A cocaína invadiu o mundo

Pablo Escobar Gaviria foi um dos maiores traficantes de cocaína, até 1993, ano da sua morte às mãos da polícia colombiana.
Pablo Escobar foi o capo do cartel de Medellin, Colombia, durante mais de dez anos, praticamente todos os oitenta, altura em que se desencadeou uma guerrilha entre traficantes e polícia, com participação da DEA ( polícia anti-droga) americana e ao abrigo de acordos de cooperação que abrangiam a medida mais temida por todos os traficantes notórios: a extradição para os Estados Unidos e a prisão por longos, longos anos, tal como aconteceu a Carlos Lehder.
No início dos oitenta, Pablo Escobar chegou a ser deputado e a visitar Espanha nessa qualidade. Depois de ser expulso da política, iniciou uma guerra contra os políticos que o perseguiam, por influência dos americanos, nesse tempo .
O cartel de Medellín, nos anos oitenta, por causa do conflito com o poder político e o receio de ser aprovada a lei de extradição, mandou assassinar centenas de pessoas, entre políticos, polícias e magistrados e a guerra aberta com o governo durou anos a fio.
Nessa guerra da droga, de finais dos oitenta e início dos noventa, com o apoio expresso dos americanos, que começaram por perseguir e prender Noriega, no Panama, Escobar acabou também por perecer, tal como os restantes capos, com destaque para Gonzalo Rodrigues Gacha, El mexicano que fez da sua luta pessoal contra o chefe da polícia Maza Marquez, uma questão de vida ou de morte- e que perdeu. Foi abatido, com o seu filho e mais cinco guarda-costas, em 15.12.1989, como se abatem animais em fuga: em campo aberto e com disparos vindos de um helicóptero da polícia. No dia anterior, Gacha El mexicano, tinha enviado um camião cheio de explosivos, para a frente da casa de Mazza
Escobar, fugira da prisão, em 1993, depois de em Junho de 1991 se ter entregue às autoridades colombianas, ter ficado preso e mesmo daí, ter continuado a dirigir o negócio do tráfico de cocaína. Em 2.12.1993, foi por sua vez abatido a tiro pela polícia colombiana.

Enquanto preso, Escobar dera uma entrevista em Julho de 1991, à revista francesa L´Évenement de Jeudi. Nessa entrevista, perguntado sobre a quantidade de droga exportada para os Estados Unidos, Europa e Japão, profetizara: “ a cocaína vai invadir o mundo”!
Em 1989, o preço da cocaína, em Nova Iorque, custava cerca entre 8 e 12 mil dólares o quilo.
Em 1980, o mesmo quilo custava seis vezes mais.
Depois da guerra da droga que aparentemente acabou com a morte de Gacha e Escobar, poderia pensar-se que a profecia de Escobar não teria cabimento. Ninguém mais apresentou o problema da droga nos termos em que o tinha sido no final dos anos oitenta em que todos os media internacionais se lhe referiam como um “flagelo” a precisar de remédio urgente. Vejamos então o que poderá ter sucedido.
Notícias recentes, dão conta de que o grama da cocaína, aqui na vizinha Espanha, custa actualmente qualquer coisa como 15 euros. Quase de borla. No Diário de Notícias de 26.12.2006, dá-se conta que em Espanha, nove em cada dez notas de euro, contém resíduos de cocaína e na Alemanha, outro estudo idêntico tinha já mostrado resultados similares, uns meses antes.
Segundo um relatório da Agência da União Europeia de Informação sobre a Droga, os números não deixam enganar:
O UNODC estima que, em 2004, a produção mundial de cocaína aumentou para cerca de 687 toneladas, sendo a Colômbia (56%), o Peru (28%) e a Bolívia (16%) os principais países fornecedores. A maior parte da cocaína apreendida na Europa entra no continente vinda da América do Sul, ou através de países da América Central ou das Caraíbas, embora os países africanos estejam a ser cada vez mais utilizados como rotas de trânsito alternativas.
Dados preliminares indicam que em 2004 foram apreendidas cerca de 74 toneladas de cocaína na Europa, a maior parte em países ocidentais. A Península Ibérica continua a ser uma importante porta de entrada para a cocaína, tendo mais de metade dessas 74 toneladas sido apreendida em Espanha ou Portugal. Em 2004, a Espanha foi responsável por cerca de metade do número total de apreensões e também, por grande diferença, pelos maiores volumes de droga apreendida (33 135 kg). Entretanto, a quantidade de cocaína apreendida em Portugal aumentou para mais do dobro entre 2003 e 2004 (de 3 017kg para 7 423 kg). Entre 2003 e 2004, o número estimado de apreensões aumentou 36% na Europa, para 60 890, mas o volume de droga apreendida baixou 20%, uma redução que poderá explicar-se pela excepcional quantidade apreendida em 2003. É, no entanto, provável que a tendência global a longo prazo se mantenha crescente.
O OEDT calcula que cerca de 10 milhões de europeus (mais de 3% dos adultos com idades compreendidas entre 15 e 64 anos) já consumiram cocaína, sendo provável que aproximadamente 3,5 milhões a tenham consumido no último ano (1%). Este valor é historicamente elevado pelos padrões europeus, mas mesmo assim é consideravelmente inferior à estimativa dos EUA de que 14% da população já experimentou essa droga. Cerca de 1,5 milhões de europeus (0,5% dos adultos) dizem ter consumido cocaína no último mês. O consumo está concentrado nos jovens adultos (15 – 34 anos), maioritariamente do sexo masculino e residentes em zonas urbanas.
Em valores absolutos, a cocaína já ocupa o segundo lugar como droga ilícita mais consumida na Europa, a seguir à cannabis e ligeiramente acima das anfetaminas e do ecstasy.

