A relatividade da expressão

A propósito da liberdade de expressão, cujos arautos vejo alegremente escrever que a querem o mais ampla possível, permito-me aqui recordar um tempo ainda não muito distante (finais de 2003) em que um blog anónimo (anónimo!!!) no qual se escreviam atoardas e se reproduziam enormidades que se desqualificavam a si mesmas, incomodou solenemente os vigilantes da ortodoxia vigente.

Um deles, sempre armado em grande controlador da blogosfera, chegou ao ponto de ir à tv apontar o dedo acusador e ofendido pela violação dos mais elementares direitos de personalidade, exigindo medidas e o fecho imediato do blog. Nessa altura, aparentemente, não estava em causa o direito à liberdade de expressão, mas tão só o direito à indignação o qual em selectividade, como todos sabem, por vezes prefere àquele.

Nessa altura, o direito à liberdade de expressão e até de informação tinha obviamente de admitir restrições. Então, não se estava mesmo a ver essa evidência?!
Não?! Então leia-se:

Abrupto 18.9.2003.
Depois de ter escrito a nota inicial sobre o "mentiroso" nunca mais lá voltei, nem nenhuma curiosidade me move perante o que lá está escrito. Não tinha, no entanto, dúvidas de que uma opinião pública mórbida, retrato do nosso atraso cultural, iria correr para lá a toda a velocidade, babar-se de uma curiosidade infecta, próxima do ressentimento social que é tão poderoso em Portugal, e é motivo profundo de tanta coisa. Nem sequer tem consciência de que, ao fazê-lo, dá sentido ao crime, torna o crime eficaz. E ainda estou por perceber por que razão as autoridades, que têm a obrigação de combater o crime, permanecem olimpicamente indiferentes.

Abrupto 5.2.2006:
O nosso entendimento de liberdade, de expressão e opinião, tem no centro o direito de os outros se exprimirem com toda a liberdade, mesmo que isso nos ofenda. É o direito de os outros dizerem aquilo que mais nos choca, que quem ama a liberdade defende acima de tudo. Não há relativização possível para este critério, o único que está em causa face a desenhos satíricos que são, em última razão, desenhos políticos. A maior das mistificações está em se pensar que estamos perante uma questão religiosa, quando se está perante uma questão política.


Quem escreveu isto, foi o mesmo indivíduo. O mesmíssimo que escreveu isto, em 14.1.2006, a propósito deste blog onde escrevo...
um blogue escrito e habitualmente comentado por “agentes da justiça”, sob capa do anonimato, um retrato preocupante de uma mentalidade justicialista arrogante e prepotente. O blogue está cheio de insinuações sobre tudo e todos, alimentando uma atitude policial de desconfiança, sem respeito algum pelas liberdades. Se os seus principais autores são magistrados, procuradores ou juízes, é razão para ter medo, muito medo, das mãos em que está entregue a justiça em Portugal. Infelizmente, a blogosfera paga também este preço pela sua liberdade.

Cada um tire as conclusões que entender

Publicado por josé 20:10:00  

13 Comments:

  1. zazie said...
    é aproveitar e ir-lhe ao toutiço!

    ":O)))

    estava mesmo a pedi-las
    GuilhermeCarcavelos said...
    O problema de alguns é que se julgam os únicos com direito a publicar opiniões e comentários.
    E depois ficam chateados quando vêem que os outros - aqueles que não se pavoneiam pelos meios de comunicação social - também pensam e são capazes de comentar e opinar sobre os mais variados assuntos.E pior ainda, são até capazes de ter audiência, por mais pequena que seja. Ora, não admira que esta situação seja capaz de provocar reacções desagradáveis a qualquer convencido mediático e mesmo deixá-lo chateado.
    Pois é claro que deve ficar chateado.
    Também eu ficaria se me considerasse dono do mundo e da verdade e, de repente ou aos poucos, fosse vendo desfazer-se tal ilusão.
    É a vida...
    Anónimo said...
    José: É verdade que apanhou PP em contradição. Mas, quem ousa atirar a primeira pedra...
    A contradição em que José apanha Pacheco não é de agora, como José bem saberá! Mas agora há,para José, uma «razão forte»: o ataque que Pacheco fez à Grande Loja! E creio que só isso.
    Eu juraria, José, que o ataque de Pacheco ao muito mentiroso não terá suscitado, vindo de si, alqum comentário! Juraria mais: se comentário tivesse havido, teria sido de aplauso.
    Por quanto precede, o seu post é «intelectualmente» desonesto.
    zazie said...
    o Anónimo jura muito de má-fé. Pois olhe que há quem se lembre de o José ter dito isto mal a coisa aconteceu.
    zazie said...
    desonesto é você e nem precisa de passar por intelectual.

