o debate, ou a estratégia da anestesia...

Foi ontem 'o' debate, a 'Mãe de todos os debates', como Medeiros Ferreira o apelidou. Leituras há-as para todos os gostos, desde as dos hooligans soaristas (que ululam e esperneiam aqui) que, de tão cegos e primários, só atrapalham a estratégia de Soares, até à de outros, incontestavelmente de esquerda, absolutamente resignados que (já) não veêm senão um quadro negro, absolutamente preto, sem ' aberturas', à sua frente. Do lado oposto a análise varia entre a euforia (Cavaco ganhou aos debates, terreno que lhe seria penoso e hostil) e o pragmatismo (mesmo não estando excepcionalmente bem, não terá perdido votos e isso é o que interessa). Acrescente-se a 'forma' e o tom agreste e 'desafiador' de Soares e temos Cavaco 'eleito', por exclusão de partes. Acontece que as coisas não são assim tão simples. Ontem, Cavaco e Soares 'ganharam' na exacta medida em que ambos obtiveram exactamente aquilo que pretendiam, só que, por muito que custe, no computo geral dos debates, Soares, que não começou particularmente bem, 'ganhou' muito mais que todos os outros. Para começar, deste ontem ficou claro, e inequívoco, que 'o' candidato da 'esquerda', o único que Cavaco, e a julgar pelas audiências o país, levou a sério se chama Mário Soares, ponto. Este facto por si não vale muito e, noutras circunstâncias, seria apenas um mero rallyzito para ver quem é quem à esquerda, mas, e nestas coisas há sempre uma mas, a estratégia minimalista a ser seguida por Cavaco 'pode' ter dado um contributo inestimável a uma 'animação' inesperada na recta final desta campanha presidencial. É provavelmente verdade que Cavaco não terá perdido muitos votos, se é que perdeu algum, para os adversários por via dos debates, mas já não é de todo líquido, pelo menos para mim, que não tenha perdido votos e 'tração', por via do discurso adoptado, o 'tom' e a substância, para a abstenção. Voltando ao debate de ontem, Soares não quis, nem tentou sequer, parecer civilizado ou sequer presidenciável, iso fica para depois, se houver um 'depois'... Soares só quis sair de lá como o 'candidato' das esquerdas, e em boa medida conseguiu-o, e 'mo(rd)er' Cavaco, relativizando-o e 'etiquetando-o'. Soares investiu fortemente numa dúvida, aparentemente insignificante, a de discutir a 'amplitude', e eficácia, das acções de Cavaco, ora presidente, tentando passar a ideia de que este jamais poderia corresponder às espectativas de uma boa parte daqueles que ponderam votar nele. Mais do que motivos para votar em sí, Soares 'entrevistador' tentou encontrar motivos para desmobilizar os eleitores de Cavaco. É só isso que lhe interessa. Soares sabe agora que será o primeiro dos 'segundos', e também sabe que as diferentes espectativas de muitos dos eleitores de Cavaco são mutuamente exclusivas entre si pelo que 'agora' a única coisa que verdadeiramente lhe interessa (e as eleições são daqui a um mês) é destruir a ideia de que Cavaco na Presidência pode de facto fazer toda uma diferença. Se o conseguir, reduzindo a questão presidencial a mero combate ideológico esquerda/direita, ou se quisermos a uma questão clubistica e de personalidades, então é provável que uma boa parte dos que ponderam votar Cavaco pensem duas vezes resignados e desiludidos por verem afinal Cavaco 'reduzido' à pele do tal político profissional que diz não ser, e que em bom rigor não sabe ser, enquanto mero representante mais ou menos ' institucional' da ' direita'... E é só isso que Soares quer, uma segunda volta.

Publicado por Manuel 13:41:00  

3 Comments:

  1. pisca-pisca said...
    São evidentes as vantagens para Portugal do candidato Mário Soares sobre o candidato Cavaco Silva, apoiado pelo PSD e CDS. Senão vejamos:

    a) Muito maior experiência de Mario Soares, em especial na cena internacional. Se for preciso abrir uma porta em qualquer lado em favor de Portugal, o peso de Soares é muito maior do que o de Cavaco Silva. Mesmo na direita europeia, pesa mais Soares do que Cavaco.

    b) Soares tem experiência interna em matéria de crises e de como as ultrapassar. Foi em dois govermos presididos por ele, em 1977/78 e em 1983/85, que o FMI ajudou Portugal a ultrapassar duas graves crises financeiras do país. Cavaco, ao contrário, foi o perdulário nos anos dos seus governos que conduziu o país para o buraco em que estamos. Soares equilibrou as finanças públicas (com a ajuda de Vítor Constâncio, primeiro, e Hernani Lopes, depois), Cavaco desequilibrou-as, por não conseguir conter o apetite dos seus companheiros de partido. Os défices reais (sem receitas extraordinárias) dos anos da governação de Cavaco Silva são pavorosos e alguns foram superiores aos de hoje, herdados da péssima governação de Durão Barroso e de Santana Lopes.

    c) Muitos apoiantes de Cavaco Silva julgam que se ele for eleito poderá encetar reformas do nosso sistema político e administrativo. Nada mais ilusório, pois quem tem poderes para tal, nos termos Constitucionais, é a Assembleia da República e o Governo e partido(s) que o apoia.

