Antes as SCUTS II

Sempre disse de Manuela Ferreira Leite que não concordava em nada com ela mas que a considerava uma profissional competente (isto é, sabia bem a asneira que estava a fazer) e uma pessoa séria.

Essa imagem fica fortemente abalada com as declarações alegadamente prestadas há pouco à TSF, por estas singelas razões:

1) A história de "não se arrepender de qualquer acção feita durante o tempo em que foi ministra das Finanças para respeitar os limites do Pacto de Estabilidade e Crescimento" (cito a TSF, não a própria) é intelectualmente pobre.
Primeiro porque lembra aquela do "Nunca me engano e raramente tenho dúvidas".
Segundo, porque não se sabendo ainda o resultado de muitas das operações em causa, nomeadamente a titularização de dívidas fiscais e à segurança social, é prematuro dizer seja o que for.

2) A desconversa a propósito da natureza da transferência operada dos CTT para a CGA não tem razão de ser e não lhe fica bem. A ser como diz aquela empresa teria dito alguma coisa quando ouvida, e não disse (p. 89 dos Anexos). Ou a CGA. E também não disse (p. 85 e ss. dos Anexos).

3) O envolvimento do nome de Sousa Franco (e estou à vontade porque lhe tinha - tenho - o maior dos respeitos e carinho, mas critiquei a operação há muito tempo) e de uma operação em escala bem menor feita há quase 10 anos, é chicana política da pior espécie.

Nota adicional ali para os comentários ao post anterior:

a) Se citar relatórios do Tribunal de Contas publicados na Internet e já hoje de manhã citados em metade da imprensa é promover "fugas de informação" vou ali já venho.

b) Criticas ao actual Governo não têm faltado por aqui. Contra a Ota, com reservas ao TGV.

c) A diferença entre as SCUTS, o TGV ou whatever é que estamos a pagar, é certo, mas em troca de um activo. Nos casos dos fundos de pensões e da titularização de dívida pública estamos a pagar (ou a não receber) a troco de nada. Capisce?

Em adenda, as minhas desculpas ao V. André por andar aqui a estragar uma paisagem tão bem escolhida.

Publicado por irreflexoes 12:04:00  

5 Comments:

  1. Assur said...
    Com o devido respeito, intelectualmente pobre é ignorar o resto da explicação de Ferreira Leite: "Portugal estava ameaçado de perder o acesso aos fundos estruturais e portanto o prejuízo que vinha para o país de perder o acesso aos fundos estruturais é incomensuravelmente superior ao que ocorreria de qualquer outro tipo de operação"

    Mais afirma Manuela Ferreira Leite afirmou "que a operação relacionada com os CTT não foi uma transferência de um fundo de pensões.

    "Se nesses cálculos estão metidos no mesmo saco os CTT, a Caixa Geral de Depósitos e todos os outros que foram feitos então há um erro técnico lastimável".

    O que, convínhamos, dá outro sentido ao título " Ferreira Leite afirma que não se arrepende das medidas tomadas enquanto ministra".
    Arid Monk said...
    MUITO BEM, Sra Ex-Ministra das Finanças:

    (retirado do Blasfémias)

    Contabilidades Criativas ou Milhões que Nada Valem
    Que grande confusão para aí anda. Alvitra-se por aí que o estado fez um negócio desditoso ao receber os fundos de pensões de empresas públicas porque eles não valem o valor escrevinhado nos livros das contas públicas. Hoje, é tema do dia.

    Mais uma vez, o que está em causa é apenas uma questão de bolsos e tirar do direito para meter no esquerdo não deve ser origem para grandes lamúrias.

    Facto: O Fundo de Pensões da Caixa Geral de Depósitos passou para a Caixa Geral de Aposentações.
    Efeito Prático para o valor dos activos do estado: Zero.

    Quem ganhou o que a CGA perdeu foi a CGD e ambas são 100% públicas.

