Os parágrafos do engenheiro Sócrates

Tinha a certeza de que a engenharia não era o meu destino. É o mundo dos pormenores e eu tenho uma inteligência direccionada para o abstracto”José Sócrates, na revista Tabu.

O primeiro-ministro do Governo de Portugal, José Sócrates, referindo-se às notícias sobre o seu percurso académico, lamenta hoje, no Público que se dê espavento a “este tipo de insinuações” que “assume uma dimensão difamatória e caluniosa” e “são veiculadas pelos mesmos meios, sob o anonimato dos blogs ou por jornais de referência no sensacionalismo e no crime. E usam também o mesmo método, limitando-se a levantar suspeitas insidiosas com base em dados falsos”.

O Público, em nota editorial, escreve que não dá à estampa boatos, mas não deve ignorar que eles existem e que a melhor forma de acabar com eles é confirmá-los ou desmenti-los.

O percurso académico de José Sócrates, antes de ser primeiro-ministro, suscita ou não, dúvidas sérias quanto à sua correcção e verdade? Apontar essas dúvidas e questionar directamente o visado ( que exerce o mais alto cargo público, em Portugal, a seguir ao PR), sobre as mesmas, será logo difamação e calúnia?
O Público a escreve, preto no branco: “Há falhas no dossier da licenciatura de Sócrates na Universidade Independente”. Portanto, o que o primeiro-ministro escreve, tem de se contextualizar como um modo de atacar directamente e de modo soez, quem coloca em dúvida aquilo que merece dúvida e por isso faz perguntas. Um primeiro-ministro terá o direito de se eximir a esclarecimentos desse teor? Dito de outro modo, o cidadão comum, está inibido de fazer perguntas sobre o percurso académico de um primeiro-ministro, sob pena de o difamar?

O primeiro conhecido a levantar essas dúvidas e também a procurar esclarecê-las, junto das entidades que o poderiam ter feito, foi o autor do blog Do Portugal Profundo, António Balbino Caldeira, já em 2005.
Ninguém ligou publicamente ao assunto que entretanto passou o prazo de validade blogsoférica. A retoma do interesse, deu-se com a crise na Universidade Independente e com o perfil académico, encomiástico qb, entregue pelo reitor que afinal já não é mas pode voltar a ser, daquela universidade. Luís Arouca, no mínimo, levantou as suspeitas, ao referir a licenciatura do primeiro-ministro naquela universidade privada, com datas equívocas, e suscitou de novo a curiosidade, no perfil da revista Tabu, do semanário Sol.
Esse perfil, aliás, foi antecedido de intensa actividade de publicidade positiva sobre o primeiro-ministro, na imprensa escrita e na tv, o qual se desdobrou em declarações sobre a sua infência, o seu modo de pensar e até o seu modo de agir com primeiro-ministro. Tudo edulcorado com os mais finos encómios, panegíricos e laudações. Até Vasco Pulido Valente falou em "hagiografia" do primeiro-ministro.
Não deveria ser de estranhar, por isso mesmo, que venham agora a público os pormenores sobre a vida do primeiro ministro, embora do lado que menos lhe agrade. É compreensível mas quem se dá ao trabalho de mostrar a lua da sua vida particular, para óbvias vantagens pessoais, não pode estranhar que a curiosidade vá um pouco mais além do que o visado desejaria.

Assim,quanto às “difamações e calúnias” de que se queixa o primeiro-ministro, seria bom que tivesse um pouco mais de senso comum e se lembrasse dos panegíricos anteriores.

Como remédio para o culto da personalidade em vias de desenvolvimentom, seria bom que aproveitasse para ler alguns postais colocados no blog causa-nossa, da autoria de Vital Moreira, um indefectível do seu governo. Poderia ler, particularmente, um com o título de “diz que é uma espécie de universidade” e ainda outro, com um sumarento conteúdo a propósito da contratação de Santana Lopes, como professor doutor, com convite expresso à intervenção dos serviços inspectivos do Estado, aompanhado de uma ridicularização que José Sócrates nunca experimentou...
Para rematar o estado das insinuações e suspeitas, aliás, nada melhor que repescar um outro postal do mesmo Vital Moreira, sobre a dita universidade:
Por que é que certas universidades privadas procuram a colaboração de jornalistas, incluindo directores de jornais (mesmo fora das áreas de ensino de jornalismo e comunicação)?” E para reforçar o ambiente saudável dos boatos e afins:
Por que é que várias universidades privadas têm entre o seu corpo docente um número tão grande de deputados, ex-deputados e outras personalidades da esfera política? “, perguntava o núncio do governo, em 8.3.2007, sem se dar conta do tiro no pé...

