"O envelope 9"

À pala" do "envelope 9" - aquela espécie de lista telefónica elaborada à volta do processo "Casa Pia" da qual constava, entre outros, o número da cabeleireira da Sra. de Souto Moura e o telefone fixo do dr. Sampaio -, agentes da PJ, "comandados" por um juíz de instrução criminal e por magistrados do MP, irromperam pela instalações do tablóide 24 Horas, mandaram parar os computadores, fizeram cópias de discos rígidos e, fatalmente, constituiram arguidos alguns jornalistas. Foi por causa deste "envelope 9" que o dr. Sampaio falou ao país, indignado, há cerca de um mês, prometendo levar a coisa até às últimas "consequências". Foi igualmente por causa do "envelope 9" que o sr. PGR estimou "inquirir" tudo rapidamente e, por o não ter feito, apareceu a "dar explicações" no Parlamento em que o titubeante contraditório político permitiu que "brilhasse". É, pois, aparentemente no âmbito do tal processo de investigação "rápida" que esta investida contra o 24 Horas se insere. Eu detesto o 24 Horas, naturalmente. Todavia não posso deixar de relevar como "extraordinária" a "reacção" dos órgãos de investigação criminal, "apenas" quase um mês depois dos factos consumados. Se o tablóide publicou aquilo, alguém lho fez chegar. Nunca mais me hei-de esquecer de uma tarde, há uns anos, em que encontrei numa esplanada um então famoso jornalista especializado em "detectar" processos judiciais em "segredo de justiça" a ler tranquilamente uma cópia de uns autos quaisquer. Se eu quisesse, também a tinha lido. Tudo o que "rodeia" o caso Casa Pia normalmente fede. O "envelope 9" é apenas mais uma peripécia e é bem provável que as "buscas" incluam ainda os escritórios de alguns advogados de defesa. De acordo com as autoridades criminais, houve "acesso indevido a dados pessoais". Pois houve. Resta saber a quem é que esses "dados pessoais" estavam confiados e quem é que promoveu o tal "acesso indevido". Os jornais, tablóides ou não, precisam de sangue, suor e lágrimas como de pão para a boca. A questão é achar o dador. Será que é isso que procuram? A sério?

Publicado por João Gonçalves 18:20:00  

11 Comments:

  1. Zulu said...
    Se procurassemo «dador»,
    tinham começado pelo juíz justiceiro do pº Casa Pia.
    Devia ter sido o primeiro a ser averiguado.
    E no mínimo, tê-lo transferido para Bragança.
    Anónimo said...
    Então o José não comenta?
    esgoto said...
    mas está tudo doido? que eu me lembre só em tempo de ditaduras se fizeram buscas a redacções de jornais e apreendeu documentação...ou estou a ver mal a coisa?
    Anónimo said...
    O que mais me deixa preocupado nesta história é que a maior empresa do país, ainda que brevemente a ser desmantelada, em vez de gravar os ficheiros num simples CD, tenha usado 5 disquetes...

    É para estas coisas que o engenheiro técnico José de Sousa nos vai ser muito útil com o seu milagroso choque tecnológico...
    a.leitão said...
    Tudo muito contraditório.
    Toda a gente reclama o facto de o segredo de justiça estar a ser sistemáticamente violado e agora que alguém põe os pés a caminho para tentar decifrar a situação todo o mundo reclama contra o facto.

    È melhor voltarem aos livros antigos da Primária e lerem a estória do Velho do Burro e do Rapaz!
    Anónimo said...
    que eu saiba, os jornalistas não estão acima da lei, não existe nenhuma imunidade criminal dos jornalistas. Se houverem indícios da prática de crime, deverão ser investigados como outra pessoa qualquer. se há buscas e apreensões em bancos, por exemplo, porque não hão-de haver em redacções de jornais? era o que mais faltava.

    Além disso, estamos a falar de uma busca judicialmente autorizada, no âmbito de um processo criminal, e não de um acto pidesco.
    Anónimo said...
    quem é que violou o segredo de justiça relativamente à busca realizada ontem?
    Anónimo said...
    Ouvi ontem (se calhar foi pesadelo)o Director do 24H dizer que a redacção do jornal era um local "sagrado" (vão começar os ataques às nossas embaixadas...)onde ninguém pode entrar... nem com ordem judicial. Claro que sim. O ideal para quem comete reiteradamente crimes é dispor de imunidade. Esta gente "rouba" e grita "agarra que é ladrão" quando é topada.
    Anónimo said...
    Um anterior Anonymous antecipou-se e explanou precisamente o que me passava pelos dedos. A comunicação social incita a pensar que a justiça é instantânea, e que um inquérito se faz de um dia para o outro. Se soubessem verdadeiramente tudo o que implica um inquérito, não falariam de alto e irresponsavelmente, apenas por o Sr. Costa ter falado sobre o assunto no dia anterior aos eventos. Agora quero ver se a coragem dos jornalistas do pasquim se vai manter por muito tempo. A julgar pela capa da edição de hoje, estão todos com vontade de ir conhecer a Zona Prisional da P.J. por dentro.
    Já não era sem tempo de alguns "lugares sagrados" serem "profanados", porque NINGUÉM se deve julgar acima da lei. Especialmente alguém com o dever de informar a população em geral.
    Com todas as buscas e apreensões feitas dentro da mais estrita legalidade, foi interessante ver o Sindicato dos Jornalistas mostrar tanta preocupação. É que não vejo o Sindicato preocupado com as constantes violações de segredo de justiça, nem a punir jornalistas ou sanear redacções...
    rb said...
    Pois parece que o auto-inquérito da PGR ao caso das escutas telefónicas, que tanto indignou o Sampaio, que exigiu esclarecimentos urgentes ao país, vai consistir na pereseguição serôdia ao jornalista que teve acesso aos ficheiros em causa. Passado um mês vêm eles fazer uma busca a um jornal. Isto de facto está tudo tolo! Reforço a ideia do anonimo das 7:49 PM, Fevereiro 15, 2006, pedindo ardentemente um comentário, ou post se possível sobre mais este lamentável episódio da nossa PGR. E andamos nás preocupados com os desenhos do Maomet.
    Anónimo said...
    Há uma questão que parece estar confusa para algumas pessoas: não estamos perante um crime de violação de segredo de justiça, muito simplesmente porque o processo já não está em segredo de justiça.

    Na minha opinião as questões a apurar são: quem pediu aquelas informações (parece mais ou menos claro que foi o MP); que tipo de informações eram (parece mais ou menos claro que eram as chamadas efectuadas pelo arguido PP); quem remeteu as informações ao processo (parece mais ou menos claro que foi a PT através de um seu funcionário);
    que informações vieram (parece claro que além das chamadas efectuadas pelo arguido PP, vieram as chamadas de outras figuras do Estado, incluindo o próprio PGR); alguém, antes do 24 horas, deu conta disso? se deu, porque tais informações não foram eliminadas? quem passou as informações ao 24 horas? o 24 horas podia ter publicado aquelas informações? se não podia, quais são as consequências legais?

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