A razão do "estado a que chegamos"

A legitimidade de um primeiro ministro vem dos votos, não dos títulos académicos. Mas, utilizar um título que não se tem, fazer passar-se por aquilo que não é, revela uma falha de carácter, mina a credibilidade e afecta a sua autoridade.”

Foi isto que o político Marques Mendes disse de José Sócrates a propósito do seu percurso académico e que tem vindo a causa polémica.Nenhum outro político ousou avançar tanto nos comentários ao caso escandaloso.
Há um consenso algo esquisito em comentadores e políticos que se aprestam sempre a demarcar-se destas declarações. Jorge Coelho acha-as “indignas”, o que revela muito sobre o seu conceito de dignidade. Pacheco Pereira, demarca-se e não concorda com apreciações de “carácter”. Duarte Lima, Dias Loureiro, Ângelo Correia e outros, idem. Aliás, estes três personagens da nossa política mediática, enriquecidos pela política, costumam falar estranhamente a uma só voz e uma breve e perfunctória análise do seu percurso político, deveria fazer pensar duas vezes quem os ouve, cuidando de apurar razões para o que dizem.

Assim, o mais interessante, neste caso, começa a ser a observação da atitude pública dos políticos, comentadores e público em geral, bem como da opinião publicada nos media, incluindo blogs.

O caso Sócrates permite avaliar uma fractura importante, tornada explícita pelas diversas reacções públicas e políticas já conhecidas: o actual nível de ética e moral, publicamente exigível a governantes e responsáveis políticos em geral.
Uma esmagadora maioria de políticos de todos os quadrantes e feitios ideológicos, continua a desvalorizar o assunto e começou a comentar o caso, apenas quando o mesmo era inevitável e incontornável. Et pour cause, dir-se-ia.
Objectivamente, resulta como óbvio que todos prefeririam deixar o assunto morrer por si mesmo, na indignação dos blogs anónimos, nunca citados e confundidos com bastidores de mentideros e maledicência. Algo semelhante aos corredores dos círculos de poder onde se diz que disse.
O assunto era incómodo para os poderes, porque colocava em crise aberta, o modo como muitos se alcandoram a esses poderes fácticos e de direito. E são aos milhares, em Portugal!
Mas havia factos. Muitos factos e sem possibilidade de contorno político. E os jornais, fatalmente pegaram neles. Hoje, até o 24 Horas dá destaque de primeira página ao assunto famoso ( e só por isso, claro, que as vendas contam para todos).
Os factos registados, apontavam para sérias dúvidas e interrogações de perplexidade, acerca da correcção de uma qualificação académica e profissional de um indivíduo que pertence à classe política, foi deputado, ajudante de ministro e é actualmente primeiro- ministro. As aparentes incorrecções de datas, números, afirmações, contradições escritas e documentalmente comprovadas, permitem a dúvida séria e consistente no sentido de o diploma de um indivíduo que é primeiro-ministro, poder ter sido obtido através de um eventual favorecimento pessoal, grave nesta circunstância particular. A dúvida foi considerada pelo próprio como "legítima", depois de numa primeira reacção publicada, ter sido considerada uma "calúnia".

Essa circunstância aventada a medo e a custo, foi considerada publicamente, até pelo circunspecto líder do BE, Louça, como o pecado mortal que nunca seria perdoado ao primeiro ministro, nem que fosse confessado.
Há por aqui, uma primeira fractura: uma parte dos políticos, aceita como inadmissível o favorecimento pessoal, na obtenção de um diploma, pelo actual primeiro ministro, mesmo quando ainda nem o pensava ser. Eticamente, há pelo menos esta definição assente.

Outra, que perpassa nas declarações públicas e parece pacífica, será obviamente a que contende com a prática de crimes de catálogo. A falsificação de documentos ou o uso dos mesmos, é naturalmente inadmissível e insuportável, se comprovada. O caso dos manuscritos de José Sócrates, nos boletins biográficos da Assembleia da República, onde perpassam eventuais indicações apócrifas, da autoria do próprio, sem que se conheçam os originais de onde partiram e a atitude manifestamente reservada do próprio presidente da AR, ontem, fazem prever um cenário inadmissível, mesmo para os padrões de laxismo e contemporização mais alargados, onde aliás, o local tem sido fértil ( basta lembrar o caso das viagens dos deputados e as faltas ao plenário com assinaturas presenciais de ausentes).

