Estágios, precisam-se

Cem mil chamadas de telemóvel , efectuadas e recebidas por Luciano Moggi, ex director geral da Juventus, foram interceptadas e escutadas pelos investigadores do escândalo de futebol que rebentou, com estrondo, em Itália.
Os investigadores, neste caso, são 10 polícias ( carabinieri) de Roma, que colaboram no Inquérito conduzido pelo Ministério Público, por 3 procuradores da procuradoria de Nápoles- Filippo Beatrice, Giuseppe Narducci e Franco Roberti. Outros Inquéritos correm nas procuradorias de Roma e Turim, havendo colaboração e diligências conjuntas. Já há prisões, domiciliárias. Já há demissões e colaborações e as provas indiciárias já se discutem abertamente nos jornais e em blogs, de um modo inaudito por cá, nesta santa terrinha de brandos costumes em que as montanhas costumam parir ratos, por condicionamentos severos dos blocos de partos das investigações.

Segundo o La Repubblica de ontem, 17 de Maio, as gravações efectuadas entre Novembro de 2004 e Junho de 2005,( com uma pequena mas elucidativa transcrição publicada) ainda não foram todas ouvidas nem transcritas e precisam ainda de análise dos magistrados para serem validadas em termos legais e penalmente relevantes.
O jornal, no entanto, adianta já ser seguro que das escutas emerge uma rede extraordinária de ligações e amizades entretecidas neste ano, pelo suspeito principal, Luciano Moggi e que envolvem pessoas de várias actividades- ministros (dois), magistrados ( pelo menos quatro) altos expoentes das forças da ordem, dirigentes desportivos, treinadores, jogadores e intermediários e...jornalistas.
O jornal adianta ainda que nem todas as conversas são relevantes para o Inquérito e muitas foram já postas de lado para esse efeito, nomeadamente as relativas a "questões privadas".
O suspeito foi já interrogado, pelos investigadores, durante seis horas resultando daí, cerca de 250 páginas de transcrições das declarações verbais.

As suspeitas incidem sobre um conluio entre o Milão e a Juventus, no sentido de repartirem benefícios...e até o árbitro Pierluigi Collina já foi ouvido durante seis horas, bem como o treinador do Milão, Carlo Ancelotti.
Hoje, segundo relata o jornal, fizeram-se buscas na sede da Juventus e noutros lugares.
Os desenvolvimentos deste escândalo, afiguram-se interessantes, a vários níveis:
O do modo como a imprensa lida com este assunto e escreve com objectividade e conhecimento de causa dos procedimentos; o do modo como a investigação criminal decorre, sem estrondo especial que não aquele que resulta naturalmente do próprio escândalo em si e o modo como os supeitos reagem aos acontecimentos.
Ainda não se noticiou a intervenção de grupos de grunhos das claques do Milão ou da Juventus a proteger os dirigentes. Estes demitem-se logo, sem esperar pela certificação da inocência presumida e os procedimentos judiciários e policiais não são postos em causa pelos visados, contestando a legitimidade e a constitucionalidade dos mesmos.

Seria interessante, por isso, mandar a Roma ou Milão, urgentemente, representantes de duas ou três classes profissionais para um breve estágio de três meses, se tanto:
-um grupo de magistrados do DCIAP, para ver como se faz e estudar métodos e adaptação à nossa lei processual penal que aliás foi inspirada na deles.
- um grupo de jornalistas do DN, Público e JN, para o La Repubblica ou o COrriere della Sera, para verem como se conseguem redigir notícias objectivas e factualmente correctas, informando o público leitor como rigor, interesse e objectividade.
- um grupo de sociólogos que comentam em jornais sobre tudo e mais alguma coisa. Por mim, escolhia António Barreto...que tem defendido a abolição de todas as escutas telefónicas.

Publicado por josé 14:08:00  

7 Comments:

  1. Arid Monk said...
    Venerável Irmão José:

    Escrevo-lhe a propósito desse "Grupo de Sociólogos" que, na sua opinião, seria interessante mandar a Roma ou Milão (e, concordo consigo, urgentemente).

    Será possível fazer isso com bilhete só de ida?
    maloud said...
    Gostava de saber qual é o Milão a que o post faz referência. Se for o AC dá-me um gozo imenso, se for o Inter o gozo não é tão grande.
    Quanto ao António Barreto, eu desde que o li, na cena dos "colos", a defender que tínhamos direito de conhecer em detalhe a vida privada dos políticos, deixei de o levar a sério.
    Galo said...
    Bom, meus amigos. O Professor Doutor Barreto indigna-se porque me parece que a Justiça tem atingido os seus amigos e ele, claro, como opinion maker lido, procura ajudá-los. Foi vê-lo a atirar-se a um solicitador de execução porque cumpriu a sua missão de executar uma amiga por uma dividasita que ela, coitada, nem sabia que tinha. Vejam lá aquela cabecinha. Pode lá ser ela ter esquecido de pagar o que quer que seja. O mal está no processo de execução que é próprio de um país inculto que persegue pobres criaturas que andam pela estranja e, vá lá, coitadinhas, são esquecidas. Não acreditam. Procurem num dos Público de um domingo destes.
    rb said...
    Não me parece que a justiça italiana seja propriamnente um exemplo a seguir. Mas ...
    Impressionou-me foi ver que o José mandava para estágio os nossos magistrados do DCIAP. Pensava que eram intocáveis.
    cidadão profissional said...
    José, apenas por curiosidade, quem gostaria de ver à frente do "Forza Portugallo" ?
    josé said...
    O D. Sebastião.
    hefastion said...
    Do dia para a noite....

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