"Moderador e árbitro"?

Ontem à noite caiu a máscara do "moderador e árbitro". Soares portou-se como um candidato radical, incontinente e, em muitos momentos, malcriado e raramente, ou quase nunca, como um ex-chefe de Estado e aspirante credível ao cargo. Apesar da "pose" arrogante e do olhar de permanente comiseração intelectual perante "o camponês de Boliqueime", Soares deu ao país um triste espectáculo acerca daquilo que verdadeiramente o move. Estava tão embrenhado nessa acrobacia puramente agressiva que, no minuto final, onde podia "brilhar", se perdeu ao ponto de acabar ao nível de um cartão de Boas Festas com duas pernas e dois braços. Devemos - todos devemos - a Mário Soares o combate pela liberdade, antes e depois do 25 de Abril. A sua eleição em 1986, deveu-se essencialmente a essa memória e à noção de que era, naquela altura, o homem da "moderação" e do equilíbrio numa sociedade ainda não completamente "bem resolvida" em matéria de densidade democrática e a iniciar a sua caminhada europeia. Soares fez, como também nos lembramos, dois mandatos perfeitamente distintos. No primeiro, tratou de "segurar" a reeleição e, para o efeito, de "segurar" os governos de Cavaco. No segundo, reconhecendo a impotência do seu partido para fazer frente exclusiva ao então primeiro-ministro maioritário, "conspirou" metodicamente em Belém para o remover. Até nisso não foi bem sucedido, já que Cavaco se removeu por si mesmo. No cômputo, Soares foi um bom presidente e honrou e magistratura, uma vez que as peripécias de pequena e baixa política que urdiu a partir de Belém, não contam na avaliação do "homem médio". Esta última aventura teria sido perfeitamente desnecessária não fosse a imensa vaidade do homem e a posição timorata do PS em relação às presidenciais onde teve, à vontade, uma boa meia dúzia de escolhas. Soares imaginou, a partir do Vau, que uma "onda" o esperava e que o país, comovido, ansiava pelo seu majestático regresso. Nem uma coisa nem a outra se verificaram. O eleitorado dito "moderado", que o salvou há 20 anos, ficou perfeitamente esclarecido com o debate contra Cavaco. Se já andava desconfiado, ontem fugiu-lhe de vez. Penso não andar longe da verdade ao dizer que Mário Soares entregou ontem à noite a vitória, de mão beijada e numa única "volta", a Cavaco Silva. Ninguém de boa-fé e no seu prefeito juízo reconheceu no Soares de ontem uma mísera sombra do "moderador e árbitro" que ele se imagina. Por mera caridade cristã, alguém amigo dele faça o favor de lho explicar.

Publicado por João Gonçalves 12:23:00  

4 Comments:

  1. Cavalo Marinho said...
    Não posso estar mais de acordo consigo!
    Já ontem à noite, no fim do debate, o escrevi.
    pedroromano said...
    Grande post. Subscrevo.
    JLL said...
    “Não vou responder às últimas polémicas, porque por princípio não respondo a cobardes”, começou por dizer Pinto da Costa, citado pela TSF, antes de definir o seu conceito de cobarde: “Considero por cobarde todo aquele que lança suspeitas, diz coisas e depois diz que não diz. Com cobardes não lido, não quero, nem sei lidar. Portanto, essa polémica não fica para mim.”

    http://www.correiomanha.pt/noticia.asp?id=185399&idselect=12&idCanal=12&p=94
    naoseiquenome usar said...
    Mais uma subscrição!:)
    O homem conseguiu irritar-me com a sobranceria das suas (in)capacidades. Digo mais: raiou a má educação.
    Correndo até o risco de em Janeiro virmos a ter dois Primeiros-Ministros - que assim seja! Logo se há-de arranjar uma estratégia de adequação.

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