    d) O actual governo está a levar a cabo um conjunto de reformas de fundo importantes. Se Cavaco Silva for eleito, por pressão de lobies ligados aos partidos que o apoiam, poderá tender a ceder a essas pressões, acabando por boicotar a acção do governo e da maioria da Assemblea da República. Cavaco Silva, em vez de ser a solução, seria parte do problema. E não se diga que Cavaco Silva não é pessoa para se deixar pressionar porque o seu passado deixa antever isso mesmo. Não se deixará pressionar pela oposição nem por comentaristas agressivos, mas é-o pelos seus apaniguados mais espertos, como demonstra o lixo todo de corrupção que se desenvolveu ao longo dos seus mandatos como primeiro ministro, precisamente envolvendo altas figuras do seu partido. Alguém se esquece do que foi o Fundo Social Europeu, entregue a figuras gradas do PSD estrategicamente colocadas em certas empresas e organismos do Estado? Fez na altura Cavaco Silva alguma coisa para evitar essa corrupção? Soares sim, deu provas de combater a corrupção, tendo criado um Alto Comissariado contra a corrupção quando foi primeiro ministro pela primeira vez, chefiado por Costa Brás, o qual teve uma acção importante no combate à corrupção.

    e) Cavaco Silva é um candidato que divide os portugueses, ao contrário do que querem fazer crer alguns dos seus apoiantes. Cavaco nunca terá boa imagem dentro do mundo do trabalho. Carvalho da Silva e Proença, os dois líderes mais representaivos das duas confederações sindicais estiveram presentes na apresentação da candidatura de Soares. Isto diz muito da simpatia que Soares goza no mundo do trabalho. E Cavaco Silva? Ora, estando o governo a proceder a reformas profundas, algumas manifestamente impopulares para certos sectores da população, na presidência da república quere-se alguém que tenha uma base social de apoio forte no mundo do trabalho. Neste contexto, é evidente que Soares e Sócrates congregam em ambos essa maior base social de apoio, o que tornará muito mais fácil fazer as reformas de que o país precisa. Por estas razões principais, as classes médias e uma certa tecnocracia do país, se forem inteligentes, votam em Mário Soares. Não que Cavaco Silva não seja de per si um homem inteligente e íntegro, mas está rodeado de sanguessugas corporativas que se degladiam entre elas para ver quem apanha o melhor bocado. Soares pode ter atrás de si poetas, pintores, artistas, escritores, gente de letras e de ciência que mal conhece a tabuada das finanças e da economia. Embora também tenha com ele ilustres economistas e gestores. Cavaco Silva tem à sua volta duas classes de gente: os revanchistas de antigamente e as sanguessugas insaciáveis. Na sua corte, pouco sobra para gente de bem. O resto, ou são eleitores indiferenciados ou gente que sonha com outro país que nunca existiu nem jamais existirá. Soares é o realismo político. Já deu provas disso como presidente da república e como combatente contra o descalabro das finanças públicas. Cavaco é um mito, que falhou mais rotundamente exactamente onde alguns julgam que ele é mais fiável - nas finanças públicas. E não sou eu que o digo, foi o ex-ministro de Cavaco Silva, Miguel Cadilhe.

    f) Finalmente, o posicionamento de Soares e Cavaco perante o combate ao terrorismo e o mundo islâmico. Cavaco Silva apadrinhou Durão Barroso – era o seu delfim - , que por sua vez apadrinhou Georg Bush e Blair na desastrada invasão e ocupação do Iraque. Em questões de guerra, um líder não se pode enganar de inimigo nem de estratégia. Soares não se enganou, bem antes da invasão do Iraque já ele dizia que seria um erro trágico, não só para os Estados Unidos, como para todo o ocidente. Cavaco ficou calado, que o mesmo é dizer que concordou com Durão Barroso e com a opção política e militar de Bush e de Blair. O tempo deu completa razão a Soares e descredibilizou por completo Barroso e Cavaco Silva. Erros deste calibre podem sair muito caros a Portugal, como foram os atentados em Madrid e Londres e muitos outros evitados in extremis em vários países europeus.

    A idade avançada de Soares e a sua larga experiência internacional não são um problema. Ao contrário, são uma componente preciosa da chave da solução. Que os portugueses não devem desperdiçar.
    Cavalo Marinho said...
    A atitude de Soares, tentando diminuir politicamente Cavaco (como PM e como académico), não é de quem já foi PR durante 10 anos.
    Não revelou "fair-play" nem postura de homem de Estado.
    Estava-se sempre a queixar de que Cavaco não tinha ideias e foi ele o primeiro, durante pelo menos uma hora, a não deixar que ele alinhavasse meia dúzia de palavras, com apartes e interferências, algumas delas muito deselegantes (chamo-lhe deselegantes para ser simpático).
    Ou muito me engano, ou a postura de Soares irá ter efeito "boomerang".
    O povo não dorme!
    JLL said...
    Burgesso, brigão, mal educado...

    Parecia que estava numa discussão de café.

    É isto o "grande salvador da esquerda"?

    Tomem isto em consideração, se a conversa de Soares fosse convosco aturam a má educação?

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