exemplar “relacionamento institucional entre o PR e o actual PM”, o que equivale a dizer mal dos outros relacionamentos anteriores . Proclama a excelência da rede de auto- estradas que tornaram o país mais “curto” e mais coeso, acompanhadas pela fantástica oportunidade dos novos projectos de energias renováveis, dizendo mal de quem não se lembrou antes, de tal panaceia ; ao referir um valor acumulado para contrariar maledicências, avulta a referência jornalística que é Nicolau Santos, do Expresso, por ser dos poucos jornalistas que não diz mal de tudo e de todos, dizendo por isso mal de todos os outros; inclui ainda nas preciosidades inestimáveis, escritores de grande vulto como Lídia Jorge e Agustina Bessa-Luís e até…Vasco graça Moura e Miguel Sousa Tavares, para além do óbvio Lobo Antunes, dizendo mal do seu próprio gosto.
Na música, também não poderiam faltar o Luís Represas e o Paulo Gonzo, esses grande s expoentes da música popular, o que revela também um mau gosto apurado e pérfido, no dizer mal implícito.
Segue no elenco, pela via bem dizente, dos restaurantes da praia das Maçãs e das Azenhas do Mar, antes de dizer bem dos nossos cientistas que ganham prémios e dos futebolistas que estão lá fora, deixando aos de cá, as despesas da mediocridade que assinala em contraposição.
Acha que se pode dizer muito bem dos actuais índices de leitura, que aumenta de forma evidente, como se comprova pelas listas de best-sellers, revelando alto sentido de análise empírica do conhecimento corrente.
Os médicos e enfermeiros também lhe merecem encómios, por trabalharem o que devem, mesmo que a custos incomportáveis e dizer bem por dizer bem, porque não mencionar os professores ( embora só uma maioria, mesmo que larga) que formam as nossas crianças e os nossos adolescentes, “muitas vezes frequentando problemas para que não foram preparados”, acabando assim por dizer mal de quem os não preparou. Diz bem do seu banco e do seu gestor de conta que lhe resolvem tudo pelo telefone e a Valquíria (ópera de Wagner), no S. Carlos foi das melhores óperas a que assistiu.
Diz bem dos que ganham prémios na matemática e dos atletas medalhados, bem como dos inúmeros eventos culturais que pululam por esse país fora. Acha que o 112 funciona bem, tal como o INE e que agora há urbanizações que substituíram os “abortos” de há alguns anos, dizendo mal dos governos e autarquias do passado recente.
Dizendo bem de tanta coisa, Marçal Grilo, diz mal de muitas outras, com assento na crítica dos lamuriosos, maledicentes e daqueles que apenas sabem dizer mal. Por isso, encomia as rádios que o informam sem o massacrar com os contestatários das políticas governamentais.
Também não arriscarei muito em dizer, porque o afirmo quase de graça, que Eduardo Carrega Marçal Grilo é um dos responsáveis directos pelo estado lastimoso em que nos encontramos, no capítulo do ensino. Eduardo Carrega Grilo é um dos principais culpados pelo estado calamitoso do ensino em Portugal, precisamente porque fez do assunto um tema de paixão assolapada que contagiou governantes e redundou en catástrofes atrás de catástrofes, em todos os graus de ensino, particularmente no superior privado. Eduardo Carrega Marçal Grilo é uma das pessoas que mais contribuiu para a nossa desgraça colectiva, no domínio da educação. É a minha opinião, claro está. A dizer mal.

Publicado por josé 23:04:00  

5 Comments:

  1. pandacruel said...
    Estamos a falar de uma pessoa que é fã da Volta a Portugal em bicicleta, pelo que tem de ser optimista, por certo, uma vez que bate ou bateu montes e vales no escaldante Agosto,havendo, aqui e ali, lugar a água fresca...
    ; -) said...
    Deixei de ler o Público porque abundavam lá artigos como o que descreve e que me indispunham.
    Se tivesse adivinhado que o seu postal continha uma descrição tão vívida teria evitado nova indisposição.
    Seria óptima a utilização de uma bolinha no canto superior direito que nos avisasse que "pode molestar as pessoas sensíveis".

    Volto já. Vou só ali beber uma água das pedras.
    naoseiquenome usar said...
    Parabéns pela frontalidade assertiva!
    lusitânea said...
    É os "democratas", mesmo que só reciclados com uns golpes de rins têm que explicar ao zé povinho porque é que extinguiram as escolas comerciais e industriais.O Veiga Simão, esse que envia listas de agentes secretos para a AR em que deputados com elevado sentido patriótico os fazem chegar aos jornais, devia explicar para quê a extinção .Sem império decidiram formar especialistas em generalidades e culatras em vez de técnicos especialistas.
    Agora com o regabofe da imigração descontrolada e iletrada temos uma nova reedição que vai levar ao completo desastre.Legalizem , nacionalizem todos esses pobres do mundo e depois digam que os vão "formar" pois que os verdadeiros portugueses estão fora a fazer trabalhos "de elevada especialização" nas obras, nas vinhas, nos galinheiros e nas limpezas"
    Ter nascido em portugal é de facto um FADO , um AZAR com políticos míopes que temos e que NÃO NOS ABANDONAM!Porra!
    José Carrancudo said...
    Infelizmente, este Governo sabe tão pouco da Educação como os seus antecessores, e só se preocupa em poupar dinheiro.

    O País está em crise educativa generalizada, resultado das políticas governamentais dos últimos 20 anos, que empreenderam experiências pedagógicas malparadas na nossa Escola. Com efeito, 80% dos nossos alunos abandonam a Escola ou recebem notas negativas nos Exames Nacionais de Português e Matemática. Disto, os culpados são os educadores oficiosos que promoveram políticas educativas desastrosas, e não os alunos e professores. Os problemas da Educação não se prendem com os conteúdos programáticos ou com o desempenho dos professores, mas sim com as bases metódicas cientificamente inválidas.

    Ora, devemos olhar para o nosso Ensino na sua íntegra, e não apenas para assuntos pontuais, para podermos perceber o que se passa. Os problemas começam logo no ensino primário, e é por ai que devemos começar a reconstruir a nossa Escola. Recomendamos vivamente a nossa análise, que identifica as principais razões da crise educativa e indica o caminho de saída. Em poucas palavras, é necessário fazer duas coisas: repor o método fonético no ensino de leitura e repor os exercícios de desenvolvimento da memória nos currículos de todas as disciplinas escolares. Resolvidos os problemas metódicos, muitos dos outros, com o tempo, desaparecerão. No seu estado corrente, o Ensino apenas reproduz a Ignorância, numa escala alargada.

    Devemos todos exigir uma acção urgente e empenhada do Governo, para salvar o pouco que ainda pode ser salvo.

    Sr.(a) Leitor(a), p.f. mande uma cópia ao M.E.
    email: gme@me.gov.pt, se.adj-educacao@me.gov.pt, se.educacao@me.gov.pt

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