Esta, é de Graça.

Tirada deste Dragoscópio excelentíssimo, aqui fica uma glosa bem estugada a uma prosa croniqueira de Vasco Graça Moura, (um dos favoritos aqui da Loja) no DN de ontem e que assim preambulava:

"A escola que temos não exige a muitos jovens qualquer aproveitamento útil ou qualquer respeito da disciplina. Passa o tempo a pôr-lhes pó de talco e a mudar-lhes as fraldas até aos 17 anos.
Entretanto mostra-lhes com toda a solicitude que eles não precisam de aprender nada, enquanto a televisão e outros entretenimentos tratam de submetê-los a um processo contínuo de imbecilização. "


Tal como bem refere o escritor em pseudónimo de mito, Vasco tem graça, mas falta-lhe memória e alguma vergonha.
Por isso, é sempre bom lembrar os...

"Os Avatares do Escritor
Vasco Graça Moura, o escritor - não confundir com o político (são e não são -neste caso, não - a mesma pessoa)-, escreve um certo número de
verdades eloquentes no DN de ontem. São evidências mais que óbvias, que resplandecem, que bradam aos céus, que se têm vindo paulatinamente a acumular e a fermentar numa espécie de monturo regimental, mas que, todavia, não parecem perturbar seriamente ninguém. Mesmo o escritor Graça Moura, do alto da sua condolência retórica, é só às quartas-feiras que padece destas inquietações. No remanescente calendário, sobretudo quando o partido de que é luminária excelentíssima pasta no erário público, o escritor Graça Moura cede diligentemente o púlpito ao deputado Graça Moura, ao Comendador Graça Moura, ao Comissário Político Graça Moura, em suma: a toda uma vasta catrefa de avatares vorazes, todos eles demasiado catrafilados aos úberes do Orçamento para terem tempo a esbanjar com tão improfícuas lana-caprinices. Na verdade, mal a maré muda, o vate pio desce exausto do púlpito e adeja a refocilar, com volúpia, no bordel. Ora, a maré, abençoadinha, Deus lha guarde por muitos e bons anos, tem mudado sistematicamente, com regularidade providencial e cadência de alterne. Não espanta pois que, em perfeita sincronia, logo que a ressaca cede lugar à cornucópia, o campeão das virtudes se outorgue indulgências sabáticas e corra a retemperar-se, jubiloso, entre as rameiras.Mas como agora estamos num daqueles interstícios severos por onde o fariseu, ocasionalmente, espreita e salmodia, não duvidemos: é o escritor. Quiçá mortificado ou descompensado por alguma síndrome de privação, dá gosto vê-lo a verberar contra o petisco, a denegrir no refogado, a escarnecer do pitéu. Quando não está ocupada com a mama, foge-lhe a boca para a verdade. Não obstante, nos trinta anos em que andaram a confeccioná-la, à monumental mixórdia, a maior parte do tempo, ele, o mija-versos, o besunta-formas, passou-o nas cozinhas. Desde o PREC que lá anda: ora de roda do Chef, a acolitar ao forno, ora de faxina ao lava-loiça, a resmungar e a branquear os tachos.De secretário de Estado no lendário Gonçalvismo do IV Governo Provisório a Comissário Político no não menos épico Cavaquistão, [ foi secretário de estado da Segurança Social do IV Governo Provisório e secretário de Estado dos Retornados do VI Governo Provisório. Foi nomeado director de programas da RTP, em 1978, e nesse mesmo ano passou à Imprensa Nacional-Casa da Moeda, cuja área editorial administrou até 1988. Entre 1988 e 1995 foi presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e deputa no Parlamento Europeu, que é uma mama segundo o ex-colega Rosado Fernandes- nota do postador.] foi vê-lo sempre a aviar-se, numa azáfama de videirinho a reboque duma pança insaciável de comensal.
Responsabilidades? Vão pedi-las ao Camões!... Porque neste país, responsabilidade, vergonha, memória, tal qual como o reconhecimento, são geralmente a título póstumo."

( Esta prosa em itálico, é da autoria de Dragão, aqui no blog Dragoscópio)

Publicado por josé 15:01:00  

21 Comments:

  1. Anónimo said...
    José
    Bonito e com estilo.A culpa ou morre solteira ou é do cabo quarteleiro (neste caso dos professores), já que as alegorias á extinta tropa se fizeram notar.Garanto que hoje já não existem "monturos regimentais".Tropa profissional é outra coisa...
    De facto a cornocópia está sempre cheia para os mesmos...que padecem duma confrangedora falta de memória...
    Inês said...
    Ó José, aceite um conselho de amigo e vá ao médico...

    A sua bílis já não corre apenas em Abruptas enxurradas ou na escorrência corporativa judiciária! Não lhe terão rebentado os diques figadais?