Temos por isso, outro padrão ético de desvalor evidente, neste caso, até com relevância jurídica, pacificamente aceite pela classe política em particular e cidadãos em geral.

Onde já se torna duvidosa a relevância ética, é na atenção da opinião político-mediática ao “uso social” e também pessoal, de um título profissional por quem nunca o teve nem podia ter. Este pecadilho, desvalorizado e glosado agora como costume social sem importância, distraído do facto incómodo de ser o próprio titular a contemporizar e assumir a sua prática, passa actualmente como a justificação cega para quem não quer olhar para os pecados graves indesculpáveis que podem ocultar-se e aos quais nega a possibilidade de investigação, por afastamento liminar.
É a poeira possível que tentam lançar para quem pode decidir o destino dos seus tachitos de interesses particulares e de grupo: o cidadão médio que se ouve em sondagem na rádio.
Esta atitude cívica, ética e moral diz muito de quem somos e da educação que cultivamos. Diz mais do que mil estudos sociológicos de Antónios Barretos e afins.

Por fim, como corolário de todos estes cenários de amostra dos nossos actuais valores éticos e políticos, apresenta-se um outro fenómeno antigo e de solidez comprovada nos círculos de poder de todas as latitudes e ideologias: o Interesse do Estado. A raison d´ état dos franceses.
Esta razão conhecida e aprovada por alguns, costuma servir para justificar encobrimentos de malfeitorias em nome de valores sólidos, como a estabilidade de um serviço, regime, poder ou para evitar males maiores para um povo, grupo ou interesse relevante. Representa muitas vezes o sacrifício de um valor nobre, para proteger outro de nobreza equivalente ou de significado mais alargado.
Em política, serve como justificação para variadas decisões. Há razões de Estado que evitam guerras e serão aceitáveis. Há razões de Estado que evitam males maiores para uma população e sê-lo-ão também. Há ainda razões de Estado que protegem segredos classificados como tal, e compreendem-se.

O que não se compreende nem aceita de todo em todo, é que se defendam razões do mesmo tipo, para obliterar valores com validade sólida, como a condenação pública e exemplar, da mentira rasteira, da aldrabice mais evidente e da trafulhice mais pegada, para não falar em manigâncias de ordem mais prosaica e que definem exactamente um carácter. Há quem tenha sido substituído num governo por...incompetência? Há?! Então...
Se tal encolher de ombros democrático, se fizer em nome de uma estabilidade de um governo cuja substituição acarreta despesas e resultados incertos para a politiquice e a desestabilização da vida pessoal de quem se acomodou, ainda se compreende menos, porque os valores sacrificados nem sequer se comparam. Nem sequer colhe o argumento da imagem pública internacional. Essa, já se estragou há muito e ainda se estraga mais. Imagine-se o que não se diz por essas chancelarias!
Trocar valores e princípios que deviam ser sólidos, por conveniências de circunstância, parece ser o nosso destino fatal, com estes políticos de pacotilha que andamos a escolher há trinta anos. Não dão exemplo algum de correcção democrática, quando tal se lhes exige, como agora; não cumprem os valores que dizem defender em certas alturas e estão sempre prontos para contemporizar e negar os mesmos valores quando as circunstâncias colocam em risco os lugares que ocupam e interesses particulares que defendem.
São, nesse aspecto, todos iguais e as pessoas em geral, já perceberam isso há muito tempo. Alguns não querem parecer, mas são-no. Outros, não o sendo, aparentam muito bem. Resta saber em nome exactamente de quê e de quem.

Publicado por josé 12:14:00  

13 Comments:

  1. Carlos Medina Ribeiro said...
    O PECADO ORIGINAL>

    Em relação a toda esta embrulhada, "compreendo bem" a reacção dos que, nervosos, dizem que «isso é coisa que não interessa nada». São, evidentemente (e além dos ignorantes), os que têm rabos-de-palha e os que eram capazes de fazer o mesmo - ou já o fizeram.