    É desconfiado e faz comentários à má fila.
    zazie said...
    se há coisa que já não suporto é esta poltranice da primeira pedra. Parece que só sabem ver-se ao espelho
    Anónimo said...
    Espero que o josé, quando aplica a lei lá no Tribunal, faça julgamentos mais acertados. É que neste aqui, não bate a bota com a perdigota.
    (E agora vou para o abrigo à espera dos insultos da distinta zazie)
    dl
    josé said...
    Caro anónimo que lança a perdigota:

    Em Setembro de 2003, não me lembro de ter escrito por cá...por um simples motivo: ainda nem conhecia o lugar, parece-me.

    Contudo, se procurar nos arquivos de outros blogs, nos comentários por exemplo do blog de Esquerda.
    Por lá, em Setembro de 2003 escrevia-se assim :
    "MUITO MENTIROSO. É verdade que vários leitores chamaram a atenção para o assunto, pedindo a nossa opinião, mas nós decidimos nem sequer mencionar aquele blogue anónimo que lançava todo o tipo de suspeições sobre o andamento do processo Casa Pia. Por uma razão simples: a calúnia é a mais pérfida das armas e não pode (não deve) alimentar-se da nossa ingenuidade ou boa fé. Qualquer menção ao fenómeno, sabíamos bem, iria apenas alimentar o fenómeno. E por isso fizemos silêncio. Porque são coisas destas que podem destruir a ainda frágil credibilidade da blogosfera. Hoje, o supracitado blogue "vigilante" (sem direito a link, como é óbvio) fechou as portas. Não ficamos contentes nem tristes. Aliviados será a palavra correcta. O ar está mais limpo. Respira-se melhor, outra vez."

    COmo vê, hoje em dia, os mesmos defendem uma ampla liberdade de expressão, tal como Pacheco Pereira, aliás.

    É pena não se conservarem esses comentários nesse blog, mas julgo que escrevi lá a defender a existência do blog com os mesmos argumentos que uso hoje. Escrevi lá e noutros sítios como a Zazie se lembra.
    Ao contrário de outros...

    Leve então com esta bota, sendo certo que se continuar a pôr-se a jeito, continuará a levar mais botadas.
    Bem dispostas, se assim entender...porque isto de acusar sem fundamentos, não costumo fazer, ao contrário de si, caro anónimo.
    Anónimo said...
    Anónimo josé,

    Percebo que as criticas que lhe foram tecidas no Abrupto o incomodem. (Se não incomodassem não passava a vida a fazer-lhes referência a propósito de tudo e, principalmente, a propósito de nada)
    Incomodam-nos aquelas criticas porque também sabe que estão certas.
    O anónimo josé,conhece as regras do jogo e conhece a valoração ética que lhes subjaz.
    Quando é acusado de as utilizar de forma eticamente inaceitável isso incomoda-o. Não tente confundir-nos misturando a questão do seu anonimato com a liberdade de expressão.
    Não me surpreende que defenda o muito mentiroso.

    E mande-me as botas que quiser.
    Je m'en fous.
    josé said...
    Aceitarei a justeza das críticas se conseguir especificar-mas...

    COmo não vejo isso, antes pelo contrário, je m´en fous aussi.
    Anónimo said...
    Sabe bem onde está a justeza. Ou não fosse um profundo conhecedor da justiça e das leis.
    josé said...
    A justeza quanto a mim, advirá da coerência de princípios e valores.

    Se alguma vez aqui ofendi os que defendo, agradeço que mo indique, concretamente.

    Lançar acusações baseadas em processos de intenção -é o que faz...- não vale.

    Adiantando, e pelo que leio considero que não será inútil a discussão consigo, sempre direi que nada tenho de pessoal contra o indivíduo JPP. Já o escrevi mais que uma vez e repito-o.

    Se JPP fosse outro anónimo da blogosfera, sem importância de maior, je m´en fouterais, mais...o facto é que se trata de alguém com poder de influência que a mim me parece despropositado e desproporcionado e sem dúvida imerecido, pela qualidade dos escritos.Ainda hoje, o artigo no Público merece reparos de maior.

    Parece um artigo razoável, mas esquece um pormenor importante: os limites da liberdade de expressão não são apenas os da honra e consideração.
    Há o limite bem preciso do artigo do código penal que criminaliza ( criminaliza! Bem ou mal, criminaliza)a ofensa a religiões e crenças. JPP não sabe ou parece não querer saber isso. mas escreve o artigo com todo o impante da empáfia. E recebe por isso- e parece que não é pouco. Se calhar mais do que eu ou V. ganhamos.

    Deixemo-nos por isso de paninhos quentes e punhamos os pontos nos ii sempre que entendermos que merecem ser postos, mesmo com o risco de errarmos.
    Aqui ao menos reconhecemos os erros. NUnca vi o autor do Abrupto fazê-o...tal como o outro blogger com quem embirro- Vital Moreira.
    JF said...
    Caro José,

    Se está ou não, no código penal que são crime as ofensas às religiões, isso é completamente irrelevante para o debate. Outros códigos penais, doutros países, podem da mesma forma criminalizar quem fôr comunista, por exemplo. Isso legitíma - à luz dos valores da democracia e liberdade - que se possam perseguir militantes desse partido?

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