    É que já nunca vi tamanha inundação de veneno de lacrau, pelo menos vindo de si...
    sniper said...
    Para o Vasco Graça Moura ainda há memória, mas para si Dragão, nunca haverá. Aquilo que escreve é tão mau, tão redutor, tão imbecil e vulgar, que acho espantoso como é tem espaço GLQL. Com a Eremitocracia, você pratica a Estúpidocracia, com ares de Grande Educador de não sei o quê. Já esperimentou lavar a cara? Um bom banho ajuda muito.
    Anónimo said...
    Farpa mordaz, em grande estilo!
    Gostei.
    lana said...
    "glosa bem estugada a uma prosa croniqueira de Vasco Graça Moura [...]que preambulava"
    Caro José, tem por hábito empregar estes termos no seu dia-a-dia, ou quando escreve é possuido por um dicionário antigo.
    zazie said...
    sniper:

    O Dragoscópio é pura e simplesmente o melhor blogue português. E o Dragão está de tal modo acima da mediocridade geral que não o entender só prova que o que acabo de dizer está certo.

    Podiam acabar todos os blogues e ficarem meia dúzia de pessoas que se contam pelos dedos da mão que só por elas isto ainda valia a pena.
    Escusado será dizer que entra elas incluo o José e o Dragão.
    Os outros são fáceis de depreender para quem conhece o Cocanha.

    O Dragão é genial! ironia e loucura mansa como a dele são casos raríssimos de se encontrar. E um privilégio neste caso, por o termos à borla.

    Pense nisso. Se não entender também não há crise. Nem tudo tem de ser entendido por todos.
    lana said...
    Olha outro a falar do alto da burra...
    zazie said...
    o Dragão não tem leitores, tem meia dúzia de fans. Alguns deles que nem têm blogues ou fazem parte deste meio mas são capazes de ligar a net para o ler.


    Por acaso esta tarde estava a postar um texto para testar este facto. Até estive ao telefone com uns amigos a falar precisamente disto.
    Dizia eu que desconfiava que ninguém desse pelo texto nem se apercebesse da loucura da ironia.

    E até agora, aqui da blogosfera conhecida, ainda ninguém deu
    zazie said...
    e desculpe o tom um tanto soberbo mas era impossível ler o que escreveu do Dragão e ficar-me.

    Totalmente impossível.
    sniper said...
    Cara Zazie,

    Bom dia. Nunca lhe tinha manifestado o que lhe vou agora dizer, mas como o povo diz, "mais vale tarde do que nunca". Conhecia, (se não é do sexo feminino, peço-lhe desculpa, mas no meu"imaginário" é), nos tempos "loucos" do O Espectro, e formei de si uma opinião que verifiquei posteriormente aqui na GLQL, estar errado. Achava-a soberba, arrogante, e a roçar o mal criado, apesar de também ver e sentir que é uma pessoa inteligente. Desde que sou mais assíduo neste blog, verifiquei que aquilo que para mim eram defeitos, em si poderia considerar como qualidades, porque na GLQL a Zazie, "desbobinou" muito mais de si, do que no tempo do O Espectro. Em suma, comecei a lê-la com outros olhos. Não estou arrenpendido, e ainda bem.
    A Zazie á uns tempos atrás recomendou-me a leitura de um post do Dragão, no "Dragoscópio", e eu com fui ver o blog, ler o post e óbviamente avaliar o blogger. Fiquei horrorizado. Este dragão faz-me lembrar alguns amigos do meu grupo, dos finais dos anos loucos de 60, pricípios de 70, fumarem uns charros mais ou menos "condimentados", ( a música que o José e gostamos, para nós sabia melhor assim, ah, ah,...), mas que decidiram tomar umas coisas mais fortes de uma forma regular, com o LSD, etc. Cara Zazie, esses meus amigos começaram a voar tão alto, que alguns nunca mais regressaram, apesar de alguns deles serem hoje pessoas muito conceituadas na nossa praça, mas para quem os conheça muito bem, "muito deles" ainda está lá em cima, com "regressos ou despertares totais" muito rápidos e fugazes. O Dragão em todo o seu seu esplendor, está por exemplo no post que ele escreveu, essa pérola a que chamou "Senhora Dragão dixit", sobre a sua distinta esposa. Recomendo vivamente a sua leitura. Zazie, este gajo não tarda nada, está a escrever sobre visões do Além que teve ou vai ter....Para além de pretensões a ser o Grande Educador da Treta, o cognome do " O Escolhido" está quase a rebentar....
    sniper said...
    Cara Zazie,

    Para terminar e como é óbvio,respeito a 100% a sua opinião, mas francamente e para além de tudo o que escrevi sobre o Dragão, ele até na componente estética é um desastre absoluto.
    zazie said...
    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
    zazie said...
    (saiu um frase intercalada)

    bem sniper,

    eu vou passar em frente deste seu comentário e não é por mais nada. Apenas para não furar mais uma vez a regra que vai para 4 anos ando a tentar impor a mim mesma na blogosfera: nunca pessoalizar nada.

    Mesmo que no caso até sejam palavras atenciosas.

    Não é por isso. Vou tentar fazer-me entender desta vez:

    sniper- o que pode estar em causa no que se escreve aqui nos blogues são as ideias ou o talento ou o humor das pessoas, mas nunca as pessoas em si mesmo.