    Mas também compreendo os que assumem uma postura cínica e que comentam:

    «Que diabo! Estando em causa alguém que chegou a primeiro-ministro cavalgando uma grande mentira (a rábula os impostos), de que é que estavam à espera?!».
    Na verdade, o que não falta são ditados populares a dar-lhes razão...
    lusitânea said...
    O QUE ME PREOCUPA É QUE QUEM VAI ADMNINISTRAR A "ÚLTIMA" OPORTUNIDADE PARA PORTUGAL SAIR DO "BURACO" ONDE O METERAM NÃO OFERECE GARANTIAS DE IDONEIDADE, PELO QUE CONCORDO PLENAMENTE COM O QUE DISSE O MARQUES MENDES.E ASSIM SENDO NADA MAS NADA JUSTIFICA A PERMANÊNCIA DO PINTO DE SOUSA A ENVERGONHAR-NOS PELO MUNDO FORA.
    SEQUEM O PÂNTANO!
    ricardo batista said...
    Caro José,

    Como bem sabe, a nossa história política e a de outras bem mais conceituadas e antigas democracias, não é feita de anjinhos, estes, não moram na terra e muito menos na política.

    Quanto ao certificado entregue na CM de Covilhã, que tanto o incomóda:
    Que interesse teria o Sócrates em forjar a data, notas e cadeiras desse certificado se o mesmo foi entregue em 2000 e para o efeito tanto fazia a data da conclusão ser Setembro ou Agosto?

    Quanto às emendas no impresso para a biografia parlamentar:
    Que vantagem retirou Socrates daí?
    Será que ele se deu ao trabalho e ao risco de forjar documentos apenas para vaidosamente ser tratado como engenheiro?!
    E como ele diz, será que ele foi o primeiro e último engenheiro técnico a ser tratado por engenheiro?

    E quanto às facilidades que ele terá encontrado na UnI, terá sido, também, o primeiro e último?

    Onde é que está, então, a prova das suas aldrabices, trafulhices e falsificações que invoca?

    Por fim, porque é que o José defendeu tão cândida e ingénuamente o caso do envelope 9 como uma questão menor e que seria um simples "lapso de secretaria" e não faz o mesmo em relação a este caso? Sei que já utilizou este argumento ao contrário mas parece-me legítimo invertê-lo contra si.
    Carlos Medina Ribeiro said...
    Pergunta Ricardo Batista:

    E como ele diz, será que ele foi o primeiro e último engenheiro técnico a ser tratado por engenheiro?

    Como o sofisma não foi desmontado, na altura devida, pelos entrevistadores a quem ele o lançou, continua a fazer o seu curso.

    Aqui fica, no entanto, (um)a resposta:

    ________________

    O PRIMEIRO

    Já se previa que José Sócrates, na sua entrevista à RTP e à RDP, iria alegar que «não foi o primeiro, nem será certamente o último, a ser tratado por engenheiro indevidamente». Mas já não se compreende que essa meia-verdade continue a ser engolida, sem um reparo, por pessoas responsáveis, cultas e bem informadas - e explico porquê:

    Durante dezenas de anos, houve "agentes-técnicos" e "engenheiros" - a que correspondiam profissões, escolas e habilitações diferentes. No entanto, a seguir ao 25 de Abril, houve uma alteração de DESIGNAÇÃO, passando os primeiros a serem referidos por "engenheiros-técnicos", o que levou a que, por simplificação e em termos informais, alguns passassem a SER TRATADOS, por vezes, por "engenheiros".

    Até aqui, nada de grave; mas uma coisa é SER-SE TRATADO POR, e outra é DIZER-SE QUE SE É, não se sendo - e este foi o caso de José Sócrates.
    Conheço inúmeros engenheiros-técnicos, e sei que são poucos os que corrigem quando os tratam por "engenheiros". Contudo, nunca tinha ouvido falar de um único que escarrapachasse esse título no seu curriculum - nem sequer nos cartões-de-visita! Mas, como sucede com muitas coisas na vida, algum dia havia de aparecer o "primeiro"...
    josé said...
    "Onde é que está, então, a prova das suas aldrabices, trafulhices e falsificações que invoca?"

    A prova reside nos factos conhecidos. Um deles é a menção no decreto do PR que o nomeou para o governo. Aldrabice e trafulhice juntas numa só atitude.

    Falsificações? As do certificado da Covilhã, segundo afirmação produzida ontem pelo inefável Lúcio, um bom amigo do PS que agora se savrifica por mais esta causa, deixando a Meda entregue aos medronhos.Atenção, caro atento!
    Não disse aqui ou noutro lado que a falsificação é da autoria do beneficiário directo! Só digo que existe- e isso bastaria para haver mais vergonha do que a que há.