Escobar acertou. A cocaína, invadiu mesmo o mundo ocidental. Acabou o flagelo e a guerra da droga. Resta saber quem são os seus herdeiros, legatários e principalmente os seus émulos no negócio clandestino. Mais pacíficos, continuam no activo e em bom ritmo. Sobre isto pouco ou nada se sabe, depois das guerras da droga dos anos oitenta. E no entanto, a produção aumentou e o consumo é o que se pode ler.

Publicado por josé 19:38:00  

5 Comments:

  1. Anónimo said...
    A destruição do cartel de Medellin não foi obra de uma aliança entre a policia colombiana e o Cartel de Cali (Este dominado pelos colarinhos brancos e não por bigodaças de T-Shirt)?
    André said...
    Belo post, José.

    Este é um daqueles seus textos para imprimir e guardar.
    lusitânea said...
    Toneladas entram em Portugal, actualmente o elo fraco da cadeia na Europa
    Convinha apolicia meter num computador os visitantes frequentes da américa latina e ver do que vivem...
    josé said...
    Caro Luís Bonifácio:

    Para escreve este pequeno texto, socorri-me essencialmente de leituras de revistas e jornais antigos e da época: 1985 a 1993 que guardo, porque me interessei por isso quando as coisas sucediam a um ritmo alucinante e a "guerra à droga" era o assunto do momento.
    Todos os jornais e revistas mundiais lhe deram atenção.
    O jornal Libération, francês, em 1989, 90 e 91 nunca largou o assunto e fazia capas e editoriais com o mesmo. Idem para a Time, a própria Economist e a espanhola Cambio16 que mencionava expressamente as ligações dos colombianos aos traficante de tabaco galegos, reconvertidos já ao tráfico de cocaína.
    Toda essa documentação que guardo, é extensa e permite-me pensar que o problema não poderá colocar-se em termos simplistas de guerra entre os cartéis de Cali e Medellin.
    Aliás, os capos de Cali também foram presos: os irmãos Rodrigues Orejuela estão de cana, tal como os Fabio Ochoa, com ligações a Espanha ( e Portugal, já agora).

    O que aconteceu , na minha óptica interpretativa e que não desenvolvi para não estender o postal, foi uma combinação de interesses entre os Estados Unidos e a Colômbia, em resultado de políticas concretas para estancar o tráfico para os USA e para pôr um freio à guerrilha extremista que nessa altura assolava os países como a Colômbia ( as FARC e o M-19).
    Os traficantes, com destaque para Escobar, aliaram-se aos guerrilheiros que chegaram a financiar para politicamente desestabilisarem o governo da Colômbia , obrigando-o a não aprovar as leis de extradição e talvez até mesmos tentarem instaurar um estado narcotraficante, ou pelo menos controlado por narcotraficantes.

    A guerra da droga começou algures em meados dos oitenta, com essa reacção dos naocos ao poder político e chegou ao assassinato de um candidato à presidência, Galán, depois do assassinato de vários chefes de polícia.
    Houve um que resistiu a tudo: Mazza Marquez, o carrasco de Gacha, El mexicano. Vale a pena ler a história da luta pessoal entre estes dois que dava um filme de acção e suspense.
    Tenho uma revista francesa que noticiou detalhadamente a morte de Gacha e que impressiona pela crueldade: foi abatido a tiro de um heli, enquanto fugia pelos descampado da sua fazenda com o filho e cinco guarda costas.

    A saga da guerra da coca só tem paralelo ( e muitas semelhanças, aliás) com a guerra à Mafia da Sicíla, nos anos 90. Assunto que também acompanhei dia a dia...e do qual guardo toda a documentação que um dia publico,se estiver para aí virado. Já estive para o fazer aquando da prisão de Provenzano, há uns meses. Aguardo pelo julgamento do capo di tutti capi...

    Ah! A net tem muita informação preciosa, mas quanto a este assunto, continuo a preferir as minhas fontes particulares.E não consultei mais do que isso para escrever o texto.

    Mesmo assim,pode sempre tentar-se uma visita ao Google. Numa delas, reparei que há um video de Pablo Escobar, recente, a ser exumado, com a apresentação dos seus restos mortais...
    Anónimo said...
    e eu sou da terra que bateu o record da europa de apreensão de haxixe... 3 toneladas...
    já que somos os piores em tudo, sejamos os piores mas em grande!!!

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