Os manetas da sarjeta

O pessoal da redacção nacional do Washington Post raramente cobre casos de polícia. Assim, a pedido de Sussman, tanto Bernstein como Woodward regressaram ao gabinete na manhã seguinte, um Domingo claro, 18 de Junho, para seguir a história.
Um assunto que passava no cabo da Associated Press tornou embaraçosamente clara a razão por que McCord merecia atenção suplementar.
De acordo com relatórios de despesa de campanha, arquivados pelo Governo, James McCord era o secretário-coordenador do Comité para a Reeleição do Presidente ( CRP).
Os dois repórteres fincaram-se no meio da sala da redacção e olharam um para o outro. Que raio achas que isto quer dizer? Perguntou Woodward. Bernstein não sabia.
Em Los Angeles, John Mitchell, antigo Procurador Geral, e gestor da campanha Presidencial, publicitou uma declaração: “A pessoa envolvida tem uma agência privada de segurança e foi empregada pelo nosso comité, há alguns meses, para ajudar na instalação do nosso sistema de segurança. Tem, tanto quanto sabemos, um número de clientes e interesses, que não são do nosso conhecimento. Queremos enfatizar que este indivíduo e outras pessoas envolvidas, não se encontravam a operar por nossa conta nem com o nosso consentimento. Não há lugar na nossa campanha ou procedimento eleitoral para este tipo de actividade, o que não permitiremos ou aprovaremos.”

(…)

Woodward teclou os primeiros três parágrafos de uma história identificando um dos assaltantes do Watergate como um coordenador de segurança, assalariado do comité para a reeleição do Presidente e entregou-a a um editor na secção de assuntos de cidade. No minuto a seguir, Woodward reparou que Bernstein estava a olhar por cima do ombro do editor. Então, Bernstein regressou à sua secretária com a primeira página da história; dali a pouco, teclava. Woodward acabou a segunda página e passou-a ao editor. Bernstein pegou logo nela e voltou para a máquina de escrever. Woddward decidiu ver o que se passava.
Bernstein estava a reescrever a história. Woodward leu a versão reescrita. Estava melhor.
Na manhã seguinte, no escritório, Woodward fez uma lista de títulos. Um dos vizinhos de McCord tinha dito que o vira com uniforme da Força Aérea e outro que McCord era tenente coronel na Reserva da Força Aérea. Meia dúzia de chamadas mais tarde, para o Pentágono, um oficial do pessoal dissera-lhe que James McCord era tenente coronel numa unidade de reserva especial baseada em Washington, ligada ao Office of Emergency Preparedness.”
Woodward deu conta do nome Hunt, que se tornou a prioridade a partir de segunda feira e deu atenção à lista de pertences apanhados aos assaltantes. Um cheque não endossado e dois bilhetinhos continham uma referência a “Dear Friend Mr. Howard” e outro a “Dear Mr. H.H.” e então ligou a alguém conhecido do governo, fonte de informação que lhe disse o caso ia aquecer, sem explicação suplementar.
Woodward ligou para a Casa Branca e perguntou pelo nome Howard Hunt. Disseram-lhe que costumava trabalhar com Charles Colson. Woodward então descobriu que Colson era conselheiro especial do Presidente e seu homem de mão e uns poucos telefonemas adiante, o próprio Hunt atendeu e respondeu a Woodward que lhe perguntou a razão do seu nome e telefone constar dos bilhetes apreendidos aos assaltantes. “Santo Deus!”, foi a resposta. E a seguir: Tendo em vista que o assunto está sob observação, não tenho mais comentários a fazer.” E desligou-lhe o telefone.
Woodward pensou que tinha caso para história. Contudo, o nome e telefone fosse de quem fosse podiam estar em qualquer agenda. O bilhete com a conta, podia ser informação mais relevante mas ainda assim, qual a relação?

Uma notícia alinhada com o título “ Consultor da Casa Branca ligado aos suspeitos das escutas”, poderia ser um erro de interpretação, injusto para Hunt.
Com mais dois ou três telefonemas, no entanto, Woodward descobriu que Hunt tinha trabalhado para a CIA . A informação primordial vinha directamente do filho de um senador republicano do Utah, agora presidente da firma de consultadoria e relações públicas, onde Hunt trabalhava como colaborador.
Mais uns tantos telefonemas, estabeleceram a certeza, mesmo em off-record que assim tinha sido.
Woodward titulou então: “Consultor da Casa Branca ligado aos suspeitos das escutas”
Nessa manhã, Ronald Ziegler, secretário de imprensa do Presidente, respondeu brevemente às questões sobre o assalto ao Watergate: “certos elementos podem tentar alargar isto para além do que que isto é” e descreveu o incidente como uma tentativa de assalto de terceira categoria.
No dia seguinte, o presidente do Partido Democrático, apresentou uma acção cível por danos, no valor de 1 milhão de dólares, contra o Comité para a Reeleição do Presidente.