As dúvidas agora amplificadas no artigo do Público, não se resumem, para quem quiser ler e tem acompanhado o assunto das universidades privadas, particularmente a Independente, a meras suspeitas, boatos, calúnias ou difamações. Concentram em si mesmas, todo um caldo de cultura devidamente denunciado por Vital Moreira, num artigo publicado no Público de 13 de Março de 2007.
Aí, de modo bem mais grave e sentido do que todos os artigos em blogs “anónimos”, apodados pelo primeiro-ministro de Portugal como difamadores e caluniadores, dá-se conta do descalabro do ensino superior privado, da sua génese inquinada e lançam-se objectivamente as mais graves suspeitas sobre o modo de funcionamento dessas universidades.
Sobre a U.Independente, conhecendo-se o que já se conhece, alguém duvida disso, ou continuará a achar que são tudo boatos, insinuações e calúnias?
O artigo do Público, aliás, permite só por si, deixar as maiores suspeitas sobre o modo como outros indivíduos aí tiraram as suas licenciaturas.
Em nome da verdade e da transparência, quem é que está disposto a fazer um inquérito, daqueles "rigorosos", sobre esses assuntos?
Quem fez um inquérito parlamentar sobre um assunto tão sério e retumbante como foi o do "envelope 9", deverá estar neste momento, já preparado para o próximo, sobre os cursos superiores na universidade independente. Aposto que teria todo o apoio de Vital Moreira.
Vamos a isso, senhor deputado Ricardo Rodrigues?! Não será mesmo assim, senhor deputado Fernando Rosas?
Ou será que o inquérito ainda acaba em cima dos blogs, seguindo a sugestão em tempos lançada, como quem não quer a coisa, pela senhora deputada Catarina?
Isto da democracia e da liberdade de expressão, é uma chatice, às vezes...

Publicado por josé 10:47:00  

4 Comments:

  1. kermit said...
    O que sucedeu hoje com este caso de José Sócrates é uso repetido nas nossas empresas. Hoje contrata-se, sem nenhum documento a certificar a habilitação. Não proteger a autenticidade das graduações, constitui mais um desfavor que o mudo do trabalho presta às Universidades. E se até um dos maiores representantes da nação, pode retirar vantagens dessa circunstância ( e não estou a dizer que o faça ), quantos não tirarão.
    zazie said...
    fónix! este foi xeque-mate e o Balbino bem se pode honrar da proeza
    o-espectro said...
    Fui colega de um ministro no liceu. Era antes do 25 de Abril. Eu e outros da minha geração "pusemo-lo", passe a expressão, a pensar e a viver à Esquerda, ele que vinha de uma família de direita-levemente-tecnocrática... Ora, como namorava com a filha da Comissária da Mocidade Portuguesa, ele tinha pouco geito para o Latim e o Alemao, a dita comissária ajudou o futuro genro a ter notas para ir para a Universidade,pelo processo de instanciar/ pressionar os colegas revisores das provas gerais do celebérrimo 7° Ano da altura... O caso Sócrates, se bem com prestação de provas e curriculum anterior, é a versão democrática deste. Tudo o mais não passa de pornografia política menor e ridícula: quantos doutores de aviário, sobretudo, não tomaram de assalto os partidos e acabaram por corromper a Democracia pluralista instaurada a 25 de Abril 1974? Niet
    josé said...
    É verdade, isso que diz, niet.
    Por isso, esta questão implica com coisas muito mais profundas na sociedade portuguesa.

    Implica por exemplo, com o conceito de elite e o que fizemos deles, durante estes últimos trinta anos.

    Quando vemos no poder, um indivíduo com o perfil que pudemos ler no Sol, poderemos sempre pensar: como é possível uma coisa destas, acontecer em Portugal?!

    COmo é possível estarmos a ser mandados por um indivíduo que nunca por nunca deveria ter passado da Câmara municipal da Covilhã, ou seja lá onde raio o tipo esteve?

    A culpa não é dele: é dos Vitorinos, dos Vitalinos e dos Vitais que o puseram lá. Porque não haja qualquer dúvida que foram eles que o puseram lá. A alternativa era precisamente o Vitorininho que não quis. O Lamego que também não quis e outros que nunca poderiam.

    A nossa miséria é mesmo miserável.
    Em França quem manda passou pela ENA. Aqui, para quem é bacalhau basta.

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