    Quanto ao assunto de fundo:

    Fico sempre esclarecido quando leio os seus argumentos nestas matérias. Então quer mesmo comparar os casos do envelope e este?

    Diga-me lá uma coisa, assim de repente: acha Souto Moura um aldrabão?
    Dito de outro modo:
    Quem é que lhe parece um aldrabão nestes dois casos?
    ricardo batista said...
    José,

    Reparo que não responde à minha pergunta sobre quais foram as vantagens que o Sócrates tirou dessas alegadas "falsificações"?

    A comparação com o envelope 9 foi o José quem a começou a fez primeiro só a inverti.

    Quem é que me parece um aldrabão nestes dois casos?
    Nenhum, quem não tiver telhados de vidro ...
    josé said...
    As vantagens para Sócrates?
    V. então não as vê...que se há-de fazer então, caro atento?

    Perguntar ao visado porque é que não ficou bacharel, com o cursito do ISEC? Ficar-lhe-ia mal apresentar-se como bacharel de ISEC?

    Olhe que com esta pessegada, fica bem pior: melhor ser bacharel digno do que licenciado assim.
    Carlos Medina Ribeiro said...
    Entretanto, Paulo Portas, na SIC-N, referiu-se (várias vezes e quase vincando...) ao Engenheiro Sócrates.

    Para ele (tal como para Duarte Lima, Jorge Coelho, Lúcio Pimentel, etc) o rigor a legalidade de pouco valem.
    zazie said...
    As pessoas normais reagem a esta vergonha. Todas. Toda a gente com quem tenho falado acha uma vergonha. Mesmo com menos informação do que nós.

    De resto, confirma-se o que sempre pensei- o problema da cidadania são os "engajamentos" ideológicos e políticos. Essa maltosa toda que anda para aí a aparar os golpes é tolinha xuxialista. Mais nada.

    Os restantos são são o bloco político com as barbas de molho.

    Fora isso não acredito num único que se diga independente e que transforme isto em cabala.
    É complexo esquerdalho. É veneração ao clube. São mais apanhados que os hooligans.

    Acho que não merecem respeito. Na prática estão a dizer que eram capazes da mesma poltranice.

    E é essa poltranice que defendem como boa amoralidade para a sociedade.

    Nunca me consegui entender com esse tipo de gente.

    É mesmo a mais fácil demarcação que posso traçar em relação a alguém.
    A menos que seja tolinho por natureza, claro está. Também há monguice natural.
    zazie said...
    Este comentário foi removido pelo autor.
    zazie said...
    gabo-lhes a pachorra em responderem ao "atento".

    Já não sou capaz. Não há mesmo pachorra. Alguém que saiba o que é estudar a sério, ter uma vida sem cunhas e ter por honra a verdade, só pode nutrir profundo desprezo por estes "paralamas"

    O que eu gramava era ver o Sócrates com este curriculo a procurar emprego num país civilizado. Palavra que gramava. É que não havia empresa que lho desse. Ficava logo queimado.

    Este é o tipo de questões que nada tem a ver com "debates de ideias" ou convicções diferentes mas respeitáveis.

    É apenas quem tem e quem não tem carácter.
    Carlos Medina Ribeiro said...
    Eu acabei o meu curso de engenharia no IST em 1970.
    Além dos 6 anos, tive de fazer 3 meses de estágio (em Agosto de 1968-69 e 70, em empresas - e, num caso, no estrangeiro), respectivos relatórios, etc, para poder inscrever-me na Ordem dos Engenheiros, ter direito ao uso do título e ao exercício da profissão.

    Mas a pouco e pouco, como se sabe, tudo foi "descaindo":

    Os anos de curso baixaram, em 1971 para 5 1/2, em 1972 foram reduzidos a 5, e os estágios foram abolidos.

    O resultado não se fez esperar:

    As empresas começaram a perguntar aos candidatos, além do nome do estabelecimento de ensino, O ANO DE FORMATURA. E os engenheiros mais antigos passaram a indicar esse dado nos cartões de visita...
    RB said...
    «gabo-lhes a pachorra em responderem ao "atento"»
    Zazie,

    O problema é que ninguém me respondeu ...

    Quais as vantagens que Sócrates colheu por causa da duplicação de registos biográficos na AR ...?
    E pelos alegadas "facilidades" na UnI?
    E pela existência de dois certificados de habilitações diferentes, um deles entregue na CM de Covilhã?

    Sempre "Atento",
    Ricardo Batista

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