    Se esta manigância não tivesse sido feita, a CGD, no futuro, teria que aplicar uma significativa fatia dos seus resultados operacionais para fazer face às insuficiências do seu fundo de pensões. Poderia fazê-lo de várias maneiras. Socorrendo-se do seu único accionista, por exemplo. Diminuir os capitais que distribui ao mesmo accionista (quer via dividendos quer via impostos, porque para a CGD a única diferença entre impostos e dividendos é, mais uma vez, o bolso em que o estado os guarda). Ou, simplesmente, diminuindo os seus outros activos no valor da carência, o que é o mesmo que dizer que o estado passaria a ser dono de uma empresa com menor valor.

    Admita-se, por exemplo, que a CGA registou por 3 um activo cujas obrigações futuras valem 5. A CGA/Estado tem uma perda de 2. Uma empresa pertencente ao estado aumenta o seu valor em 2. 2-2=0.

    Mesmo que o Estado queira vender a CGD, o impacto da operação é nulo para o estado. No momento em que a CGD se libertou dum fundo de pensões insuficientemente provido, o seu valor dilatou na exacta medida do valor negativo do próprio fundo. A empresa, agora, vale mais e o estado ganharia esse superior valor no preço de alienação.

    Abstraindo-nos de eventuais flutuações concernentes a custos de capitais, é irrelevante para o país saber qual é a algibeira de onde sai o dinheiro duma obrigação assumida pelo estado ou por alguém em nome do estado. Se essa algibeira estiver vazia, é sempre necessário procurar noutro bolso.

    Que os jornalistas não especializados em economia não compreendam este tipo de balanços, não é estranhar. Que o Tribunal de Contas entre nestes jogos, limitando-se a chamar a atenção para a parte da parcela negativa, é sinal de preocupação, mas também não é de estranhar. Ainda hoje estou convencido que já houve quem fosse promovido a ministro justamente por "vender" aos jornais muitas historietas fabricadas com lógicas deste género.

    Mas, atenção, que quando se mete ao barulho o BCP, a história já é outra.

    jcd
    JLL said...
    Comentários aos comentários:

    a) A expressão 'fugas de informaçã' estava entre aspas, tentando ressalvar apenas a forma cuidada como as informações chegam ao público. Ou seja, tal como as fugas de informação (verdadeiras) não há inocência na sua divulgação;

    b) Pelo menos da minha parte não houve nenhum intenção de critica ao governo (este ou anteriores). Sobre este tema parece-me que todos trabalham com base na mesma sebenta;

    c) E finalmente, para responder à sua dúvida, na TSF creio que foi explicado que a principal contrapartida foi a de ganhar TEMPO. O facto de não se ter rentabilizado esse tempo adicional, efectuando reformas de despesas pública, é que deverá ser confrontado. Para além disso a contrapartida mais imediata foi a dos activos que transitaram para o estado, bem como os rendimentos futuros que deles advêm.

    Mas para terminar, e sem querer repetir o comentário anterior, reforço a ideia de que se trata duma questão de bolsos. O que, a mim, chateia é o facto disto ser notícia, quando de facto não é.

    A nós, ao público e ao povo tocam-nos como qualquer guitarra velha... um acorde aqui e aplausos, outro acorde acolá e indignação. Isso sim, é que chato, mesmo muito chato.
    Jose Borges said...
    Não percebo este alarido todo.
    No final é tudo do Estado, apenas se muda de um bolso para o outro.
    A CGD, tal como os CTT, ANA, etc são 100% detidos pelo Estado.
    Assi, se a CGA perdeu, a CGD ganhou exactamente na mesma medida - seja em lucros/dividendos futuros; seja, mesmo na hipótese de uma futura venda, no valor da empresa.
    Nada se criou nem nada se perdeu para o Estado.
    Não percebo como é que se faz tanto alarido com estas operações de cosmética ,de efeito zero para o País. O próprio TC deveria também investigar os negócios runiosos do Estado para benefício de privados.
    Tonibler said...
    resposta em http:\\tonibler.blogspot.com que já não tenho paciência para andar a dizer as mesmas coisas. Mas alguém já leu o relatório??? Com aqueles pressupostos, até eu deixo de trabalhar porque sou um custo para mim próprio....

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