Nós por cá, todos bem

Pedro Mexia, que além do mais, escreve no suplemento 6ª do DN, sendo um dos novos escríticos que mais aprecio, relata nesse suplemento, hoje, as suas impressões sobre um filme em cartaz: "L´ivresse du Pouvoir" que em vez da tradução literal sobre a Embriaguês do Poder, atinou mais para o lado da Comédia do Poder e com esse título se apresenta nas salas, para mostrar que Claude Chabrol ainda impressiona plateias, com actrizes francesas de charme certo.

Escreve Pedro Mexia, sobre o filme:
" Chabrol investiga os meandros do dinheiro ilícito e lava a roupa suja do capitalismo" (...) e "constrói um retrato atento com uma notável leveza" (...) "com uma juiza atraente que se chama Jeanne Charmant-Killman, um advogado que se chama Parlebas, um vigarista sedutor que se chama Silbaud, um vigarista sinuoso que se chama Delombre".
"Os interrogatórios a políticos e empresários são especialmente divertidos, com toda a gente em discursos deliciosamente evasivos, explicando que luvas e comissões são coisa normal, que o sistema funciona assim mesmo, que a culpa é do sistema, que as pessoas sabiam e não sabiam e talvez soubessem."
E conclui: " Menos cruel que outras autópsias do sistema do mesmo Claude Chabrol, A Comédia do Poder é uma ágil e divertida denúncia do mundo do dinheiro e da política, que nos faz pensar demasiadas vezes na situação portuguesa" .
Chegado aqui, a esta leitura final, dei comigo a colocar vários pontos de admiração e interrogação!
"situação portuguesa"?!
Não pode ser! A situação portuguesa não é uma comédia. É mais um drama que se vai transformando em tragédia, com laivos de farsa!
E os farsantes andam entre nós, escrevem por aí em colunas de jornal ou até em blogs e atinam para a opinião pública.
Além disso, em Portugal não há nenhum Chabrol; a maioria das pessoas nem sabe sequer quem é o sujeito e o António Pedro-Vasconcelos já passou o limite da idade da revolta e acomodou-se com os farsantes. O Fernando Lopes, que ainda chegou a dizer que "Nós por cá tudo bem", também deve achar. O António Reis já nem se lembra do Jaime.

Talvez por isso, se possa ler no blog do Estado Civil, textos como este:

Opiniao e mais umas botas
Há nos media um curioso mecanismo de reprodução e repetição: quem aparece umas vezes nos media é logo convidado para dar a sua "opinião" sobre tudo e mais umas botas. Nos últimos tempos convidaram-me a comentar temas como:- o Teatro Nacional - a homossexualidade- a integração europeia- a colecção Berardo- o Código Da VinciDeclinei, explicando que são temas sobre os quais tenho opiniões banalíssimas de leitor de jornais. A sensação com que fiquei é que as pessoas não se importavam muito que as opiniões fossem banais. As opiniões não são validadas pelo conhecimento dos temas. São validadas pela circunstância de os comentadores serem (supostamente) "conhecidos".À atenção dos nossos mediólogos.

Publicado por josé 14:25:00  

7 Comments:

  1. maloud said...
    Em jeito de conclusão, se me é permitido, há gente que vai opinar em debates e entrevistas, quase com a mesma ligeireza e ignorância com que eu atiro uns "bitaites" nas caixas de comentários.
    zazie said...
    e o César Monteiro bateu as botas...
    sniper said...
    Do seu postal, destaco particularmente o texto do "estado civil" . Muito interessante e revelador do estado português, naquilo que não é comum com os países civilizados e desenvolvidos. Histórias da carochinha sobre dinheiro, vendidos, corruptos, farsantes, etc, também o pão nosso de cada dia em todos os países. Estranho era se essas histórias não existissem em Portugal. Tretas lamechas que não resolvem nada.
    sniper said...
    Perdão, queria escrever " também são o pão.."
    hefastion said...
    Sei que é "politicamente incorrecto", mas deste poste ao discurso de M M Carrilho vai um ínfimo.
    Antonio Almeida Felizes said...
    Nesta sociedade altamente mediatizada e profusamente bombardeada de notícias e não-notícias, no fim quase tudo fica pela rama é o "nevoeiro informacional".

    AF - Regionalização
    .
    e-konoklasta said...
    O Chabrol, ao longo da sua vida, fez alguns bons filmes, poucos deva dizer-se, e lá se lançou nesta história de "dessous de table" a partir de um livro escrito por uma das verdadeiras juízas, a Eva Jolie, que não gostou nada do filme, porque a realidade é bem mais complexa e ela viveu-a do interior e teve mesmo de voltar à sua Noroega natal, para voltar a encontrar-se. E é que a senhora em questão não só não lhe falta imparcialidade, como vai avançar com denúncias relativamente a Chabrol, pela forma como utilizou a sua vida privada, como pela forma aligeirada como o assunto foi tratado. Ainda há gente assim... e os Chabrois que se cuidem.

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