Da documentação que faz parte do espólio do Museu da Presidência da República em exposição na Câmara Municipal do Porto está uma carta que Álvaro Cunhal, em 14 de Julho de 1976, dirigiu ao eleito Presidente da República, Ramalho Eanes. Trata-se de uma carta dactilografada em papel timbrado do PCP e com a assinatura do próprio.

Eis o seu teor:

Ex.mo Senhor
Presidente da República
General Ramalho Eanes


Para além dos cumprimentos protocolares, desejo-lhe sinceramente felicidades e bom êxito no cumprimento do seu difícil mandato.


Álvaro Cunhal

O que aqui não consigo reproduzir, mas que me chamou a atenção na exposição, é um sublinhado com marcador vermelho que alguém colocou sob o nome “Álvaro Cunhal” batido à máquina. Não faço a menor ideia o porquê do destaque ao remetente da carta, em todas as outras da mesma altura que também são exibidas este não consta, pelo que não deveria ser este um hábito de secretária.

Do que eu não tenho grandes dúvidas é que, naquele dia, esta foi a carta mais lida, relida e interpretada no Palácio de Belém.

Publicado por contra-baixo 15:59:00  

7 Comments:

  1. O-Naufrago said...
    De amanhã a um mês e trinta anos depois....

    Ex.mo Senhor
    Presidente da República
    Prof. Anibal Cavaco Silva


    Para além dos cumprimentos protocolares, desejo-lhe sinceramente felicidades e bom êxito no cumprimento da sua impossível cooperação extratégica.

    NB: Essa de se juntar à lavoura para dizer mal do meu ministro...

    José Pinto de Sousa
    rb said...
    E ainda por cima sublinhado a vermelho ...
    sniper said...
    No dia em que o General Ramalho Eanes tomou posse, foi o dia em que o Dr. Álvaro Cunhal realizou na pleinitude, que para existir como líder político em Portugal, tinha que aceitar, ( ou fingir muito bem que aceitava ), as regras do jogo democrático. O fim do inarrável camarada Vasco, e a célebre ajuda do Coronel Melo Antunes logo após o 25 de Novembro, afirmando que o PCP era indespensável à construção da democracia e o socialismo em Portugal, deram ao Dr. Álvaro Cunhal um novo folgo. Quem teve realmente uma difícil tarefa foi o Dr. Álvaro Cunhal, que a partir desse dia foi só somar derrotas tanto ao nível nacional como internacional. Como nunca escondi o minha profunda discordância com o Dr. Álvaro Cunhal, não será hoje que direi o penso sobre essa carta; tresanda a cínismo e hipócrisia. Carta lida, relida, etc, não foi de certeza. O Dr. Álvaro Cunhal tinha um valor facial por demais conhecido. Ele fazia gala em não esconder. Um provocador em terra de frouxos.
    maloud said...
    Mas a responsabilidade da "terra de frouxos" não lhe pode ser imputada, pois não, Sniper?
    sniper said...
    Minha cara Maria de Lurdes,

    De forma nenhuma. O Dr. Álvaro Cunhal dessa "acusação" é totalmente inocente. Ele foi inteligente quando percebeu que podia manobrar à vontade nesta terrinha de mansos.
    maloud said...
    Não se estará a esquecer, caro Sniper, que o dr.Álvaro Cunhal tinha um significativo número de apoiantes em 74? O Alentejo na época era vermelho e, julgo, que a cintura industrial de Lisboa também. Como sabe, sou do Norte.
    sniper said...
    Minha cara Mª de Lurdes,

    O problema não são os apoiantes. Hoje não há partido, religião, etc, que não tenha bolsas mais ou menos grandes de apoio pelo país. Dos milhares de problemas que encontro no Dr. Cunhal, um dos mais graves foi e é, a atitude bovina e complacente da "inteligência portuguesa" e dos jornalistas, que nunca se atreveram a fazer As Perguntas que deveriam ser feitas. Fazia gala em não abraçar o eurocomunismo, quando os outros partidos europeus assumiam sem complexos as enormidades e profundos erros e falhas do estalinismo e comunismo da ex-URSS, era um estalinista retinto que nunca condenou as invasões e intromissões da ex-URSS noutros países, e tinha um profundo ódio a todos os portugueses que não professavam a ideologia do Dr. Cunhal. Mª de Lurdes, ainda tenho na memória as declarações e justificações do Dr. Cunhal quando questionado sobre o resultado eleitoral nas primeiras legislativas do PCP, (12,5%), que no mínimo foram um insulto à inteligência dos portugueses. Um par de chapadas era pouco. A Mª de Lurdes viu como este homem tratou os dissidentes do PCP? O Estaline não faria melhor.

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