    Eu não sou tema de debate. Não há interesse público algum em saber-se se a zazie é bem ou mal educada, tem nível ou não tem nível. Isso pode ser curiosidade ou até cusquice (em casos mais graves é sempre isto) que admito que o mundo virtual incentive mas que não me entusiasma absoltuamente nada.

    Não sei quem é o Dragão. Nunca me interessei por querer saber nome próprio, morada, idade, aspecto físico ou profissão mas ainda assim, para além de admirar o seu pensamento e o talento da escrita, já passou a um nível um tanto estranho que anda bem perto da amizade (se não é mesmo amizade).

    E isto acontece sem precisar de cuscar absolutamente nada e sem nunca o transformar em personagem de debate ou tentar dissecar e catalogar seja no que for.

    Por isso, quando houver ideias em causa posso pronunciar-me. Quando apenas estiver a figura por trás delas, passo.
    O resto, como disse, são gostos e aí também os respeito. Ainda que possa dizer que, precisamente pelo facto de serem gostos, não concorde nem entenda.

    Mas por favor, esqueça a imagem da zazie que era assim no Espectro e agora é assado na GL. Não interessa para nada a não ser para meia dúzia de pessoas das minhas relações. A única personagem de romance que pode interessar é da nick do Queneau.

    Eu não sou literatura.
    zazie said...
    So uma nota-

    Quando disse que o Dragoscópio era o melhor blogue português não o fiz por questão de "amizade virtual".

    É mesmo uma apreciação que pretendo que seja isenta.

    Que para além disso haja empatia no pensamento ou na fúria iconoclasta, é outra coisa.

    Pode contribuir para aumentar a admiração mas não substitui o apreço na riqueza literária e no dom com que brinca com as palavras.

    Ele sabe pensar e sabe escrever e isso é coisa que não se pode dizer da maioria das pessoas que andam na blogosfera, nas quais me incluo.
    sniper said...
    Cara Zazie, entendido a 100%. Obrigado. Até sempre.
    J.M.P.O said...
    Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
    J.M.P.O said...
    Realmente é enGraçado o farisaísmo de alguns intelectuais que, como dizia o bom do Manuel Maria "recitam versos entre o Marrare e o Nicola".
    timshel said...
    venho aqui só para confirmar subscrever

    o dragão é (a par do desfazedor de rebanhos) o melhor blogue português

    tenho poucas certezas na vida (felizmente) mas esta é uma delas
    Irmão Obervador said...
    Reavivando a memória.

    1 - Há umas 2 décadas atrás, as estatísticas de aproveitamento escolar portuguesas estavam pelas ruas da amargura,

    2 - a seguir um ou uma economista reparou que tanto custava ao estado um aluno que passou para o ano seguinte, como os que ficavam a repetir o ano;

    3 - mas se passassem as estatísticas melhoravam, e "ficávamos melhor" no ranking europeu;

    4 - e não foram de modas proibiram o chumbo, e se alguém chumbava a culpa era do professor que não motivou o aluno;

    5 - isto funciona bem, excepto quando se fazem inquéritos ao nível europeu, onde a verdade vem ao de cima ...

    Alguém pode explicar isso ao tio Graça?
    MP-S said...
    Eu nao sei se o Dragao e' mesmo o pior blogue nacional e o melhor do Universo... mas e' o que me da' mais gozo ler!! E' o unico blogue com a capacidade de me fazer rir sozinho no meio da rua quando, por vezes, me recordo de certo postais...
    josé said...
    Acho que já lá escrevi, no tempo em que se podia comentar à discrição, o que achava do blog e do seu animador.
    Será sem dúvida o melhor blog...para quem o achar. Mas com essas taxionomias do melhor e do pior, ficamos a perder de vista a essência da bloguística.

    Os blogs em geral, são meios limitados de comunicação. Não são lugares de ensaio, pelo menos, conforme os concebo.
    São, assim definindo sem definir, regiões de caleidoscopias em modo de opinião, informação dispersa ou comentário avulso; ou então caleidoscópios de obsessões, em que a temática se repete, cansando leitores.

    O Dragão, traz para um lugar selecto, uma série de termos, frases e ideias incomuns, algumas delas.
    Só por isso, vale a leitura.
    Como bónus, temos uma escrita execelentíssima e é nesta forma de escrita que me rebolo de divertimento.
    Tal como o comentador que antecede, frequentemente me rio sózinho de algumas coisas que por aí li.

    O divertimento maior que resulta de um blog, deve ser para quem o faz. Se isso se transmite a outros que lêem, tanto melhor. Se não, tanto pior.
    Logo, um bom blog, para mim, é aquele que revela uma idiossincrasia interessante e que se destaque da vulgaridade.

    É por isso que alguns blogs muito conhecidos, para mim, valem muito pouco, porque resvalam para a ideia mal feita; as informações muitas vezes erradas ou enviezadas e o lugar comum da vulgaridade maioritária, sob a aparência de militância politizada, com a desvantagem de se conhecer já de ginjeira a ideia dominante.

    Ecco!

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