Excerto, em tradução livre, do livro All the president´s men, de Bob Woodward e Carl Bernstein, de 1974.

Estes excertos do livro de dois jornalistas sobre o Watergate e aquilo a que o mesmo conduziu, têm como objectivo mostrar como se pode fazer jornalismo de investigação, partindo de factos aparentemente anódinos, mas explorados com perspicácia aplicada. Factos sem aparente relação, vêm a revelar-se cruciais para a compreensão dos acontecimentos. O faro dos jornalistas, aproveitando os meios usuais de investigação e alguns apoios institucionais e redactoriais, revelam um modo de fazer jornalismo que aparentemente não existe, enquanto tal, em Portugal. Porquê?

Talvez porque o país seja demasiado pequeno, os jornalistas demasiado ligados aos poderes e a dependência económica dos jornais, a grupos de interesses motivados, uma triste realidade.

O modo como o jornal Público pegou no assunto da licenciatura de Sócrates parece ser o melhor exemplo disse mesmo. A comparação com o caso Watergate, é por isso, apenas uma coincidência, para apontar o modo como se poderia fazer uma investigação que - tudo indica-, não se fará.

E porquê? Por não valer a pena? Pelos vistos vale e o próprio PSD já o disse. Por não se oferecer sequência narrativa, por falta de matéria noticiosa? Nem isso vale como desculpa. O caso em si mesmo, deveria valer como exemplo do que se passa no ensino superior universitário privado, com múltiplos casos, denunciados por alguns próximos do actual governo ( Vital Moreira por exemplo). Será exactamente por isso que a reportagem ficará em águas de bacalhau? Por haver muitos e muitos casos, no jornalismo e no poder político, de pessoas que aproveitaram o ensino particular universitário de modo muito duvidoso?

Enfim, cada vez mais se verifica que a liberdade passa mais por aqui, nos blogs, do que por ali, nos media tradicionais.

Segundo se noticia, porém, aproximam-se tempos mais escurecidos para a transparência dos poderes nas notícias: o ministro Santos Silva acabou de dar a entender, numa entrevista ao Correio da Manhã que há um jornalismo de sarjeta que é para reprimir e censurar. E ele é um dos que tem o livro do índex e o lápis azul...neste caso democráticos e por isso mesmo, legítimos.

Santos Silva prepara-se para mandar para o Maneta, em nome do tal "jornalismo de sarjeta", algo que o incomoda e ao poder que representa: a liberdade de expressão. Não aquela que conhecemos dos telejornais, mas outra que não existindo ainda plenamente, já ameaça os poderes constituidos: a que vem da rua e da voz do povo e começa a ter alguma expressão informal, em blogs e jornais que afoitam mais um pouco.

Aqui há uns meses, no firmamente político-mediático, uma certa Estrela, Serrano de apelido, formulava na tv, uma queixa semelhante em relação aos blogs anónimos que eram um horror em forma de rede, para o poderzinho que lhe convinha. No Parlamento, já houve rábula semelhante, protagonizado pelos mesmos. Uma certa Catarina, que o Alentejo não viu nascer, denunciou o anonimato abjecto de certos blogs e um PGR atento, respondeu-lhe que sim, que eram uma vergonha.

Objectivamente, todas essas manifestações têm um sentido: C-E-N-S-U-R-A.

Publicado por josé 19:19:00  

6 Comments:

  1. para mim said...
    (Suspiro) Francamente, já é altura de deixarem de apresentar o caso "Watergate" como um exemplo de jornalismo de investigação, quando até é precisamente o contrário! José, no sábado de manhã, quando Woodward recebeu o telefonema do seu chefe para que fosse a um tribunal ouvir o interrogatório de uns "canalizadores" que foram apanhados na sede do Partido Democrata, no edifício Watergate, será que ele sabia que os indivíduos iam admitir perante um juiz que trabalhavam para a CIA? A CIA ia deixar aquilo ir para a frente caso não estivesse empenhada num objectivo que era o de afastar Nixon da cadeira presidencial? Se tudo começou como um "fait-divers", também não é menos verdade que Woodward beneficiou do número dois do FBI junto da Casa Branca para ter pistas e seguir o trilho do dinheiro. Foi uma investigação jornalística devidamente autorizada. Aliás, não foi jornalismo de investigação, mas sim "jornalismo de instigação". Por cá, também é exactamente assim. Vão só até onde os deixam...
    o-espectro said...
    Meu caro José:O artigo do Max Frankel amplia a análise estrutural da narrativa do livro que cita. Woodward sai agora ileso mas,é apresentado como o " protector da Garganta Funda " e o supremo coleccionador das " caixas " capitais da macro esfera política da capital federal... Será que os petroleiros têm respeito por alguém ou alguma instituição?!? Estamos para ver...

    Tocante a defesa moral de Judith Miller, que esteve presa 85 dias por se recusar revelar as fontes.E singela e poética a defesa da liberdade total- que é impossível, claro- das relações de troca de Informaçao entre a classe política e a Jornalístagem... O problema, do meu ponto de vista, é que em Portugal, os verdadeiros jornalistas com faculdades são os poucos " opinion- makers " que circulam em circulo fechado entre a TV, os dois jornais de soi-disant referência e os semanários. Tudo o resto é " drama em gente " que a blogosfera veio pôr a descoberto, e ainda bem, não é? Niet
    josé said...
    Caro para mim:

    Quando Woodard foi à audiência preliminar, no Sábado de manhã, só ouviu dizer ao arguido que tinha sido agente da CIA. Esse facto, sendo substancialmente diferente, ainda assim permitiu levantar suspeitas sobre o envolvimento de alguém importante do governo.

    Reparou como Woodward contou o que se passou no tribunal? Já sabia o nome dos envolvidos. Podiam ser cubanos ou assim, e o interesse inicial partiu do facto de ser estranho o que aconteceu: o modo como vestiam; o modo como foram apanhados; o que tinham com eles e principalmente o facto de terem material de escuta e estarem no edifício dos Democratas.
    O faro de Woodward espicaçou quando ouviu o juiz perguntar ao suspeito o que fazia, e ele admitir apenas depois de duas perguntas. Sabe que num tribunal americano não se poderia omitir esses dados pessoais?


    A verdadeira investigação é apresentada no livro em algumas páginas iniciais e para mim, são muito relevantes daquilo que um jornalista pode fazer.

    COm os elementos de facto que obtiveram, a partir do relatório digtado do repórter-polícia que estava na esquadra, esquadrinharam esses factos.
    Pegaram nos bilhetinhos, nas notas nos nomes e nas relações e telefonaram a várias pessoas, incluindo informadores do jornal.

    A pessoa de Mark- deep throat- Felt, só aparece quando o combóio da reportagem já ia em andamento e serve essencialmente para confirmar factos que Nixon e ajudantes, procuravam esconder.

    O trabalho de sapa inicial, foi todo da responsabilidade do jornalismo de investigação que eu aprecio: tomar os factos e avaliar o seu peso relativo.

    Tal como agora no caso da UIndependente poderia ser, se os jornalistas quisessem.
    josé said...
    De resto, a sua interpretação parte do pressuposto que Woodward já sabia que o Howard Hunt era da CIA?

    E quanto a Gordon Liddy que me diz?

    Aqui há uns anos deu uma entrevista à Playboy. Fantástica. Tenho para aí.

    Gordon Liddy é um duro.

    O interesse do caso Watergate para mim, é o jogo do rato e do gato, entre os apoiantes de Nixon e os jornalistas.

    Ver algo mais que isto, pode ter algum sentido, mas é puxar demais o sentido das coisas e ver mosquitos por cordas, no meu modesto entender.
    josé said...
    O livro de Woodward e Bernstein, além disso, lê-se como um thriller, com a vantagem de as pesonagens serem reais.

    Não me lembro de caso semelhante nos últimos anos, seja na América seja algures.

    Para além disso, o caso Watergate, como então foi muito bem apontado até pelo Balsemão da altura( nada a ver com o de agora), foi um marco na liberdade de imprensa, discutida nos tribunais americanos por causa do direito de se publicar o que Nixon tinha gravado.
    Tal como algum tempo antes se tinha discutido o caso dos papéis do Pentágono, tendo como protagonista ainda o Washington Post.
    para mim said...
    Caro José,
    Compreendo a sua emoção quando fala de "Watergate", pois pertence à geração que viveu em força, e a cores, os acontecimentos (a par do nosso 25 de Abril). Foi também a última vez que se ouviu falar de jornalismo de investigação. Acho que, para mim que tanto faz, naquela altura foi tudo permitido e deixaram os jornalistas fazer o seu trabalho. Não é preciso ser-se um supra-sumo da profissão ou endeusar Woodward ou Bernstein e os seus chefes nas conclusões. Houve ali cumplicidade interna da Casa Branca, pois o objectivo do sistema era derrubar o Presidente (vide Nixon de Oliver Stone). Até o caso Baía dos Porcos estava lá, nas cassetes apagadas... O que me chateia é estarmos ainda agarrados a esse facto e esquecermos hoje que Gerald Ford chegou à Casa Branca graças a essa demissão (sem nunca ter sido eleito e já sucedendo ao vice-presidente Agnew). E foi Ford quem nomeou Bush pai para chefe da CIA - que estranho agradecimento havia ali? Depois Carter ganhou as eleições em 1976 e despediu Bush, mas foi derrotado, em 1980, por Reagan e... Bush (pai do actual presidente). E com Camarate pelo meio... Caramba, José, ainda queres jornalistas livres a dizer isto?!?!?! Caladinhos é como eles devem andar, pois fazer jornalismo e dar grandes notícias é fácil para qualquer um hoje em dia, por isso é que não os deixam trabalhar normalmente.

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